Tailândia ou Chiang Mai e as lanternas do apocalipse

Esse relato cobre os eventos de 20/11/2018 a 27/11/2018.

Olá, companheiros da tormenta. Enquanto o relógio da perdição não bate meia-noite agracio vocês com mais um capítulo de nossa jornada um pouco torta.

Saímos do calor úmido e perverso de Bangcoc para encontrarmos paragens mais frescas bem ao norte da Tailândia, em Chiang Mai.

Chiang Mai, apesar de afastada da parte sul do país (onde ficam as incríveis praias e ilhas) e de ser até mesmo longe da capital, é um daqueles lugares que fazem parte de quase todos roteiros de quem visita a Tailândia. Não é por menos, a cidade, a maior da região norte, tem uma história incrível (já foi capital de um reino antigo) e é considerada uma das mais sagradas da Tailândia. O centro histórico, que ainda esbanja as ruínas da muralha que cercava o seu canal, abriga mais de 200 templos, um mais bonito que o outro.

Ruínas em Chiang Mai

Sabíamos que Chiang Mai era um lugar especial, mesmo sendo “popular”, só não sabíamos que cairíamos de paraquedas na cidade durante o seu festival mais famoso, o Yi Peng, o festival das lanternas. Olha, tem que ser muito perdido para chegar lá sem nem se tocar sobre o tal festival, tem gente que programa toda uma viagem baseada apenas nessa celebração, mas bem, nós somos as pessoas que ficaram perdidas e sem dinheiro em um parque chinês e literalmente esquecemos que o mês de fevereiro existia nas Filipinas (causo ainda a ser contado por aqui), por isso tudo é possível. Nós só queríamos conhecer a cidade e ir para o nosso retiro de meditação, que ficava ali pela região.

Nos demos conta que o festival estava para acontecer ainda em Bangcoc, quando tentamos comprar uma passagem de trem alguns dias antes de partir e o jovem do guichê praticamente riu das nossas caras. Estava tudo lotado. No fim achamos um ônibus de última hora e fomos, junto com todos turistas presentes na Tailândia naquele momento, até Chiang Mai.

Pensa em uma cidade que estava cheia. Pensou? Era Chiang Mai quando estávamos por lá. Tinha estrangeiro saindo até do bueiro. Mesmo assim aproveitamos bastante a nossa quase uma semana por lá. Que cidade gostosa. Acho que esse é o melhor jeito de descrever Chiang Mai – é um lugar gostoso. Como um amigo disse, parece cidade de praia sem praia. Ou uma cidade do interior de São Paulo com bastante estrutura. Não é a toa que lá é, como descobrimos depois, um paraíso de nômades digitais.

Um dos muitos templos

Deu para aproveitar bastante o centro antigo, andamos pra lá e pra cá vendo templos e tomando Thai Tea sob um sol bem intenso, mas muito mais tolerável do que enfrentamos em Bangcoc. Foi incrível ver a vida acontecendo ao lado de ruínas sagradas e grandes locais de adoração. Também aproveitamos muito às noites, encontramos um querido casal de amigos moradores da cidade (conhecemos eles em PhiPhi) que nos apresentou a vasta colônia brasileira que habita Chiang Mai. Tem gente trabalhando online, gente trabalhando em hostel, gente fazendo freelance e gente se virando como dá. Acho que brasileiro gosta tanto de Chiang Mai quanto de Phiphi. O importante é que conhecemos um pessoal bacana e tomamos umas cervejas geladas.

Além deles também encontramos outros viajantes brasileiros, mais especificamente representantes guerreiros do segmento de “famílias viajantes”, os incríveis @gemeosnamochila e @pelomundocomolucas. Compartilhamos um delicioso almoço em que considerei a possibilidade de nunca ser pai. Brincadeira, pessoal. Brincadeira. Eles são sim uma baita inspiração para nós.

