Tailândia ou o capítulo da noite mais bizarra da viagem

Quem vem lá? A sim, são mais algumas almas perdidas nessa imensidão virtual. Bem vindos ao cemitério do bom senso e da alegria na internet. Vamos todos celebrar juntos o funeral diário da esperança em mais um post em que muitas coisas legais acontecem (comigo) e mesmo assim nós sabemos que nada disso importa, pois a vida não tem sentido.

Vou logo colocar uma foto bonita porque depois só vem besteira

Após a jornada intensa movida pelo poder da amizade e do álcool (que muitas vezes são a mesma coisa) que descrevi no post anterior é de se esperar que nós fossemos dar uma pisada no freio e desacelerar nosso veículo nessa famigerada pista chamada curtição. Ledo engano, aparentemente ainda tínhamos alguma (pouca) lenha pra queimar. Ou gasolina pra gastar, se eu quiser me manter na metáfora.

Continuamos seguindo a querida turma de brasileiros que conhecemos e, após a Full Moon, fomos parar em Koh Tao, uma ilhazinha ali perto, ainda no Golfo da Tailândia. Eu achava que a cor de mar incrível seria exclusiva da costa oeste, mas lá é bonito pra caramba também. Eu não vou entrar (de novo) em todos pormenores da cor da água e etc…. mas só quero dizer que Koh Tao tem uma visibilidade tão boa embaixo da água que é um paraíso para mergulhadores. Dá para enxergar aquela verruga nojenta que seu amigo tem no pescoço a uns 10 metros de distância. A água de Koh Tao é o full HD das águas da Ásia (pelo menos isso era o que nós pensávamos nessa altura da viagem, mas só descobriríamos que estávamos errados muitos meses depois).

A ilha também é bem menor que Koh Phangan, definitivamente um lugar muito bom para descansar e colocar a pança em dia com o céu azul. Inclusive pegamos um quarto melhorzinho em um hotel, pois nosso hostel na outra ilha tinha cheiro de gente morta. Ou alguma coisa morta. Definitivamente tinha um cheiro podre.

Caso um dia esteja pela Tailândia esse é um lugar que vale a pena conhecer. Tranquilo na medida certa, com bons restaurantes e bares, praias lindas e uma dose comedida (mas divertida) da famosa “baguncinha”.

Nossos companheiros de pátria ficaram em um hotel resort bem ao lado do nosso, o que facilitou nosso uso da incrível piscina deles. Não é todo dia que o mochileiro tem acesso à piscina com vista panorâmica e borda infinita, por isso fizemos questão de aproveitar bastante a infraestrutura alheia. Convenhamos, nada mal curtir um pôr do sol dos penhascos beira-mar e de dentro de uma piscina. Com uma cerveja na mão? Claro, com uma cerveja na mão. Enquanto o vermelho escorria pelo horizonte lá estávamos nós com os glúteos submersos acenando tchau para nossa estrela favorita.

Até a chuva de fim de tarde era gostosa em Koh Tao

Mas não foi só de piscina e relax que se fez nossa visita à Koh Tao. Apesar da aparente tranquilidade a nossa esbórnia continuou. De dia passeios e muita Chang na cabeça à noite. A ilha não decepciona os mais animados e tem uns bares bem divertidos, e, claro, festa na praia com muito fogo envolvido. Ainda bem que as coisas fecham cedo, tipo uma ou duas da manhã, pois eu já estava quase no limite do meu “festômetro” e o motor ameaçava enguiçar. Admiro quem tem a energia para farrear como se não houvesse amanhã todos os dias, porque o amanhã sempre chega e com ele vem a ressaca, o peso da idade e a vontade de enfiar a cabeça na privada e puxar a descarga. Nossa história de glamour etílico foi como o conto da Cinderela, linda enquanto durou, mas a meia noite vem para todo mundo e vou falar, meu fígado já tinha virado abóbora faz tempo.

Rapaz… nem sei

Falando em comemorações é preciso destacar que foi lá que comemoramos o aniversário da Marina, uma das noites mais bizarras que tivemos na viagem. Quiçá a mais bizarra (e divertida).

Para entender melhor a nossa comemoração vou explicar rapidamente a estrutura rígida que seguíamos toda noite em nossas celebrações à vida. Koh Tao tem uma rua principal de bares/baladas e cada recinto tem um horário único de pico de diversão. Por isso começávamos no ponto mais a oeste da rua, o maiss afastado dos nossos hotéis, e vínhamos voltando pela passarela da bagunça. Assim quando um estabelecimento fechava pulávamos pro próximo, íamos do bar de música ao vivo, passando pelo bar da competição de beer pong, pela balada pirotécnica até o “clube estranho”, onde o ambiente era escuro e a galera que frequentava já estava em outra dimensão. Isso até tudo acabar de vez e só restarem os malucos comprando misto-quente na seven eleven. Explicado o contexto vamos a fatídica noite em si, 28 de Outubro de 2018 (o aniversário da Marina é dia 29, mas a ideia era passar a virada com a turma toda). Tudo começou com os baldinhos de Thai Vodka e as Changs de sempre, curtimos uma música ao vivo e já entramos naquela famosa faixa etílica chamada de “alegre”. Encontramos uma brasileira louca (mais uma) que tentou baforar Rexona no meio do bar e acabou engolindo uma cacetada de desodorante no processo (se você não sabe o que é baforar Rexona pergunte a um colega), ela espumou como um macaco tailândes com raiva. Chegou o momento da troca de bar e indo de um local para outro encontramos um menininho local jogando bola sozinho na rua e eu e alguns dos rapazes ficamos ali com ele, curtindo um futebol noturno. Foi uma interação muito bacana e ele ficou feliz de poder jogar com alguém. A parte negativa disso é que me empolguei no processo e acabei esquecendo que a meia noite estava perto e aí seria realmente o aniversário da Marina, o que resultou em um “parabéns pra você” no (próximo) bar sem a minha presença. De novo o futebol atrapalhou nosso relacionamento, mas nada que alguns beijos e palavras sinceras não consertem.

