Vietnã ou o tiozão em Ha Long Bay

Podem sorrir amigo(a)s internautas, voltei de um dos círculos do inferno para trazer a sua dose semanal de sombras e perrengues. Tenha em mãos seu veneno de preferência, isole-se do mundo por uns três minutos e acompanhe mais uma dose de decisões precipitadas e burrices corriqueiras.

Ha Long Bay é o bitcho

No último post descrevi como tocamos o terror de moto nas montanhas vietnamitas, mas infelizmente nossa aventura com aroma de gasolina e motor 100 cilindradas ali perto da China terminou e após mais uma jornada nauseante em estradas sinuosas, vans apertadas e em um ônibus leito que foi redecorado com vômito por um pobre garotinho local, chegamos em Hanói.

Já era quase ano novo e precisávamos estar na capital, pois fechamos, junto com uma amiga da Marina que estava de férias no Vietnã, um cruzeiro em Ha Long Bay, um dos destinos mais turísticos do país. É um lugar surreal, apesar de super visitado. Um verdadeiro labirinto formado por milhares de grandes rochedos de calcário que emergem do mar cor de jade e criam desenhos únicos na água junto com piscinas naturais, ilhas e cavernas misteriosas. São como restos de uma antiga cidade perdida que foi parcialmente inundada. Ruínas do fantástico. Escombros de um lugar que existe só na imaginação. Bom, deu para perceber que visualmente o lugar é incrível e que eu me empolguei na minha descrição.

Mas voltando ao relato – ainda em Hanói pegamos o ônibus da nossa excursão (sim, era uma excursão) e partimos pro cruzeiro. Cruzeiro esse que era um daqueles “barco festa”, com bastante comida boa e gente querendo farrear. Não necessariamente nossa clima, mas para comemorar o ano novo valeu a pena e foi divertido.

Nosso grupo era formado por jovens de todas partes do mundo que tinham como objetivo encher a cara. O ambiente todo cheirava a “festa de faculdade”, inclusive o guia designado para tocar nossa horda de selvagens em ponto de ebulição, o simpático Crazy K. Sim, o guia se autodenominava Crazy K, o que eu achei bizarro, afinal ele pegou um nome que ele usaria como apelido em algum jogo de videogame ou se ele fosse parte de uma gangue de rua e transportou para a “vida real”. Talvez eu esteja filosofando demais sobre a alcunha do nosso querido mestre de cerimônias, mas algo não parecia estar certo ao falar em voz alta “Crazy K”. Tente você aí na sua casa, fale “Crazy K” e veja se soa legal. Não soa. Eu chamava ele só de K, o que era falta de educação, porque ele não queria ser chamado assim, mas eu me recusava a entrar nessa bolha fantasiosa maluca que todos estavam compartilhando ali na costa do Vietnã. É complicado ser mais retraído que o professor Pasquale e mais cheio de noias que aquela sua tia viciada em vinho Chapinha e remédio tarja preta.

Crazy K dando seu show

Mas mesmo com toda essa dureza de espírito eu me diverti.

Só o tempo que estava horrível, frio demais (quase zero graus) e cinza. O barco ainda era quente e confortável, mas isso se limitava a seu interior. O cruzeiro dispunha de uma série de aparatos para atividades divertidas, como caiaques, boias, jacuzzis e etc… Mas o clima congelante atrapalhou o aproveitamento disso tudo. Atrapalhou, mas não impediu. Boa parte da turma fazia qualquer coisa para se divertir, então quando percebi que aqueles quase adolescentes malucos estavam nadando no mar gelado me juntei a turma e, tomado (por osmose) de uma adrenalina juvenil, resolvi fazer o que eles estavam fazendo, que era pular do segundo andar do barco (que era bem alto) na água fria. Subi, me preparei, olhei, vi que era bem mais alto do que esperava, tremi, cogitei voltar, mas não podia decepcionar minha jovem turma, por isso pulei. Pulei com medo, mas pulei. Não foi o pulo mais bonito do mundo, mas pulei. Até que gostei da experiência, confesso, gerou uma sensação boa que depois me deu gás para tentar outros “cliff jumps” pela viagem, mas claro que o tiozão atrapalhado aqui caiu meio torto na água e machucou o braço, coisa de velho querendo se enturmar. 

Enquanto a Marina brincava de Rose..
…eu me tremia todo antes do pulo

Mais triste que minha queda da embarcação foi o que eu vi quando voltei a bordo: a jacuzzi grande e sensual que ficava na parte baixa, quase no mar, estava lotada. Cheia. Entupida. De homens. E eu tenho quase certeza que 80% deles eram héteros e estavam apenas esperando algo de erótico rolar ali. Uma verdadeira sopa de testosterona, testículos, álcool e falta de dignidade. Obviamente nenhuma mulher do grupo quis entrar ali. 

Brasil e Índia

A noite de ano novo veio, passou e nós acordamos com uma leve ressaca e uma nova amizade com um divertido grupo de indianos. O segundo (e último) dia do passeio também foi arruinado pelo clima glacial, e olha, poderia ter sido incrível. Digo isso porque passamos o dia e a noite em um alojamento em uma mini-ilha particular no meio da loucura visual que é Ha Long Bay. Um lugar escondido, recluso, com direito a praias exclusivas, rede de vôlei, churrasqueira e até uma bolinha de futebol para os mais talentosos. Teria sido incrível com sol e calor, mas o universo nos mandou um céu com cor de TV sem sinal e ventos dignos da região mais hiperbórea da Suécia. Aproveitamos a praia com nossos casacos de neve, que compramos para usar no Nepal. Você sabe que um dia é triste quando nem a vontade de tomar cerveja aparece. Mas foi bom, mesmo não sendo incrível. 

A ilhazinha particular
E como curtimos ela

Depois disso o que nos restou foi voltar para Hanói. Até tínhamos planos de explorar mais algum outro ponto do país, mas resolvemos aproveitar bem a capital, comer umas coisas diferentes e economizar um pouco. Ficamos naquela efervescência maluca de motos, luzes e gente do mundo todo. Hanói é demais.

As estranhezas de Ha Long Bay

Tínhamos prazo para sair do país, pois precisávamos partir para o Camboja, onde fizemos trabalho voluntário e eu finalmente pude espalhar minha ideologia anarquista para pequenas mentes em formação (dei aula de inglês). Na verdade estava bem nervoso quanto a esse capítulo da nossa viagem, mas isso é assunto para um próximo post. 

Beijos quentes

Vietnã ou os Hells Angels de Ha Giang

Já vou abrir com uma foto do caminho entre Dong Van e Meo Vac porque esse post tem muita imagem

Olá, amantes do fracasso. Mais uma vez dou as boas-vindas para aqueles que sabem que basta existir para que alguma coisa dê errado. Bom, mais errado que esse blog não há, por isso aproveite estes momentos raros em que você se depara com algo mais decrépito que as decisões que você tomou ao longo dessa vida.  

No último post estávamos em SaPa, no noroeste do Vietnã, onde fizemos uma trilha incrível e eu ingeri mais álcool do que estava planejando. No dia seguinte a um dos natais mais estranhos de todos os tempos continuamos nossa viagem, ainda pelo lado “de cima” do país, até Ha Giang.

Claro que andar pra lá e pra cá em terreno montanhoso nunca é fácil e isso é mais complicado ainda no sudeste asiático. Enfrentamos mais uma jornada de algumas boas horas (quase 5) em uma van apertada e com um motorista que jamais passaria no exame psicotécnico no Brasil. Foi chacoalhão de lá pra cá e de cá pra lá a viagem inteira, tudo em um veículo em que o limite máximo de pessoas foi devidamente desrespeitado. Imagine uma lata de sardinhas. Agora imagine essa lata sendo jogada pra cima e pra baixo e pros lados e pra trás por um criança birrenta que gosta de ouvir música vietnamita. Foi mais ou menos assim nossa viagem. Pelo menos resistimos bravamente e ninguém vomitou. 

Uma das inúmeras “vans da morte” descritas nesse post

O engraçado é que as vans por aqui não são apenas transporte, mas fazem também o papel de correio. Mais de uma vez, enquanto passávamos por algumas vilas, o motorista parava para receber um pacote que ele deixaria em outra vilazinha mais pra frente. E claro que essa de receber e transportar mercadorias diversas só deixou o ambiente agradável da van ainda mais apertado. Imagine uma lata de sardinhas sendo jogada pra lá e pra cá. Agora imagine essa lata sendo aberta, alguém colocando objetos diversos dentro e fechando novamente (sem tirar nenhuma sardinha). Foi gostoso. 