Primeiro dia de festival

Claro, o festival aconteceu enquanto estávamos lá, inclusive começou no dia em que chegamos (ele dura alguns dias). A cidade estava linda, toda enfeitada com lanternas e ornamentos, o que só aumentou o charme do lugar. A abertura da cerimônia foi interessante, uma espécie de desfile de rua com danças típicas (pelo menos o que conseguimos ver). Apesar do índice desumano de gringos por metro quadrado toda a performance foi realizada por locais, o que sempre deixa tudo mais interessante. Os dias seguintes de festival foram marcados pelas oferendas e pedidos feitos em forma de lanternas e krathongs (barquinhos). O momento de soltura das lanternas é visualmente incrível, uma cena muito marcante da nossa viagem. Quando saímos do nosso hotel, à noite, e parte das lanternas já estavam no ar parecia que novas constelações estavam surgindo a cada segundo no escuro firmamento. Porém quando chegamos perto dos tradicionais locais de onde partem esses balões tailandeses a sensação foi outra. Invés de estrelas estáticas o que vimos foi muito movimento, uma coisa quase orgânica, como milhares de água-vivas nadando em um mar azul escuro, todas indo em uma só direção. Foi um espetáculo hipnotizante, mas causa uma certa estranheza ver mais estrangeiros participando dele do que locais. Sim, tinham muitos tailandeses nos rituais, mas mesmo assim a quantidade de “intrusos” na cerimônia era considerável. Confesso que não sei o que pensar sobre o tema. É interessante participar e se envolver com a cultura local, com certeza, mas quando será que a massificação do turismo de algo assim acaba cruzando a linha do aceitável? Aliás, existe essa linha? Só sei que muita gente que estava ali soltando lanternas não apresentava um grande envolvimento emocional e religioso com a cerimônia. Oras, até nós soltamos. Tudo bem que foi de um local mais reservado, com ajuda dos monges de um templo, mas mesmo assim não vou ser hipócrita e dizer que estava muito envolvido com a performance toda. Fui apenas mais um turista curioso que quis seguir a onda. E não vou nem falar dos polêmicos riscos ambientais das lanternas – uns dizem que não existe, pois elas são biodegradáveis, outros dizem que elas poluem rios e podem causar acidentes. Eu sei que curti o feito no momento, mas não faria de novo. Aliás não é difícil acreditar que essas lanternas possam causar queimadas e acidentes, só quando passeamos pelo rio vi umas 4 barraquinhas de comida que quase foram incineradas. E olha que ainda tinham uns gringos lá que se arrotassem no balão iriam causar uma explosão, a turma estava calibrada no álcool. Para se ter uma ideia em um dos mercados noturnos testemunhamos um jovem chinês exercitar o antigo ritual de vomitar até a alma, uma prática global.

Lanternas

Enfim, foi bonito, foi polêmico, foi interessante e graças a deus que acabou, porque tinha gente demais.

Logo após o termino do festival já deu para notar como a cidade esvaziou e tudo ficou um pouco mais calmo. Fizemos um passeio inesquecível para um dos templos mais famosos de lá, o Doi Suthep, que fica em uma montanha bem ao lado da cidade. Acordamos mais cedo do que qualquer ser humano deveria acordar, pegamos um tuktuk colina acima e assistimos a um nascer do sol inesquecível. Descemos a montanha por uma antiga trilha usada por monges e ainda paramos em um outro templo escondido pela mata e esquecido pela maioria dos turistas. Ao fim da caminhada voltamos de bicicleta para nosso hotel. Nesse mesmo dia fomos ao cinema, descobrimos que lá o filme demora meia-hora para começar e é necessário saudar o rei da Tailândia antes da película, o melhor é que ele garante que um vídeo sobre sua vida, digno de aniversário de 15 anos, passe antes de todas sessões. Só sendo rei mesmo para aprontar uma dessas e não ser zoado.

E, melhor que curtir um cinema relaxante foi a parte final do nosso dia, quando fomos à casa de um casal sensacional de amigos (aqueles que moravam em Chiang Mai e já comentei acima) e eles nos receberam com um jantar brasileiro: feijão, arroz, frango e farofa. Maravilhoso.

Cerveja e amizade (Re e Leo)

Isso foi logo antes do nosso retiro de meditação e agora tenho plena certeza que entupir todas as entranhas com feijão e farofa é o melhor ritual de preparação para qualquer prática espiritual. Pelo menos você enfrenta qualquer desafio feliz. É bem nutrido.

Fora isso o que fizemos foi curtir a cidade e dar uma passada “rápida” em Chiang Rai, outro local que muitos turistas visitam. Caso você queira conhecer Chiang Rai faça com calma e em mais de um dia, nos fizemos um passeio bate-volta e foi muito corrido. Não curtimos.