Esporte com locais

A noite seguiu pelos locais de sempre, mas devido a comemoração com uma influência ainda maior do álcool. Jogamos beer pong e bebemos, conversamos e bebemos, dançamos e bebemos, e a Marina até pulou a temida corda de fogo (e bebeu). Eu amarelei e falo com tranquilidade. Tenho consciência das minhas limitações e por alguma razão cósmica sou incapaz de pular corda. Caso eu tentasse me aventurar na atividade viraria o novo tocha-humana.

E lembram da querida companheira que citei acima? A que espumou Rexona? Oras, não é que certa hora ela, que conhecia a Marina há cerca de umas 12 horas, a abraçou e ambas choraram (muito) juntas devido a melodia adocicada de palavras ditas com aroma de desodorante. Foi um momento estranho de uma noite que estava prestes a ficar mais estranha ainda.

Por fim, quando já estávamos na nossa rotina de fim de balada (mistão da madrugada na seven eleven) conhecemos uns estrangeiros que estavam tão fora de si quanto nosso grupo. Em dado momento eles pediram para nós “cantarmos alguma música brasileira” para eles dançarem (sim, assim do nada).

Até hoje não sei se foi algo espontâneo ou brasileiro que é sacana mesmo, mas alguém puxou e aí todos nós começamos a cantar o jingle do Eymael (ele mesmo, o democrata cristão) e a gringaiada começou a rebolar até o chão. Foi um momento que talvez palavras não consigam capturar a magia (ou eu não sou um escritor bom o suficiente para isso), mas foi mágico relembrar do inenarrável Eymael dessa forma. Para finalizar, enquanto cantávamos nosso hino, saiu da escuridão um tailândes só de toalha e armado (com um revólver, não com libido) ameaçando a gente. Sim, isso aconteceu. Pera aí que eu vou repetir para você absorver direito – enquanto brasileiros cantavam o jingle eleitoral do Eymael e alguns estrangeiros piravam dançando como se não houvesse amanhã, surgiu das sombras um guardião da tranquilidade tailandês, trajando apenas uma toalha e segurando uma arma, e nos pediu “gentilmente” para acabar com a algazarra. Acho que ele ficou bravo de escutar uma gritaria na rua duas da manhã.

Foi uma noite memorável .

Os dias seguintes foram amargos, não pela ressaca acumulada, mas sim pela série de “adeus” que tivemos que dar. Nossos amigos, que estavam de férias, tinham outros destinos e nós continuamos por lá. Despedidas são uma constante nesse tipo de viagem, mais do que eu esperava, e na Tailândia ainda estávamos aprendendo a lidar com elas. É fácil seguir em frente quando o mundo todo te espera, mas não é tão fácil assim dar tchau para algo ou alguém que te lembrem de um pedaço de casa. Enfim, era momento de continuar a viagem.

Koh Nang Yuan

Um último destaque antes de terminar o relato desse magnífico pedaço de terra (e mar) que é Koh Tao. Durante nosso passeios pela ilha topamos com algumas praias incríveis, mas nada foi tão incrível quanto a ilhota de Koh Nang Yuan, que fica bem próxima ao píer principal de lá (é tão perto que dá para ir nadando, mas não é uma nadada fácil). Que lugar fantástico. Para rivalizar com as belezas de Phi Phi. É realmente bem pequeno, são dois montes pedregosos unidos por uma estreita faixa de areia. De um lado o mar é turquesa e do outro verde transparente. Subir até o mirante é imperdível, tem uma daquelas vistas de tirar o fôlego. Um dos lugares mais bonitos que visitamos nesse país que esbanja beleza. Gostamos tanto que fomos duas vezes pra lá.

E é com essa última descrição romântica de ilhas tropicais que termino o relato da nossa estadia em Koh Tao. A última parte da nossa aventura regada a álcool que nos envelheceu uns 10 anos, mas encheu de alegrias o coração. A partir de agora voltávamos a ser apenas nós dois, os patetas contra o mundo. E esse é um sentimento bom demais também.

Mal sabíamos que ainda passaríamos muito tempo na Tailândia, mas isso é tema para um próximo post.

Beijos Quentes

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Tailândia ou o capítulo etílico

Esse relato cobre os eventos de 21/10/2019 a 27/10/2019

Olá, sobreviventes desse chiqueiro fétido chamado internet. Eis aqui mais um capítulo de uma parte meio nebulosa da viagem, muito pelo excesso de álcool e falta de responsabilidade que esse pedaço abençoado (amaldiçoado) de terra, chamado Tailândia, imbui em nós pobres humanos.

Phi Phi é phoda (achei muito bom meu jogo de palavras)

Retomo o relato de onde tinha parado, uma madrugada semi-bêbado em Phi Phi.

Bom, no dia seguinte (sem ressaca) fizemos um passeio chamado “Barco do Pirata”, uma atividade recomendada para nós por um monte de gente. Antes de continuar a história, uma nota sobre esse passeio – o “Barco do Pirata” é uma das muitas opções que existem para fazer um “day tour” pelas praias de Phi Phi e pelas ilhas vizinhas, só que no caso o barco é todo estiloso e realmente parece um barco pirata (ponto positivo), tem uma baita infra-estrutura (ponto positivo) só que é um passeio caro (ponto negativo) comparado aos outros e bem badalado, a galera vai bebendo e tem até dj a bordo (ponto que eu achava que seria negativo) – por causa disso tudo ficamos um pouco relutantes, não estávamos a fim de badalação, mas acabamos escolhendo essa opção pois toda brasileirada que nos aconselhou falou muito bem do passeio (claro, a galera ama festa) e achamos que seria bom conhecer outras pessoas (algo necessário após quase 3 meses ficando 24 horas ao lado do mesmo ser).

Eu estava ainda mais reticente que a Marina, quem me conhece sabe que tenho preguiça desse tipo de atividade, ainda mais em um barco cheio de gente bêbada e possivelmente com um perfil meio “rei do camarote”. Quem me conhece sabe também que depois de umas duas Changs na cabeça (a opção mais barata de cerveja local) eu gosto bastante de uma baguncinha. Nada como um pouco de álcool e música latina para quebrar a sisudez de um homem.

