Turquia ou a conturbada chegada em Istambul

Pôr do sol em Istambul

Olá, aventureiros do bairro proibido. Como a fênix que ninguém gostaria que ressurgisse eis que me ergo mais uma vez das cinzas virtuais para espalhar amargor e ressentimento. Prepara-se para mais um post deste blog.

Por falar em alegria, esse próximo relato trata sobre uma das situações que mais me alegram nessa vida – as mudanças de última hora. Claro que quem me conhece sabe que isso é uma grande mentira, o peso opressor da mudança de planos me faz suar e perder as estribeiras. Eu me transformo na máquina humana de xingar e transpirar. Claro, nesse ponto já tinham se passado 11 meses de viagem e aí as coisas já tinham melhorado  um pouco, mas ninguém muda tanto assim tão rápido. Eu vou usar a palavra ódio agora. Eu odeio quando algo sai fora do planejado (ou do meu controle). Já odiei mais, hoje odeio menos, mas ainda odeio. É tipo como minha tia Odete se sente em relação a mim. Ela finge que gosta, mas no fundo me odeia (e sempre me dava meias no Natal). E digo mais, tenho inveja e antipatia de quem declama com toda força dos pulmões “nossa, adoro mudanças de planos, o inesperado” – eu espero que você sofra nas profundezas do tártaro (mas no fundo tenho inveja de você), seu ser alienígena. Veja bem, odiar mudanças em rotas planejadas é uma coisa, não ter rota é outra. Me sinto muito mais confortável com a segunda opção, de verdade, afinal se nada tem para mudar, nada tenho para me estressar. Agora… mudanças muito repentinas e decisões em cima da hora tem para mim o mesmo efeito que mil pessoas beliscando sem parar o meu escroto esquerdo. Irrita em níveis estratosféricos. 

E eu escrevi tudo isso apenas para dar o contexto emocional de minha pessoa durante os apuros que passamos no aeroporto do Sri Lanka. 

Uma foto de uma ilha perdida no Mar de Mármara

Como alguns devem se lembrar, na último post estávamos prestes a sair das Maldivas. O que ninguém sabe é que nosso voo (que já tínhamos comprado) tinha como destino final Delhi, apesar de fazer uma escala no Sri Lanka, um país que a princípio não tínhamos pensado em conhecer, mas que após as dicas de amigos viajantes e uma pesquisa rápida nos cativou muito. Pois bem, o circo estava armado. Iríamos parar em um país apenas como escala e agora queríamos ficar nele. Tentamos de tudo para ficar por lá. Mandamos email, ligamos, mandamos mensagem e eu quase invadi o escritório da companhia aérea em Malé para tentar cancelar a ida até Delhi e ficar em Colombo (ou fazer um stop over de 15 dias). Nada deu certo. O universo queria que voltássemos para Índia. Porém só esgotamos todas nossas tentativas de conhecer o Sri Lanka no aeroporto das Maldivas, onde já não tínhamos mais internet, por isso resolvemos decidir qual seria nosso próximo destino (e comprar a passagem) na nossa rápida parada de 1 hora em Colombo, capital do Sri Lanka. 

Isso mesmo, iríamos comprar uma passagem para o dia seguinte contando apenas com a ajuda capenga da internet do aeroporto. Enfim, chegamos no nosso pit stop aéreo e começamos a considerar possibilidades. Após algumas discussões decidimos pelo Irã, mas uma conversa em tempo real com a família da Marina quase gerou um ataque cardíaco fulminante nos pais dela (a tensão entre Irã e EUA estava pior do que o de costume naquela semana) e então tivemos que abandonar a ideia. Voltamos a estaca zero. E o tempo passando. E eu ficando mais nervoso. Cogitamos ir para Georgia, Armênia, Turquia e países da Ásia central, mas não chegamos a nenhuma conclusão. E deu o horário do nosso voo. Teríamos que decidir tudo em Delhi mesmo. Descemos correndo para o portão de embarque e chegamos lá faltando 20 minutos para o avião decolar. Ufa. E então eis que os atendentes da cia aérea nos disseram que não poderíamos entrar na Índia sem uma passagem de saída (coisa que já tínhamos feito anteriormente). Foi aí que toda a calma que eu já não tinha escorreu do meu corpo com o suor que saia de mim. Tive que ranger muito o dente para não dar um chilique público lá. E olha que eu odeio chamar atenção. Esse era meu nível de loucura no momento, eu estava quase fazendo uma coisa que abomino por causa de outra coisa que me tira mais ainda do sério. A Marina teve que me deixar no canto de castigo enquanto resolvia a situação e aí conseguimos achar um sinal fraco de internet e comprar uma passagem para a Turquia, o destino mais barato . Entramos no avião no último minuto, eu já estava quase desfalecido no saguão de embarque, mais um pouco e teriam que me empurrar com uma cadeira de rodas pra dentro. Sim, essa é a potência de algumas de minhas neuroses, perder um avião quase me faz ter uma síncope, por isso eu odeio e invejo você, pessoa que ama mudanças de planos. Eu já disse, sou um velho de 74 anos na fila do INSS preso no corpo triste de um homem de 29 anos. 