Após essa epopeia motorizada chegamos à Ha Giang (a cidade, que tem o mesmo nome da província). Passamos apenas uma noite lá, pois o crème de la crème da região é fazer algo chamado loop, que consiste em pegar as estradas que sobem as montanhas até quase a fronteira com a China, conhecer as vilas pelo caminho, voltar para Ha Giang e curtir o cenário no caminho. Realmente é um lugar lindo e que me surpreendeu. Achei que SaPa já tinha me deixado acostumado com as belezas dos vales e colinas do Vietnã, mas Ha Giang é diferente. Mais selvagem, verde, menos turística e com montanhas que desrespeitam qualquer tentativa de padronização da natureza – são grandes espinhos saindo da terra em ângulos impossíveis, colossos de rocha escura que nos fazem sentir pequenos e impotentes. A região toda é uma grande cicatriz na pele do planeta. Normalmente quem faz o loop aluga uma moto e fica de 3 a 4 dias explorando as estradas e parando nas vilas que se espalham pelas montanhas. Não foi nosso caso, pegamos uma época de muita chuva e neblina e não rolou a segurança para montar em uma motocicleta e rasgar estradas pelos penhascos (estradas essas de boas condições, mas estreitas e cheias de curvas). No fim subimos até a vila mais ao norte da região, Dong Van, de transporte público. Foi ruim. Foi mais um trajeto em que quase largamos nossas tripas pelo assoalho fedido da van, mas também foi bom ter evitado a aventura sobre duas rodas pois a estrada se mostrou um pouco traiçoeira e infestada de motoristas imprudentes. 

A vista do forte francês de Dong Van

Apesar da náusea causada pelo amigo motorista, o caminho foi lindo e peculiar. Dong Van também  um lugar muito interessante, com praticamente uma rua principal a vila é cheia de hostels e cafés, embora quase não tivesse turistas lá (acho que visitamos muito fora de temporada). Muitos dos visitantes que encontramos eram do próprio Vietnã, e é sempre legal conhecer um local que não é só pra “gringo ver”. A vila fica em um platô no alto do emaranhado de rochas que domina a região, e esse platô é também cercado pelos espinhos geológicos que já descrevi. Um pequeno vale verde e vivo  entre um deserto marrom escuro. No alto de uma das montanhas que vigia a vila ficam as ruínas de um antigo forte francês, um passeio rápido e interessante que fizemos logo no dia em que chegamos. Vale a pena visitar Dong Van, o lugar é demais. 

Hells Angels

Ficamos três dias nas alturas vietnamitas e no segundo dia alugamos scooters por algumas horas para ir até Meo Vac, uma vila próxima, e voltar. Nos disseram que esse era o trajeto mais embasbacante do loop e aproveitamos um dia de sol para conferir. O trecho que rodamos tem pouco mais de 20 km (para ir e depois mais 20 km para voltar), mas apesar da distância quase inexistente demoramos mais de 4 horas para completar a jornada, desconfio que as paradas para tirar fotos do cenário singular foram a causa dessa demora. Claro que quando subíamos nas motos o asfalto gritava, parecíamos dois membros expatriados dos Hells Angels dedicados a tocar o terror em solos asiáticos. Curvas perigosas feitas de forma imprudente, brigas pelo caminho, bebedeira e muita velocidade. Claro que tudo isso só aconteceu na minha cabeça, pois nossas motinhos não passavam de 40 km/h nem com ajuda divina e nós, bem, acho que nós não somos tão radicais quanto eu imagino. 

Saca só como a estrada serpenteia a montanha
O belo rio que nos acompanhou por boa parte do trajeto

Mesmo assim foi um dos dias mais divertidos da nossa viagem, apesar do frio. Subimos montanhas, andamos na beira de precipícios, acompanhamos um rio cor de jade que domina o vale entre as duas vilas, nos enfiamos em plantações e demos tchau para muitos vietnamitas. Deu vontade de voltar alguma outra vez pro Vietnã, comprar uma moto (melhor que uma scooter) e conhecer o país de norte a sul, desta vez levando a sério o estilo de vida motoqueiro.

Os mistérios do vale

No dia seguinte a nossa aventura regada a gasolina fizemos uma trilha (a pé) de uns 14 km rodeando a montanha em que a vila de Dong Van fica. Durante nossa caminhada o tempo fechou e o céu escuro deu ares de que uma tempestade de proporções bíblicas estava por vir. A temperatura, que já não estava lá essas coisas, caiu muito, chegando quase perto de 0 graus (aliás foi um frio totalmente inesperado para nós, que esperávamos pegar um tempo desses apenas no Nepal). Com a chuva veio a neblina e o nosso trekking fico com um clima fantasmagórico. Apesar de atrapalhar a contemplação do cenário (era muito neblina, só enxergávamos apenas uns 3 metros a frente), isso deixou o dia mais divertido e com tons de filme de terror. Eu não me surpreenderia se a qualquer momento um exército de homenzinhos verdes tentassem nos abduzir ou uma horda zumbi aparecesse correndo entre as árvores. Importante notar que eu estaria preparado lidar com qualquer um desses cenários, por isso estava tranquilo.

Marina e o cenário nebuloso

Foi um trajeto sereno, tranquilo, em que o único barulho eram as gotas caindo na vegetação da montanha e meus gritos de desespero toda vez que eu quase escorregava na lama que dominou o chão. Passamos por alguns povoados simples, mas a trilha foi quase toda nossa, muito provavelmente porque ninguém é besta o suficiente para sair com o tempo pouco convidativo que imperava no céu. Em dado momento, no auge da neblina, encontramos uma senhora passeando calmamente entre sua plantação, segurando uma foice com a mesma tranquilidade que meu tio Tobias segura uma Itaipava. Se ela não tivesse uma aparência tão amigável confesso que ficaria com medo. 

Vontade de abraçar… exceto pela foice

Bem no fim do caminho a neblina finalmente se dissipou e fomos presenteados com uma visão incrível do vale de Dong Van, ainda semi-imerso em brumas e cercado pelos mais variados tons de verde, todos acentuados pela chuva que tinha cessado. Foi o auge desse nosso passeio frio e bucólico, que martelou mais uma vez em nossas mentes a importância da simplicidade e de um bom casaco.

O verde após a chuva
Dando tchau para a neblina

Nesse dia ainda caímos, sem querer, em uma festa de aniversário local com direito a cantoria e mais vinho de arroz. Estavámos lá bem tranquilos no nosso restaurante favorito da cidade, que é propriedade do dono de alguns hostels da vila, quando percebemos uma movimentação estranha na mesa ao lado. O dono e sua família estavam comemorando o aniversário de sua esposa com vários convidados, uma comitiva animada que logo ficou ainda mais animada devido ao álcool. No fim nos chamaram (e também outros turistas) para festa, que tinha karaokê de YouTube e bebida liberada. Tivemos que cantar “Ai se eu te pego” levemente embriagados enquanto a aniversariante, já devidamente enebriada, se derretia de amores pela nossa performance. Coisa de quem gosta de representar bem o Brasil no exterior. Isso porque no nosso tempo em Dong Van também pegamos a celebração adiantada de ano novo deles (isso foi uma outra noite), uma apresentação de diversos cantores amadores na praça central da cidade. Foi uma noite fria, animada e de pouco talento. Quem disser que não existe agitação nas montanhas do Vietnã não sabe do que está falando.

Mais um pequeno passeio em uma van da morte (com a estrada toda tomada pela neblina) e estávamos novamente em Ha Giang. Foi assim que acabou nossa estadia na região norte do país e para voltar para Hanói enfrentamos uma maratona de vans apertadas, ônibus intermunicipais imprudentes e uma série de enjoos e náuseas. Ufa. 

Um encontro inusitado durante a trilha

Retornamos para a capital quase no ano novo, pois durante as festividades iríamos conhecer as belas (e lotadas) águas de Ha Long Bay. Mas esse é o assunto do próximo post. 

Beijos Quentes

Vietnã ou o capítulo do Excesso de Vinho de Arroz

Esse relato cobre eventos de 19/12/2018 a 25/12/2018

Isso aí é normal no Vietnã

Olá, moradores do grande limbo cósmico chamado planeta terra. Estamos no fim de mais um movimento de rotação do nosso planeta (ou começo, sei lá quando você vai ler esse post) e nada melhor para acalmar a alma do que ler sobre as desventuras e percalços de pessoas que foram se aventurar por essa grande esfera maluca. Sim, eu disse esfera. Ou melhor, geoide. Aqui é uma blog livre de terraplanistas, se você acredita que nosso planeta é achatado por favor feche seu computador e vá ser feliz dentro da sua imaginação perversa. Ou não, eu gosto de ter leitores. Fica aí, meu chapa. 

No último relato descrevi nosso preguiçoso tempo por Luang Prabang, a famosa CIDADE GOSTOSA. Um lugar lindo, calmo e bom para comer, a base da felicidade para qualquer casal adepto da inércia como nós. 

Como vocês podem imaginar foi difícil dar tchau para Luang Prabang, principalmente porque para ir embora de lá pegamos um avião que parecia saído do Caçadores da Arca Perdida e confesso que, pela primeira vez na vida, fiquei com medo de voar. Pelo menos a tarde estava linda, um pôr do sol estarrecedor acompanhou nossa decolagem e deixou todas montanhas em torno da cidade douradas, o último presente de Luang Prabang para nós. Um bom dia para presenciar uma pane nas hélices do avião, cair no coração da selva e ter que comer os passageiros mortos para sobreviver. Se fosse para acontecer uma desgraça, melhor que acontecesse em um cenário bonito. 