O “Barco Pirata” foi muito legal no fim das contas. Afinal nem só de contato local e experiências transformadoras se faz uma viagem, é preciso ter um equilíbrio com a diversão inconsequente. Aliás, quer experiência mais transformadora que uma noite de embriaguez? Garanto que você não será a mesma a depois de doses cavalares de álcool.

Calma, amigos. Não virei o rei do camarote tailândes nem nada do tipo, mas como disse acima, às vezes uma zorra é bem vinda. Nesse passeio conhecemos uma galera do Brasil, todos muito gente boa. Um pessoal animado que curte fazer uma festa raiz. Tenho certa dificuldade em manter amizades novas, mas pulando de ilha em ilha, navegando pelo mar verde-esmeralda da Tailândia, foi fácil. Uma turma incrível que chamamos de amigos até hoje. Inclusive a intimidade veio fácil até demais, em dois dias a Marina já estava fazendo declarações alcoolizadas para a turma (isso durante um bizarro jogo de mímica que acontecia às duas da manhã durante uma tempestade). E afinal, por que estou dando tanta ênfase para essa galera e não para o passeio em si? Porque eles foram determinantes para os próximos dias da viagem, mas daqui a pouco eu explico, calma lá leitor afoito.

A turma

Enfim, voltando ao tour propriamente dito – o barco tinha tudo que eu já disse, alguns “frat boys”, uma galera gente boa, dj, parecia mesmo de pirata e passou por lugares incríveis. Sério, a região de Phi Phi é surreal. Você pode odiar festa, pode odiar a vida, sei lá, mas vá lá um dia. O mar é de um esmeralda transparente que gosta de mudar para jade ou turquesa de tempos em tempos (maluco, eu sei) e as formações de calcário que emergem de forma repentina no oceano são magníficas. Parece cenário de filme, sem sacanagem. Falando em filme, acho que já comentei sobre “A Praia” no texto anterior, mas nesse dia do Pirata passamos por Maya Bay, o local onde foi filmada a película. Não dava para entrar lá pois o governo fechou tudo pro “mar descansar” (ainda bem), mas tanto faz, porque nesse mesmo dia conhecemos Pileh Lagoon, possivelmente o lugar mais bonito que já vi com esses olhinhos que a vida me deu. É uma espécie de cânion inundado desenhado pela estranha formação da ilha que lembra um pouco uma ferradura, “dentro” descansa uma piscina natural gigantesca banhada por aquela água magnífica (juro que um dia paro de comentar sobre a cor da água por aqui) e cheia de pequenas cavernas em volta. Entramos ali de caiaque e parecia que estávamos explorando o local de descanso de alguma criatura esquecida pelo tempo no fundo do oceano. Por favor, para os que não foram, deem um Google aí.

O resto do passeio foi marcado por praias com macacos selvagens, outra ilha bem mais bonita que a Praia Grande, um pôr do sol rosa e azul e uns free shots no barco.

A entrada da Pileh Lagoon. Foto tosca mas é a única que eu tenho

O que merece destaque dos nossos dias restantes em Phi Phi são lugares como Long Beach e Nui Bay, que até já tínhamos visitado mas que ganharam uma segunda inspeção. As noites foram marcadas por festas na praia com a mesma turma que já mencionei, muito fogo, baldinhos de bebida e pizzas da madrugada. Como já disse no post anterior, até estendemos nossa estadia em Phi Phi, pois o astral do lugar é muito mágico. É cheio de turistas (estivemos lá na baixa temporada, não quero nem ver na alta) e cheia de festas/badalação, mas mesmo assim vale a pena demais. Parece uma terra do nunca encapsulada em uma ilha (a Terra do Nunca é uma ilha???), o tempo é diferente por lá. O povo é gente boa, o cenário é de cair o queixo e dá para ser feliz do jeito que mais te apetece, pode ser bêbado na praia, em alguma trilha perdida no meio da mata, pegando um táxi ou mergulhando em águas cristalinas. Encontramos vários brasileiros que estão morando por lá e vivendo de bicos, confesso que no começo achei meio estranho, mas no fim entendi a motivação dessa galera que se digna a bater corda com fogo pra turista maluco pular. Oras, eu quase me tornei um deles. Foi triste falar tchau pra um lugar desses, mas no fim estávamos nós lá, em frente a balsa de saída, só mais dois corpos no meio da fila indiana da tristeza, a fila daqueles que saem da ilha deixando um pouco mais do que os fluídos corporais expelidos durante crises alcoólicas – deixamos ali um pedaço de nossa felicidade (leve exagero para aumentar o impacto dramático).

Uma terra de aventuras

E aqui voltamos à galera que conhecemos durante o passeio. Eles foram determinantes para nosso roteiro na Tailândia, como estávamos nos divertindo demais toda noite decidimos continuar no bonde. E por isso alteramos nossos planos: nossa ideia era ficar apenas pelo lado da costa do Mar de Andaman, a parte oeste, mas como todos eles iriam pra Koh Phangan (ilha na outra costa, no Golfo da Tailândia) fomos juntos. Pra ser sincero eu fui um pouco resistente, pois o objetivo final nessa ilha era chegar até a Full Moon Party, festa que acontece todo mês durante, bem, a lua cheia. A mais famosa é a do ano novo, mas tem 12 dessas por ano. Enfim, acabei cedendo porque fui cativado pelas novas amizades e achei interessante a ideia de mudar algo planejado assim do nada. Para você, jovem normal e com a mente sã, isso pode não ser nada demais, mas no mundo de Rafael e suas planilhas sair um pouco fora do roteiro gera tanta adrenalina quanto conhecer o Vin Diesel. E também requer um esforço mental considerável. Lá fomos nós para a Full Moon.

Nós e todos que estavam em Phi Phi, aparentemente. Vou te falar, você entra em um redemoinho nessas ilhas tailândesas e não sai mais, parece que todo mundo está fazendo a mesma coisa que você. Teve gente que eu encontrei em todas ilhas que visitei. Acho que isso chama turismo né.

