Hong Kong ou o capítulo em que não entrei em nenhum torneio underground de artes marciais

Esse relato cobre o período de 11/10/2018 a 15/10/2018

Olá, amigo leitor. Você ainda continua por aqui? Imagino quais séries de decisões erradas te trouxerem até esse limbo virtual. Bom, já que entrou no blog pelo menos leia o post.

Desculpem a falta de uma frequência bem definida nos contatos, a vida anda corrida. Não é fácil viajar por aí. Em vários momentos invejo o paulistano que está parado no trânsito e com tempo para pensar na vida.

Agora vamos falar de um lugar que gostei muito de conhecer e que, como o Japão, tinha um peso simbólico para mim: Hong Long. Lá tivemos uma estadia curta, porém intensa.

Os heróis da cidade

Hong Kong é sensacional. Ao mesmo tempo que é um lugar incrível é uma das cidades mais distópicas que já conheci. Aliás, não é uma cidade né, mas uma região Administrativa Especial.

Amigos, pensem em um lugar que é um caldeirão de experiências diferentes. Por ali passamos por grandes estruturas industriais, complexos habitacionais apertados, becos banhados por luzes neon, mercados noturnos lotados de pessoas do mundo todo, portos decadentes e caindo aos pedaços, portos novinhos e cheios de riquezas e distritos financeiros luxuosos que não devem nada para nenhuma NY ou Tóquio da vida ( nunca vi tanto arranha-céu por metro quadrado na vida). E ainda é um local regido por forças sombrias e poderosas e um sistema político suspeito. Aliás, uma boa descrição de HK, feita pela Marina inclusive, é que é uma Tóquio underground. Algo como Japão encontra a boca do lixo. Voltando ao pensamento da distopia, com certeza coisas como Blade Runner ou Necromancer se passariam em HK (embora nenhum dos dois se passe lá, sinto que esse conjunto de ilhas seria o lugar mais apropriado para esses universos).

Vai me dizer que não é um vilão de filme que mora ali
As cores de Hong Kong

Inclusive esqueci de mencionar, além de tudo isso que já falei, também é possível fazer trilhas, pegar uma praia ou se enfiar na calmaria de alguns templos. Enfim, baita lugar maluco e com transporte público de primeiro mundo. Adorei.

Antes de continuar é melhor eu ser sincero – eu provavelmente adoraria Hong Kong mesmo que o lugar fosse apenas uma grande planície de lama e unhas humanas. Digo isso porque, como o Japão, Hong Kong foi cenário de muito entretenimento que consumi ao longo da vida. Bruce Lee, Jackie Chan, John Woo e os infinitos filmes de artes marciais que já assisti, todos eles remetem a esse local especial. Sim, eu adoro filmes de artes marciais e se você tiver um pingo de dignidade deve adorar também. Sim, eu sairia na rua com a roupa amarela que o Bruce Lee usa em Jogo da Morte. Não, eu não fui convidado para um torneio de luta secreto durante nossa estadia na cidade e essa talvez seja minha maior decepção da viagem.

Enfim, um destaque de Hong Kong foi fazer uma trilha chamada Dragon’s Back Trail, que termina em uma praia chamada Big Wave Beach. Pensa em um conjunto de nomes fodas, é esse ai. Outro ponto alto foi fazer um free walking tour, que, como diz o nome, é um tour “de graça” com pessoas locais falando sobre a cidade/país. O de Hong Kong foi especialmente legal pois o tour focou muito nas relações históricas de HK com outros países e no atual momento de aflição que os moradores vivem com o crescente domínio chinês. Que dó dessa região, muito chupinhada pelos ingleses no passado e agora sendo reprimida aos poucos pelos chineses, que cada vez mais (falando com base em relatos de moradores) se intrometem de forma arbitrária na política local. Incrível a barreira que os moradores da região tem em relação a “mainland China”. Enfim, até as pressões políticas lembram cenários distópicos.

Big Wave Beach

Depois do nosso free walking tour, que de free tem apenas o nome, pois é de “bom grado” dar uma gorjeta para o guia (o que é mais do que justo, mas dói no meu coração sovina), juntamos um grupo de estrangeiros e fomos desbravar parte de Hong Kong. Eu não sou muito fã dessas atividades em grupo, mas esse dia foi divertido. Aliás esqueci de falar, conhecemos no hostel uma austríaca muito simpática que nos acompanhou durante todo tempo, a Jana. A pronúncia correta do nome é “Iana”, mas verbalizar o som do J e falar JANA de boca cheia é uma ótima sensação, por isso eu falava o nome dela errado com certa constância (sem querer). Já tínhamos deixado a Jana entrar no nosso restrito clube de viagem e aí depois do tour mais quatro pessoas se juntaram a nós.

O próximo passo foi procurar um lugar para comer, e resolvemos ir em um lugar super local que pode ser descrito como uma guerra culinária. Pensa assim, não tem fila de espera, então você tem que ficar igual um abutre esperando a turma levantar da mesa para conseguir sentar. Fora isso não tem cardápio ou alguém trazendo comida na mesa, mas sim umas tiazinhas que andam com carrinhos pelo restaurante e você que tem que correr até o carrinho para pegar o que está sendo servido. Não é um almoço, é uma gincana, e o melhor, nada disso é em inglês. Foi diferente, foi bem legal. Mas Deus me livre fazer isso de novo.

Uma cerveja com uma mensagem importante

No fim ainda visitámos outra ilha da região com esse mesmo grupo de pessoas. Uma ilhazinha pequena, de pescadores, mas foi interessante demais ver os gringos perdidos que moravam por ali. Até com uma cabana de americanos malucos que largaram tudo para fazer cerveja artesanal em Hong Kong cruzamos.

Uma rara foto nossa. Aproveite

Esse, que era nosso último dia por lá, ainda terminou comigo quase tendo um infarto. Foi um susto daqueles que fazem a alma pular pra fora do corpo por alguns segundos. Aconteceu assim: chegamos cansados da andança e entrámos no nosso hostel de forma distraída, mas eis que uma jovem coreana espreitava por trás da porta, tal qual uma aparição. E o que a coreana tinha na cara? Sim, isso mesmo, uma daquelas máscaras bizarras de hidratação, parecia que ela tava fazendo um cosplay de Hannibal Lecter no hostel. Sabe aquela parte do “Silêncio dos Inocentes” em que ele corta a pele do rosto do guarda e cola no dele? Tipo isso. Meia Noite. Esperando a gente ao entrar no hostel. Quase morri. Enfim, um final de dia digno de Hong Kong, um lugar bizarro, mas que tem um cantinho especial no meu coração.

