Laos ou nosso Apocalypse Now particular

Esse relato cobre os eventos de 12/12/2018 a 18/12/2018

Olá amigos e amigas desse limbo chamado de existência. Do mesmo jeito que ninguém pediu para nascer e ser um escravo da rotina, também ninguém pediu por mais um capítulo desse blog purulento, mas mesmo assim cá estou com atualizações da minha desajeitada jornada. 

Os perigos do Mekong

Os intensos e fantásticos dias no retiro de meditação foram praticamente nossos últimos na Tailândia. Saímos de lá fortalecidos mentalmente, mas ao mesmo tempo duas figuras patéticas e moídas, ou seja, precisamos de um dia de descanso para não pensar em nada e se esparramar em uma cama. Ou seja, um dia de Netflix e comidas congeladas do Seven Eleven. Nada como lixo cultural e alimentício para resgatar a sanidade e boa forma de um ser humano. 

Praticamos essa sessão relaxamento em um hotel fuleira em frente a rodoviária de Chiang Mai. Foram apenas poucas horas de “spa”, menos de um dia, mas deu para recuperar um pouco a força vital necessária para seguir viagem. De lá pegamos um ônibus até Chiang Rai, ônibus esse que obviamente quebrou no caminho, e aí pegamos outro veículo, bem mais decrépito e muito mais interessante, até Chiang Kong, uma das cidades que são pontos de travessia para o Laos. 

Chegamos na fronteira de noite quando o movimento era quase nulo, fora nós apenas alguns laocianos que aparentemente tinham ido fazer compras na Tailândia passavam pela fronteira. A situação era tão tranquila que os guardas do posto de comando tailandês estavam ocupados com um furioso torneio de tênis de mesa. Alguns usavam até uniforme. A Tailândia é um país tão único que até a turma que cuida das travessias internacionais se diverte durante o trabalho (e não venha você me dizer que ficar em um posto de entrada e saída de pessoas é algo divertido). Esperamos algum tempo no escuro, meio sem saber o que ia acontecer, até um bólido surgir das sombras, nos cobrar uma pequena fortuna e nos levar por míseros 2 quilômetros até o posto de fronteira do Laos. Lá tivemos que acordar o rapaz encarregado dos vistos, algo que não o deixou muito feliz, mas mesmo assim ele nos concedeu entrada para seu maravilhoso país. Finalmente estávamos em Huay Xay, no Laos. 

Huay Xay fica a beira do Mekong, talvez o mais famoso rio do sudeste Asiático, e nosso plano era ir de barco até Luang Prabang, nosso único destino nessa pequena nação. 

Nosso transporte até Luang Prabang

Já era bem tarde quando chegamos à cidade e após uma experiência estranha em uma guest house que mais parecia um matadouro e que nos apresentou um quarto tão limpo quanto a consciência de Paulo Maluf finalmente achamos um hotelzinho acessível e bem perto do porto de onde saíam os long boats, aqueles barcos enormes e estreitos que cortam as águas lamacentas do rio. 

Acordamos prontos para nossa aventura aquática, ou como eu gosto de pensar, nosso Apocalypse Now particular. Sei que o filme se passa no Vietnã e no Camboja, mas o mais próximo que eu iria chegar de desbravar aquela parte do mundo em um barco seria ali no Laos, por isso fui atrás do meu Coronel Kurtz em Luang Prabang. A diferença é que nosso trajeto foi calmo e idílico, não uma jornada violenta em direção às insanidades da guerra. 

E que experiência gostosa esse passeio de barco. Foram dois dias e uma noite cruzando o Mekong e observando as pequenas vilas que ficam à margem do rio, os templos perdidos nas colinas e a deslumbrante e densa natureza do Laos. Que país verde e bonito. Apesar do transporte fluvial ser comum por aquelas partes do mundo o nosso barco estava ocupado quase que exclusivamente de turistas. Eram jovens e velhos dos mais variados estilos. Alguns matavam o tempo lendo, outros bebiam (cerveja quente), alguns jogavam e a maioria se irritava com a música alta de balada que o dono da embarcação insistia em colocar. Mal dava para escutar os próprios pensamentos