Felizmente isso não ocorreu e após o paradoxo tempo de 60 minutos chegamos em Hanoi, Vietnã. Para nossa surpresa o tempo estava mais “fresco” do que considero confortável, um prelúdio para o que estava por vir na nossa jornada. 

Hanoi é um caos apaixonante. Uma mistura louca de scooters, buzinas, carros, cafés e pessoas do mundo todo. Sempre em movimento e sempre com algo para ver. Acho que senti aqui o que esperava ter sentido em Bangkok, aquele clima “sujeira underground interessante”. Para começar nada diz melhor “bem vindo à Hanoi” do que quase ser atropelado por uma moto. O trânsito é intenso e maluco, as calçadas existem apenas para estacionar scooters e semáforos são meramente decorativos. Atravessar a rua aqui é o maior ato de fé que praticamos na viagem – você pisa no asfalto e de repente se vê cercado de vietnamitas motorizados por todos os lados, me senti como Simba fugindo dos antílopes, búfalos ou o que quer que fossem aquelas animais que participaram de maneira robótica no assassinato de Mufasa (RIP). Claro, depois de um tempo a loucura acostuma e aí não é preciso nem olhar pros lados para atravessar uma rua, porque você sabe que a turma vai desviar, o movimento do trânsito lá é quase como um fluxo orgânico que sabe sempre encontrar seu caminho. Apesar de ser mais seguro do que aparenta ainda classificaria “ser pedestre em Hanói” como esporte radical. O Vietnamita tem uma habilidade com a scooter que é digna de nota, praticamente são os mongóis do séculos 21, só que invés de fazerem tudo em cima de cavalos usam motores de até 110 cilindradas. Sei que em diversas partes da Ásia a motinho é o principal meio de locomoção, inclusive na Tailândia e Laos por onde já tínhamos passado, mas mesmo assim elejo o Vietnã como a terra suprema da imprudência e habilidade sobre duas rodas. Talvez apenas os indianos consigam competir com os vietnamitas.

Hanói é uma cidade grande, com muito cinza e um bairro turístico chamado Old Quarter que é um chamariz para almas noturnas a procura de diversão. Bares, boa comida, uma explosão de luzes neon e aquela sensação de que alguma coisa inusitada está sempre a espera dentro das portinhas apertadas dos inúmeros estabelecimentos duvidosos de entretenimento. Vimos algumas poucas heranças da guerra: o museu, a prisão e restos de equipamentos americano pelas ruas, como tanques e caças, mas não visitamos esses lugares (sem falar que o quebra-pau nem chegou tão ao norte assim).

A beleza peculiar de Hanói

Achei uma cidade interessante de se visitar a pé, inclusive achamos um lugar (sem querer) que depois descobrimos ser bem turístico, são os trilhos de uma linha de trem que corta o meio da cidade. Existem diversos bares e cafés ao longo deles, bem coisa de hipster. Também existem milhares de casas amontoadas uma em cima das outras, um acúmulo vertical de concreto que acompanha a linha. Passamos nosso fim de tarde por lá e a Marina deixou uma marca permanente no local, pois pisou em toda uma passagem recém cimentada por um velhinho que quase surtou quando viu ela sapateando em cima do trabalho dele recém terminado. Claro que isso foi sem querer, mas o senhor não quis nem saber e começou a gritar para nós dois que por puro instinto nos mandamos de lá. A Marina estreou o que ainda irá se tornar a famosa calçada da fama de Hanói.

A linha do trem 1
A linha do trem 2

Depois de uma curta estadia na cidade partimos para Sapa, uma cidade bem ao norte do Vietnã, na região montanhosa do país. Para chegar lá pegamos um busão “leito” que nunca tinha visto na vida, nele o assento já é uma espécie de cama, algo estranho, mas confortável (se você não for muito alto). Pegar ônibus, van ou qualquer outro transporte terrestre pelo país é uma aventura, principalmente na região das montanhas, que é dominada por estradinhas estreitas e sinuosas. Digo isso pois os vietnamitas preferem usar a buzina ao freio.Impossível manter a conta do tanto de barbaridade motorizada que vi por lá.

Depois de uma boa dose de desconforto, dor, uma dose de bílis na garganta e paisagens exuberantes chegamos em Sapa, uma espécie de Campos do Jordão vietnamita. Isso se Campos estivesse em eterno estado de construção e fosse dominada por chineses. Não me levem a mal, a cidade fica em um lugar muito bonito, uma região cheia de vales e desfiladeiros, e ela própria é charmosa. E também bem turística. Até que gostei de Sapa, embora o frio estivesse apertando, mas nosso objetivo lá era fazer um trekking pelos vales e montanhas nos arredores da cidade, coisa que começamos no dia seguinte.

Os caminhos de Sapa

Nosso passeio foi um trekking de 3 dias e 2 noites e fomos com uma guia local, moradora das inúmeras vilas que ficam espalhadas pela região. Estávamos no extremo noroeste do país, um lugar que abriga 5 tribos nativas diferentes (com costumes, roupas e idiomas diferentes) e passamos por vilas de várias delas pelo caminho, foi muito bacana. Pegamos um tour privado, mais caro, mas que seguia uma rota bem menos utilizada por agências turísticas e valeu a pena, senti que passamos por locais bem autênticos e como eu adoro andar, fazer trilha é uma das atividades que revive o velho “espírito de aventura” de que tanto gosto de sentir. Não sei explicar, mas parece que vagando por aí tenho a impressão de estar interagindo com a natureza e os ambientes que visitamos. Aliás, que cenários incríveis. Atravessamos terraços lamacentos de arroz, trilhas que rodeavam montanhas e desfiladeiras, florestas de bambus e vales que dormem à sombra do monte Fan Si Pan, a montanha mais alta da Indochina. Em um desses vales, no nosso segundo dia de caminhada, senti uma alegria e paz que há muito tempo não sentia, foi uma avalanche bucólica que me deixou leve e calmo. Foi um momento de quase parar no tempo, a realidade consistia apenas de  nós três e o sons da natureza deslizando por um corte em meio às montanhas do Vietnã. Desculpe o lapso poético aqui, prometo que nunca mais irá acontecer.

Esse vale era demais

Outra ponto que gostei muito do passeio foi que dormíamos em casas de locais e fazíamos refeições com eles. Os lugares eram simples, porém acolhedores, e a primeira noite foi memorável, pois o anfitrião da casa (que não falava uma palavra de inglês) me encheu de vinho de arroz, ou como eles chamam aqui, happy water. Foi divertido e um pouco tenso ter que virar muitos shots daquele negócio com um gosto bem mais ou menos, mas seria falta de educação recusar, ainda mais porque os anfitriões estavam recebendo um amigo. Mas deixa eu elucidar aqui, não é que foram 2 ou 3 shots. Nem 4 ou 5. Nem 6 ou 7. Foram mais de 10 shots (não lembro quantos exatamente) de um destilado potente. Olha, o pessoal teve sorte que eu não vomitei todo frango e rolinhos primavera que tinha comido, porque as chances eram altas. Consegui me segurar, não passei vergonha e apenas fiquei vermelho como meus companheiros de bebedeira. Passei no teste e agora já posso integrar qualquer exército revolucionário do norte do Vietnã. Enquanto isso a Marina conversou muito com nossa guia e a nossa anfitriã, as únicas que falavam inglês no local e ambas de tribos diferentes. Ela pode entender em primeira mão como os povos das montanhas se viram de tudo quanto é jeito para sobreviver e mandar os filhos para as escolas, mesmo quando não é temporada de colheita de arroz. Foi uma experiência profunda culturalmente e enquanto isso eu só estava me afogando em álcool e decisões ruins.

Rapaz….

Interessante que depois do jantar todo mundo senta perto do fogo usado para cozinhar, que faz vezes de lareira, e conversa um pouco. Nessa noite apenas eu e a Ma estávamos no homestay, por isso interagimos bastante com a família da casa, todos da tribo Red Dzao. Nossa guia (a querida Mu), por exemplo, é Hmong e mora apenas alguns quilômetros de distância de onde dormimos. 

E essa foi a tônica do trekking todo. Cenários incríveis, situações inusitadas (até por um velório passamos), contato local (aparentemente) autêntico e aquela mistura gostosa de frio e suor que deixa qualquer um que não está com as doses de Energil C em dia resfriado. Demos uma baita sorte pois fizemos a trilha antes do tempo virar um amontoado de nuvens cinzas, temperaturas perto de 0 e tristeza. 

Boa companhia

Voltamos pra Sapa no dia 23 e decidimos ficar duas noites na cidade pra relaxar um pouco e comemorar o natal. Não conseguimos, pois na véspera da festa do bom velinho ficamos conversando com a família por ZAP e quando saímos para comer tudo já estava fechado na cidade, menos uns poucos bares, por isso tomamos uma cerveja com valor exorbitante e jogamos truco. Um brinde às tradições natalinas.

Depois de Sapa decidimos continuar pelo norte do país, mas dessa vez fomos para uma região um pouco mais central e bem perto da fronteira com a China, a província de Ha Giang. Nossa viagem até lá foi conturbada, como são todas viagens em vans apertadas na Ásia, mas isso é assunto para o próximo post. Não perca nossa aventura de moto por penhascos vietnamitas.