Beijos quentes.

Japão ou o capítulo do karaokê embriagado

Esse relato cobre os eventos de 03/20/2018 a 11/10/2018

Olá,

Amigos, amigas e aventureiros virtuais

Sim, sou eu com mais um relato da nossa jornada por esse mundão bizarro. Antes de começar o relato gostaria de descrever o contexto em que ele foi escrito originalmente (lembrando que esse blog é uma adaptação da minha newsletter). Escrevi boa parte do texto no avião indo para Hong Kong (saindo do Japão) e sempre quis pagar de executivo atarefado e importante. Fiquei o tempo todo imaginando que a chinesa ao meu lado estava espiando com o rabo do olho eu digitando furiosamente em um IPad e imaginando que eu talvez fosse o fundador de alguma startup que parece cool mas no fundo é só tosca (como a maioria), ela atuaria em algum segmento perverso que expulsasse a decadência da nossa sociedade – talvez um serviço como Uber, mas em que o motorista sempre tivesse a mesma opinião política que você, algo assim. Enfim, o importante é que para ela eu era uma figura misteriosa, um “big shot” do vale do Silício com uma esposa colombiana exótica (não falem pra Marina que chamei ela de colombiana), não uma pessoa medíocre com um complexo de grandeza escrevendo memórias para meia dúzia de almas amarguradas que encontram (ou não) uma fuga fácil de suas vidas nessas palavras tortas. O fato é que não consegui manter essa ilusão por muito tempo, pois logo comecei a me sentir enjoado devido a combinação da atividade de escrever com o balanço do avião. Minha meteórica carreira no vale do silício tinha chegado ao fim.

As casinhas de Shirakawa

O último relato cobriu diversas cidade por onde passamos no Japão, mas ainda tinha mais o que visitar por lá.

Ao sair de Osaka fomos para Takayama, uma cidadezinha simpática mais perto das montanhas. Foi lá que eu fiquei no melhor hostel de toda minha vida: limpo, aconchegante, banheiros ótimos, muita informação sobre a região e um pessoal que não puxava papo no hall. Eu sei, conhecer pessoas é muito legal durante viagens, às vezes a parte mais legal, mas eu não sou muito aberto para esse lance de novas amizades e acho um saco ter que começar uma conversa com alguém que nunca vi na vida. Tem gente que ama esse tipo de coisa, como tem gente que tem fetiche com xixi. Sempre vai ter um maluco para gostar de coisas estranhas (e por estranhas leia: qualquer coisa que eu não goste. O quê? O blog é meu, eu que defino o que é estranho por aqui).

Para continuar com minha tradição de comparar lugares com cidades do estado de São Paulo, poderia dizer que Takayama tem uma pitada de Campos do Jordão. Arrumada, bonita e com preços exorbitantes. Ainda bem que ficamos pouco tempo por lá. Aliás foram só duas noites, nosso grande objetivo era visitar uma vilazinha perto da cidade chamada Shirakawa.

Shirakawa é um lugar incrível, uma vila nas montanhas, à beira de um rio cor de jade e cercada de muito verde. É um dos raros locais no Japão que ainda mantém um estilo específico de arquitetura tradicional (veja as fotos) e por isso é um patrimônio mundial da UNESCO. Vou ser extremamente clichê e brega, mas preciso dizer isso: visitar Shirakawa é como voltar no tempo. Me senti olhando o cenário de algum filme do Kurosawa, talvez “Os Sete Samurais”. Caso Kikuchiyo aparecesse correndo feito um ensandecido brandindo uma espada e gritado eu juro que não me surpreenderia. No fim Shirakawa é uma vila com grande valor histórico, mas para quem cresceu assistindo Os Sete Samurais e lendo Musashi esse tipo de lugar tem uma aura especial. É aquela magia do Japão que atingi a turma mais estranha que acabou mergulhando fundo demais na cultura oriental.

Ainda em Shirakawa

Depois da nossa visita à Shirakawa voltamos para Tóquio. Que lugar, que lugar. Uma cidade especial, com certeza. É difícil falar em local favorito no Japão, pois tem Kyoto nesse páreo, mas acho que pra mim fica empatado. Tóquio tem aquela magia de grandes metrópoles de que qualquer coisa é possível, de que seu dia pode começar de um jeito e terminar de uma maneira completamente inesperada. Sabem como é? Acho que São Paulo consegue passar essa impressão nos seus melhores dias – afinal você pode começar no trânsito, passar por um boteco legal e interessante no centro e depois terminar numa vala qualquer. Então, Tóquio tem isso e além. Além porque é uma grande metrópole, mas que funciona, diferente do que temos no BR, por exemplo. Além porque lá dá para ir de 0 a 100 em algumas estações – da avalanche epilética que são lugares como Shibuya e Shinjuku a calmaria de Mitaka e Itabashi. Além porque lá é a terra de Dragon Ball, Pokémon, Nintendo e eles fazem questão de lembrar você toda hora disso. Enfim, já toquei nesse ponto no texto anterior, só queria reforçar essa aura especial que tem a cidade.

Harajuku – muitas pessoas, poucos cosplayers

Nosso primeiro dia de volta à casa do Ultraman foi marcado por uma possível burrice. Eu, que já reclamava da quantidade de eletrônicos que carrego na viagem fui lá e fiz o que? Isso mesmo, comprei um Nintendo Switch. Em uma ode aos deuses da impulsividade adquiri mais uma coisa. Precisava? Não. Temos dinheiro para isso? Não, eu estourei o budget, obviamente. Estou me divertindo até o momento? Sim. Acho que valeu a pena então. Um leve adendo – como jogar Overcooked sem se divorciar?

Resultado disso tudo, minha mala ficou mais pesada, mas depois me livrei de várias coisas então tudo se equilibrou. Quem precisa de vestimentas quando se tem um videogame?