Um fato interessante que aconteceu foi que para chegar até a Koh Phangan pegamos uma série de balsas e ônibus, e em dada parte do percurso me separei da Marina. Não, ela não fugiu na garupa do primeiro tailandês bonitão que passou de moto (mas devia), o que aconteceu foi que durante uma parada na estrada ela foi pegar algo com um dos nossos amigos que estava em outro ônibus e o veículo saiu andando a toda, com ela dentro, me deixando ali desolado e sozinho na beira da rodovia. Foram minutos de intenso desespero e um silêncio acalentador, um verdadeiro pout pourri paradoxal. No final ficou tudo bem, pois todos iam para o mesmo lugar, mas que foi bizarro ver o ônibus partindo com a pequena Maris lá dentro, foi.

A Full Moon em si não foi nada demais. Nos falaram que seria a coisa mais louca de nossas vidas, que iríamos acordar em outro país sem algum membro e coisa do tipo… Mas é uma festa grande na praia, como uma festa de ano novo, só que com mais malabarismo com fogo (festa que é festa na Tailândia precisa ter pelo menos algum elemento pirotécnico, se nenhum turista se queimar eles consideram um fracasso). Talvez para quem esteja mais na pegada a experiência seja outra, talvez nós curtimos errado a festa. Quem sabe. Mas foi divertido sim, não posso dizer que a noite em que eu vi o corredor do hotel girar 90 graus e depois dissolver na minha frente tenha sido ruim. Também não posso dizer que a noite em que nós nos teletransportamos até o quarto do hostel sem saber como tenha sido ruim. Ok, foi legal. Carnaval ainda é melhor.

Ainda em Koh Phangan pegamos um dia para andar de motinho em grupo, foi um pouco bizarro, pois eram 13 scooters e, claro, eu liderava o grupo (apenas porque a Marina foi na minha garupa e ia olhando o mapa no celular). Era como uma versão bem mais triste de Sons of Anarchy desfilando pela ilha. Teve chuva, colisão e muita gente olhando para nós com um olhar que era misto de dó e curiosidade.

Fomos em duas praias bonitas, mas nada perto do que já tínhamos visto por esse país que é bonito além da conta. O outro dia na ilha foi dedicado a curar a ressaca da Full Moon e o momento mais emocionante aconteceu quando finalmente consegui comer meu misto quente da Seven Eleven (Seven Eleven é vida aqui na Tailândia, como é no Japão também) sem sentir que meu estômago me odiava por isso.

Abalando as estruturas de Koh Phangan

Ufa, foram dias de excesso. Excesso de belezas naturais e excesso de substâncias inebriantes. Acho que precisávamos disso, foi um momento importante de “abrir” nossa viagem para outras experiências e conhecer mais a fundo outras pessoas. Também esquecemos brevemente nossa idade e enfrentamos com extrema tenacidade as ressacas a que os nossos corpos nos submeteram. Depois de Koh Phangan fomos para Koh Tao, onde tivemos a pernada final (e mais bizarra) de nossa maratona etílica, mas isso é assunto para o próximo post.

Beijos Quentes

Tailândia ou o capítulo em que começamos a descobrir o paraíso

Esse relato cobre o período de 15/10/2018 a 20/10/2018

Olá, desbravadores da dor e sofrimento alheio. Cá estamos em mais um capítulo dessa angústia intermitente chamada vida. Já que a dor é inevitável gostaria de compartilhar um pouco sobre momentos da minha vida em um lugar onde tudo parece menos sofrido e cinza, a Tailândia.

Saímos de Hong Kong direto para o sul da Tailândia, estávamos sedentos por praias, sol e água fresca, por isso pulamos Bangkok e já nos dirigimos para onde a vida é mais colorida. Nosso plano era começar pelo sul e subir o país aos poucos.

Nosso ponto de entrada foi Phuket, uma ilha grande do lado oeste da Tailândia, lado esse que é banhado pelo mar de Andaman (ou Andamão). Baita região. O mar é cristalino, a areia é (normalmente) clara e a água intercala tons de verde claro com turquesa. Realmente incrível.

Isso é Phi Phi, não Phuket. Só para dar uma ideia do mar da região

Em Phuket ficamos 3 dias, mas lá não é nem de perto o lugar mais legal dessa parte abençoada do antigo Sião. É um local grande e espalhado, com algumas praias bonitas e outras nem tanto. Muitos viajantes vão para Phuket pelas festas e curtição, tem uma praia/bairro específico para se perder na noite por lá, mas nós nem sabíamos disso, apenas miramos no aeroporto mais conveniente e partimos. Phuket não é espetacular, mas não vou reclamar, foi nossa primeira experiência na Tailândia e estávamos animados, sem falar que a cidade nos recebeu muito bem. Ficamos em um hostel muito simpático em Phuket Town, uma parte mais antiga e menos turística da ilha, com alguns belos prédios que ainda guardam a memória de um período colonial. Lá também é bem longe de qualquer praia, por isso nosso primeiro dia na Tailândia foi gasto com muita andança, uns sorvetes tomados e umas cervejas locais digeridas. O momento mais memorável dessa curta passagem pela região aconteceu no único dia em que o sol nos agraciou e mostrou toda sua potência tropical. E logo quando eu já estava achando que as mudanças de latitude não iriam surtir efeito no clima. Bom, foi então que resolvemos alugar uma scooter para andar pela ilha, afinal a pé não dava para fazer muito e o transporte público pareceu um pouco limitado. Não vou mentir, embora fosse apenas uma scooter, um veículo quase “de brinquedo”, aquela sensaçãozinha de “aventura” dançou pelo meu âmago, poxa, era algo quase radical o que estávamos fazendo. Primeiro porque fazia uns bons 15 anos que eu não pilotava algo assim, segundo porque o trânsito é meio maluco (isso porque eu ainda não tinha visto trânsito maluco de verdade até esse ponto da viagem) e terceiro porque é legal demais desbravar praias com uma motinho. Para deixar claro, Phuket não é uma ilha pequena, é meio que um grande centro nessa região sul, então o trânsito era meio complicado. E eu fiz questão de deixar ele mais complicado ainda. Quase caímos umas duas vezes, quase colidimos com locais umas cem vezes, mas, surpreendentemente, terminamos o dia sem acidentes. No fim a maior adrenalina mesmo foi ter sido obrigado a deixar meu passaporte um dia inteiro com o tiozinho que alugava as motos. Ele tinha cara de que ia apostar meu precioso documento de valia internacional em uma luta de galos regada a rum ou algo do tipo.

