Mongólia 2 ou o capítulo dos banheiros decrépitos e um povo incrível

Olá, amigo leitor. Espero que você não esteja bêbado e tenha chegado sem querer nesse site, mas se esse foi o caso torço para que minhas palavras entorpeçam mais você do que o álcool. Ninguém merece encarar essa vida de cara limpa.

Esse é mais um relato sobre a Mongólia, como os mais atentos já adivinharam pelo título. Só que agora não vou falar nada sobre nosso roteiro e as atrações que visitamos, assunto do post anterior.

Esse é um texto para falar sobre nossa experiência com as famílias nômades, nossa experiência com nosso guia e motorista e nossa experiência com banheiros que desafiaram nossa capacidade fisiológica.

Como já expliquei no outro post, fechar um tour é também importante para arranjar acomodações na Mongólia. Fora Ulan Bator não existem grandes cidades, aliás qualquer tipo de cidade já é algo raro. O que tem por lá são algumas vilas espalhadas pelo país, algumas maiores e outras menores. E elas também são raras, então depender da sorte em um local com um clima inclemente e natureza inóspita não é uma boa. Com o pacote que fechamos (e como acontece com todos os outros) nós ficávamos em ger’s de famílias nômades. Os gers são a moradia tradicional dos nômades, uma espécie de tenda, e com o tour sempre tínhamos um ger pra chamar de nosso no fim do dia. Apesar de os nativos serem muito hospitaleiros, não sei o quanto seria possível fazer esse tipo de acordo “por conta”.

Aliás, os ger são incríveis. “Casinhas” circulares e espaçosas, (considerando que podem ser montadas e desmontadas) eles são tipo coração de mãe, cabe tudo lá dentro. Os nossos sempre eram simples e apenas continham nossas camas e no máximo uma mesinha para comer. Mas os “oficiais”, das famílias, tinham de tudo em apenas um cômodo: fogão, camas, armário, tv, etc…. e todos membros da família vivem sob o mesmo teto, dormindo espalhados pelo chão. É apertado e bagunçado (para nós), mas parte de um estilo de vida incrível que ainda é a regra para uma parcela considerável da população. Rapaz, imagina um país em que parte do povo ainda se desloca de lá pra cá com suas “casas móveis”? Doideira.

O famoso ger
Interior de um dos ger em que nós ficamos
Interior do ger de uma família – até forno tem, tudo no mesmo cômodo

Aliás, falando nos nômades, eles foram a parte mais especial do nosso tempo na Mongólia. Fechar um tour em um grupo pequeno é a chance de conhecer de perto as famílias que os recebem. A cada noite víamos e conversávamos com pessoas diferentes, desde nômades do deserto que criam camelos a nômades das montanhas que criam cavalos (aliás, as famílias sempre tem algum tipo de criação animal). Vimos membros do rebanho sendo mortos e cortados na nossa frente, acompanhamos a produção de uma bebida local feita de leite de égua, o cozimento das tripas de uma ovelha (que impestiou todo o ger), ouvimos histórias e brincamos com as crianças. Foi memorável.

A vida na Mongólia
Fomos convidados para um chá com essa família

Uma das experiências mais legais da viagem aconteceu em um dia em que a Marina interagiu bastante com as crianças de uma família, e eu, menos simpático acabei fazendo um desenho do homem-aranha montado em um camelo pra um dos meninos, afinal era um grupo criador de camelos. Eu gostei de fazer, ele achou o desenho meio tosco mas gostou de receber (acho). Tá valendo.

Marina interagindo 1
Marina interagindo 2
O famigerado desenho

E já que comecei falando tudo isso sobre os ger, vale lembrar um ponto importante sobre eles e sobre nossa jornada na Mongólia. Obviamente são instalações simples, sem qualquer infraestrutura relacionada a higiene ou eletricidade. Quer dizer, banheiros existem sim, chuveiros e luz elétrica já são bem mais raros.

Porém os banheiros não ficam dentro do ger, são daquele tipo “casinha triste que esconde um buraco no chão”. Sim, o banheiro era apenas um fosso, uma linha direta para um inferno de mal cheiro. Hoje, depois de 7 meses de viagem, já estamos acostumados com isso, mas ali no começo, no nosso segundo país, foi um choque. Na verdade não foi um choque, mas sim uma barreira para usos mais, errr, técnicos do toalete. Vou ser sincero, tive que vencer uma baita barreira pessoal para conseguir realizar todas minhas funções no banheiro/buraco, principalmente quando o buraco parecia um vórtex de moscas malditas que davam a impressão de querer invadir nossas cavidades.