Nascer do sol no Doi Suthep

E foi assim que chegamos e aproveitamos, quase sem saber, uma das épocas mais intensas de Chiang Mai, um lugar delicioso e que merece ser visitado. Mas a estrada nos chamava, por isso demos tchau para o Léo e para Re, nossos amigos, e partimos para uma jornada dentro de nossas mentes em um retiro Vipassana. Esse é o tema do próximo post.

Beijos Quentes

Tailândia ou o capítulo da noite mais bizarra da viagem

Quem vem lá? A sim, são mais algumas almas perdidas nessa imensidão virtual. Bem vindos ao cemitério do bom senso e da alegria na internet. Vamos todos celebrar juntos o funeral diário da esperança em mais um post em que muitas coisas legais acontecem (comigo) e mesmo assim nós sabemos que nada disso importa, pois a vida não tem sentido.

Vou logo colocar uma foto bonita porque depois só vem besteira

Após a jornada intensa movida pelo poder da amizade e do álcool (que muitas vezes são a mesma coisa) que descrevi no post anterior é de se esperar que nós fossemos dar uma pisada no freio e desacelerar nosso veículo nessa famigerada pista chamada curtição. Ledo engano, aparentemente ainda tínhamos alguma (pouca) lenha pra queimar. Ou gasolina pra gastar, se eu quiser me manter na metáfora.

Continuamos seguindo a querida turma de brasileiros que conhecemos e, após a Full Moon, fomos parar em Koh Tao, uma ilhazinha ali perto, ainda no Golfo da Tailândia. Eu achava que a cor de mar incrível seria exclusiva da costa oeste, mas lá é bonito pra caramba também. Eu não vou entrar (de novo) em todos pormenores da cor da água e etc…. mas só quero dizer que Koh Tao tem uma visibilidade tão boa embaixo da água que é um paraíso para mergulhadores. Dá para enxergar aquela verruga nojenta que seu amigo tem no pescoço a uns 10 metros de distância. A água de Koh Tao é o full HD das águas da Ásia (pelo menos isso era o que nós pensávamos nessa altura da viagem, mas só descobriríamos que estávamos errados muitos meses depois).

A ilha também é bem menor que Koh Phangan, definitivamente um lugar muito bom para descansar e colocar a pança em dia com o céu azul. Inclusive pegamos um quarto melhorzinho em um hotel, pois nosso hostel na outra ilha tinha cheiro de gente morta. Ou alguma coisa morta. Definitivamente tinha um cheiro podre.

Caso um dia esteja pela Tailândia esse é um lugar que vale a pena conhecer. Tranquilo na medida certa, com bons restaurantes e bares, praias lindas e uma dose comedida (mas divertida) da famosa “baguncinha”.

Nossos companheiros de pátria ficaram em um hotel resort bem ao lado do nosso, o que facilitou nosso uso da incrível piscina deles. Não é todo dia que o mochileiro tem acesso à piscina com vista panorâmica e borda infinita, por isso fizemos questão de aproveitar bastante a infraestrutura alheia. Convenhamos, nada mal curtir um pôr do sol dos penhascos beira-mar e de dentro de uma piscina. Com uma cerveja na mão? Claro, com uma cerveja na mão. Enquanto o vermelho escorria pelo horizonte lá estávamos nós com os glúteos submersos acenando tchau para nossa estrela favorita.

Até a chuva de fim de tarde era gostosa em Koh Tao

Mas não foi só de piscina e relax que se fez nossa visita à Koh Tao. Apesar da aparente tranquilidade a nossa esbórnia continuou. De dia passeios e muita Chang na cabeça à noite. A ilha não decepciona os mais animados e tem uns bares bem divertidos, e, claro, festa na praia com muito fogo envolvido. Ainda bem que as coisas fecham cedo, tipo uma ou duas da manhã, pois eu já estava quase no limite do meu “festômetro” e o motor ameaçava enguiçar. Admiro quem tem a energia para farrear como se não houvesse amanhã todos os dias, porque o amanhã sempre chega e com ele vem a ressaca, o peso da idade e a vontade de enfiar a cabeça na privada e puxar a descarga. Nossa história de glamour etílico foi como o conto da Cinderela, linda enquanto durou, mas a meia noite vem para todo mundo e vou falar, meu fígado já tinha virado abóbora faz tempo.

Rapaz… nem sei

Falando em comemorações é preciso destacar que foi lá que comemoramos o aniversário da Marina, uma das noites mais bizarras que tivemos na viagem. Quiçá a mais bizarra (e divertida).