Posto de gasolina em Phuket

Nesse dia em que rasgamos o asfalto vimos uma praia bem charmosa (Nai Harn Beach), outra nem tanto (Patong) e um Buda gigante que ficava no alto de uma colina. Durante todo nosso tempo na Ásia vimos inúmeros Budas gigantes, mas eu sempre fico fascinado com eles. Bom, é isso, se você estiver se perguntando como me deixar feliz é só me levar para ver um Buda gigante.

O Buda gigante

Engraçado essa sensação de “coito interrompido” da aventura que por vezes toma conta de mim. É um misto de animação seguido de um profundo sentimento de auto desprezo. Vamos lá, eu explico: alugar moto na Tailândia para desbravar praias? Animal e coisa de aventureiro. Quase cair algumas vezes e sentir em todos os momentos que você pode morrer sendo o único turista imbecil a causar um grande acidente com essas porras? Meio broxante. Acho que a vida está sempre aí para nos colocar em nosso lugar.

Outro fato interessante de Phuket – enquanto estávamos lá aconteceu o “Festival Vegetariano”, uma celebração budista local super importante da ilha. Não vou entrar nos pormenores históricos da festa, vocês que procurem no Google, mas vou dizer que envolve sacrifício e auto mutilação. Não vimos isso, são nove dias de festival e pegamos apenas o último, mas vou dizer que no dia que estávamos lá a turma passava pela rua, em uma espécie de passeata, e a população jogava fogos/bombinhas nos transeuntes. Isso bem em frente ao nosso hostel. Baita barulheira, parecia até que uma tempestade estava castigando a rua. Foi muito interessante nos primeiros 30 minutos, mas depois enjoou um pouco. Não é ruim quando as tradições locais batem de frente com seu conforto? Eu acho péssimo (brincadeira né).

A foguetada do festival vegetariano

Depois de Phuket pegamos uma balsa e fomos parar em Phi Phi island, um lugar com mais turista por metro quadrado que a Disney, mas mesmo assim muito interessante. Sabe aquele filme “A Praia”? Foi filmado na região. Inclusive o livro e o filme de mesmo nome são apontados como grandes catalisadores do boom turístico na Tailândia. Eu, do filme, só lembro do Leo DiCaprio sem camisa.

Enfim, Phi Phi é bem bacana, é uma ilha pequena, com uma pegada meio aventura, mas com muita festa e gente jovem. Muito mochileiro também. Não tenho mais idade para tanta socialização e bebedeira. Ou achava que não tinha, pois acabei caindo no vórtex da perdição que é essa ilha, mas descreverei isso melhor nos próximos posts. Aliás, eu fui bem injusto ali em cima no texto, Phi Phi não é só bacana, é um lugar surreal de lindo e que reúne diversos elementos que NÃO me atraem em uma viagem e mesmo assim eu adorei. A ilha é mística, não tem como negar. Você pode se divertir curtindo a natureza, as festas ou fazer um mix sadio dos dois. Quem não gosta de Phi Phi bom sujeito não é.

No primeiro dia no paraíso fizemos um grande passeio de caiaque em que eu tive que remar como um lacaio em um navio viking, como se minha vida dependesse disso (Marina não contribuiu muito, mas não falem pra ela). Fomos de uma praia movimentada e cheia de macacos para outra meio deserta, que quase ninguém se arrisca ir de caiaque, atravessando um canal um pouco feroz. Claro que me senti o Indiana Jones brasileiro após ter conseguido realizar a façanha – e navegar por um mar transparente entre falésias incríveis não foi nada mal. Depois fomos almoçar em um lugar que é a epítome dessa cultura backpacker: era barato, sujo, gostoso e cheio de registros/memórias nas paredes. Legal demais. Nessas horas quase me sinto desbravando alguma coisa, mas depois os 30 mil turistas fazendo barulho ao meu lado me fazem abrir os olhos. Até quando vai perdurar essa fantasia de “explorador” que ainda carrego, até mesmo 10 meses depois de começar a viagem?

Pegando um fôlego para remar

E vou falar aqui também do nosso segundo dia por lá, que usámos para relaxar em uma praia tranquila (e linda) e depois fomos até um mirante no entardecer. O mirante era pra ser perto, mas foi longe. Pegamos uma trilha “alternativa” e passámos por mata, lama, construções e uma família brava de gansos selvagens. No fim valeu a pena, bonito demais ver a ilha por um ângulo privilegiado. Engraçado que a grande concentração de moradias de Phi Phi fica em uma faixa estreita de areia entre grandes montanhas de granito apenas habitadas por macacos e árvores tropicais. Acho que ainda existe algo de mágico enterrado nos cantos mais selvagens desse fantástico pedaço de terra flutuante.

E o dia terminou como? Em um bar que tem lutas de Muay Thai ao vivo. Os clientes podem lutar por uma bebida grátis. E eu? Não lutei. Podem me chamar de decepção, eu sei. Vou dormir pra sempre com esse peso na consciência.

Amigos, desculpem o ritmo mais esquizofrênico que o normal desse post, mas fiz o primeiro rascunho desse texto 7 meses atrás após beber um balde (literalmente um balde) de uma coisa nojenta nesse bar do Muay Thai. Acho que assim os relatos ficam mais sinceros.

Phi Phi é um lugar tão incrível que acabamos estendendo nossa estadia, por isso vou continuar as crônicas dessa ilha ébria em um próximo post, afinal foram tantas maluquices em tão pouco tempo (e tanta coisa bonita que vimos ) que se eu continuar escrevendo aqui esse post será quase um livro.

