Tailândia ou o capítulo etílico

Esse relato cobre os eventos de 21/10/2019 a 27/10/2019

Olá, sobreviventes desse chiqueiro fétido chamado internet. Eis aqui mais um capítulo de uma parte meio nebulosa da viagem, muito pelo excesso de álcool e falta de responsabilidade que esse pedaço abençoado (amaldiçoado) de terra, chamado Tailândia, imbui em nós pobres humanos.

Phi Phi é phoda (achei muito bom meu jogo de palavras)

Retomo o relato de onde tinha parado, uma madrugada semi-bêbado em Phi Phi.

Bom, no dia seguinte (sem ressaca) fizemos um passeio chamado “Barco do Pirata”, uma atividade recomendada para nós por um monte de gente. Antes de continuar a história, uma nota sobre esse passeio – o “Barco do Pirata” é uma das muitas opções que existem para fazer um “day tour” pelas praias de Phi Phi e pelas ilhas vizinhas, só que no caso o barco é todo estiloso e realmente parece um barco pirata (ponto positivo), tem uma baita infra-estrutura (ponto positivo) só que é um passeio caro (ponto negativo) comparado aos outros e bem badalado, a galera vai bebendo e tem até dj a bordo (ponto que eu achava que seria negativo) – por causa disso tudo ficamos um pouco relutantes, não estávamos a fim de badalação, mas acabamos escolhendo essa opção pois toda brasileirada que nos aconselhou falou muito bem do passeio (claro, a galera ama festa) e achamos que seria bom conhecer outras pessoas (algo necessário após quase 3 meses ficando 24 horas ao lado do mesmo ser).

Eu estava ainda mais reticente que a Marina, quem me conhece sabe que tenho preguiça desse tipo de atividade, ainda mais em um barco cheio de gente bêbada e possivelmente com um perfil meio “rei do camarote”. Quem me conhece sabe também que depois de umas duas Changs na cabeça (a opção mais barata de cerveja local) eu gosto bastante de uma baguncinha. Nada como um pouco de álcool e música latina para quebrar a sisudez de um homem.

O “Barco Pirata” foi muito legal no fim das contas. Afinal nem só de contato local e experiências transformadoras se faz uma viagem, é preciso ter um equilíbrio com a diversão inconsequente. Aliás, quer experiência mais transformadora que uma noite de embriaguez? Garanto que você não será a mesma a depois de doses cavalares de álcool.

Calma, amigos. Não virei o rei do camarote tailândes nem nada do tipo, mas como disse acima, às vezes uma zorra é bem vinda. Nesse passeio conhecemos uma galera do Brasil, todos muito gente boa. Um pessoal animado que curte fazer uma festa raiz. Tenho certa dificuldade em manter amizades novas, mas pulando de ilha em ilha, navegando pelo mar verde-esmeralda da Tailândia, foi fácil. Uma turma incrível que chamamos de amigos até hoje. Inclusive a intimidade veio fácil até demais, em dois dias a Marina já estava fazendo declarações alcoolizadas para a turma (isso durante um bizarro jogo de mímica que acontecia às duas da manhã durante uma tempestade). E afinal, por que estou dando tanta ênfase para essa galera e não para o passeio em si? Porque eles foram determinantes para os próximos dias da viagem, mas daqui a pouco eu explico, calma lá leitor afoito.

A turma

Enfim, voltando ao tour propriamente dito – o barco tinha tudo que eu já disse, alguns “frat boys”, uma galera gente boa, dj, parecia mesmo de pirata e passou por lugares incríveis. Sério, a região de Phi Phi é surreal. Você pode odiar festa, pode odiar a vida, sei lá, mas vá lá um dia. O mar é de um esmeralda transparente que gosta de mudar para jade ou turquesa de tempos em tempos (maluco, eu sei) e as formações de calcário que emergem de forma repentina no oceano são magníficas. Parece cenário de filme, sem sacanagem. Falando em filme, acho que já comentei sobre “A Praia” no texto anterior, mas nesse dia do Pirata passamos por Maya Bay, o local onde foi filmada a película. Não dava para entrar lá pois o governo fechou tudo pro “mar descansar” (ainda bem), mas tanto faz, porque nesse mesmo dia conhecemos Pileh Lagoon, possivelmente o lugar mais bonito que já vi com esses olhinhos que a vida me deu. É uma espécie de cânion inundado desenhado pela estranha formação da ilha que lembra um pouco uma ferradura, “dentro” descansa uma piscina natural gigantesca banhada por aquela água magnífica (juro que um dia paro de comentar sobre a cor da água por aqui) e cheia de pequenas cavernas em volta. Entramos ali de caiaque e parecia que estávamos explorando o local de descanso de alguma criatura esquecida pelo tempo no fundo do oceano. Por favor, para os que não foram, deem um Google aí.

O resto do passeio foi marcado por praias com macacos selvagens, outra ilha bem mais bonita que a Praia Grande, um pôr do sol rosa e azul e uns free shots no barco.