Para entender melhor a nossa comemoração vou explicar rapidamente a estrutura rígida que seguíamos toda noite em nossas celebrações à vida. Koh Tao tem uma rua principal de bares/baladas e cada recinto tem um horário único de pico de diversão. Por isso começávamos no ponto mais a oeste da rua, o maiss afastado dos nossos hotéis, e vínhamos voltando pela passarela da bagunça. Assim quando um estabelecimento fechava pulávamos pro próximo, íamos do bar de música ao vivo, passando pelo bar da competição de beer pong, pela balada pirotécnica até o “clube estranho”, onde o ambiente era escuro e a galera que frequentava já estava em outra dimensão. Isso até tudo acabar de vez e só restarem os malucos comprando misto-quente na seven eleven. Explicado o contexto vamos a fatídica noite em si, 28 de Outubro de 2018 (o aniversário da Marina é dia 29, mas a ideia era passar a virada com a turma toda). Tudo começou com os baldinhos de Thai Vodka e as Changs de sempre, curtimos uma música ao vivo e já entramos naquela famosa faixa etílica chamada de “alegre”. Encontramos uma brasileira louca (mais uma) que tentou baforar Rexona no meio do bar e acabou engolindo uma cacetada de desodorante no processo (se você não sabe o que é baforar Rexona pergunte a um colega), ela espumou como um macaco tailândes com raiva. Chegou o momento da troca de bar e indo de um local para outro encontramos um menininho local jogando bola sozinho na rua e eu e alguns dos rapazes ficamos ali com ele, curtindo um futebol noturno. Foi uma interação muito bacana e ele ficou feliz de poder jogar com alguém. A parte negativa disso é que me empolguei no processo e acabei esquecendo que a meia noite estava perto e aí seria realmente o aniversário da Marina, o que resultou em um “parabéns pra você” no (próximo) bar sem a minha presença. De novo o futebol atrapalhou nosso relacionamento, mas nada que alguns beijos e palavras sinceras não consertem.

Esporte com locais

A noite seguiu pelos locais de sempre, mas devido a comemoração com uma influência ainda maior do álcool. Jogamos beer pong e bebemos, conversamos e bebemos, dançamos e bebemos, e a Marina até pulou a temida corda de fogo (e bebeu). Eu amarelei e falo com tranquilidade. Tenho consciência das minhas limitações e por alguma razão cósmica sou incapaz de pular corda. Caso eu tentasse me aventurar na atividade viraria o novo tocha-humana.

E lembram da querida companheira que citei acima? A que espumou Rexona? Oras, não é que certa hora ela, que conhecia a Marina há cerca de umas 12 horas, a abraçou e ambas choraram (muito) juntas devido a melodia adocicada de palavras ditas com aroma de desodorante. Foi um momento estranho de uma noite que estava prestes a ficar mais estranha ainda.

Por fim, quando já estávamos na nossa rotina de fim de balada (mistão da madrugada na seven eleven) conhecemos uns estrangeiros que estavam tão fora de si quanto nosso grupo. Em dado momento eles pediram para nós “cantarmos alguma música brasileira” para eles dançarem (sim, assim do nada).

Até hoje não sei se foi algo espontâneo ou brasileiro que é sacana mesmo, mas alguém puxou e aí todos nós começamos a cantar o jingle do Eymael (ele mesmo, o democrata cristão) e a gringaiada começou a rebolar até o chão. Foi um momento que talvez palavras não consigam capturar a magia (ou eu não sou um escritor bom o suficiente para isso), mas foi mágico relembrar do inenarrável Eymael dessa forma. Para finalizar, enquanto cantávamos nosso hino, saiu da escuridão um tailândes só de toalha e armado (com um revólver, não com libido) ameaçando a gente. Sim, isso aconteceu. Pera aí que eu vou repetir para você absorver direito – enquanto brasileiros cantavam o jingle eleitoral do Eymael e alguns estrangeiros piravam dançando como se não houvesse amanhã, surgiu das sombras um guardião da tranquilidade tailandês, trajando apenas uma toalha e segurando uma arma, e nos pediu “gentilmente” para acabar com a algazarra. Acho que ele ficou bravo de escutar uma gritaria na rua duas da manhã.

Foi uma noite memorável .