Beijos quentes

Laos ou nosso Apocalypse Now particular

Esse relato cobre os eventos de 12/12/2018 a 18/12/2018

Olá amigos e amigas desse limbo chamado de existência. Do mesmo jeito que ninguém pediu para nascer e ser um escravo da rotina, também ninguém pediu por mais um capítulo desse blog purulento, mas mesmo assim cá estou com atualizações da minha desajeitada jornada. 

Os perigos do Mekong

Os intensos e fantásticos dias no retiro de meditação foram praticamente nossos últimos na Tailândia. Saímos de lá fortalecidos mentalmente, mas ao mesmo tempo duas figuras patéticas e moídas, ou seja, precisamos de um dia de descanso para não pensar em nada e se esparramar em uma cama. Ou seja, um dia de Netflix e comidas congeladas do Seven Eleven. Nada como lixo cultural e alimentício para resgatar a sanidade e boa forma de um ser humano. 

Praticamos essa sessão relaxamento em um hotel fuleira em frente a rodoviária de Chiang Mai. Foram apenas poucas horas de “spa”, menos de um dia, mas deu para recuperar um pouco a força vital necessária para seguir viagem. De lá pegamos um ônibus até Chiang Rai, ônibus esse que obviamente quebrou no caminho, e aí pegamos outro veículo, bem mais decrépito e muito mais interessante, até Chiang Kong, uma das cidades que são pontos de travessia para o Laos. 

Chegamos na fronteira de noite quando o movimento era quase nulo, fora nós apenas alguns laocianos que aparentemente tinham ido fazer compras na Tailândia passavam pela fronteira. A situação era tão tranquila que os guardas do posto de comando tailandês estavam ocupados com um furioso torneio de tênis de mesa. Alguns usavam até uniforme. A Tailândia é um país tão único que até a turma que cuida das travessias internacionais se diverte durante o trabalho (e não venha você me dizer que ficar em um posto de entrada e saída de pessoas é algo divertido). Esperamos algum tempo no escuro, meio sem saber o que ia acontecer, até um bólido surgir das sombras, nos cobrar uma pequena fortuna e nos levar por míseros 2 quilômetros até o posto de fronteira do Laos. Lá tivemos que acordar o rapaz encarregado dos vistos, algo que não o deixou muito feliz, mas mesmo assim ele nos concedeu entrada para seu maravilhoso país. Finalmente estávamos em Huay Xay, no Laos. 

Huay Xay fica a beira do Mekong, talvez o mais famoso rio do sudeste Asiático, e nosso plano era ir de barco até Luang Prabang, nosso único destino nessa pequena nação. 

Nosso transporte até Luang Prabang

Já era bem tarde quando chegamos à cidade e após uma experiência estranha em uma guest house que mais parecia um matadouro e que nos apresentou um quarto tão limpo quanto a consciência de Paulo Maluf finalmente achamos um hotelzinho acessível e bem perto do porto de onde saíam os long boats, aqueles barcos enormes e estreitos que cortam as águas lamacentas do rio. 

Acordamos prontos para nossa aventura aquática, ou como eu gosto de pensar, nosso Apocalypse Now particular. Sei que o filme se passa no Vietnã e no Camboja, mas o mais próximo que eu iria chegar de desbravar aquela parte do mundo em um barco seria ali no Laos, por isso fui atrás do meu Coronel Kurtz em Luang Prabang. A diferença é que nosso trajeto foi calmo e idílico, não uma jornada violenta em direção às insanidades da guerra. 

E que experiência gostosa esse passeio de barco. Foram dois dias e uma noite cruzando o Mekong e observando as pequenas vilas que ficam à margem do rio, os templos perdidos nas colinas e a deslumbrante e densa natureza do Laos. Que país verde e bonito. Apesar do transporte fluvial ser comum por aquelas partes do mundo o nosso barco estava ocupado quase que exclusivamente de turistas. Eram jovens e velhos dos mais variados estilos. Alguns matavam o tempo lendo, outros bebiam (cerveja quente), alguns jogavam e a maioria se irritava com a música alta de balada que o dono da embarcação insistia em colocar. Mal dava para escutar os próprios pensamentos

Dona Marina curtindo um vento na cara

Pernoitamos em uma cidade pequena, de apenas uma rua, mas que se fez agitada pela horda de viajantes que chegou pelo rio. Comemos em um restaurante tradicional simples, mas muito gostoso, e com o menu mais estilosos da história, todo feito a mão. Também ficamos em um dos hotéis mais baratos da viagem toda. Não lembro exatamente quanto foi, mas lembro que foi muito barato, por isso acredite em mim que o negócio foi barato. Foi e barato e pronto, ok? No dia seguinte, após mais algumas horas no rio, chegamos a Luang Prabang, onde ficamos apenas alguns dias antes de seguir para o Vietnã. Estava terminada a nossa experiência Apocalypse Now. Não achamos nenhum herói renegado bancando o semi-deus e não fomos atacados por nativos, mas pelo menos fizemos uma travessia em um rio asiático barrento e chegamos de forma estilosa no nosso destino. Talvez uma das últimas vezes que isso ainda possa acontecer, pois hidroelétricas financiadas pelo governo chinês podem mudar a rota do Mekong para sempre.

Uma cidade verde

Luang Prabang é uma das cidades mais gostosas que visitamos em toda a viagem. Um lugar de ritmo lento, charme colonial, comida boa e preços acessíveis. Cercada por colinas e muito verde, parece uma verdadeira jóia perdida no meio da floresta. É uma cidade linda, com certeza, mas vale lembrar que estou aqui dando a minha visão de turista que não passou muito tempo no lugar. Mesmo pelas nossas rápidas andanças visitamos bairros menos turísticos e bem menos privilegiados. Sei que o Laos não é um país com grandes condições de vida, aliás é um lugar que sofreu e sofre muito na mão de nações mais poderosas (é o país mais bombardeado da história). Em certas horas é estranho dizer que tal lugar é incrível e imperdível sem saber como é a verdadeira realidade local, o quanto o povo nativo sofre e o quanto a realidade do turismo é como uma frágil camada fantasiosa maquiando uma vida bem mais dura. Enfim, esse é um pensamento que surge e surgiu em quase todos os lugares que passamos, mas como não dá para mergulhar nessa escura piscina filosófica agora vale lembrar que mesmo com esse grande  “porém” em mente aproveitamos demais nosso tempo por lá. 

A vida por lá

O que mais fizemos em Luang Prabang foi comer e descansar.. Estávamos em ritmo lento, com a preguiça imperando, mas mesmo assim até que exploramos bastante pela cidade, apenas não fizemos grandes e emocionantes programas. Visitamos o pequeno, porém muito charmoso, mercado noturno, subimos a colina chamada de Monte Phousi para ver, junto com mais todos turistas presentes no Laos, o sol escorrer no horizonte entre o Mekong e as montanhas que rodeiam a cidade. A Marina foi presenciar a ronda das almas (que ela diz ter sido bem sem graça devido ao excesso de não locais entupindo a passagem dos monges) e fomos até as cachoeiras Kuang Si, um espetáculo hídrico em tons de turquesa.

As cachoeiras ficam um pouco afastadas de Luang Prabang, por isso tivemos que fechar um pacote com o hostel e pegar uma das inúmeras vanzinhas irresponsáveis que levam turistas pra lá e pra cá pela Ásia. Era um dia úmido e frio, talvez não muito propício para visitar uma atração com água, mas era nossa única oportunidade de ir lá. Para chegar até as quedas d’água é necessário fazer uma pequena trilha em que se passa por um santuário de ursos negros asiáticos resgatados de contrabandistas e caçadores. Foi um momento de felicidade e emoção, pois nunca tinha visto um urso na vida. Tudo bem que esse urso negro asiático é um pouco estranho esteticamente e não tão parecido com grandes ursos que vemos na televisão, como uma versão falsificada QUASE parecida com a obra original. Imagine que um estrangeiro nunca viu um brasileiro na vida e ao invés de conhecer a Gisele Bündchen acabe me conhecendo. Sou desengonçado e peculiar, mas ainda sou brasileiro, então está valendo. Enfim, o santuário me pareceu fazer um trabalho nobre e necessário, um pouco de vigilância e ordem em uma região em que isso não é a regra, especialmente relacionado ao ambiente.

Apenas uma parte de um complexo de quedas estonteante

A Kuang Si é incrível. São diversas quedas d’água de uma cor quase difícil de imaginar que existe. Um turquesa claro, fruto de minerais, que dá uma sensação etérea para o lugar. Mesmo com o frio não resistimos e tivemos que interagir com esse paraíso, por isso nadamos nas águas congelantes da cachoeira. Foi praticamente uma farofada brasileira, pois só nós e alguns outros amigos viajantes nos arriscamos no azul gelado, coisa do pessoal sem noção lá das bandas da América do Sul. Valeu a pena conhecer esse espetáculo da natureza, mesmo que o dia não tenha sido dos melhores. Imagino as primeiras pessoas que descobriram essa cachoeira e puderam aproveitá-la no silêncio e na harmonia com a natureza que uma atração dessas merece, uma experiência surreal. Nós tivemos que conhecer o lugar junto de mais um bom número de pessoas espaçosas e barulhentas. Pode-se notar que eu não estava com muita paciência para outros seres humanos nessa parte da viagem. 