A entrada da Pileh Lagoon. Foto tosca mas é a única que eu tenho

O que merece destaque dos nossos dias restantes em Phi Phi são lugares como Long Beach e Nui Bay, que até já tínhamos visitado mas que ganharam uma segunda inspeção. As noites foram marcadas por festas na praia com a mesma turma que já mencionei, muito fogo, baldinhos de bebida e pizzas da madrugada. Como já disse no post anterior, até estendemos nossa estadia em Phi Phi, pois o astral do lugar é muito mágico. É cheio de turistas (estivemos lá na baixa temporada, não quero nem ver na alta) e cheia de festas/badalação, mas mesmo assim vale a pena demais. Parece uma terra do nunca encapsulada em uma ilha (a Terra do Nunca é uma ilha???), o tempo é diferente por lá. O povo é gente boa, o cenário é de cair o queixo e dá para ser feliz do jeito que mais te apetece, pode ser bêbado na praia, em alguma trilha perdida no meio da mata, pegando um táxi ou mergulhando em águas cristalinas. Encontramos vários brasileiros que estão morando por lá e vivendo de bicos, confesso que no começo achei meio estranho, mas no fim entendi a motivação dessa galera que se digna a bater corda com fogo pra turista maluco pular. Oras, eu quase me tornei um deles. Foi triste falar tchau pra um lugar desses, mas no fim estávamos nós lá, em frente a balsa de saída, só mais dois corpos no meio da fila indiana da tristeza, a fila daqueles que saem da ilha deixando um pouco mais do que os fluídos corporais expelidos durante crises alcoólicas – deixamos ali um pedaço de nossa felicidade (leve exagero para aumentar o impacto dramático).

Uma terra de aventuras

E aqui voltamos à galera que conhecemos durante o passeio. Eles foram determinantes para nosso roteiro na Tailândia, como estávamos nos divertindo demais toda noite decidimos continuar no bonde. E por isso alteramos nossos planos: nossa ideia era ficar apenas pelo lado da costa do Mar de Andaman, a parte oeste, mas como todos eles iriam pra Koh Phangan (ilha na outra costa, no Golfo da Tailândia) fomos juntos. Pra ser sincero eu fui um pouco resistente, pois o objetivo final nessa ilha era chegar até a Full Moon Party, festa que acontece todo mês durante, bem, a lua cheia. A mais famosa é a do ano novo, mas tem 12 dessas por ano. Enfim, acabei cedendo porque fui cativado pelas novas amizades e achei interessante a ideia de mudar algo planejado assim do nada. Para você, jovem normal e com a mente sã, isso pode não ser nada demais, mas no mundo de Rafael e suas planilhas sair um pouco fora do roteiro gera tanta adrenalina quanto conhecer o Vin Diesel. E também requer um esforço mental considerável. Lá fomos nós para a Full Moon.

Nós e todos que estavam em Phi Phi, aparentemente. Vou te falar, você entra em um redemoinho nessas ilhas tailândesas e não sai mais, parece que todo mundo está fazendo a mesma coisa que você. Teve gente que eu encontrei em todas ilhas que visitei. Acho que isso chama turismo né.

Um fato interessante que aconteceu foi que para chegar até a Koh Phangan pegamos uma série de balsas e ônibus, e em dada parte do percurso me separei da Marina. Não, ela não fugiu na garupa do primeiro tailandês bonitão que passou de moto (mas devia), o que aconteceu foi que durante uma parada na estrada ela foi pegar algo com um dos nossos amigos que estava em outro ônibus e o veículo saiu andando a toda, com ela dentro, me deixando ali desolado e sozinho na beira da rodovia. Foram minutos de intenso desespero e um silêncio acalentador, um verdadeiro pout pourri paradoxal. No final ficou tudo bem, pois todos iam para o mesmo lugar, mas que foi bizarro ver o ônibus partindo com a pequena Maris lá dentro, foi.

A Full Moon em si não foi nada demais. Nos falaram que seria a coisa mais louca de nossas vidas, que iríamos acordar em outro país sem algum membro e coisa do tipo… Mas é uma festa grande na praia, como uma festa de ano novo, só que com mais malabarismo com fogo (festa que é festa na Tailândia precisa ter pelo menos algum elemento pirotécnico, se nenhum turista se queimar eles consideram um fracasso). Talvez para quem esteja mais na pegada a experiência seja outra, talvez nós curtimos errado a festa. Quem sabe. Mas foi divertido sim, não posso dizer que a noite em que eu vi o corredor do hotel girar 90 graus e depois dissolver na minha frente tenha sido ruim. Também não posso dizer que a noite em que nós nos teletransportamos até o quarto do hostel sem saber como tenha sido ruim. Ok, foi legal. Carnaval ainda é melhor.

Ainda em Koh Phangan pegamos um dia para andar de motinho em grupo, foi um pouco bizarro, pois eram 13 scooters e, claro, eu liderava o grupo (apenas porque a Marina foi na minha garupa e ia olhando o mapa no celular). Era como uma versão bem mais triste de Sons of Anarchy desfilando pela ilha. Teve chuva, colisão e muita gente olhando para nós com um olhar que era misto de dó e curiosidade.

Fomos em duas praias bonitas, mas nada perto do que já tínhamos visto por esse país que é bonito além da conta. O outro dia na ilha foi dedicado a curar a ressaca da Full Moon e o momento mais emocionante aconteceu quando finalmente consegui comer meu misto quente da Seven Eleven (Seven Eleven é vida aqui na Tailândia, como é no Japão também) sem sentir que meu estômago me odiava por isso.

Abalando as estruturas de Koh Phangan

Ufa, foram dias de excesso. Excesso de belezas naturais e excesso de substâncias inebriantes. Acho que precisávamos disso, foi um momento importante de “abrir” nossa viagem para outras experiências e conhecer mais a fundo outras pessoas. Também esquecemos brevemente nossa idade e enfrentamos com extrema tenacidade as ressacas a que os nossos corpos nos submeteram. Depois de Koh Phangan fomos para Koh Tao, onde tivemos a pernada final (e mais bizarra) de nossa maratona etílica, mas isso é assunto para o próximo post.

Beijos Quentes

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