Desculpe se fui muito explícito no parágrafo anterior, queria dividir com vocês o quão visceral a situação foi pra mim. Mas fiquei orgulhoso de superar essa barreira. Depois disso o resto dos banheiros asiáticos foram moleza.

O banho foi outro problema, que na verdade nem era um problema, pois não tinha solução. O negócio era ficar sujo por alguns dias e seguir a vida. Minha calça quase parava em pé sozinha, de tão degradada que estava ao fim da jornada. Em 5 dias tomamos 1 banho e meio. Isso porque foi apenas um banho decente e outro um pouco triste. O triste foi em um dos acampamentos, frio e quase sem água. Foi mais a ideia de um banho do que um banho em si. O outro, o bom, foi em uma vila. Na Mongólia têm estabelecimentos comerciais específicos para banho nas vilas, bem chique (não confundir com uma casa de banho japonesa, por exemplo, são só chuveiros pra tomar uma ducha mesmo).

O banheiro e o campo

Outro contato incrível que tivemos, e esse foi intenso (ficávamos o dia todo juntos), foi com nosso motorista e guia do tour. Dois figuras extremamente diferentes, mas que tornaram nossa viajam muito especial.

Nosso guia, o Babu, era bem jovem, lá perto dos seus 20 anos, ainda cursando faculdade e tudo. No começo ele pareceu meio displicente, meio desinteressado, mas logo começou a se abrir conosco e por fim já estava contando do drama de sua namorada que ia se mudar pra China em alguns dias. De uma cidade da parte oeste (não lembro qual), ele viveu quase sempre em áreas urbanas, não tem tanta ligação com antigas tradições (apesar da sua ocupação) e seu jeito lembra mais os jovens coreanos e japoneses que vemos por aí.

Já o motorista do tour, o incrível Mu, era um senhor muito alegre e retrato de um país de outros tempos. Ele não falava muito inglês, mas mesmo assim nos entendemos. Sempre pronto para mandar uma piada, contar da sua família, de seu passado como médico na Mongólia comunista (profissão que ele abandonou nos tempos atuais pois o salário é ruim, acredite) e das glórias de dias que já foram. O Mu também é chegado numa vodca e toda noite tomava um pouco do seu estoque pessoal. Até acabamos comprando algumas bebidas locais para dar e dividir (ninguém é de ferro) com ele.

Babu e Mu

Inclusive o melhor momento da passagem pela Mongólia foi na nossa última noite de tour, quando Mu e Babu resolveram beber conosco para celebrar. Entre goles da bebida quente e barata demos muitas risadas, aprendemos e, veja só, nos emocionamos. Mu cantou diversas canções populares entre os nômades e uma das mais belas falava sobre a importância da terra natal na vida de uma pessoa. Nós quisemos compartilhar algo de nossa cultura e colocamos Elis Regina para tocar, mas ele achou horrível e voltou a cantar as músicas dele. Faz parte. Essa foi uma noite especial.

Marina e um Mu um tanto quanto embriagado

Ainda para completar como era nosso esquema de sobrevivência, quem fazia nosso jantar era o Babu, normalmente a luz de lanternas. Ele não deixava a gente ajudar, e foi meio estranho ter essa “mordomia”. A comida era quase sempre boa, mas não dá pra fazer milagre. A Mongólia do interior não tem exatamente comidas leves, e comprar suprimentos com ele nas vilas foi uma atração à parte. Principalmente carne. A Marina não comeu mais carne vermelha depois que viu como os açougues funcionavam. Uma breve descrição de como eles são: tem bastante moscas e nenhuma refrigeração.

E um último comentário de algo que achei curioso na Mongólia. O povo nativo, célebres cavaleiros, substituíram os cavalos pelas motos. Lá todo mundo tem uma moto, e ao contrário do sudeste asiático, lá não dá pra ter scooter não. Tem que ser uma moto mais parruda pra aguentar as estradas locais.

Bom, o comentário era esse, desculpe a falta de nexo com o resto do texto.