E foi assim, após uma balsa de 7 horas, um derretimento mental no aeroporto e uma longa espera em Delhi (com direito a atraso) que chegamos na Turquia. 

Nossa porta de entrada foi Bizâncio, ou melhor Constantinopla, quer dizer, Istambul. Lugar que já teve vários nomes ao longo do tempo é chique. Lugar que já fez parte dos grandes impérios do mundo é mais chique ainda. E olha, Istambul não decepcionou. 

A grandeza de Hagia Sophia

Você deve imaginar que após toda a saga dos mil destinos no aeroporto chegamos com aquele humor sorumbático em Istambul, mas a cidade logo nos curou. Perto de quase tudo que enfrentamos na Ásia é um lugar muito organizado, mas vivo, sem o clima antisséptico que paira sobre algumas cidades europeias. Tem história, cultura, belas paisagens, arquitetura memorável, diversão e comida boa. O horizonte é dominado pelas colinas cheias de mesquitas e os canais que cortam Istambul deixam tudo mais especial. Pode parecer que estou floreando essa descrição, mas ela é incrível e eu gostei mesmo da cidade. Para cair no maior clichê possível de quem descreve Istambul, realmente o lugar (a única capital dividida entre Ásia e Europa) carrega o DNA de dois continentes diferentes. Pronto, ta aí o lugar comum do texto. Por mais que a gente acha que vai escapar da mediocridade ela sempre nos alcança. Enfim, o clichê de Istambul é poderoso porque é real. 

Adorei ver as mesquitas, tanto as mais famosas quanto as “comuns”. Eu adorei a arquitetura dos lugares sagrados do islã no geral: a abóboda, as cores, os minaretes. Para mim parece sempre cenário de filme (algo que diz mais sobre minha familiaridade com outra cultura do qualquer coisa). Talvez seja assim que os muçulmanos devam se sentir em relação as catedrais do ocidente quando as visitam. Enfim, foi bom eu ter gostado tanto de mesquitas, porque são mais de 3 mil espalhadas pela cidade. 

Mesquita Azul e a turma passeando

Por lá fizemos o básico do turismo, visitamos os grandes marcos históricos e museus (e foi bacana, mas cheio). Visitamos o lado Asiático da cidade, cruzamos suas pontes a pé e acompanhamos a pescaria de velinhas e velinhos e  conhecemos uma ilhota de veraneio no mar de Mármara. Também perambulamos bastante pelo bairro em que ficamos, Beyoğlu, uma espécie de Pinheiros de Istambul, se pinheiros tivesse construções do século V e cerveja barata. Era uma região gostosa de desbravar, com vielas charmosas, cafés e muitos sorvetes bons. Muitos. Tomamos sorvete além da conta. Sorvete e chá. Uma coisa que nossa estadia na Turquia nos ensinou foi a tomar muito chá. Chá de café da manhã, chá da tarde e um chazinho antes de dormir. Se bobear dava pra encaixar um chá até nos momentos mais íntimos no banheiro. 

Futebol sempre presente pela Turquia.

Istambul é uma maluquice histórica que agrada todo tipo de viajante, sério. Dá para ser chique, conhecer lugares e gastar muito. Dá para ser mais raiz e sobreviver só de doner (o churrasquinho grego deles), que é muito bom. É um lugar que é confortável e misterioso ao mesmo tempo, e que nos agradou tanto que ficamos 1 semana por lá. 

Cineminha estiloso

Inclusive até ficamos sem o que fazer, de tanto que andamos pela cidade. Tão sem o que fazer que fomos duas vezes ao cinema. Era tão barato (comparado a São Paulo) que não podíamos perder a oportunidade. O cinema era antigo, clássico, com aquelas salas que lembram os velhos cinemas do centro de SP que hoje só passam filme pornô e abrigam malucos fissurados na própria genitália. Então vamos recapitular, o cinema que encontramos era barato, estiloso, retrô e não tinha nenhum doido se masturbando com a foto de uma coleção de unhas. Sim, o cinema de Istambul era melhor. 

Sorvete

E por lá foi isso, foram dias maravilhosos para repor as energias e também a melhor porta de entrada possível para um dos países com mais história neste planeta. Depois de Istambul partimos para Capadócia, região que certamente não deveria existir dentro da Terra e sim em Marte, um lugar que está entre um dos meus preferidos da viagem. E também onde eu perdi minha dignidade para sempre. Mas isso é assunto da próxima newsletter.

Beijos quentes

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