Os dias seguintes foram amargos, não pela ressaca acumulada, mas sim pela série de “adeus” que tivemos que dar. Nossos amigos, que estavam de férias, tinham outros destinos e nós continuamos por lá. Despedidas são uma constante nesse tipo de viagem, mais do que eu esperava, e na Tailândia ainda estávamos aprendendo a lidar com elas. É fácil seguir em frente quando o mundo todo te espera, mas não é tão fácil assim dar tchau para algo ou alguém que te lembrem de um pedaço de casa. Enfim, era momento de continuar a viagem.

Koh Nang Yuan

Um último destaque antes de terminar o relato desse magnífico pedaço de terra (e mar) que é Koh Tao. Durante nosso passeios pela ilha topamos com algumas praias incríveis, mas nada foi tão incrível quanto a ilhota de Koh Nang Yuan, que fica bem próxima ao píer principal de lá (é tão perto que dá para ir nadando, mas não é uma nadada fácil). Que lugar fantástico. Para rivalizar com as belezas de Phi Phi. É realmente bem pequeno, são dois montes pedregosos unidos por uma estreita faixa de areia. De um lado o mar é turquesa e do outro verde transparente. Subir até o mirante é imperdível, tem uma daquelas vistas de tirar o fôlego. Um dos lugares mais bonitos que visitamos nesse país que esbanja beleza. Gostamos tanto que fomos duas vezes pra lá.

E é com essa última descrição romântica de ilhas tropicais que termino o relato da nossa estadia em Koh Tao. A última parte da nossa aventura regada a álcool que nos envelheceu uns 10 anos, mas encheu de alegrias o coração. A partir de agora voltávamos a ser apenas nós dois, os patetas contra o mundo. E esse é um sentimento bom demais também.

Mal sabíamos que ainda passaríamos muito tempo na Tailândia, mas isso é tema para um próximo post.

Beijos Quentes

Tailândia ou o capítulo etílico

Esse relato cobre os eventos de 21/10/2019 a 27/10/2019

Olá, sobreviventes desse chiqueiro fétido chamado internet. Eis aqui mais um capítulo de uma parte meio nebulosa da viagem, muito pelo excesso de álcool e falta de responsabilidade que esse pedaço abençoado (amaldiçoado) de terra, chamado Tailândia, imbui em nós pobres humanos.

Phi Phi é phoda (achei muito bom meu jogo de palavras)

Retomo o relato de onde tinha parado, uma madrugada semi-bêbado em Phi Phi.

Bom, no dia seguinte (sem ressaca) fizemos um passeio chamado “Barco do Pirata”, uma atividade recomendada para nós por um monte de gente. Antes de continuar a história, uma nota sobre esse passeio – o “Barco do Pirata” é uma das muitas opções que existem para fazer um “day tour” pelas praias de Phi Phi e pelas ilhas vizinhas, só que no caso o barco é todo estiloso e realmente parece um barco pirata (ponto positivo), tem uma baita infra-estrutura (ponto positivo) só que é um passeio caro (ponto negativo) comparado aos outros e bem badalado, a galera vai bebendo e tem até dj a bordo (ponto que eu achava que seria negativo) – por causa disso tudo ficamos um pouco relutantes, não estávamos a fim de badalação, mas acabamos escolhendo essa opção pois toda brasileirada que nos aconselhou falou muito bem do passeio (claro, a galera ama festa) e achamos que seria bom conhecer outras pessoas (algo necessário após quase 3 meses ficando 24 horas ao lado do mesmo ser).

Eu estava ainda mais reticente que a Marina, quem me conhece sabe que tenho preguiça desse tipo de atividade, ainda mais em um barco cheio de gente bêbada e possivelmente com um perfil meio “rei do camarote”. Quem me conhece sabe também que depois de umas duas Changs na cabeça (a opção mais barata de cerveja local) eu gosto bastante de uma baguncinha. Nada como um pouco de álcool e música latina para quebrar a sisudez de um homem.

O “Barco Pirata” foi muito legal no fim das contas. Afinal nem só de contato local e experiências transformadoras se faz uma viagem, é preciso ter um equilíbrio com a diversão inconsequente. Aliás, quer experiência mais transformadora que uma noite de embriaguez? Garanto que você não será a mesma a depois de doses cavalares de álcool.