É isso.

Beijos quentes!

Hong Kong ou o capítulo em que não entrei em nenhum torneio underground de artes marciais

Esse relato cobre o período de 11/10/2018 a 15/10/2018

Olá, amigo leitor. Você ainda continua por aqui? Imagino quais séries de decisões erradas te trouxerem até esse limbo virtual. Bom, já que entrou no blog pelo menos leia o post.

Desculpem a falta de uma frequência bem definida nos contatos, a vida anda corrida. Não é fácil viajar por aí. Em vários momentos invejo o paulistano que está parado no trânsito e com tempo para pensar na vida.

Agora vamos falar de um lugar que gostei muito de conhecer e que, como o Japão, tinha um peso simbólico para mim: Hong Long. Lá tivemos uma estadia curta, porém intensa.

Os heróis da cidade

Hong Kong é sensacional. Ao mesmo tempo que é um lugar incrível é uma das cidades mais distópicas que já conheci. Aliás, não é uma cidade né, mas uma região Administrativa Especial.

Amigos, pensem em um lugar que é um caldeirão de experiências diferentes. Por ali passamos por grandes estruturas industriais, complexos habitacionais apertados, becos banhados por luzes neon, mercados noturnos lotados de pessoas do mundo todo, portos decadentes e caindo aos pedaços, portos novinhos e cheios de riquezas e distritos financeiros luxuosos que não devem nada para nenhuma NY ou Tóquio da vida ( nunca vi tanto arranha-céu por metro quadrado na vida). E ainda é um local regido por forças sombrias e poderosas e um sistema político suspeito. Aliás, uma boa descrição de HK, feita pela Marina inclusive, é que é uma Tóquio underground. Algo como Japão encontra a boca do lixo. Voltando ao pensamento da distopia, com certeza coisas como Blade Runner ou Necromancer se passariam em HK (embora nenhum dos dois se passe lá, sinto que esse conjunto de ilhas seria o lugar mais apropriado para esses universos).

Vai me dizer que não é um vilão de filme que mora ali
As cores de Hong Kong

Inclusive esqueci de mencionar, além de tudo isso que já falei, também é possível fazer trilhas, pegar uma praia ou se enfiar na calmaria de alguns templos. Enfim, baita lugar maluco e com transporte público de primeiro mundo. Adorei.

Antes de continuar é melhor eu ser sincero – eu provavelmente adoraria Hong Kong mesmo que o lugar fosse apenas uma grande planície de lama e unhas humanas. Digo isso porque, como o Japão, Hong Kong foi cenário de muito entretenimento que consumi ao longo da vida. Bruce Lee, Jackie Chan, John Woo e os infinitos filmes de artes marciais que já assisti, todos eles remetem a esse local especial. Sim, eu adoro filmes de artes marciais e se você tiver um pingo de dignidade deve adorar também. Sim, eu sairia na rua com a roupa amarela que o Bruce Lee usa em Jogo da Morte. Não, eu não fui convidado para um torneio de luta secreto durante nossa estadia na cidade e essa talvez seja minha maior decepção da viagem.

Enfim, um destaque de Hong Kong foi fazer uma trilha chamada Dragon’s Back Trail, que termina em uma praia chamada Big Wave Beach. Pensa em um conjunto de nomes fodas, é esse ai. Outro ponto alto foi fazer um free walking tour, que, como diz o nome, é um tour “de graça” com pessoas locais falando sobre a cidade/país. O de Hong Kong foi especialmente legal pois o tour focou muito nas relações históricas de HK com outros países e no atual momento de aflição que os moradores vivem com o crescente domínio chinês. Que dó dessa região, muito chupinhada pelos ingleses no passado e agora sendo reprimida aos poucos pelos chineses, que cada vez mais (falando com base em relatos de moradores) se intrometem de forma arbitrária na política local. Incrível a barreira que os moradores da região tem em relação a “mainland China”. Enfim, até as pressões políticas lembram cenários distópicos.

Big Wave Beach

Depois do nosso free walking tour, que de free tem apenas o nome, pois é de “bom grado” dar uma gorjeta para o guia (o que é mais do que justo, mas dói no meu coração sovina), juntamos um grupo de estrangeiros e fomos desbravar parte de Hong Kong. Eu não sou muito fã dessas atividades em grupo, mas esse dia foi divertido. Aliás esqueci de falar, conhecemos no hostel uma austríaca muito simpática que nos acompanhou durante todo tempo, a Jana. A pronúncia correta do nome é “Iana”, mas verbalizar o som do J e falar JANA de boca cheia é uma ótima sensação, por isso eu falava o nome dela errado com certa constância (sem querer). Já tínhamos deixado a Jana entrar no nosso restrito clube de viagem e aí depois do tour mais quatro pessoas se juntaram a nós.

O próximo passo foi procurar um lugar para comer, e resolvemos ir em um lugar super local que pode ser descrito como uma guerra culinária. Pensa assim, não tem fila de espera, então você tem que ficar igual um abutre esperando a turma levantar da mesa para conseguir sentar. Fora isso não tem cardápio ou alguém trazendo comida na mesa, mas sim umas tiazinhas que andam com carrinhos pelo restaurante e você que tem que correr até o carrinho para pegar o que está sendo servido. Não é um almoço, é uma gincana, e o melhor, nada disso é em inglês. Foi diferente, foi bem legal. Mas Deus me livre fazer isso de novo.

Uma cerveja com uma mensagem importante

No fim ainda visitámos outra ilha da região com esse mesmo grupo de pessoas. Uma ilhazinha pequena, de pescadores, mas foi interessante demais ver os gringos perdidos que moravam por ali. Até com uma cabana de americanos malucos que largaram tudo para fazer cerveja artesanal em Hong Kong cruzamos.