Falando em despachar eis aqui o gancho para nosso segundo dia, que foi marcado pelo nosso primeiro e único embate com a burocracia japonesa. Nosso plano sempre foi despachar coisas do Japão. Tanto nossas mochilas menores quanto os mochilões estavam pesados. Eu na verdade só iria despachar a base do Switch e deixar algumas roupas no país mesmo. Mas a Má tinha um monte de coisa para enviar pro Brasil, desde roupa, até um tênis de trilha e uma parte da mochila dela. Tudo isso mais souvenires que compramos pra famílias.

Chegando no correio, após aquela corrida matinal na chuva que alegra qualquer alma, já fomos agraciados com uns funcionários mau-humorados, coisa rara no Japão. Queríamos comprar uma caixa para colocar tudo, mas o infeliz que estava no balcão pegou nossa sacola de muambas e começou a xeretar. Aí japonês vai, japonês vem, conversa com a supervisora, da risada da nossa cara, etc… o resultado desse processo foi o seguinte: poderíamos despachar apenas os souvenires, as outras coisas usadas não. Claro, ninguém falava inglês e o rapaz ria toda hora que eu mostrava o Google tradutor. No fim foi isso, estávamos com frio, fome e metade das nossas coisas ainda em mãos. Obviamente a culpa foi nossa, pois somos desinformados e perdidos e não tínhamos ideia do que se poderia enviar para outro país ou não. Olha só, para pessoas que saíram por aí viajando o mundo nós conseguimos ser bem burros algumas (muitas) vezes.

Rainbow Bridge

Essa segunda temporada na cidade também foi marcada por encontros especiais. Primeiro uma noite regada a cerveja com o Sukita e a Surya, uma dupla bacana demais que encontramos mais de uma vez em Tóquio (e minha amizade com o Sukita era basicamente online, por isso acreditem em seus amigos virtuais, só desconfie se eles te chamarem pra um encontro em um beco escuro em horários pouco convencionais), depois foi a vez de conhecermos a Nat e o Ale do @360sabados, um casal querido que encontraríamos de novo pela viagem e, claro, encontramos o Ale, que já mencionei no primeiro texto sobre o país.

Claro que encontros assim podem levar ao consumo de álcool, mas é complicado ficar bêbado no Japão, muito caro. Quem diria que cair de maduro no meio da estação de metrô seria apenas para os mais abastados. Aliás essa é uma cena que acontece de verdade, em certa sexta-feira à noite voltando tarde de Shibuya tinha uma galera doida de pedra caída na estação. Talvez sejam reflexos de uma sociedade um pouco reprimida – quem mora aqui nos falou que é assim, muita gente bebe até cair mesmo, mais de uma vez por semana.

Aliás essa foi a vez que peguei o metrô mais lotado da minha vida. Bom demais pegar o último trem pré fim de semana em um bairro boêmio e turístico. Rolou até guardinha empurrando a galera para caberem mais pessoas no vagão (como vemos na TV). Realmente o japonês pensa muito no coletivo, me admirou ver o indivíduo se aglutinando à massa de carne e suor para voltar para a casa como uma unidade, um ser único.

Eu achei divertido, sou turista né, mas se estivesse voltando para o lar após um dia estressante de trabalho ficaria o tempo todo rosnando minhas ameaças vazias pra galera, como faço no trânsito de SP.

Metrozão cheio – mas aí já estava bem mais vazio do que quando entramos

O dia seguinte foi marcado por uma visita decepcionante a Harajuku, onde eu esperava ver uma turma vestindo roupas esquisitas e uns cosplayers que decepcionam os pais diariamente, mas só encontrei lojas, uma multidão de gente e a única pessoa vestida de forma “engraçada” que eu vi foi um turista usando saia. Mas o bairro é gostosinho e fica bem melhor sem 45% da população do Japão nele (voltei lá depois).

Nesses dias de Tóquio também fizemos duas viagens relâmpagos, uma para. Kamakura, cidade perto do oceano e com um clima muito gostoso. Clima não, “vibe”. O clima em si estava horrível, quente demais, estou transpirando até agora só de lembrar. Lá tem alguns templos bonitos e um Buda gigante bem legal, da um Google aí. Esse dia também foi marcado por um almoço com uma amiga japonesa da Marina (fomos com ela) em que pagamos a conta por gentileza e por um momento achei que não teria dinheiro nem para voltar. Tivemos que fazer um malabarismo econômico pra sobreviver às horas seguintes.

O Buda de Kamakura

Outra viagem que fizemos foi para o monte Takao, um lugar que tem algumas trilhas bem bacanas. A ideia era subir o monte e ver o Fuji de longe, já que não pegamos a temporada boa pra conhecer o vulcão de perto, mas tinha neblina pra tudo quanto é canto e não vimos nada. Quer dizer, dá para ver Tóquio lá de cima, o que já é incrível. As trilhas são legais, tem uma que é tomada por uma mata super fechada que acompanha o rio, parecia cenário da Princesa Mononoke. E o melhor é que saímos da natureza e no fim do dia pegamos um trem e em uma hora estávamos em Shibuya de novo, nosso último jantar em Tóquio tinha que ser lá. Finalmente a Má conseguiu ter a experiência de um “sushi de esterinha”, e eu que não sou bobo nem nada experimentei o maior feito gastronômico do Japão, o sushi de hambúrguer. Aprovado. Inclusive melhor que qualquer sushi de atum (não me matem, por favor, eu não sou fã de peixe).

Monte Takao

Mas o momento mais marcante de Tóquio parte 2 foi nosso karaokê com locais. Isso mesmo, pegamos uma noitada de karaokê com japoneses “de verdade”. Isso aconteceu pois de dia fomos contar sobre nossa viagem para uma galera na escola de inglês em que meu amigo, o Ale, trabalha. Era uma “free talk class”. Foi muito bacana e deu para interagir com uma turma diferente, desde adolescentes até senhorinhas que estão estudando a língua (até autografo demos). O melhor foi que depois recebemos o convite para um happy hour cantante e foi mágico. Para vocês terem ideia tinha um japonês no grupo com o apelido de Charlie Brown, em homenagem ao personagem de mesmo nome do Lost In Translation. A cantoria aconteceu em uma salinha minúscula com mais tons de marrons do que eu poderia imaginar que existem, mas muito bem equipada, até pandeiro eles têm para acompanhar quem canta. Claro, como se pede em um bom karaokê a galera encheu a cara, inclusive a gente. Charlie Brown é um astro, o cara cantou, dançou e conseguiu suar mais que eu quando jogo bola. Até o tema de entrada do Dragon Ball Z ele cantou, em japonês, é claro. Eu cantei. Sei que isso parece bobagem, mas quem me conhece sabe que evito os caminhos da melodia vocal com todas minhas forças, mas era o Japão e eu estava bêbado, então por que não homenagear o Seal?