Dona Marina curtindo um vento na cara

Pernoitamos em uma cidade pequena, de apenas uma rua, mas que se fez agitada pela horda de viajantes que chegou pelo rio. Comemos em um restaurante tradicional simples, mas muito gostoso, e com o menu mais estilosos da história, todo feito a mão. Também ficamos em um dos hotéis mais baratos da viagem toda. Não lembro exatamente quanto foi, mas lembro que foi muito barato, por isso acredite em mim que o negócio foi barato. Foi e barato e pronto, ok? No dia seguinte, após mais algumas horas no rio, chegamos a Luang Prabang, onde ficamos apenas alguns dias antes de seguir para o Vietnã. Estava terminada a nossa experiência Apocalypse Now. Não achamos nenhum herói renegado bancando o semi-deus e não fomos atacados por nativos, mas pelo menos fizemos uma travessia em um rio asiático barrento e chegamos de forma estilosa no nosso destino. Talvez uma das últimas vezes que isso ainda possa acontecer, pois hidroelétricas financiadas pelo governo chinês podem mudar a rota do Mekong para sempre.

Uma cidade verde

Luang Prabang é uma das cidades mais gostosas que visitamos em toda a viagem. Um lugar de ritmo lento, charme colonial, comida boa e preços acessíveis. Cercada por colinas e muito verde, parece uma verdadeira jóia perdida no meio da floresta. É uma cidade linda, com certeza, mas vale lembrar que estou aqui dando a minha visão de turista que não passou muito tempo no lugar. Mesmo pelas nossas rápidas andanças visitamos bairros menos turísticos e bem menos privilegiados. Sei que o Laos não é um país com grandes condições de vida, aliás é um lugar que sofreu e sofre muito na mão de nações mais poderosas (é o país mais bombardeado da história). Em certas horas é estranho dizer que tal lugar é incrível e imperdível sem saber como é a verdadeira realidade local, o quanto o povo nativo sofre e o quanto a realidade do turismo é como uma frágil camada fantasiosa maquiando uma vida bem mais dura. Enfim, esse é um pensamento que surge e surgiu em quase todos os lugares que passamos, mas como não dá para mergulhar nessa escura piscina filosófica agora vale lembrar que mesmo com esse grande  “porém” em mente aproveitamos demais nosso tempo por lá. 

A vida por lá

O que mais fizemos em Luang Prabang foi comer e descansar.. Estávamos em ritmo lento, com a preguiça imperando, mas mesmo assim até que exploramos bastante pela cidade, apenas não fizemos grandes e emocionantes programas. Visitamos o pequeno, porém muito charmoso, mercado noturno, subimos a colina chamada de Monte Phousi para ver, junto com mais todos turistas presentes no Laos, o sol escorrer no horizonte entre o Mekong e as montanhas que rodeiam a cidade. A Marina foi presenciar a ronda das almas (que ela diz ter sido bem sem graça devido ao excesso de não locais entupindo a passagem dos monges) e fomos até as cachoeiras Kuang Si, um espetáculo hídrico em tons de turquesa.

As cachoeiras ficam um pouco afastadas de Luang Prabang, por isso tivemos que fechar um pacote com o hostel e pegar uma das inúmeras vanzinhas irresponsáveis que levam turistas pra lá e pra cá pela Ásia. Era um dia úmido e frio, talvez não muito propício para visitar uma atração com água, mas era nossa única oportunidade de ir lá. Para chegar até as quedas d’água é necessário fazer uma pequena trilha em que se passa por um santuário de ursos negros asiáticos resgatados de contrabandistas e caçadores. Foi um momento de felicidade e emoção, pois nunca tinha visto um urso na vida. Tudo bem que esse urso negro asiático é um pouco estranho esteticamente e não tão parecido com grandes ursos que vemos na televisão, como uma versão falsificada QUASE parecida com a obra original. Imagine que um estrangeiro nunca viu um brasileiro na vida e ao invés de conhecer a Gisele Bündchen acabe me conhecendo. Sou desengonçado e peculiar, mas ainda sou brasileiro, então está valendo. Enfim, o santuário me pareceu fazer um trabalho nobre e necessário, um pouco de vigilância e ordem em uma região em que isso não é a regra, especialmente relacionado ao ambiente.