Difícil dar tchau para um lugar desses

E essa foi basicamente nossa estadia em Luang Prabang e no Laos. Tivemos que espremer essa visita entre Tailândia e Vietnã (o próximo destino), pois acabamos ficando mais tempo do que planejávamos em certos lugares e tínhamos prazo para entrar no Camboja para fazer nosso trabalho voluntário. Mesmo em pouco tempo foi um lugar que nos deixou uma ótima impressão e que queremos muito visitar de novo. Montanhas verdejantes do Laos, me aguardem. 

Beijos Quentes

Tailândia ou Medo e Delírio em Chiang Mai

Esse relato cobre os eventos de 27/11/2018 a 11/12/2018

“… and if you gaze long into the abyss, the abyss also gazes into you”

um alemão de bigode engraçado

Olá companheiros de caminhadas estranhas, volto da minha sombria jornada pelos cantos escuros da mente para a agraciá-los com este que será um “bottle episode”, ou para os que não estão acostumados com o jargão televisivo, será um episódio com budget menor que se passa quase que inteiro em apenas um lugar. Mas não se enganem, isso não quer dizer que esse será um relato inferior. Pelo menos espero que não, ainda não o escrevi pode ser que termine uma porcaria. Veremos. 

Em nosso último contato descrevi tudo que aconteceu até nossa última noite em Chiang Mai. O que aconteceu foi uma sequência simples de acontecimentos: apenas dormi, acordei, dormi de novo, perdi hora e fomos correndo pegar o ônibus local até o retiro de meditação. O monastério fica, teoricamente, em Chiang Mai, mas afastado do centro da cidade, cerca de uma hora de transporte público.

Mas calma lá. Como assim retiro? Meditar? Eu explico. O nosso grande objetivo ao nos dirigirmos para o norte da Tailândia era chegar até esse centro de meditação que nos foi indicado por um grande amigo. A ideia era mergulhar em um curso básico de 15 dias, seria uma experiência totalmente diferente para nós dois, pois ninguém do casal praticava meditação e muito menos sabíamos muito sobre Vipassana, a técnica que iríamos aprender. Foi uma das experiências mais aleatórias e pouco planejadas da viagem, e foi animal. E díficil. Quiçá a coisa mais difícil que fizemos. 

Nossos amigos monges

Chegamos alegres e vistosos como turistas devem parecer quando chegam para uma experiência de meditação, mal sabíamos onde estávamos nos metendo. 

Não quero passar a ideia errada, como já adiantei acima, foi sensacional e uma das coisas mais legais que fiz até hoje. 

Para os que não me conhecem direito preciso dizer que espiritualidade não é meu forte, mas tinha curiosidade pela prática e todos benefícios desse “controle da mente” (sei que não é o melhor termo, desculpem). Digamos que, para mim, essa jornada tinha muito mais de Doutor Estranho do que de Siddhartha. 

Bom, logo chegamos e já recebemos nossa introdução ao local. O retiro fica dentro do complexo de um monastério super antigo e um local sagrado para a região, por isso tínhamos que seguir à risca as regras dos monges. Ou seja, isso incluía seguir alguns códigos e mandamentos budistas, como dormir apenas 6 horas por dia (das 10h até às 4h), não comer nenhum sólido após meio dia (almoço era às 11h), não matar (nada, não só gente, mas também qualquer inseto, bicho, ácaro e o caramba), sem toque ou relações sexuais e por aí vai. Também não podíamos consumir nenhum tipo de entretenimento, como ler, escutar música, assistir Netflix e etc… essa era uma regra específica para quem estava em período de curso, pois os monges andavam pra lá e pra cá com o celular, aposto que devem ser todos otakus. Os professores do retiro também. Outra regra válida apenas para esse período de 15 dias era manter o máximo de silêncio possível, não era proibido falar, mas quase todo mundo ali estava em período de meditação e ninguém queria desfocar. Isso incluía não falar com a pequena Marina, minha bela cônjuge. 

Eu posso ter lembrado de algumas “regras” e esquecido de outras, mas um bom resumo é: podia meditar. O resto não podia fazer. 

E como meditamos. 

A dupla – Certeza que a Marina estava tirando um cochilo

Foi o maior “zero a cem” da minha vida, pois nunca tinha praticado de verdade. Você chega e já começa com “leves” 10 horas de meditação por dia. 5 horas de meditação andando e 5 horas de meditação sentado.  Você deve completar essas 10 horas em pequenos “rounds” de meditação, que começam com 10 minutos em pé, 10 minutos sentado e 20 minutos de descanso. A cada dia a prática é aumentada em 5 minutos para cada tipo de meditação, ou seja, no décimo dia você já estávamos fazendo 1 hora por “estilo” e totalizando um round de 2 horas. A porcaria do tempo de descanso nunca aumentou. 

Claro, a coisa não é tão rígida assim, e se eles percebem que você está dando seu melhor (e realmente levando a sério) tudo bem afrouxar o tempo da prática em alguns momentos. Mas eu sou eu, caxias que só, e quis fazer tudo certinho como o indicado. Quase morri. Acho que não ser tão duro com esse tipo de auto cobrança foi um dos meus aprendizados por lá.

Era tanta prática que não sobrava tempo para mais nada no dia, além de almoçar e tomar café da manhã. Nem dava para sentir muita fome ou desejar algum tipo de entretenimento. Claro, isso vem à tona, mas foi bem mais fraco do que eu esperava. 

Uma vez por dia eu encontrava a minha guia do retiro e trocava uma ideia. Era um momento bacana, pois apesar de todo mundo ter uma jornada diferente o guia sempre sabia mais ou menos em que estágio você estava do programa. Essa era também a maior interação que eu tinha com qualquer pessoa, tirando a foto do calendário com quem eu conversava às vezes no meu quarto. Sim, tinha um calendário com a foto de um monge importante lá e eu troquei muita ideia com ele, rapaz interessantíssimo. Agora pensando bem era melhor mesmo conversar com um senhor tailandês imaginário do que com a minha guia, afinal ao fim de cada bate papo ela aumentava meu tempo de meditação. 

“A Rafael mas como era a prática em si?” Calma lá leitor afoito, estou chegando nisso. Antes quero descrever meu quarto que compartilhei de forma injusta (ao meu ver), com formigas e mosquitos.

Eu fiquei no dormitório dos monges. Ou melhor, não era um dormitório, cada um tinha uma “casinha” individual. Tudo bem pequeno e colado. Uma espécie de conjunto habitacional budista. Era legal pois eu acordava com o mesmo gongo que os monges, assistia eles indo ao refeitório, andei com eles ao nascer e pôr do sol, vi pessoas oferecendo comida em troca de preces e o melhor, escutei todas funções corporais possíveis que um monge pode ter. Não são diferentes das dos outros humanos e eles não fazem questão nenhuma de esconder isso. Aliás tinha um monge que falava ao celular às 2 da manhã quase toda madrugada, devia ser meditação guiada por zap. 

Outro ponto importante sobre minha casinha era que ela era dominada por insetos que eu não podia matar, ou seja, qualquer tentativa minha de ter comida no quarto era frustrada por formigas. Mas aproveito para confessar que sem querer assassinei algumas dessas pequenas trabalhadoras ao comer um sucrilhos que estava empesteado delas. Como foi sem querer espero o perdão de Buda. Desde o primeiro dia tinha também um mosquito no meu quarto, acabei chamando-o de Jorge e convivi com ele até o fim do meu período lá. Até que o Jorge era bacana, não me picou muito.

Fora isso meu espaço ainda se reservava ao direito de não ter água quente e descarga. Mas, apesar de tudo, era limpinho e aconchegante (na medida do possível). 

O nosso canto (meu e do Jorge)

Enquanto eu vivia nessas condições a Marina ficou em uma casa do centro de meditação (não do Monastério) com varanda, ar condicionado, água quente e cozinha própria. Quem dizer que não existe divisão de classes dentro do complexo do mosteiro não sabe o que está falando. 

Último ponto descritivo que quero tirar do peito – todo mundo precisava andar de branco por lá, o que por horas me fazia pensar que eu estava em uma seita, apenas esperando o momento em que todos iriam tomar um chá especial para ascender aos céus de forma mais rápida. Deus me livre participar de um suicídio em massa na Tailândia, quero algo chique e que seja televisionado, no mínimo tem que ser nos Estados Unidos. 

Bom, agora que expliquei o contexto em que estávamos inseridos estou pronto para falar da meditação. A prática em si é muito simples, mas incrivelmente difícil de ser aplicada. O budismo de lá é do estilo Vipassana, que significa “ver as coisas como elas realmente são”. O objetivo maior desse estilo de meditação é estar no momento presente, ou como eles dizem em “atenção plena” (mindfullness). Nada de ficar perdido entre o passado e o futuro, como eu costumo/costumava fazer muito. 