A turma da nossa talking class. Consegue adivinhar quem é o Charlie Brown?

E foi nesse dia que eu aprendi algo importante – para ser japonês “de verdade” você precisa passar em algum teste de canto, não é possível. Todo mundo canta bem! Eu, que já sou um desastre, quase fui deportado quando abri a boca.

Enfim, essa foi uma noite inesquecível.

E foi assim que terminamos nossa estadia no Japão, um lugar memorável para mim. Hoje já se foram mais de 9 meses de viagem e passamos por lugares fantásticos, mas ainda tenho lembranças muito especiais de lá. É longe, é caro, mas é incrível.

Beijos Quentes

Japão 2 ou o capítulo das muitas cidades visitadas

Esse relato cobre os eventos de 23/09/2018 a 02/10/2018

Olá, aflito leitor(a). Pode acalmar seu coração e alegrar a alma, o bálsamo de cada dia para combater as mazelas da realidade e a dureza chamada vida está de volta. Espero que o capítulo de hoje não o faça desistir de tudo. Calma, alguma coisa ainda vale a pena. Eu espero. Pelo menos hoje eu conto como já quase vomitei em restaurantes japoneses, então viva o suficiente para ler sobre isso.

O último relato tratou apenas de Tóquio, mas a partir de agora vou acelerar um pouco as coisas, ou terei que escrever sobre essa viagem para sempre.

Nosso próximo destino no Japão foi Kyoto, um lugar que curtimos demais. Calma, tradicional e animadinha ao mesmo tempo. O melhor jeito de classificar Kyoto, para mim, é dizer que é uma baita cidade gostosinha.

Demais ver a vida da cidade florescendo as margens do Shirakawa. A melhor coisa que fizemos lá foi alugar umas bicicletas e se perder, se perder foi legal (de novo). Passamos pelo templo dourado, pela floresta de bambus (não encontrei o Silvio Santos lá), pelo magnífico rio cor de jade até chegar, já a noite, em uns bairros residenciais afastados, onde vi uma molecada jogando baseball a beira do rio. Perguntei se eles assistiam Super Campeões e ninguém me deu moral. Fui chamado de Gaijin por uma senhora e ainda comemos em um restaurante local. Um belo dia.

Kyoto foi isso pra mim, uma cidade incrível com vários templos fascinantes e cenográficos, mas que ao mesmo tempo não se resumia apenas a cultura, pois consegue mesclar isso com diversão e comida (que é um sinônimo de diversão). E falando nisso, quase ia me esquecendo, rolou mais um momento de leve euforia emocional – visitei, sem querer, um templo pertíssimo de uma das batalhas mais famosas do Musashi (foi o Sanjūsangen-dō). É aquela em que ele acaba de vez com o clã Yoshioka. Aliás, o templo em si era bem legal, tinham 1001 estátuas de uma mesma entidade budista, e não era qualquer estátua mequetrefe não, posso dizer com segurança que a empreitada deu trabalho viu. Só estátua TOP (me perdoem o uso da palavra). Se você não sabe quem é Musashi desculpe a menção aqui, mas a sua história foi parte integral da minha adolescência e também culpada em me viciar em assuntos nipônicos e fazer eu pensar que um dia poderia ser o samurai estrangeiro que chega do nada no Japão e começa a quebrar todo mundo na porrada. Eu. Que mal sei andar sem escorregar. Enfim, em um momento da minha vida essa fantasia foi intensa e real.

A tradição em Kyoto

Ainda em Kyoto fizemos uma viagem bate e volta pra Nara, que tem vários templos, um parque bacana, uns veados e mais uma porção de turistas. Legal mesmo lá. Talvez o local mais cenográfico do Japão, um país extremamente cenográfico. E também com o melhor “Big Buda” de todos os Budas gigantes que já vi pela viagem. Mas o mais bacana foi ter ido lá, sem querer, no dia em que estava acontecendo um festival local. Era em homenagem a uma mulher da corte do imperador (Nara já foi capital do Japão) que foi rejeitada por ele e se afogou num laguinho local (rapaziada intensa né). Enfim, o festival consiste no lago ser enfeitado com lanternas (bem bonito) e gelo seco enquanto uns barcos ficavam passando com atores cantando e encenando a história toda. Foi bem interessante, mas fiquei decepcionado. Digo isso pois: sei lá por qual razão enfiei na cabeça que no fim da encenação eles colocariam fogo nos barcos. Ia ser uma baita visão, já estava escuro, seria legal de tirar fotos. Imagina o barco pegando fogo em contraste com a luz das lanternas? Mas porra, fiquei esperando, esperando e nada das chamas surgirem. Quase fui eu lá encher tudo de gasolina e jogar um fósforo. Nara me agradou, mas não satisfez minhas fantasias piromaníacas. 

Telas de Osaka

Depois disso fomos para Osaka, cidade em que não fizemos nada e foi demais. Quer dizer, SOBREVIVEMOS a um tufão lá (que no fim foi só uma chuva forte). E comemos. Muito. Porra, achei Osaka demais para comer. Tem um centrinho animado, (de novo) a beira do rio, tudo iluminado, beira o ataque epilético. Mas é bacana. Ficamos dormindo em Osaka e fizemos algumas viagens de 1 dia para cidades “próximas”. Fomos para Miyajima, Hiroshima e Himeji. Miyajima é a Ilhabela japonesa, viraria um pescador lá com certeza, muito bonito. Em Hiroshima só visitamos o Memorial da Paz – pesado, intenso e algo que todo mundo deveria conhecer.