Uma rara foto nossa. Aproveite

Esse, que era nosso último dia por lá, ainda terminou comigo quase tendo um infarto. Foi um susto daqueles que fazem a alma pular pra fora do corpo por alguns segundos. Aconteceu assim: chegamos cansados da andança e entrámos no nosso hostel de forma distraída, mas eis que uma jovem coreana espreitava por trás da porta, tal qual uma aparição. E o que a coreana tinha na cara? Sim, isso mesmo, uma daquelas máscaras bizarras de hidratação, parecia que ela tava fazendo um cosplay de Hannibal Lecter no hostel. Sabe aquela parte do “Silêncio dos Inocentes” em que ele corta a pele do rosto do guarda e cola no dele? Tipo isso. Meia Noite. Esperando a gente ao entrar no hostel. Quase morri. Enfim, um final de dia digno de Hong Kong, um lugar bizarro, mas que tem um cantinho especial no meu coração.

Beijos quentes.

Japão ou o capítulo do karaokê embriagado

Esse relato cobre os eventos de 03/20/2018 a 11/10/2018

Olá,

Amigos, amigas e aventureiros virtuais

Sim, sou eu com mais um relato da nossa jornada por esse mundão bizarro. Antes de começar o relato gostaria de descrever o contexto em que ele foi escrito originalmente (lembrando que esse blog é uma adaptação da minha newsletter). Escrevi boa parte do texto no avião indo para Hong Kong (saindo do Japão) e sempre quis pagar de executivo atarefado e importante. Fiquei o tempo todo imaginando que a chinesa ao meu lado estava espiando com o rabo do olho eu digitando furiosamente em um IPad e imaginando que eu talvez fosse o fundador de alguma startup que parece cool mas no fundo é só tosca (como a maioria), ela atuaria em algum segmento perverso que expulsasse a decadência da nossa sociedade – talvez um serviço como Uber, mas em que o motorista sempre tivesse a mesma opinião política que você, algo assim. Enfim, o importante é que para ela eu era uma figura misteriosa, um “big shot” do vale do Silício com uma esposa colombiana exótica (não falem pra Marina que chamei ela de colombiana), não uma pessoa medíocre com um complexo de grandeza escrevendo memórias para meia dúzia de almas amarguradas que encontram (ou não) uma fuga fácil de suas vidas nessas palavras tortas. O fato é que não consegui manter essa ilusão por muito tempo, pois logo comecei a me sentir enjoado devido a combinação da atividade de escrever com o balanço do avião. Minha meteórica carreira no vale do silício tinha chegado ao fim.

As casinhas de Shirakawa

O último relato cobriu diversas cidade por onde passamos no Japão, mas ainda tinha mais o que visitar por lá.

Ao sair de Osaka fomos para Takayama, uma cidadezinha simpática mais perto das montanhas. Foi lá que eu fiquei no melhor hostel de toda minha vida: limpo, aconchegante, banheiros ótimos, muita informação sobre a região e um pessoal que não puxava papo no hall. Eu sei, conhecer pessoas é muito legal durante viagens, às vezes a parte mais legal, mas eu não sou muito aberto para esse lance de novas amizades e acho um saco ter que começar uma conversa com alguém que nunca vi na vida. Tem gente que ama esse tipo de coisa, como tem gente que tem fetiche com xixi. Sempre vai ter um maluco para gostar de coisas estranhas (e por estranhas leia: qualquer coisa que eu não goste. O quê? O blog é meu, eu que defino o que é estranho por aqui).

Para continuar com minha tradição de comparar lugares com cidades do estado de São Paulo, poderia dizer que Takayama tem uma pitada de Campos do Jordão. Arrumada, bonita e com preços exorbitantes. Ainda bem que ficamos pouco tempo por lá. Aliás foram só duas noites, nosso grande objetivo era visitar uma vilazinha perto da cidade chamada Shirakawa.

Shirakawa é um lugar incrível, uma vila nas montanhas, à beira de um rio cor de jade e cercada de muito verde. É um dos raros locais no Japão que ainda mantém um estilo específico de arquitetura tradicional (veja as fotos) e por isso é um patrimônio mundial da UNESCO. Vou ser extremamente clichê e brega, mas preciso dizer isso: visitar Shirakawa é como voltar no tempo. Me senti olhando o cenário de algum filme do Kurosawa, talvez “Os Sete Samurais”. Caso Kikuchiyo aparecesse correndo feito um ensandecido brandindo uma espada e gritado eu juro que não me surpreenderia. No fim Shirakawa é uma vila com grande valor histórico, mas para quem cresceu assistindo Os Sete Samurais e lendo Musashi esse tipo de lugar tem uma aura especial. É aquela magia do Japão que atingi a turma mais estranha que acabou mergulhando fundo demais na cultura oriental.

Ainda em Shirakawa

Depois da nossa visita à Shirakawa voltamos para Tóquio. Que lugar, que lugar. Uma cidade especial, com certeza. É difícil falar em local favorito no Japão, pois tem Kyoto nesse páreo, mas acho que pra mim fica empatado. Tóquio tem aquela magia de grandes metrópoles de que qualquer coisa é possível, de que seu dia pode começar de um jeito e terminar de uma maneira completamente inesperada. Sabem como é? Acho que São Paulo consegue passar essa impressão nos seus melhores dias – afinal você pode começar no trânsito, passar por um boteco legal e interessante no centro e depois terminar numa vala qualquer. Então, Tóquio tem isso e além. Além porque é uma grande metrópole, mas que funciona, diferente do que temos no BR, por exemplo. Além porque lá dá para ir de 0 a 100 em algumas estações – da avalanche epilética que são lugares como Shibuya e Shinjuku a calmaria de Mitaka e Itabashi. Além porque lá é a terra de Dragon Ball, Pokémon, Nintendo e eles fazem questão de lembrar você toda hora disso. Enfim, já toquei nesse ponto no texto anterior, só queria reforçar essa aura especial que tem a cidade.

Harajuku – muitas pessoas, poucos cosplayers

Nosso primeiro dia de volta à casa do Ultraman foi marcado por uma possível burrice. Eu, que já reclamava da quantidade de eletrônicos que carrego na viagem fui lá e fiz o que? Isso mesmo, comprei um Nintendo Switch. Em uma ode aos deuses da impulsividade adquiri mais uma coisa. Precisava? Não. Temos dinheiro para isso? Não, eu estourei o budget, obviamente. Estou me divertindo até o momento? Sim. Acho que valeu a pena então. Um leve adendo – como jogar Overcooked sem se divorciar?