Cavalo é coisa do passado

Ficam aqui as minhas impressões sobre um povo bravo e resiliente que vive em uma terra dura e linda. Um povo que tem orgulho da sua cultura e tradições. Por favor, Mongólia nômade, não seja engolida pelos tempos modernos (quer dizer, só se os seus habitantes quiseram mais conforto, aí não tem o que fazer).

Enfim, é isso.

Beijos quentes

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Mongólia 1 ou o capítulo do coito interrompido da aventura

Esse post cobre os eventos de 27/08/2018 a 01/09/2018

Olá sofredores da nação. Como vejo que vocês têm uma pitada de masoquista, vou colocar aqui mais um texto para quem quiser flagelar a alma.

Apesar de ter sido uma passagem rápida, a Mongólia foi um dos países que mais marcou nossa viagem até o momento. É também uma de nossas respostas padrão quando vem a inevitável pergunta “qual o país favorito de vocês?”. Sim, amigos, é isso mesmo. A Mongólia é especial. Um país bagunçado, selvagem e com um povo e uma história incrível. Vale a pena ir até lá, mesmo que não seja fácil chegar.

Chegamos em Ulan Bator de trem, a última parte da nossa já mencionada jornada Transiberiana. Era um dia frio e cinza, apesar de ainda ser fim de verão. Não sei se foi o clima, o trânsito ou nosso cansaço, mas não tivemos uma boa impressão da cidade. Meio espalhada e desorganizada, me lembrou uma São Paulo bem menos coesa.

Enfim, foram poucas horas ali. Tivemos apenas tempo de comprar alguns suprimentos, tomar um sonhado banho e nos organizar para o dia seguinte, quando nosso tour começaria.

Antes de falar sobre o tour apenas um comentário rápido sobre o hostel em que ficamos: é um lugar que recebe pessoas do mundo todo em busca de aventura. A cada hora chegavam e saíam grupos para passeios e o clima ali era muito legal, como se fosse uma fraternidade de desbravadores, um hub de exploradores. Claro que ninguém ali era um Marco Polo moderno, na verdade estávamos mais para versões pioradas do adulto de meia idade e acima do peso que faz cosplay de Indiana Jones, mas todo o clima do lugar ajudava a criar essa aura de aventura. E isso é importante, pois é coisa que a Mongólia faz constantemente, cria esse clima apenas para te mostrar, momentos depois, que você é apenas mais um turista perdido naquela imensidão selvagem.

E foi logo cedo, na madrugada do dia seguinte, que partimos para nossa jornada mongol.

Fechamos o pacote para explorar o Gobi com um itinerário de 5 dias que cruzava o país do centro-norte até locais perto de sua fronteira sul, onde começa a parte arenosa e mais quente do deserto. Passamos por estepes, montanhas, desfiladeiros e planícies amareladas até chegar nas grandes dunas que ficam na parte meridional da Mongólia, verdadeiros paredões guardando parte da fronteira com a China.

Aliás, para detalhar melhor, nossos pontos de parada foram:

White Stupa: antigas formações de calcário no meio de uma planície gigantesca. Uma primeira impressão interessante dos mistérios do país, pois foi onde encontramos nosso primeiro santuário xamã e onde vi (sem querer) uma senhora francesa urinando ao pé das colinas.

Se você olhar bem dá pra ver uma Marina ali

Yolun Am: um vale incrível que fica entre montanhas imponentes. Verde, frio e muito bonito. O acesso ao local já é meio precário e as chuvas ainda fizeram o favor de piorar tudo, tivemos que andar uma boa parte do caminho até o parque nacional, pois nosso motorista não quis arriscar o carro na estrada traiçoeira. Aqui foi um dos momentos em que fui da alegria extrema até a tristeza da realidade, pois fizemos um rápido passeio a cavalo pelo vale, momento em que me senti a reencarnação do Gengis Khan. Porém o cavalo insistia em me desobedecer e a cela fez uma ferida no meu cóccix (deixou em carne viva), incidentes que me lembraram que eu estou mais para um pobre camponês que perdeu a sua ovelha favorita do que para um conquistador mongol.

