Filipinas e o capítulo em que nada muito interessante acontece

Olá, corajosos e corajosas.


Espero que tenham todos sobrevividos a mais uma semana nesse mar tempestuoso chamado vida que enfrentamos em uma canoa frágil e prestes a afundar. Espero que os tubarões da realidade não tenham abocanhado nenhum de vocês. Caso isso tenha acontecido, tenho esperança que você encontre conforto nos braços de uma pessoa amada e/ou em um copo de bebida. Mas, se nada disso funcionou, aí sim eu recomendo você ler esse blog para tentar se distrair. Mas tenha certeza que não tem nada de melhor para fazer antes. 

Andando pelas Filipinas dá para encontrar uns fortes perdidos

Esse relato continua exatamente de onde o anterior parou, no momento que, ainda na ilha de Cebu, nos despedíamos (junto com nossos companheiros Ed e Enzo) de Moalboal para ir em direção a Bohol. Que é… isso mesmo, outra ilha. Filipinas parece um pedaço de terra que foi estilhaçado a pisadas por um ser gigantesco. Nada é conectado, tudo é cortado por distâncias pequenas, porém irritantes, de água salgada. Dava saudades de um país continental como o Brasil. 

Chegar em Bohol, como chegar em qualquer lugar nas Filipinas, foi uma tarefa cansativa. Pegamos um ônibus apertado até Oslob (cerca de duas horas de viagem), embarcamos em uma balsa em um mar agitado e enfrentamos mais duas horas de pessoas passando mal ao nosso lado. Quase fui vítima de uma senhora asiática que invocou suas tripas ali mesmo. E aí teve mais um tuktuk, claro, quando finalmente mudamos de ilha. Entre tempo de transporte e tempo de espera foi-se um dia inteiro nessa jornada maluca. Um exercício cansativo e que nos deixou, com o perdão da palavra, com o saco na lua.

Chocolate Hills em Bohol

Apesar de termos ficado quatro noites em Bohol, quase não fizemos nada por lá, e nem acho que tem tanto assim o que fazer (o que provavelmente é uma afirmação errônea de quem não aproveitou muito bem o lugar, se for para lá pesquise melhor invés de confiar em mim). Ficamos perto de Alona Beach, região que parece prestes a virar um paraíso de resorts, principalmente para turistas coreanos. Não sei a razão disso, pois não achei as atrações tão espetaculares quanto as encontradas em outras ilhas. Claro, são lugares bonitos, não estou dizendo que são feios como a praia da Enseada pós festa de réveillon, mas como estávamos vindo de verdadeiros paraísos o “bonito” ficou um pouco sem graça. 

Para ser justo, nosso cansaço mental, já mencionado no post anterior, nos acompanhou até Bohol, e aliado ao seu melhor amigo, o cansaço físico, nos transformou em uma pilha de trapos humanos. Estávamos em estado de ressaca perpétua. Era tanta preguiça que sair do quarto do hotel era tão cansativo quanto uma maratona. Sim, eu sei, é muita frescura para quem estava viajando o mundo, mas acontece, fazer o que. 

Claro, não foram dias completamente inúteis. Saímos da cama (com esforço), conhecemos, comemos, respiramos, comemos e também comemos mais um pouco. 

Dentre essas atividades o maior destaque foi um tour pelo interior da ilha, em que passamos por diversos pontos diferentes ao longo do dia. Adorei conhecer o Tarsius, um bicho nativo de uma parte específica do sudeste asiático que é totalmente único. Ele tem olhos grandes como de mangás (quadrinho japonês), dedinhos pequenos e um rabo duro e asqueroso. Parece um esquilo que deu errado. E tem mais, se você fizer muito barulho ele comete suicídio batendo a cabeça sem parar contra o tronco de árvores. Pensa em um bicho que precisa de mais tratamento psicológico que a sua prima que acabou de anunciar para a família toda que só “se alimenta de luz” . É o Tarsius.

Tarsius

Outro ponto de Bohol que queríamos conhecer eram as famosas Chocolate Hills, cartão postal da ilha. Uma série de colinas arredondadas, de formato e tamanho similares, que formam uma paisagem magnífica. Vimos o pôr do sol lá e foi bacana, mas acho que todo mundo presente achou mais legal do que eu. Talvez eu esteja cada vez mais velho e ranzinza, o que é bem provável. Gosto de pensar que meu “animal espiritual” é um senhor de 75 anos preso em um ciclo sem fim na fila do INSS.