Calma, amigos. Não virei o rei do camarote tailândes nem nada do tipo, mas como disse acima, às vezes uma zorra é bem vinda. Nesse passeio conhecemos uma galera do Brasil, todos muito gente boa. Um pessoal animado que curte fazer uma festa raiz. Tenho certa dificuldade em manter amizades novas, mas pulando de ilha em ilha, navegando pelo mar verde-esmeralda da Tailândia, foi fácil. Uma turma incrível que chamamos de amigos até hoje. Inclusive a intimidade veio fácil até demais, em dois dias a Marina já estava fazendo declarações alcoolizadas para a turma (isso durante um bizarro jogo de mímica que acontecia às duas da manhã durante uma tempestade). E afinal, por que estou dando tanta ênfase para essa galera e não para o passeio em si? Porque eles foram determinantes para os próximos dias da viagem, mas daqui a pouco eu explico, calma lá leitor afoito.

A turma

Enfim, voltando ao tour propriamente dito – o barco tinha tudo que eu já disse, alguns “frat boys”, uma galera gente boa, dj, parecia mesmo de pirata e passou por lugares incríveis. Sério, a região de Phi Phi é surreal. Você pode odiar festa, pode odiar a vida, sei lá, mas vá lá um dia. O mar é de um esmeralda transparente que gosta de mudar para jade ou turquesa de tempos em tempos (maluco, eu sei) e as formações de calcário que emergem de forma repentina no oceano são magníficas. Parece cenário de filme, sem sacanagem. Falando em filme, acho que já comentei sobre “A Praia” no texto anterior, mas nesse dia do Pirata passamos por Maya Bay, o local onde foi filmada a película. Não dava para entrar lá pois o governo fechou tudo pro “mar descansar” (ainda bem), mas tanto faz, porque nesse mesmo dia conhecemos Pileh Lagoon, possivelmente o lugar mais bonito que já vi com esses olhinhos que a vida me deu. É uma espécie de cânion inundado desenhado pela estranha formação da ilha que lembra um pouco uma ferradura, “dentro” descansa uma piscina natural gigantesca banhada por aquela água magnífica (juro que um dia paro de comentar sobre a cor da água por aqui) e cheia de pequenas cavernas em volta. Entramos ali de caiaque e parecia que estávamos explorando o local de descanso de alguma criatura esquecida pelo tempo no fundo do oceano. Por favor, para os que não foram, deem um Google aí.

O resto do passeio foi marcado por praias com macacos selvagens, outra ilha bem mais bonita que a Praia Grande, um pôr do sol rosa e azul e uns free shots no barco.

A entrada da Pileh Lagoon. Foto tosca mas é a única que eu tenho

O que merece destaque dos nossos dias restantes em Phi Phi são lugares como Long Beach e Nui Bay, que até já tínhamos visitado mas que ganharam uma segunda inspeção. As noites foram marcadas por festas na praia com a mesma turma que já mencionei, muito fogo, baldinhos de bebida e pizzas da madrugada. Como já disse no post anterior, até estendemos nossa estadia em Phi Phi, pois o astral do lugar é muito mágico. É cheio de turistas (estivemos lá na baixa temporada, não quero nem ver na alta) e cheia de festas/badalação, mas mesmo assim vale a pena demais. Parece uma terra do nunca encapsulada em uma ilha (a Terra do Nunca é uma ilha???), o tempo é diferente por lá. O povo é gente boa, o cenário é de cair o queixo e dá para ser feliz do jeito que mais te apetece, pode ser bêbado na praia, em alguma trilha perdida no meio da mata, pegando um táxi ou mergulhando em águas cristalinas. Encontramos vários brasileiros que estão morando por lá e vivendo de bicos, confesso que no começo achei meio estranho, mas no fim entendi a motivação dessa galera que se digna a bater corda com fogo pra turista maluco pular. Oras, eu quase me tornei um deles. Foi triste falar tchau pra um lugar desses, mas no fim estávamos nós lá, em frente a balsa de saída, só mais dois corpos no meio da fila indiana da tristeza, a fila daqueles que saem da ilha deixando um pouco mais do que os fluídos corporais expelidos durante crises alcoólicas – deixamos ali um pedaço de nossa felicidade (leve exagero para aumentar o impacto dramático).