Os cavalos do vale do cofrinho ferido

Khongorun Els: a parte em que chegamos até as incríveis areias do Gobi. Um complexo que se estende por mais 180 kms e tem dunas de até 400 metros de altura. Inclusive a nossa principal atividade foi subir na maior duna da bagaça toda. Pulmão e panturrilha quase pediram arrego, mas depois de uma hora atingimos o topo do colosso de areia. Ficamos lá até o pôr do sol e foi uma das coisas mais especiais da viagem. Também tomamos uma vodka local enquanto lá em cima, como nosso motorista aconselhou, e depois descemos correndo desde lá o topo, emoção pura e embriagada. Pra melhorar jantamos ao pé do paredão arenoso, sob a luz da lua e com a companhia de ratos e cobras, o que deu um certo medo (não em mim, pois sou aventureiro). A parte negativa de nossa estadia nessa parte da Mongólia foi nosso passeio de camelo, que não foi nada demais, só machucou mais meu cóccix, me lembrou das minhas fraquezas e o nosso condutor ainda ficou encantado pela Marina. Confesso que fiquei um pouco inseguro ali, afinal naquele momento era um mongol selvagem e bronzeado contra um brasileiro com uma ferida no cofrinho. Mas tudo deu certo e nosso casamento continua de pé.

Baita trabalho chegar ali

Bayanzag ou Red Flaming Cliff: uma formação rochosa que surge perto de um desfiladeiro em uma planície desértica, um cenário que lembra Marte e um pouco do cerrado brasileiro. Assistimos outro pôr do sol incrível, que deixou o lugar ainda mais vermelho. Outro ponto interessante é que lá foram descobertos diversos fósseis, inclusive ovos (fossilizados, claro) de dinossauro. O lugar perfeito para o Indiana Jones moderno começar uma aventura, mas invés de dinossauros encontrei hordas de adolescentes coreanos.

Rapaz é bonito esse lugar
Moradores originais

Baga Gazriin Chuluu: mais uma série de penhascos, vales e formações rochosas que desafiam o comum, em uma parte bem mais fria e verde do país, pois já estávamos voltando para o norte. Ali foi incrível ter conhecido restos de antigos templos budistas que ficavam nessas colinas perdidas. Também vimos as cavernas apertadas que os monges usaram para se esconder dos oficiais comunistas algumas décadas atrás.

Mais desfiladeiros

Esse é o roteiro explicado de forma “rápida”. Foram muitas horas dentro de um carro, pois a distância coberta não foi pouca, mas acompanhar a mudança de clima e cenário foi incrível.

E agora vocês podem estar se perguntando “Mas nossa, precisava fechar tour? Não sai mais barato alugar um carro por lá?”

E eu respondo:

Não, camaradas. Não dá para conhecer a Mongólia sem algum guia ou tour. Quer dizer, até dá, mas uma parte muito limitada do país, talvez a capital e algo perto dela. O resto não. Digo isso pois as estradas são bem precárias, isso quando existem. Perdi a conta do número de vezes que nosso motorista jogou a van pra fora do asfalto e seguiu não sei quantos kms na terra, grama ou areia, sem seguir nenhum tipo de placa ou trilha. Sério, os motoristas de lá devem ser guiados por algum espírito ancião ou algo do tipo, pois eu tinha certeza que na maior parte do tempo o nosso piloto estava escolhendo direções aleatórias para tocar o carro. Mas o pior é que chegávamos no nosso destino. Como, eu já não sei. Só sei que meros mortais como nós não conseguiríamos fazer igual.

Exemplo de um caminho BOM de seguir na Mongólia

Outro ponto importante de fechar um tour é garantir acomodação com as famílias nômades que estão em cada região, pois não dá pra chegar nos pontos e procurar um hotelzinho ou hostel.

Mas a descrição de nossos locais de estadia, a decrepitude dos banheiros que encontramos, a falta de banho, nosso motorista e nosso guia e o contato humano incrível que tivemos são tópicos para o próximo post da Mongólia.

Só queria colocar uma foto que emanasse “mistério”

Por enquanto eu apenas queria descrever nosso trajeto e parte dessa terra linda em que a natureza parece mais selvagem do que em outros lugares. Um lugar de mistérios, que te faz sentir sempre como um explorador, mas ao mesmo tempo te lembra da sua incapacidade, seja com uma ferida na região das nádegas, um cavalo rebelde, animais silvestres que insistem em te fazer companhia e turistas que quebram a sua fantasia particular e jogam a realidade na sua cara. Não, Rafael, você não é diferente da senhora chinesa de 87 anos.

Esse, amigos, é o coito interrompido da aventura.

Conheçam a Mongólia.

Beijos Quentes

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