Para atingir esse objetivo, de estar sempre no momento presente, você deve “notar” tudo que acontece com você. Estar consciente de todos os movimentos do seu corpo e da sua mente. “Notar” é simplesmente ter conhecimento de que algum fenômeno ocorreu, como um pensamento, um barulho, etc…. então a meditação não é daquele estilo “esvazie sua mente” nem nada assim, na verdade os dois estilos, sentado e andando, são exercícios para você sincronizar corpo e mente (o jeito mais fácil de voltar para o presente) e “notar” tudo o que acontece enquanto você os faz. Calma, vou dar um exemplo. Os exercícios vão aumentando em dificuldade, mas o estilo “andando” começa apenas com dois movimentos, você deve sincronizar seus passos com os pensamentos “direita vai aqui, esquerda vai aqui”. Simples né? E aí você faz isso por alguns minutos. Só que se ouvir um som durante essa prática você deve parar e “notar” repetindo na sua cabeça “ouvindo ouvindo ouvindo”. Se lembrar do fogão que esqueceu ligado durante o exercício você deve parar e pensar “pensando pensando pensando”. Se você imaginar todo mundo no hall de meditação pelado durante o exercício deve parar e pensar “pervertido pervertido pervertido” e depois “analisando analisando analisando”, pois as notações não devem ter caráter judicativo, elas apenas são observações do que você está sentindo/pensando/fazendo no momento. 

Parece besta e no começo é mesmo, mas você começa a perceber como essas “notações” impedem sua mente de viajar e te trazem de volta pra ação. Toda vez que eu ouvia um barulho, por exemplo, e não notava, era como se eu abrisse uma porta na minha mente e um monte de coisa saía de lá, e aí eu começava a viajar. O conceito básico é esse, o que acontece é que os exercícios ficam mais complexos e o tempo de meditação aumenta – 10 horas ou mais disso por dia. As notações são sempre feitas 3 vezes, não lembro porque. 

O hall de meditação onde a festa acontecia

Só que para esse processo começar a funcionar de forma “correta” é necessário passar por várias fases. É uma espécie de terapia encapsulada em 15 dias, afinal às vezes eu percebia que tinha pensado algo bizarro, depois me indagava por que pensei aquilo, e aí o buraco do coelho não tinha fim. São 10 horas por dia analisando suas próprias notações. Eu me odiei, me amei, odiei o mundo, fiquei irritado, senti saudades. Foi foda. As conversas com o guia são importantes pois ele vai indicando que algumas coisas são normais e também tentando te ensinar de leve alguns conceitos do budismo (nada forçado). Por exemplo, as notações são apenas observações, você não deve lutar contra o que está notando. Ao perceber isso é muito mais fácil se conhecer, se aceitar e deixar passar certos sentimentos ou pensamentos. Gostei desses papos e ensinamentos pois achei eles bem pé no chão, não foi algo dogmático como se espera de uma religião, mas sim como um conselho de um velho bêbado que fica no canto do boteco e que resolve conversar bem naquela noite em que você sabia que não deveria ter saído pois estava frio demais. Conselhos estranhos, mas que fazem sentido. 

Não virei budista nem nada, até porque pelo pouco tempo que ficamos lá o contato com o lado espiritual foi bem raso, mas gostei de realmente entender conceitos como: não temos 100% de controle de tudo, a impermanência das coisas e a insatisfação eterna em nossos coraçõezinhos (que existe principalmente no meu). 

Pelo menos dava para andar até um lago próximo e ver esse pôr do sol

Não vou falar mais sobre o processo porque realmente é uma coisa bem pessoal e posso estragar um pouco a experiência alheia caso algum dia alguém que lê isso aqui resolva se aventurar nos terrenos não mapeadas da mente humana. 

Porém vou falar que no começo, principalmente durante a meditação sentada (em que você fecha os olhos), rolam umas viagens muito loucas. Muito loucas mesmo. É diferente de imaginar ou sonhar, é mais real e bizarramente aleatório. Depois sua mente vai ficando mais “domada” e essas imagens não aparecem tanto, mas no começo teve de tudo na minha cabeça perturbada: cenas de filme comigo no meio, jogo de futebol com dinossauros, Nicolas Cage peixe com uma fantasia estilo Glub Glub, um japonês companheiro de prática saindo de um alface e mais milhares de coisas. Minha “visão” favorita foi quando do nada a Marina apareceu na minha cabeça fazendo um joia e usando um bigode falso, tipo aqueles exagerados de disfarce de filme. Mas garanto, tiveram coisas bem mais surreais.  No começo eu não anotava/escrevia nada (em teoria não pode), então perdi/esqueci muita coisa, mas quando vi que minha única anotação em 5 dias era “Doutor Estranho mais estranho ainda”, resolvi tomar vergonha na cara a registrar alguns fatos e viagens, anotações rápidas mesmo, para não infringir demais as regras. Também fiz uma lista dos filmes que invadiram minha cabeça de alguma forma, segue uma parte não alterada do compêndio original para vocês terem uma ideia da aleatoriedade (lembrando – são as anotações originais e não editadas):

Space Jam eh o melhor filme de esportes de todos os tempos – elaborar

Guerreiros do tempo (aquele do jean reno), tesouro nacional (nunca assisti). 

Breaking bad (meditando de cueca)

Bruxa de Blair

Deadpool 2

Quem vai ficar com mary

Drink no inferno

Julie e julia

Doug funnie

Esqueceram de mim 2

Mandy

Inception

Hellboy 

Clube dos Cinco

Cybercops

Terminator

Brooklyn 99

Incriveis 1 e 2 

About time

Fear and loathing in las vegas

Minority report

Kurosawa

Também passei algumas vergonhas, claro. A melhor foi ter dado aquele oi pra uma pessoa que estava saudando o Buda (achei que ela estava interagindo comigo). Certo dia, após comer uma coisa extremamente apimentada no refeitório peguei a garrafinha de água da Marina, que eu achei que estava com água, e dei um baita gole apenas para descobrir que o que tinha dentro era chá quente. Meus lábios quase se desintegraram, a dor consumiu minha alma e eu nem podia falar nada, pois todo mundo comia quieto igual defunto, parecia mais um necrotério do que um refeitório. Também teve a vez que ri com gosto de uma senhora que peidou alto no hall de meditação. Coisa boba, mas que provoca a risada de qualquer ser humano. 

Tem mais um milhão de coisas que gostaria de compartilhar. Mais coisas sobre a rotina do local, pequenas regrinhas da prática, histórias engraçadas do dia a dia, viagens, doideras, etc… mas para isso eu teria que fazer um outro blog só focado nesses 15 dias de prática.

Minha transformação após o retiro

Foi um período intenso, de disciplina e certo sacrifício, mas que valeu a pena. A experiência foi incrível e eu realmente acredito nos ganhos que todo esse “exercício mental” me trouxe. Acho que apenas entender a própria mente e o próprio corpo melhor já é um baita resultado. Por exemplo, sou muito noiado, daquele tipo de pessoa que fica lembrando de coisas até doer o estômago de tanto que eu fico me remoendo. Já acho mais fácil “me libertar” desse sentimento e conseguir voltar a focar em algo que realmente importa. Para lidar com concentração, ansiedade, paranóia, impaciência, angústia e etc… A prática serve para lidar com tudo isso. Mas é como se fosse um esporte mental né, precisa de prática. Também acho que é algo que “precisa pegar no tranco”, um período de isolamento para dar uma limpada em todos estímulos que nossas mentes recebem hoje em dia é, ao meu ver, necessário.

Inclusive a primeira vez que eu voltei pra cidade, ainda durante o retiro (fui comprar mantimentos no mercadinho), me senti naquelas cenas de filme em que o índio chega na cidade grande pela primeira vez, sabe? Barulho, imagem, cheiros, tudo se misturou numa explosão sensorial esquizofrênica. 

Depois de terminada essa jornada que quase nos matou pegamos um ônibus até a fronteira com o Laos para iniciar nossa travessia de barco pelo rio Mekong, mas isso é tema de um próximo post.

Beijos Quentes

Tailândia ou Chiang Mai e as lanternas do apocalipse

Esse relato cobre os eventos de 20/11/2018 a 27/11/2018.

Olá, companheiros da tormenta. Enquanto o relógio da perdição não bate meia-noite agracio vocês com mais um capítulo de nossa jornada um pouco torta.

Saímos do calor úmido e perverso de Bangcoc para encontrarmos paragens mais frescas bem ao norte da Tailândia, em Chiang Mai.

Chiang Mai, apesar de afastada da parte sul do país (onde ficam as incríveis praias e ilhas) e de ser até mesmo longe da capital, é um daqueles lugares que fazem parte de quase todos roteiros de quem visita a Tailândia. Não é por menos, a cidade, a maior da região norte, tem uma história incrível (já foi capital de um reino antigo) e é considerada uma das mais sagradas da Tailândia. O centro histórico, que ainda esbanja as ruínas da muralha que cercava o seu canal, abriga mais de 200 templos, um mais bonito que o outro.