Também passamos pelo Rio Loboc, o mais famoso da ilha, que tem uma bela água cor de esmeralda. Mas foi só, passamos por cima dele em uma ponte e depois mal o vi de novo.

O rio Loboc

Enfim, Bohol foi praticamente isso. Quer dizer, teve mais um passeio de certo destaque, um passeio tristíssimo em que o objetivo era ver vagalumes que ficam em árvores à beira do rio, obviamente durante a noite. O passeio tinha potencial, supostamente seria um espetáculo lindo e onírico, mas o lugar era longe, uns chineses do nosso grupo atrasaram o tour e chegando lá vimos que era melhor eu ter subido na árvore com uma lanterna presa às nádegas do que o “show” que os vagalumes deram. Faria mais luz e com certeza seria um entretenimento de melhor qualidade. Não sei se pegamos um dia ruim ou se é sempre assim, mas não deu pra ver nada, só ficamos rondando com o barco no escuro enquanto éramos agraciados por um acalentador cheiro de diesel. Foi horrível.

E por fim retornamos à Cebu. Nos despedimos, agora sim, dos nossos divertidos companheiros brasileiros e voltamos a ser apenas eu e a Má na viagem. Que sentimento gostoso.

Novamente, nada contra outras pessoas, mas foi revigorante voltarmos ao modo “natural” da nossa jornada. Eu e Marina contra o mundo. Mais livres para escolher, para ir e vir e, principalmente, para errar. 

Pegamos uma balsa para a horrenda Cebu City logo às 6 da manhã, pois nosso dia seria longo. Precisávamos fazer uma porção de coisas que no fim descobrimos serem inúteis, ou seja, logo cometemos um ato clássico da dupla: desperdiçar muito tempo e algum dinheiro em um lugar tosco. Nós realmente estávamos de volta!  

Aliás vou até detalhar essa nossa peripécia, que é bem vergonhosa, já adianto. Quando entramos nas Filipinas olhamos o carimbo de nossos passaportes e achamos que só teríamos 30 dias no país. Baita injustiça, já que brasileiros podem ficar 59 dias sem visto nessa terra de ilhas abençoadas. E o pior, nós ficaríamos 31 dias ao todo por lá e ficamos com medo de algum agente da imigração encrencar conosco por apenas 1 dia de excesso, por isso decidimos passar em um escritório da imigração filipina, em Cebu, para resolver essa patavina. Bom, após pegar a balsa achamos um escritório e nos deslocamos do porto até ele em um dia cinza e chuvoso, esperamos o escritório abrir e fomos quase os primeiros a serem atendidos para… para… bem, para o funcionário que nos atendeu falar em menos de 1 minuto que nossa situação estava OK. 

Como assim OK, meu chapa? Nós tínhamos olhado diversas vezes aqueles passaportes e tínhamos certeza do problema. Era só observar que nosso tempo máximo de estadia estava marcado para 22 de Março e…. E foi aí que nosso mundo ruiu e nos tocamos que ainda estávamos em Fevereiro e que sairíamos em 23 de Fevereiro do país. O oficial da imigração tinha nos dado 59 dias de estadia, mas por alguma birutice coletiva nós dois deletamos um mês inteiro de nossas mentes e já achávamos que estávamos em Março, o que atrapalhou a “complexa” conta de subtração que fizemos para calcular nosso tempo de estadia. Foi vergonhoso. Foi irritante. Único ponto positivo foi não ter que enfrentar nenhum trâmite burocrático, mas “só”.

Uma foto bonita para vocês esquecerem nossas burradas

Fora que o funcionário do escritório ainda nos deu um olhar que era um misto de dó com preocupação, meio que duvidando das nossas capacidades cognitivas. Pior que eu nem posso culpar ele. 

Só nos restava comemorar (ou lamentar) e continuar com o itinerário do dia.

Depois dessa epopeia da burrice pegamos um ônibus de umas 5 horas até Maia, extremo norte da ilha de Cebu, onde aí sim iríamos pegar uma balsa até Malapascua, uma pitoresca ilha entre Cebu e Leyte, nosso último destino nas Filipinas. 

Segurem-se pois os relatos das Filipinas estão acabando. Depois de Malapascua, a terra do pôr do sol que nunca decepciona, já chega a Austrália. 

Até a próxima e, claro, beijos quentes.