O Tori

Himeji é uma é baita cidade legal, parece moderna, mas é calma. E aí no meio dos Predio tem um PUTA castelão bonito. Um colosso branco pairando sobre a cidade. Entrar lá foi uma experiência bem interessante, ainda mais para quem jogou muito Tenchu quando jovem. Tentei fazer um desenho do castelo uma hora que sentei em um de seus terraços, sabe, dar uma de artistão que puxa o caderninho no meio do rolê para desenhar algo? Então, queria ser assim, mas eu sou reprimido demais. Qualquer pessoa que passava atrás de mim quase me causava um infarto. Não preciso nem dizer que o desenho ficou tão bom quanto o plantel das últimas eleições no Brasil. Ficou ohh. Show. Depois visitamos o jardim anexo ao castelo. Amigos, que mágica que tem os jardins japoneses né? Uma capacidade de acalmar a alma impressionante, sem brincadeira. Um tanque com carpas no quintal faz toda diferença, pode providenciar um agora.

Vista do castelo em Himeji

Em Himeji também experimentei um dos pontos baixos da minha vida. Entramos em um game center (lugar dos sonhos com um milhão de fliperamas legais, mas os japoneses só escolhem os mais estranhos de música para jogar) e perdi para Marina no Mario Kart (após ganhar uma, claro). Não perdia no Mario Kart desde 1997 – podem procurar essa informação que tem na internet. 

O castelo

Ainda em Osaka aconteceu um fato bizarro. Tinha um francês muito chato no nosso hostel, e ele não era apenas chato, ele era maluco. Sabe aquele personagem bem estereotipado do doidão que ficou mais maluco ainda por causa do uso de drogas? Que é tão caricato que você nem acha real? Era ele. O cérebro do cara devia ter derretido já, sem falar que o sotaque (ao falar inglês) era puxado demais pro francês. Não dava para entender nada do que ele dizia e ainda dava vontade de rir. O cara me pediu dinheiro, me pediu meias (??), queria me mostrar umas músicas que ele fazia. Ele grudou em mim. Até ai tudo bem, eu fugia dele pelo hostel e ele parecia bonzinho. Até um dia em que fomos cedinho pegar nossas roupas no topo do prédio (estavam secando, pois tínhamos lavado) e quem estava lá, dormindo ao relento como um escoteiro de meia idade que abusou da bebida nos últimos anos? Nosso amigo francês. E não, ele não estava dormindo, que erro, ele estava MUITO acordado, a mente a um trilhão por hora enquanto eu tinha acabado de abrir os olhos. Sei que ele falou, falou, falou e quando olhei o rapaz estava pendurado no parapeito do prédio (perninhas balançando pra baixo e tudo), olhando pra mim e perguntando “Será que eu morro se cair daqui?”. Sim, ele morreria.

Eu estava tão entorpecido que só pensei “Ah pronto, agora o cara vai morrer e vai fuder nosso passeio do dia”. No fim deu tudo certo, ele não caiu, conseguiu se puxar de novo pra cima e eu pude sair de lá o mais rápido possível. Quando voltamos para o hostel ele tinha ido embora, mas depois vimos ele andando em uma avenida em Osaka, em direção ao horizonte. Lendas dizem que ele anda até hoje procurando alguém para encher o saco. Vá com deus meu doce príncipe.

E agora que eu já falei sobre todas essas cidades, posso contar das vezes em que eu quase vomitei nelas. Uma em Tóquio e outra em Hiroshima. Ambas ao comer algo que não consegui processar direito no restaurante. Mas quero tirar uma coisa da frente – adorei a comida no Japão, mesmo. Não sou o maior admirador de peixes e frutos do mar e mesmo assim gostei muito, mas tem algumas coisas que não me descem. O primeiro causo aconteceu quando tentei comer um okonomiyaki de frutos do mar. Um jeito rude de descrever o okonomiyaki é dizer que ele é uma espécie de omelete, e nesse restaurante em que fomos (como em outros vários), o garçom prepara o prato na sua mesa, que é na verdade uma chapa quente. Então ele joga tudo ali: peixes, camarão, ovo, outros bichos estranhos e faz a massa. Bom, comecei a comer, estava até que curtindo, mas aí me deparei com um gosto intragável pro meu paladar. Dei aquela leve arqueada pra frente, sabe o semi movimento estomacal que seu corpo faz para avisar que algo vai sair pela boca? Me segurei, respirei fundo e tentei de novo. Opa, quase regurgitei tudo de novo. Foi nessa hora que a Marina percebeu o que estava acontecendo e invés de me ajudar começou a gargalhar histericamente. Eu ali tentando vomitar com discrição e ela estragou tudo. Bom, respirei mais uma vez e pensei “agora vai”. Não foi. Quase que um okonomiyaki desconstruído voltou a mesa, e pior que era uma chapa, então ia virar omelete de novo. Vendo o absurdo da situação e não aguentando mais as risadas de minha amada mulher resolvi cuspir de forma discreta o maldito pedaço de comida.

A outra vez em que quase passei vergonha no restaurante foi em Hiroshima e essa nem tem nada a ver com frutos do mar. Eu singelo e com fome resolvi não errar e pedi um arroz frito com frango. Mas, meus amigos, veio o frango mais vivo e triste da história no arroz. Eu quase podia ouvir ele implorando “não me coma”. De novo resolvi encarar, de novo não deu certo e de novo a Marina riu de mim. Dessa vez fui mais rápido em desistir do prato.

Essas foram minhas desventuras gastronômicas no Japão, espero que elas não tenham estragado o apetite de alguém. E sim, eu sempre consigo introduzir algum detalhe escatológico nos textos. Desculpe.

Bom, por hoje é isso.

Beijos Quentes

China 4 ou o capítulo dos “perdidos no parque”

Esse relato cobre os eventos de 14/09/2019 a 19/09/2019

Olá companheiros de jornada.

Peço perdão pela demora para atualizar o blog, mas estava enfiado em umas trilhas cheias de neve no meio dos Himalaias. Isso mesmo, nada demais, só arriscando minha vida perto das maiores montanhas do mundo, e você o que andou fazendo? Como foi a aula de pilates essa semana? (Desculpa, eu acho horrível esse sentimento de “minha vida é mais legal”, até porque não é, mas esses últimos dias foram especiais demais – vou “me achar” um pouco).