Ruínas em Chiang Mai

Sabíamos que Chiang Mai era um lugar especial, mesmo sendo “popular”, só não sabíamos que cairíamos de paraquedas na cidade durante o seu festival mais famoso, o Yi Peng, o festival das lanternas. Olha, tem que ser muito perdido para chegar lá sem nem se tocar sobre o tal festival, tem gente que programa toda uma viagem baseada apenas nessa celebração, mas bem, nós somos as pessoas que ficaram perdidas e sem dinheiro em um parque chinês e literalmente esquecemos que o mês de fevereiro existia nas Filipinas (causo ainda a ser contado por aqui), por isso tudo é possível. Nós só queríamos conhecer a cidade e ir para o nosso retiro de meditação, que ficava ali pela região.

Nos demos conta que o festival estava para acontecer ainda em Bangcoc, quando tentamos comprar uma passagem de trem alguns dias antes de partir e o jovem do guichê praticamente riu das nossas caras. Estava tudo lotado. No fim achamos um ônibus de última hora e fomos, junto com todos turistas presentes na Tailândia naquele momento, até Chiang Mai.

Pensa em uma cidade que estava cheia. Pensou? Era Chiang Mai quando estávamos por lá. Tinha estrangeiro saindo até do bueiro. Mesmo assim aproveitamos bastante a nossa quase uma semana por lá. Que cidade gostosa. Acho que esse é o melhor jeito de descrever Chiang Mai – é um lugar gostoso. Como um amigo disse, parece cidade de praia sem praia. Ou uma cidade do interior de São Paulo com bastante estrutura. Não é a toa que lá é, como descobrimos depois, um paraíso de nômades digitais.

Um dos muitos templos

Deu para aproveitar bastante o centro antigo, andamos pra lá e pra cá vendo templos e tomando Thai Tea sob um sol bem intenso, mas muito mais tolerável do que enfrentamos em Bangcoc. Foi incrível ver a vida acontecendo ao lado de ruínas sagradas e grandes locais de adoração. Também aproveitamos muito às noites, encontramos um querido casal de amigos moradores da cidade (conhecemos eles em PhiPhi) que nos apresentou a vasta colônia brasileira que habita Chiang Mai. Tem gente trabalhando online, gente trabalhando em hostel, gente fazendo freelance e gente se virando como dá. Acho que brasileiro gosta tanto de Chiang Mai quanto de Phiphi. O importante é que conhecemos um pessoal bacana e tomamos umas cervejas geladas.

Além deles também encontramos outros viajantes brasileiros, mais especificamente representantes guerreiros do segmento de “famílias viajantes”, os incríveis @gemeosnamochila e @pelomundocomolucas. Compartilhamos um delicioso almoço em que considerei a possibilidade de nunca ser pai. Brincadeira, pessoal. Brincadeira. Eles são sim uma baita inspiração para nós.

Primeiro dia de festival

Claro, o festival aconteceu enquanto estávamos lá, inclusive começou no dia em que chegamos (ele dura alguns dias). A cidade estava linda, toda enfeitada com lanternas e ornamentos, o que só aumentou o charme do lugar. A abertura da cerimônia foi interessante, uma espécie de desfile de rua com danças típicas (pelo menos o que conseguimos ver). Apesar do índice desumano de gringos por metro quadrado toda a performance foi realizada por locais, o que sempre deixa tudo mais interessante. Os dias seguintes de festival foram marcados pelas oferendas e pedidos feitos em forma de lanternas e krathongs (barquinhos). O momento de soltura das lanternas é visualmente incrível, uma cena muito marcante da nossa viagem. Quando saímos do nosso hotel, à noite, e parte das lanternas já estavam no ar parecia que novas constelações estavam surgindo a cada segundo no escuro firmamento. Porém quando chegamos perto dos tradicionais locais de onde partem esses balões tailandeses a sensação foi outra. Invés de estrelas estáticas o que vimos foi muito movimento, uma coisa quase orgânica, como milhares de água-vivas nadando em um mar azul escuro, todas indo em uma só direção. Foi um espetáculo hipnotizante, mas causa uma certa estranheza ver mais estrangeiros participando dele do que locais. Sim, tinham muitos tailandeses nos rituais, mas mesmo assim a quantidade de “intrusos” na cerimônia era considerável. Confesso que não sei o que pensar sobre o tema. É interessante participar e se envolver com a cultura local, com certeza, mas quando será que a massificação do turismo de algo assim acaba cruzando a linha do aceitável? Aliás, existe essa linha? Só sei que muita gente que estava ali soltando lanternas não apresentava um grande envolvimento emocional e religioso com a cerimônia. Oras, até nós soltamos. Tudo bem que foi de um local mais reservado, com ajuda dos monges de um templo, mas mesmo assim não vou ser hipócrita e dizer que estava muito envolvido com a performance toda. Fui apenas mais um turista curioso que quis seguir a onda. E não vou nem falar dos polêmicos riscos ambientais das lanternas – uns dizem que não existe, pois elas são biodegradáveis, outros dizem que elas poluem rios e podem causar acidentes. Eu sei que curti o feito no momento, mas não faria de novo. Aliás não é difícil acreditar que essas lanternas possam causar queimadas e acidentes, só quando passeamos pelo rio vi umas 4 barraquinhas de comida que quase foram incineradas. E olha que ainda tinham uns gringos lá que se arrotassem no balão iriam causar uma explosão, a turma estava calibrada no álcool. Para se ter uma ideia em um dos mercados noturnos testemunhamos um jovem chinês exercitar o antigo ritual de vomitar até a alma, uma prática global.

Lanternas

Enfim, foi bonito, foi polêmico, foi interessante e graças a deus que acabou, porque tinha gente demais.

Logo após o termino do festival já deu para notar como a cidade esvaziou e tudo ficou um pouco mais calmo. Fizemos um passeio inesquecível para um dos templos mais famosos de lá, o Doi Suthep, que fica em uma montanha bem ao lado da cidade. Acordamos mais cedo do que qualquer ser humano deveria acordar, pegamos um tuktuk colina acima e assistimos a um nascer do sol inesquecível. Descemos a montanha por uma antiga trilha usada por monges e ainda paramos em um outro templo escondido pela mata e esquecido pela maioria dos turistas. Ao fim da caminhada voltamos de bicicleta para nosso hotel. Nesse mesmo dia fomos ao cinema, descobrimos que lá o filme demora meia-hora para começar e é necessário saudar o rei da Tailândia antes da película, o melhor é que ele garante que um vídeo sobre sua vida, digno de aniversário de 15 anos, passe antes de todas sessões. Só sendo rei mesmo para aprontar uma dessas e não ser zoado.

E, melhor que curtir um cinema relaxante foi a parte final do nosso dia, quando fomos à casa de um casal sensacional de amigos (aqueles que moravam em Chiang Mai e já comentei acima) e eles nos receberam com um jantar brasileiro: feijão, arroz, frango e farofa. Maravilhoso.

Cerveja e amizade (Re e Leo)

Isso foi logo antes do nosso retiro de meditação e agora tenho plena certeza que entupir todas as entranhas com feijão e farofa é o melhor ritual de preparação para qualquer prática espiritual. Pelo menos você enfrenta qualquer desafio feliz. É bem nutrido.

Fora isso o que fizemos foi curtir a cidade e dar uma passada “rápida” em Chiang Rai, outro local que muitos turistas visitam. Caso você queira conhecer Chiang Rai faça com calma e em mais de um dia, nos fizemos um passeio bate-volta e foi muito corrido. Não curtimos.

Nascer do sol no Doi Suthep

E foi assim que chegamos e aproveitamos, quase sem saber, uma das épocas mais intensas de Chiang Mai, um lugar delicioso e que merece ser visitado. Mas a estrada nos chamava, por isso demos tchau para o Léo e para Re, nossos amigos, e partimos para uma jornada dentro de nossas mentes em um retiro Vipassana. Esse é o tema do próximo post.

Beijos Quentes

Tailândia ou capítulo de Bangcoc e que fomos feitos de otários

Esse relato cobre os eventos de 12/11/2018 a 19/11/2018

Olá, colegas do abismo. Para os poucos que ainda torturam-se visitando esse blog eis aqui mais uma dose de masoquismo virtual. Como um Christian Grey de quinta categoria vou agora flagelar sua alma e, no final, ainda vou arrancar um sorriso desse rostinho lindo. A vida é assim, um teatro do absurdo e nós gostamos de coisas bizarras mesmo, não tenha medo.

Sobre o relato.

Sim, esse é mais um texto sobre a Tailândia. Peço paciência para você leitor(a), mas ficamos dois meses no país, por isso para seguir fielmente os passos da nossa jornada preciso registrar todos os capítulos da aventura no antigo Sião. Calma, tem algumas coisas interessantes que ainda serão relatadas, como nosso retiro de meditação, travessias malucas de fronteira e o torneio secreto de Muay Thai em que eu me inscrevi para vingar meu irmão. Uma dessas coisas é falsa, mas não vou falar qual.