Uma terra de aventuras

E aqui voltamos à galera que conhecemos durante o passeio. Eles foram determinantes para nosso roteiro na Tailândia, como estávamos nos divertindo demais toda noite decidimos continuar no bonde. E por isso alteramos nossos planos: nossa ideia era ficar apenas pelo lado da costa do Mar de Andaman, a parte oeste, mas como todos eles iriam pra Koh Phangan (ilha na outra costa, no Golfo da Tailândia) fomos juntos. Pra ser sincero eu fui um pouco resistente, pois o objetivo final nessa ilha era chegar até a Full Moon Party, festa que acontece todo mês durante, bem, a lua cheia. A mais famosa é a do ano novo, mas tem 12 dessas por ano. Enfim, acabei cedendo porque fui cativado pelas novas amizades e achei interessante a ideia de mudar algo planejado assim do nada. Para você, jovem normal e com a mente sã, isso pode não ser nada demais, mas no mundo de Rafael e suas planilhas sair um pouco fora do roteiro gera tanta adrenalina quanto conhecer o Vin Diesel. E também requer um esforço mental considerável. Lá fomos nós para a Full Moon.

Nós e todos que estavam em Phi Phi, aparentemente. Vou te falar, você entra em um redemoinho nessas ilhas tailândesas e não sai mais, parece que todo mundo está fazendo a mesma coisa que você. Teve gente que eu encontrei em todas ilhas que visitei. Acho que isso chama turismo né.

Um fato interessante que aconteceu foi que para chegar até a Koh Phangan pegamos uma série de balsas e ônibus, e em dada parte do percurso me separei da Marina. Não, ela não fugiu na garupa do primeiro tailandês bonitão que passou de moto (mas devia), o que aconteceu foi que durante uma parada na estrada ela foi pegar algo com um dos nossos amigos que estava em outro ônibus e o veículo saiu andando a toda, com ela dentro, me deixando ali desolado e sozinho na beira da rodovia. Foram minutos de intenso desespero e um silêncio acalentador, um verdadeiro pout pourri paradoxal. No final ficou tudo bem, pois todos iam para o mesmo lugar, mas que foi bizarro ver o ônibus partindo com a pequena Maris lá dentro, foi.

A Full Moon em si não foi nada demais. Nos falaram que seria a coisa mais louca de nossas vidas, que iríamos acordar em outro país sem algum membro e coisa do tipo… Mas é uma festa grande na praia, como uma festa de ano novo, só que com mais malabarismo com fogo (festa que é festa na Tailândia precisa ter pelo menos algum elemento pirotécnico, se nenhum turista se queimar eles consideram um fracasso). Talvez para quem esteja mais na pegada a experiência seja outra, talvez nós curtimos errado a festa. Quem sabe. Mas foi divertido sim, não posso dizer que a noite em que eu vi o corredor do hotel girar 90 graus e depois dissolver na minha frente tenha sido ruim. Também não posso dizer que a noite em que nós nos teletransportamos até o quarto do hostel sem saber como tenha sido ruim. Ok, foi legal. Carnaval ainda é melhor.

Ainda em Koh Phangan pegamos um dia para andar de motinho em grupo, foi um pouco bizarro, pois eram 13 scooters e, claro, eu liderava o grupo (apenas porque a Marina foi na minha garupa e ia olhando o mapa no celular). Era como uma versão bem mais triste de Sons of Anarchy desfilando pela ilha. Teve chuva, colisão e muita gente olhando para nós com um olhar que era misto de dó e curiosidade.

Fomos em duas praias bonitas, mas nada perto do que já tínhamos visto por esse país que é bonito além da conta. O outro dia na ilha foi dedicado a curar a ressaca da Full Moon e o momento mais emocionante aconteceu quando finalmente consegui comer meu misto quente da Seven Eleven (Seven Eleven é vida aqui na Tailândia, como é no Japão também) sem sentir que meu estômago me odiava por isso.

Abalando as estruturas de Koh Phangan

Ufa, foram dias de excesso. Excesso de belezas naturais e excesso de substâncias inebriantes. Acho que precisávamos disso, foi um momento importante de “abrir” nossa viagem para outras experiências e conhecer mais a fundo outras pessoas. Também esquecemos brevemente nossa idade e enfrentamos com extrema tenacidade as ressacas a que os nossos corpos nos submeteram. Depois de Koh Phangan fomos para Koh Tao, onde tivemos a pernada final (e mais bizarra) de nossa maratona etílica, mas isso é assunto para o próximo post.

Beijos Quentes