Mas esse relato aqui é sobre a China, não sobre o Nepal, então vou voltar até o ponto onde o último texto terminou. Após o final feliz da desastrosa estadia em Xangai embarcamos em um trem para Zhangjiajie, uma cidade que fica próxima de um parque nacional de mesmo nome. Um lugar que eu também nunca acerto a grafia, por isso perdoem os possíveis erros nesse humilde escrito.

Enfim, Zhangjiajie é uma cidade bem mais ao sul que Pequim e também um pouco mais ao interior/oeste do que todas que tínhamos visitado (mas ainda naquela faixa perto da costa onde praticamente a China inteira vive), se eu disser que está no sudoeste chinês seria bem errado.

A cidade é bem sem graça, cinza e em construção – aliás, a China parece um país em construção, todo lugar que íamos tinha obra, obra, obra…talvez um reflexo dos saltos econômicos das últimas décadas. O interessante é que a região em volta da cidade é sensacional. Montanhas sagradas, grandes lagos, parques nacionais e até vilas antigas e super tradicionais. Se algum de vocês for para lá um dia use Zhangjiajie apenas como base e conheça os arredores.

Os leitores mais fiéis devem se lembrar que Xangai foi uma cidade marcada pelo descanso e a falta de saúde intestinal, algo que deu uma desanimada geral na viagem e para com a China. Zhangjiajie foi uma cidade de perrengues, mas foi também sensacional, reabasteceu nosso ânimo. Aaaa China, sua grande montanha-russa.

No nosso primeiro dia visitamos a Montanha Tianmen, um complexo de escarpas com um pico bem bonito que fica bem colado a cidade. Para chegar lá (ou descer de lá) vale pegar o teleférico – é o maior caminho de teleférico do mundo e bacaninha de usar. O dia estava nublado, o que limitou a visão, mas ao mesmo tempo cortamos as nuvens com nosso bondinho super vitaminado. O ruim foi ter esperado 2 horas na fila, pois na China tudo é fila (quando a fila existe). O topo da montanha é incrível, normalmente acima das nuvens e o clima lá é sempre de “mistério e sagrado”. Também tem umas passarelas de vidro para você andar na beira da montanha e olhar para o precipício abaixo. Achei bem sem graça, mas tinha uma galera com medo. Acho que nem todo mundo pode sustentar a(s) alcunha(s) de: Nathan Drake BR, Wolverine Brasileiro e Indiana Jones Brasuca. Por enquanto as únicas coisas que me colocaram medo na viagem foram os desarranjos intestinais e o medo de ser um fracasso constante apenas fingindo pro mundo que sei fazer algo que presta. Acho que talvez o segundo ponto deveria ser debatido com um psicólogo, não com vocês aqui.

Voltando.

O teleférico gigante

Subimos o teleférico e descemos por umas escadas até a base da montanha, onde pegamos um ônibus de volta para o ponto de saída do bondinho. Na base fica um negócio chamado “Porta do Céu”, que é uma abertura gigante entre as rochas e para chegar lá você sobe (ou desce) uma escada de 999 degraus. É incrível porque realmente parece que você está indo em direção a algo divino, mas ai um batalhão de pessoas cuspindo ao seu lado te lembra que é só uma atração turística.

A porta pro céu anda um pouco congestionada

Voltamos de ônibus pela estrada das 99 curvas (tudo tem “9” pois é um número sagrado para o Taoísmo chinês), um caminho bem bonito e bem propício para agitar as entranhas dos mais frágeis.

A montanha Tianmen é um lugar especial, mas como a maioria dos locais na China, estava bem cheia. Gostaria muito de conhecer o lugar com calma e silêncio, deve ser uma experiência quase espiritual.

Estrada das 99 curvas

O segundo dia foi um dia de burrices e perrengues. Fomos até o Parque Nacional de Zhangjiajie, que tem muita coisa, mas a atração principal é uma cadeia de montanhas que parecem pilares saindo da mata (erosão devido ao vento e chuva). Sim, são aquelas montanhas do filme Avatar. Uma vista incrível.

Chegamos ao parque pelo portão errado, pois pegamos o ônibus quase errado (digo “quase errado” porque erramos o portão, mas chegamos aonde queríamos) graças a maravilhosa rodoviária da cidade e nossa falta de capacidade para acertar o transporte. Logo percebemos que tínhamos um parque todo para atravessar durante o dia, pois a atração que queríamos ver era perto da entrada contrária à nossa e era lá também onde deveríamos pegar a van mais barata de volta até a cidade.

Parece uma tarefa simples, mas lá dentro a locomoção é feita por uma frota de ônibus própria e não da para entender muito onde eles vão parar. Não ajudou o fato de não termos um mapa ou tradutor. Andamos a esmo até que chegamos em um ponto que tinha um elevador gigante que parecia o único jeito de acessar aonde queríamos chegar. Só que o elevador era muito caro, ficaríamos com o dinheiro contado após ele (a entrada do parque já tinha sido bem cara). Provavelmente existia um outro jeito de chegar até nosso objetivo, mas estávamos cansados e pelo o que vimos as atrações chinesas funcionam assim: sempre existe o jeito “fácil” e caro de fazer as coisas (como chegar em um lugar por teleférico ou elevador) e o jeito difícil, que normalmente é mais barato e pouco divulgado. Optamos pelo jeito fácil e a vida nos deu uma rasteira.

Para acelerar a história – pegamos o elevador, nos perdemos na parte “de cima” do parque, achamos o caminho para o portão que queríamos sair, era longe, tínhamos que pegar um teleférico mas o dinheiro havia evaporado. Para melhorar era cerca de 4:30 da tarde e a última van para cidade saia às 18h.

Por sorte encontramos um casal de canadenses (únicos outros gringos no local) que conhecia uma trilha para evitar o teleférico. Economizamos o dinheiro que não tínhamos, mas não chegamos em tempo de pegar o transporte. Estávamos longe do nosso hotel, sujos e sem dinheiro. Mas é nessas horas que a mágica acontece.