Apenas uma parte de um complexo de quedas estonteante

A Kuang Si é incrível. São diversas quedas d’água de uma cor quase difícil de imaginar que existe. Um turquesa claro, fruto de minerais, que dá uma sensação etérea para o lugar. Mesmo com o frio não resistimos e tivemos que interagir com esse paraíso, por isso nadamos nas águas congelantes da cachoeira. Foi praticamente uma farofada brasileira, pois só nós e alguns outros amigos viajantes nos arriscamos no azul gelado, coisa do pessoal sem noção lá das bandas da América do Sul. Valeu a pena conhecer esse espetáculo da natureza, mesmo que o dia não tenha sido dos melhores. Imagino as primeiras pessoas que descobriram essa cachoeira e puderam aproveitá-la no silêncio e na harmonia com a natureza que uma atração dessas merece, uma experiência surreal. Nós tivemos que conhecer o lugar junto de mais um bom número de pessoas espaçosas e barulhentas. Pode-se notar que eu não estava com muita paciência para outros seres humanos nessa parte da viagem. 

Difícil dar tchau para um lugar desses

E essa foi basicamente nossa estadia em Luang Prabang e no Laos. Tivemos que espremer essa visita entre Tailândia e Vietnã (o próximo destino), pois acabamos ficando mais tempo do que planejávamos em certos lugares e tínhamos prazo para entrar no Camboja para fazer nosso trabalho voluntário. Mesmo em pouco tempo foi um lugar que nos deixou uma ótima impressão e que queremos muito visitar de novo. Montanhas verdejantes do Laos, me aguardem. 

Beijos Quentes

Tailândia ou Medo e Delírio em Chiang Mai

Esse relato cobre os eventos de 27/11/2018 a 11/12/2018

“… and if you gaze long into the abyss, the abyss also gazes into you”

um alemão de bigode engraçado

Olá companheiros de caminhadas estranhas, volto da minha sombria jornada pelos cantos escuros da mente para a agraciá-los com este que será um “bottle episode”, ou para os que não estão acostumados com o jargão televisivo, será um episódio com budget menor que se passa quase que inteiro em apenas um lugar. Mas não se enganem, isso não quer dizer que esse será um relato inferior. Pelo menos espero que não, ainda não o escrevi pode ser que termine uma porcaria. Veremos. 

Em nosso último contato descrevi tudo que aconteceu até nossa última noite em Chiang Mai. O que aconteceu foi uma sequência simples de acontecimentos: apenas dormi, acordei, dormi de novo, perdi hora e fomos correndo pegar o ônibus local até o retiro de meditação. O monastério fica, teoricamente, em Chiang Mai, mas afastado do centro da cidade, cerca de uma hora de transporte público.

Mas calma lá. Como assim retiro? Meditar? Eu explico. O nosso grande objetivo ao nos dirigirmos para o norte da Tailândia era chegar até esse centro de meditação que nos foi indicado por um grande amigo. A ideia era mergulhar em um curso básico de 15 dias, seria uma experiência totalmente diferente para nós dois, pois ninguém do casal praticava meditação e muito menos sabíamos muito sobre Vipassana, a técnica que iríamos aprender. Foi uma das experiências mais aleatórias e pouco planejadas da viagem, e foi animal. E díficil. Quiçá a coisa mais difícil que fizemos. 

Nossos amigos monges

Chegamos alegres e vistosos como turistas devem parecer quando chegam para uma experiência de meditação, mal sabíamos onde estávamos nos metendo. 

Não quero passar a ideia errada, como já adiantei acima, foi sensacional e uma das coisas mais legais que fiz até hoje. 

Para os que não me conhecem direito preciso dizer que espiritualidade não é meu forte, mas tinha curiosidade pela prática e todos benefícios desse “controle da mente” (sei que não é o melhor termo, desculpem). Digamos que, para mim, essa jornada tinha muito mais de Doutor Estranho do que de Siddhartha. 

Bom, logo chegamos e já recebemos nossa introdução ao local. O retiro fica dentro do complexo de um monastério super antigo e um local sagrado para a região, por isso tínhamos que seguir à risca as regras dos monges. Ou seja, isso incluía seguir alguns códigos e mandamentos budistas, como dormir apenas 6 horas por dia (das 10h até às 4h), não comer nenhum sólido após meio dia (almoço era às 11h), não matar (nada, não só gente, mas também qualquer inseto, bicho, ácaro e o caramba), sem toque ou relações sexuais e por aí vai. Também não podíamos consumir nenhum tipo de entretenimento, como ler, escutar música, assistir Netflix e etc… essa era uma regra específica para quem estava em período de curso, pois os monges andavam pra lá e pra cá com o celular, aposto que devem ser todos otakus. Os professores do retiro também. Outra regra válida apenas para esse período de 15 dias era manter o máximo de silêncio possível, não era proibido falar, mas quase todo mundo ali estava em período de meditação e ninguém queria desfocar. Isso incluía não falar com a pequena Marina, minha bela cônjuge. 