O interior da Tailândia

O último capítulo foi todo dedicado ao nosso momento “lagoa azul” em Surin, isso se no filme a Brooke Shields tivesse recebido massagem de um Adonis coreano de frágil estabilidade mental, mas tudo bem, são águas passadas.

Saímos daquele pequeno paraíso e voltamos para nosso pântano favorito, Khura Buri. Ainda estávamos a uns 700 quilômetros de Bangcoc e já há mais de um mês na Tailândia, por isso decidimos apressar o passo ao norte e chegar logo na capital. Quer dizer, não apressamos tanto assim, senão teríamos pegado um avião ou ônibus direto para Bangcoc, mas queríamos viajar de forma barata e local, por isso primeiro fomos de lotação para Chumphon e de lá embarcamos, no dia seguinte, em um trem até nosso objetivo final.

Foi o trem mais lento que já andei na vida. Eu, de bicicleta, conseguiria ir mais rápido que o trem. Oras, acho que minha avó de andador conseguiria ir mais rápido que aquele trem, e olha que minha avó nem é boa com o andador. Mas mesmo assim foi uma experiência incrível. Cortamos florestas tropicais, pequenas e charmosas vilas e plantações de seringueiras. Durante todo o caminho estávamos rodeados de senhoras simpáticas, senhores de aparência dura e um mar de vendedores ambulantes que forneciam de tudo para os passageiros. Frutas, doces, bebidas, salgados, órgãos do mercado negro…tinha realmente de tudo. O que não tinha (ou quase não tinha) eram turistas, o que foi reconfortante.

E assim que cortamos o país em ritmo de internet discada de forma deliciosa. Mas após mais de 12 horas de viagem chegamos exaustos em Bangcoc, com um certo cansaço acumulado de uma série de translados e excessos anteriores. Aliás, quando nos aproximamos da cidade o visual bucólico deu lugar a vilas cada vez mais sujas e pobres. Passamos por lugares em que pessoas pareciam morar em mangues formados por chorume e lixo. Esses momentos são importantes para nos lembrarmos que a imagem que criamos na nossa cabeça de lugares que visitamos é, obviamente, só nossa. A realidade costuma ser muito mais mordaz que uma brochura de turismo ou o Instagram alheio, mas é fácil se esquecer disso.

A menina e a janela

Enfim, Bangcoc. Uma das grandes cidades que eu queria conhecer. Achava que iria encontrar algo claustrofóbico, energético e quase cinematográfico, como Hong Kong foi para mim. Uma cidade com aquela eterna aura de “algo proibido”, onde negócios escusos são feitos em um submundo perverso, mas interessante. Uma cidade que seria o cenário ideal para um filme noir ou cyberpunk.

Infelizmente não foi essa minha relação com o lugar. Muita gente ama Bangcoc, mas acho que eu tinha expectativas demais. Não desgostei de lá, longe disso, mas não foi memorável como é para tantos outros viajantes.

Para ser justo também não aproveitamos a cidade direito.

De dia estava um calor digno de satanás, que começava derretendo o corpo, depois queimava lentamente a vontade de existir e aí incinerava o restante da alma. Pensa numa pessoa que transpirou em Bangcoc, fui eu. Sim, eu transpirei mais que aquele alemão branquelo de quase dois metros e levemente pançudo que tem em toda viagem.

De noite as ruas ficavam apinhadas de gente animada e agitação, afinal ficamos no coração da pseudo mochilagem, a Khao San Road. Mas nossos tempos de estripulias e perdição alcoólica já tinham passado (pelo menos na Tailândia) e estávamos em um momento mais calmo e contemplativo. Até tentamos forçar umas cervejas goela abaixo para entrar forçosamente no clima, mas nunca uma Chang desceu tão desgostosa na garganta de um homem. Estávamos em uma rotação diferente de toda aquela gente visitando Bangcoc.

Vida noturna

Obviamente que fizemos coisas bacanas lá. Conseguimos visitar apenas um templo de destaque, o Wat Pho, devido ao calor e a preguiça, e o lugar é impressionante. Cheio de gente, mas impressionante. Conseguimos também cair em um dos golpes mais conhecidos da cidade, aquele em que um sujeito simpático te aborda na rua, comenta sobre um feriado que não existe, diz que os templos estão fechados e oferece um tuktuk especial que vai fazer um tour maravilhoso por uma preço bacana. Coisa boa e barata demais é quase sempre bom demais para ser verdade, pelo menos por onde já tínhamos passado. E mesmo assim engolimos esse papo e visitamos um templo do elenco religioso coadjuvante da cidade, mais caído que paleteria mexicana hoje em dia, e uma malévola fábrica de ternos (onde ficaram muito decepcionados comigo quando eu não quis nenhum, logo eu que usei terno 3 vezes na vida) e foi nesse momento que percebemos a burrada e caímos fora. Nossas perdas foram mínimas, mas o golpe poderia ter feito um rombo gigante no orçamento caso não tivéssemos percebido. Enfim, depois dessa podemos já dar tchau pra cidadania brasileira, foi uma falta de instinto tremenda ter acreditado naquele jovem sorridente na rua. Inclusive não sei como estamos vivos até hoje nessa viagem.

Além de derreter em templos e levar golpes também visitamos um dos mercados flutuantes da cidade, muito interessante, mas seria mais interessante ver toda aquela dinâmica sem um milhão de estrangeiros por lá. Eu sei que também sou um deles e todo mundo só está curioso para conhecer o local (como eu), mas que seria mais bacana ver a versão “virgem” de um mercado desses, a isso seria. Mas o que vimos teve que bastar e gostei de conhecer o mini caos que se criou em cima de umas madeiras bambas boiando num rio. Comemos coisas boas, comemos coisas estranhas e eu vi uma senhora alimentando peixes como se estivesse alimentando cachorros, valeu a pena.

As peculiaridades do mercado

Só fomos parar no mercado flutuante pois antes, no mesmo dia, levamos um bolo do nosso free walking tour. Isso mesmo, pelo visto somos tão indigestos que nem a pessoa que faz o tour de graça pela cidade quis nos conhecer, imagina ela falando pro chefe “não, não, não… de graça com esses dois aí eu não faço”. Enfim, sei que ficamos um bom tempo plantados no porto onde deveria acontecer nosso encontro e nada. Acordar cedo dá nisso.

O programa mais legal de Bangcoc, para mim, não foi feito em Bangcoc. Foi nossa rápida visita à Ayutthaya, cidade capital do reino de mesmo nome, que foi uma força poderosa no sudeste asiático entre os séculos 14 e 17. Antes mesmo do Brasil ser “descoberto” ali pertinho de Bangcoc já existia uma cidade com construções quase alienígenas para nossos olhos ocidentais. As ruínas de Ayutthaya são incríveis, um misto de diferentes influências da região, principalmente Khemer, mas com personalidade própria. Visitar esse lugares, ou como a Marina diria “um amontoado de pedra antiga” é demais para mim. Gosto muito de ver ruínas, de imaginar a vida funcionando em arquiteturas e planos distantes e nessa altura da viagem ainda não tínhamos conhecido o Angkor, por isso as de Ayutthaya foram as primeiras ruínas bacanas que vimos. Foi um dia gostoso, em que pedalamos muito e eu tirei fotos ruins achando que estava arrasando. Apenas o sol que foi inclemente, como de costume, e eu perdi cerca de 43,7% da água do meu corpo enquanto estava em cima da bicicleta. Mas valeu a pena ter a liberdade de ir pra lá e pra cá como queríamos, sem depender de tour ou algum tuktuk. Apenas gostaria que inventassem uma bicicleta que não deixasse as nádegas doloridas.

Aliás, falando em Ayutthaya, impossível não lembrar do Sagat ao ver o Buda deitado de lá. Quase arranjei briga com um americano que estava de bobeira inspirado pela minha infância regada a Street Fighter. Eu ia dar meu golpe fatal nele, o “abraço do suor”, mas a Marina impediu.

Ruínas

Fomos e voltamos de lá com um trem quase tão lento quanto o que usamos para chegar em Bangcoc. Acho que é proibido que trens sejam rápidos na Tailândia. Mas, ao contrário do primeiro, esse não foi um transporte agradável, pois estava apinhado de gente do mundo todo. Muito agradável poder conhecer os odores únicos de cada canto do planeta.

Bangcoc foi isso para nós: muito calor, momentos altos, momentos baixos e sermos feitos de otários. Ainda que na nossa última noite por lá demos uma injeção de adrenalina na estadia ao fazer aquela bobagem de turista de comer os insetos repulsivos que uns locais vendem em toda Khao San. Pude degustar uma larva maravilhosa, com toques de noz moscada e um recheio parecido com mel. Perfeito. A Marina se aventurou com um escorpião, uma escolha bem pior ao meu ver, mas ela disse ter sido um dos pratos mais refinados que já provou na vida, e leve em conta que quem falou isso é a maior sommelier de McDonalds da América Latina.

E após a noite do referido banquete demos tchau para uma cidade que nos agradou, mas que eu esperava muito mais. Partimos de ônibus para Chiang Mai, onde chegamos (sem querer) para o famoso festival das lanternas.

Mas isso é tema do próximo post.

Beijos Quentes