Ficamos no mesmo hostel que os canadenses, pois era dentro do parque, só que não tínhamos dinheiro para pagar. Eles pagaram pra gente e minha irmã conseguiu transferir grana via paypal para eles. No fim terminamos a noite imundos, sem nossas coisas, sem dinheiro, mas trocando ideia com uns canadenses ao pé de umas montanhas chinesas. Eles ainda pagaram várias cervejas para nós. Foi bizarro e sensacional, como a vida consegue ser às vezes.

Única foto que temos dos nossos salvadores

No dia seguinte conseguimos voltar ao nosso hotel – eu de ressaca e ambos quebrados, por isso me premiei com uma coca e um McDonald’s da vitória. Nada como comida de baixa qualidade e alto teor de gordura para agradar um homem simples.

Aaaa mas e o parque, vocês estão se perguntando – Sim, o parque é foda. Bem cuidado e com uma floresta fechada, que parece quase tropical, é inundado de montanhas e elevações de granito. As montanhas Avatar são surreais, vale conhecer. Vou colocar algumas fotos aqui mas elas não fazem jus ao que é ver aquele complexo de pilares gigantescos que pairam sobre um mar verde. É uma visão quase onírica.

Avatar mountains com uma intervenção minha
Parece cenário de Jurassic Park

E o parque ainda tem outras atrações, como uma floresta de macacos, alguns monastérios, um lago… A entrada vale por 4 dias, então da para ir e voltar e conhecer tudo com calma (algo que não fizemos pois somos BURROS). Aliás vale ficar mais tempo em Zhangjiajie, ficamos 3 dias completos, mas gastamos o último dia no hotel resolvendo algumas coisas que explicarei a seguir.

Ponte natural

Último adendo antes de prosseguir – já falei isso lá em cima, mas vou desenvolver melhor o pensamento agora: as atrações na China tem boa estrutura e acesso fácil, e normalmente esse acesso fácil é o modo easy e tranquilo para conseguir informações e etc… e eles deixam o jeito “alternativo” mais difícil de encontrar/acessar. É elevador e bondinho em tudo quanto é trilha. Se cortassem metade dessas engenhocas dava para diminuir em uns 60% o número de velhos e famílias turistando por ai. Eu quando for velho vou querer ficar jogando video game em casa, que se dane o mundo. (É uma piada gente, calma).

Enfim, nosso último dia em Zhangjiajie foi de pesquisa e tranquilidade. Tranquilidade porque estávamos quebrados e ficamos a maior parte do tempo na horizontal e pesquisa pois em dois dias pegaríamos um voo para o Japão de Hong Kong, e sabe o que estava prestes a acontecer em Hong Kong e o resto do sul da China? O Tufão mais maligno dos últimos anos 🙂

Ficamos domingo analisando nossas possibilidades e vimos que o melhor seria esperar a tempestade e observar a situação depois. Nosso trem sairia às 15h de segunda-feira para chegar terça-feira de manhã em Shenzhen, de onde passaríamos para HK. O tufão veio, passou e não fez muita coisa por lá, porém O ÚNICO trem cancelado do dia sabe qual foi? Isso mesmo, o nosso. Não dava para atrasar nossa chegada para HK pois o avião iria partir quarta-feira de manhã, ou seja, chegaríamos lá terça a tarde para só dormir e ir pro aeroporto. Qualquer trem de Zhangjiajie para Shenzhen tem mais de 15 horas de duração e todos estavam lotados. Enfim, na correria maluca da estação de trem onde ninguém falava inglês conseguimos, segunda de manhã, passagens para um trem que partia no mesmo dia mas só tinha lugar no vagão em que você vai sentado. 18 horas. Sentados (antes íamos no vagão leito). E não, não são assentos tipo de avião ou de trem bala, eram umas cadeirinhas de plástico mais tristes que a vida de um mágico de festas infantis. Duras e apertadas. Foram 18 horas em um vagão lotado, com todo mundo se espremendo e fazendo malabarismo para dormir. Foi complicado, mas pelo menos assisti Blade Runner 2049 nesse trem! Meu deus que filme maravilhoso. Quase mostrei pro chinês ao meu lado, pois todo mundo tem que conhecer.

O trem antes de encher – ainda dava pra deitar

Dito isso, conseguimos chegar vivos em Shenzhen e finalmente HK. Ficamos pouco tempo lá, pois voltaríamos pós Japão, mas gostei do clima de “cidadezona proibida”. Um lugar global, mas ainda com personalidade. Nada glamuroso como uma Nova York da vida, mas com aquele clima de “porto de filme noir”. Acho que eu assisti filmes demais de Jackie Chan, Bruce Lee, John Woo e cia, mas HK tem uma aura muito bacana pra mim. Algo suspeito sempre parece estar acontecendo.

Depois de toda essa jornada partimos pro Japão, um dos meus países mais aguardados da viagem. Um pequeno spoiler, eu amei aquele lugar.

Tóquio é meu paraíso e onde salvarei o mundo da invasão Kaiju, mas Kyoto é onde morarei após ser idolatrado pela humanidade.

Mais do Japão no próximo post.

Beijos Quentes

China 3 ou o Capítulo da Xangai Escatológica

Esse relato cobre os eventos de 10/09/2018 a 13/09/2018.

Eu fiquei em dúvida se deveria escrever um post dedicado apenas a Xangai (vou escrever com X mesmo). Não aconteceu muita coisa na nossa estadia de três dias por lá. Quer dizer, não aconteceu muita coisa no sentido de conhecer/explorar lugares novos, mas eu garanto que meu corpo estava em atividade intensa. Isso mesmo, apertem os cintos e tirem as crianças da sala, o episódio de hoje será escatológico (e prometo que a partir daqui esse tema quase não aparecerá mais nos textos).

O leitor de boa memória se lembrará do episódio da montanha da discórdia, em Xian, onde excedemos nossas capacidades físicas. Pois bem, logo na madrugada do dia seguinte já pegamos um trem para Xangai, então imagine nosso estado físico ao chegar lá.

Para resumir bem: nossa estadia em Xangai foi oh, show de bola.

Ela foi marcada por uma diarreia poderosa e uma dor física que me fez sentir como o meu falecido avô deve ter se sentido quando quebrou o fêmur já nos últimos anos de sua vida. E fora que o ponto alto de emoção desses incríveis três dias foi visitar (ou melhor, caçar) um hospital chinês.