Eu posso ter lembrado de algumas “regras” e esquecido de outras, mas um bom resumo é: podia meditar. O resto não podia fazer. 

E como meditamos. 

A dupla – Certeza que a Marina estava tirando um cochilo

Foi o maior “zero a cem” da minha vida, pois nunca tinha praticado de verdade. Você chega e já começa com “leves” 10 horas de meditação por dia. 5 horas de meditação andando e 5 horas de meditação sentado.  Você deve completar essas 10 horas em pequenos “rounds” de meditação, que começam com 10 minutos em pé, 10 minutos sentado e 20 minutos de descanso. A cada dia a prática é aumentada em 5 minutos para cada tipo de meditação, ou seja, no décimo dia você já estávamos fazendo 1 hora por “estilo” e totalizando um round de 2 horas. A porcaria do tempo de descanso nunca aumentou. 

Claro, a coisa não é tão rígida assim, e se eles percebem que você está dando seu melhor (e realmente levando a sério) tudo bem afrouxar o tempo da prática em alguns momentos. Mas eu sou eu, caxias que só, e quis fazer tudo certinho como o indicado. Quase morri. Acho que não ser tão duro com esse tipo de auto cobrança foi um dos meus aprendizados por lá.

Era tanta prática que não sobrava tempo para mais nada no dia, além de almoçar e tomar café da manhã. Nem dava para sentir muita fome ou desejar algum tipo de entretenimento. Claro, isso vem à tona, mas foi bem mais fraco do que eu esperava. 

Uma vez por dia eu encontrava a minha guia do retiro e trocava uma ideia. Era um momento bacana, pois apesar de todo mundo ter uma jornada diferente o guia sempre sabia mais ou menos em que estágio você estava do programa. Essa era também a maior interação que eu tinha com qualquer pessoa, tirando a foto do calendário com quem eu conversava às vezes no meu quarto. Sim, tinha um calendário com a foto de um monge importante lá e eu troquei muita ideia com ele, rapaz interessantíssimo. Agora pensando bem era melhor mesmo conversar com um senhor tailandês imaginário do que com a minha guia, afinal ao fim de cada bate papo ela aumentava meu tempo de meditação. 

“A Rafael mas como era a prática em si?” Calma lá leitor afoito, estou chegando nisso. Antes quero descrever meu quarto que compartilhei de forma injusta (ao meu ver), com formigas e mosquitos.

Eu fiquei no dormitório dos monges. Ou melhor, não era um dormitório, cada um tinha uma “casinha” individual. Tudo bem pequeno e colado. Uma espécie de conjunto habitacional budista. Era legal pois eu acordava com o mesmo gongo que os monges, assistia eles indo ao refeitório, andei com eles ao nascer e pôr do sol, vi pessoas oferecendo comida em troca de preces e o melhor, escutei todas funções corporais possíveis que um monge pode ter. Não são diferentes das dos outros humanos e eles não fazem questão nenhuma de esconder isso. Aliás tinha um monge que falava ao celular às 2 da manhã quase toda madrugada, devia ser meditação guiada por zap. 

Outro ponto importante sobre minha casinha era que ela era dominada por insetos que eu não podia matar, ou seja, qualquer tentativa minha de ter comida no quarto era frustrada por formigas. Mas aproveito para confessar que sem querer assassinei algumas dessas pequenas trabalhadoras ao comer um sucrilhos que estava empesteado delas. Como foi sem querer espero o perdão de Buda. Desde o primeiro dia tinha também um mosquito no meu quarto, acabei chamando-o de Jorge e convivi com ele até o fim do meu período lá. Até que o Jorge era bacana, não me picou muito.

Fora isso meu espaço ainda se reservava ao direito de não ter água quente e descarga. Mas, apesar de tudo, era limpinho e aconchegante (na medida do possível). 

O nosso canto (meu e do Jorge)

Enquanto eu vivia nessas condições a Marina ficou em uma casa do centro de meditação (não do Monastério) com varanda, ar condicionado, água quente e cozinha própria. Quem dizer que não existe divisão de classes dentro do complexo do mosteiro não sabe o que está falando. 