Enfim, graças a minha “condição” não fizemos nada demais, pois mal conseguia sair. Ficamos em uma área bem turística perto do rio (o Bund) e só posso falar que Xangai a noite é bacana, ou parece ser, algum dia vocês podem visitar a cidade e me contar.

Xangai parece legal 1

Mas ai você pode pensar “dor de barriga é tranquilo pô, não precisa fazer esse drama ai”. Sim, verdade. Até certo ponto, pois a que me afligia era daquele estilo “nada vai ficar aí dentro”, e durou uns três dias. E tem mais, essa aventura intestinal tinha um outro grande ponto de tensão – no nosso último dia lá eu ainda estava passando bem mal e sabia que em pouco tempo pegaríamos um trem de 22 horas, na terceira classe, para chegar até outra cidade. Deixa eu repetir: 22 horas, quase 24 horas (que são um dia inteiro), em um lugar fechado, cheio de pessoas e sacolejante, com as tripas escorrendo por certo orifício. E o banheiro do trem não é o melhor lugar do mundo para sentir que sua alma está escapando do seu corpo pelo ânus. Sem falar que pegar trem envolve todo um trâmite logístico que requer tempo e paciência, coisa que alguém que não está conseguindo ficar 30 minutos longe do banheiro não tem.

Xangai parece legal 2

Durante aquele meio dia que tinha até embarcar na locomotiva da morte eu me senti no seriado “24 horas”. Sabe quando o tempo que falta para algo ruim acontecer pisca na tela com um efeito sonoro? “5:30 até os terroristas castrarem o cônsul”. Então, cada minuto que passava (e eu ainda estava mal) era acompanhado desse efeito visual *vintequatrohoristico* na minha mente. Só que no caso do Jack Bauer o “algo ruim” era o presidente morrer ou algum lugar explodir, e ele podia atirar em todo mundo para resolver os seus problemas. No meu caso o “algo ruim” envolveria muita vergonha em um possível episódio de “defequei em público” e o pior, a única coisa que eu podia fazer a respeito era comer algumas maçãs e beber muita água.

Por isso a Marina resolveu tomar o protagonismo desse filme de terror que se desenhava e me convenceu a caçar um hospital. Primeiro fomos em um lugar que nosso seguro de viagem indicou e estando em Xangai, uma cidade bem cosmopolita, eu estava tranquilo em relação a comunicação. Ledo engano, pois chegando lá descobrimos que ninguém entendia a gente. Nem a porcaria do tradutor. Por sorte um senhor muito simpático, que era paciente do hospital, resolveu nos ajudar e atuou como intérprete, mesmo que o inglês dele não fosse dos melhores. Após uma discussão, que pareceu fervorosa, com um dos médicos, ele nos disse que eles não tratavam daquilo naquele hospital. Achei estranho, afinal quem não trata uma diarreia? Mas após visitar um segundo hospital e receber a mesma resposta na cara, percebi que: ou não existe conceito de clínico geral na China e os hospitais são bem especializados ou nós estávamos nos comunicando de forma muito errada.

Não deixe o andar sereno te enganar, esse homem estava nervoso pra caramba

O resultado disso foi que andamos um bom tempo na chuva (e eu nem preciso lembrar vocês da minha situação) igual umas baratas tontas por partes nada bonitas da cidade.

No fim achamos um hospital bem grande em que conseguimos nos entender e entrar nas engrenagens do sistema de saúde chinês. É confuso, mas funciona. Tem um guichê no lobby do hospital que você precisa visitar para pagar por tudo que quer fazer, por exemplo: para fazer uma consulta você paga antes e depois sobe até o andar do médico e espera sua vez, aí se o médico pede exames você volta para o guichê, paga, e aí vai fazer os exames, se depois precisar comprar remédios é a mesma coisa.

Esperando a consulta

E foi exatamente por isso que passamos, mas no fim foi tudo até que rápido e eu completei todo o processo no hospital mesmo – fui ao médico, fiz o exame de sangue menos higiênico da minha vida, o resultado saiu rápido e já passei para outra consulta. No fim comprei os remédios indicados e corremos para a estação de trem.

Conseguimos chegar a tempo, os remédios fizeram efeito e eu não passei mal durante a viagem sobre trilhos. Não passei mal, mas passei fome, pois só estava comendo uma maçã por dia ainda.

O tal do exame de sangue

Foram uns dias bem ruins, mas já que eu não conseguia fazer quase nada, pelo menos assistimos Missão Impossível no cinema ao lado do hotel. Foi a primeira vez que fomos ao cinema na viagem. Tudo tem um lado bom.

Antes de me despedir gostaria de falar sobre um fenômeno chinês que já tinha visto na internet, mas que foram bacanas de presenciar ao vivo. Principalmente em Pequim e Xangai.

O mercado chinês tem fama de produzir cópias, certo? Mesmo que a cópia seja tão ruim que não parece em nada a coisa original (os famosos bootlegs). Então, aqui você encontra a galera na rua com umas roupas sensacionais (sei que não é só com roupa que acontece), já vi marcas como:

– Diordio Armani

– Girgio Armanu

– Givencho Paris

– Givenchy ParLs

– Yvo Saint Lauren

– Suprem

– Superme

– Supren

– E qualquer coisa que pareça o logo da Supreme. Os caras amam essa marca e tem uns vestuários em que nem parece que tá escrito Supreme. Sério, se alguém colocar CARAPICUÍBA em um retângulo vermelho numa camiseta branca vai vender igual água na China.

O legal sobre essas cópias bizarras é que vi tanto em bairros mais pobres quanto em locais mais nobres, ou seja, a falsificação não conhece barreiras sociais por aqui.

Não que eu ligue pra marca que o pessoal tá vestindo na rua, afinal eu ando com a mesma camiseta três dias seguidos e tenho apenas dois shorts, mas achei uma informação divertida de se compartilhar. Caso você tenha achado essa parte do texto uma perda de tempo pode ligar para meu celular e registrar sua queixa.

E é com essa frase mal criada que me despeço de vocês.

O próximo capítulo é sobre o maravilhoso parque de Zhangjiajie e uma de nossas maiores aventuras da viagem.

Beijos quentes

SE INSCREVE AQUI QUE DÁ TRABALHO