Último ponto descritivo que quero tirar do peito – todo mundo precisava andar de branco por lá, o que por horas me fazia pensar que eu estava em uma seita, apenas esperando o momento em que todos iriam tomar um chá especial para ascender aos céus de forma mais rápida. Deus me livre participar de um suicídio em massa na Tailândia, quero algo chique e que seja televisionado, no mínimo tem que ser nos Estados Unidos. 

Bom, agora que expliquei o contexto em que estávamos inseridos estou pronto para falar da meditação. A prática em si é muito simples, mas incrivelmente difícil de ser aplicada. O budismo de lá é do estilo Vipassana, que significa “ver as coisas como elas realmente são”. O objetivo maior desse estilo de meditação é estar no momento presente, ou como eles dizem em “atenção plena” (mindfullness). Nada de ficar perdido entre o passado e o futuro, como eu costumo/costumava fazer muito. 

Para atingir esse objetivo, de estar sempre no momento presente, você deve “notar” tudo que acontece com você. Estar consciente de todos os movimentos do seu corpo e da sua mente. “Notar” é simplesmente ter conhecimento de que algum fenômeno ocorreu, como um pensamento, um barulho, etc…. então a meditação não é daquele estilo “esvazie sua mente” nem nada assim, na verdade os dois estilos, sentado e andando, são exercícios para você sincronizar corpo e mente (o jeito mais fácil de voltar para o presente) e “notar” tudo o que acontece enquanto você os faz. Calma, vou dar um exemplo. Os exercícios vão aumentando em dificuldade, mas o estilo “andando” começa apenas com dois movimentos, você deve sincronizar seus passos com os pensamentos “direita vai aqui, esquerda vai aqui”. Simples né? E aí você faz isso por alguns minutos. Só que se ouvir um som durante essa prática você deve parar e “notar” repetindo na sua cabeça “ouvindo ouvindo ouvindo”. Se lembrar do fogão que esqueceu ligado durante o exercício você deve parar e pensar “pensando pensando pensando”. Se você imaginar todo mundo no hall de meditação pelado durante o exercício deve parar e pensar “pervertido pervertido pervertido” e depois “analisando analisando analisando”, pois as notações não devem ter caráter judicativo, elas apenas são observações do que você está sentindo/pensando/fazendo no momento. 

Parece besta e no começo é mesmo, mas você começa a perceber como essas “notações” impedem sua mente de viajar e te trazem de volta pra ação. Toda vez que eu ouvia um barulho, por exemplo, e não notava, era como se eu abrisse uma porta na minha mente e um monte de coisa saía de lá, e aí eu começava a viajar. O conceito básico é esse, o que acontece é que os exercícios ficam mais complexos e o tempo de meditação aumenta – 10 horas ou mais disso por dia. As notações são sempre feitas 3 vezes, não lembro porque. 

O hall de meditação onde a festa acontecia

Só que para esse processo começar a funcionar de forma “correta” é necessário passar por várias fases. É uma espécie de terapia encapsulada em 15 dias, afinal às vezes eu percebia que tinha pensado algo bizarro, depois me indagava por que pensei aquilo, e aí o buraco do coelho não tinha fim. São 10 horas por dia analisando suas próprias notações. Eu me odiei, me amei, odiei o mundo, fiquei irritado, senti saudades. Foi foda. As conversas com o guia são importantes pois ele vai indicando que algumas coisas são normais e também tentando te ensinar de leve alguns conceitos do budismo (nada forçado). Por exemplo, as notações são apenas observações, você não deve lutar contra o que está notando. Ao perceber isso é muito mais fácil se conhecer, se aceitar e deixar passar certos sentimentos ou pensamentos. Gostei desses papos e ensinamentos pois achei eles bem pé no chão, não foi algo dogmático como se espera de uma religião, mas sim como um conselho de um velho bêbado que fica no canto do boteco e que resolve conversar bem naquela noite em que você sabia que não deveria ter saído pois estava frio demais. Conselhos estranhos, mas que fazem sentido. 

Não virei budista nem nada, até porque pelo pouco tempo que ficamos lá o contato com o lado espiritual foi bem raso, mas gostei de realmente entender conceitos como: não temos 100% de controle de tudo, a impermanência das coisas e a insatisfação eterna em nossos coraçõezinhos (que existe principalmente no meu). 

Pelo menos dava para andar até um lago próximo e ver esse pôr do sol

Não vou falar mais sobre o processo porque realmente é uma coisa bem pessoal e posso estragar um pouco a experiência alheia caso algum dia alguém que lê isso aqui resolva se aventurar nos terrenos não mapeadas da mente humana. 

Porém vou falar que no começo, principalmente durante a meditação sentada (em que você fecha os olhos), rolam umas viagens muito loucas. Muito loucas mesmo. É diferente de imaginar ou sonhar, é mais real e bizarramente aleatório. Depois sua mente vai ficando mais “domada” e essas imagens não aparecem tanto, mas no começo teve de tudo na minha cabeça perturbada: cenas de filme comigo no meio, jogo de futebol com dinossauros, Nicolas Cage peixe com uma fantasia estilo Glub Glub, um japonês companheiro de prática saindo de um alface e mais milhares de coisas. Minha “visão” favorita foi quando do nada a Marina apareceu na minha cabeça fazendo um joia e usando um bigode falso, tipo aqueles exagerados de disfarce de filme. Mas garanto, tiveram coisas bem mais surreais.  No começo eu não anotava/escrevia nada (em teoria não pode), então perdi/esqueci muita coisa, mas quando vi que minha única anotação em 5 dias era “Doutor Estranho mais estranho ainda”, resolvi tomar vergonha na cara a registrar alguns fatos e viagens, anotações rápidas mesmo, para não infringir demais as regras. Também fiz uma lista dos filmes que invadiram minha cabeça de alguma forma, segue uma parte não alterada do compêndio original para vocês terem uma ideia da aleatoriedade (lembrando – são as anotações originais e não editadas):

Space Jam eh o melhor filme de esportes de todos os tempos – elaborar

Guerreiros do tempo (aquele do jean reno), tesouro nacional (nunca assisti). 

Breaking bad (meditando de cueca)

Bruxa de Blair

Deadpool 2

Quem vai ficar com mary

Drink no inferno

Julie e julia

Doug funnie

Esqueceram de mim 2

Mandy

Inception

Hellboy 

Clube dos Cinco

Cybercops

Terminator

Brooklyn 99

Incriveis 1 e 2 

About time

Fear and loathing in las vegas

Minority report

Kurosawa

Também passei algumas vergonhas, claro. A melhor foi ter dado aquele oi pra uma pessoa que estava saudando o Buda (achei que ela estava interagindo comigo). Certo dia, após comer uma coisa extremamente apimentada no refeitório peguei a garrafinha de água da Marina, que eu achei que estava com água, e dei um baita gole apenas para descobrir que o que tinha dentro era chá quente. Meus lábios quase se desintegraram, a dor consumiu minha alma e eu nem podia falar nada, pois todo mundo comia quieto igual defunto, parecia mais um necrotério do que um refeitório. Também teve a vez que ri com gosto de uma senhora que peidou alto no hall de meditação. Coisa boba, mas que provoca a risada de qualquer ser humano. 

Tem mais um milhão de coisas que gostaria de compartilhar. Mais coisas sobre a rotina do local, pequenas regrinhas da prática, histórias engraçadas do dia a dia, viagens, doideras, etc… mas para isso eu teria que fazer um outro blog só focado nesses 15 dias de prática.

Minha transformação após o retiro

Foi um período intenso, de disciplina e certo sacrifício, mas que valeu a pena. A experiência foi incrível e eu realmente acredito nos ganhos que todo esse “exercício mental” me trouxe. Acho que apenas entender a própria mente e o próprio corpo melhor já é um baita resultado. Por exemplo, sou muito noiado, daquele tipo de pessoa que fica lembrando de coisas até doer o estômago de tanto que eu fico me remoendo. Já acho mais fácil “me libertar” desse sentimento e conseguir voltar a focar em algo que realmente importa. Para lidar com concentração, ansiedade, paranóia, impaciência, angústia e etc… A prática serve para lidar com tudo isso. Mas é como se fosse um esporte mental né, precisa de prática. Também acho que é algo que “precisa pegar no tranco”, um período de isolamento para dar uma limpada em todos estímulos que nossas mentes recebem hoje em dia é, ao meu ver, necessário.

Inclusive a primeira vez que eu voltei pra cidade, ainda durante o retiro (fui comprar mantimentos no mercadinho), me senti naquelas cenas de filme em que o índio chega na cidade grande pela primeira vez, sabe? Barulho, imagem, cheiros, tudo se misturou numa explosão sensorial esquizofrênica. 

Depois de terminada essa jornada que quase nos matou pegamos um ônibus até a fronteira com o Laos para iniciar nossa travessia de barco pelo rio Mekong, mas isso é tema de um próximo post.

Beijos Quentes