Resultado disso tudo, minha mala ficou mais pesada, mas depois me livrei de várias coisas então tudo se equilibrou. Quem precisa de vestimentas quando se tem um videogame?

Falando em despachar eis aqui o gancho para nosso segundo dia, que foi marcado pelo nosso primeiro e único embate com a burocracia japonesa. Nosso plano sempre foi despachar coisas do Japão. Tanto nossas mochilas menores quanto os mochilões estavam pesados. Eu na verdade só iria despachar a base do Switch e deixar algumas roupas no país mesmo. Mas a Má tinha um monte de coisa para enviar pro Brasil, desde roupa, até um tênis de trilha e uma parte da mochila dela. Tudo isso mais souvenires que compramos pra famílias.

Chegando no correio, após aquela corrida matinal na chuva que alegra qualquer alma, já fomos agraciados com uns funcionários mau-humorados, coisa rara no Japão. Queríamos comprar uma caixa para colocar tudo, mas o infeliz que estava no balcão pegou nossa sacola de muambas e começou a xeretar. Aí japonês vai, japonês vem, conversa com a supervisora, da risada da nossa cara, etc… o resultado desse processo foi o seguinte: poderíamos despachar apenas os souvenires, as outras coisas usadas não. Claro, ninguém falava inglês e o rapaz ria toda hora que eu mostrava o Google tradutor. No fim foi isso, estávamos com frio, fome e metade das nossas coisas ainda em mãos. Obviamente a culpa foi nossa, pois somos desinformados e perdidos e não tínhamos ideia do que se poderia enviar para outro país ou não. Olha só, para pessoas que saíram por aí viajando o mundo nós conseguimos ser bem burros algumas (muitas) vezes.

Rainbow Bridge

Essa segunda temporada na cidade também foi marcada por encontros especiais. Primeiro uma noite regada a cerveja com o Sukita e a Surya, uma dupla bacana demais que encontramos mais de uma vez em Tóquio (e minha amizade com o Sukita era basicamente online, por isso acreditem em seus amigos virtuais, só desconfie se eles te chamarem pra um encontro em um beco escuro em horários pouco convencionais), depois foi a vez de conhecermos a Nat e o Ale do @360sabados, um casal querido que encontraríamos de novo pela viagem e, claro, encontramos o Ale, que já mencionei no primeiro texto sobre o país.

Claro que encontros assim podem levar ao consumo de álcool, mas é complicado ficar bêbado no Japão, muito caro. Quem diria que cair de maduro no meio da estação de metrô seria apenas para os mais abastados. Aliás essa é uma cena que acontece de verdade, em certa sexta-feira à noite voltando tarde de Shibuya tinha uma galera doida de pedra caída na estação. Talvez sejam reflexos de uma sociedade um pouco reprimida – quem mora aqui nos falou que é assim, muita gente bebe até cair mesmo, mais de uma vez por semana.

Aliás essa foi a vez que peguei o metrô mais lotado da minha vida. Bom demais pegar o último trem pré fim de semana em um bairro boêmio e turístico. Rolou até guardinha empurrando a galera para caberem mais pessoas no vagão (como vemos na TV). Realmente o japonês pensa muito no coletivo, me admirou ver o indivíduo se aglutinando à massa de carne e suor para voltar para a casa como uma unidade, um ser único.

Eu achei divertido, sou turista né, mas se estivesse voltando para o lar após um dia estressante de trabalho ficaria o tempo todo rosnando minhas ameaças vazias pra galera, como faço no trânsito de SP.

Metrozão cheio – mas aí já estava bem mais vazio do que quando entramos

O dia seguinte foi marcado por uma visita decepcionante a Harajuku, onde eu esperava ver uma turma vestindo roupas esquisitas e uns cosplayers que decepcionam os pais diariamente, mas só encontrei lojas, uma multidão de gente e a única pessoa vestida de forma “engraçada” que eu vi foi um turista usando saia. Mas o bairro é gostosinho e fica bem melhor sem 45% da população do Japão nele (voltei lá depois).

Nesses dias de Tóquio também fizemos duas viagens relâmpagos, uma para. Kamakura, cidade perto do oceano e com um clima muito gostoso. Clima não, “vibe”. O clima em si estava horrível, quente demais, estou transpirando até agora só de lembrar. Lá tem alguns templos bonitos e um Buda gigante bem legal, da um Google aí. Esse dia também foi marcado por um almoço com uma amiga japonesa da Marina (fomos com ela) em que pagamos a conta por gentileza e por um momento achei que não teria dinheiro nem para voltar. Tivemos que fazer um malabarismo econômico pra sobreviver às horas seguintes.

O Buda de Kamakura

Outra viagem que fizemos foi para o monte Takao, um lugar que tem algumas trilhas bem bacanas. A ideia era subir o monte e ver o Fuji de longe, já que não pegamos a temporada boa pra conhecer o vulcão de perto, mas tinha neblina pra tudo quanto é canto e não vimos nada. Quer dizer, dá para ver Tóquio lá de cima, o que já é incrível. As trilhas são legais, tem uma que é tomada por uma mata super fechada que acompanha o rio, parecia cenário da Princesa Mononoke. E o melhor é que saímos da natureza e no fim do dia pegamos um trem e em uma hora estávamos em Shibuya de novo, nosso último jantar em Tóquio tinha que ser lá. Finalmente a Má conseguiu ter a experiência de um “sushi de esterinha”, e eu que não sou bobo nem nada experimentei o maior feito gastronômico do Japão, o sushi de hambúrguer. Aprovado. Inclusive melhor que qualquer sushi de atum (não me matem, por favor, eu não sou fã de peixe).

Monte Takao

Mas o momento mais marcante de Tóquio parte 2 foi nosso karaokê com locais. Isso mesmo, pegamos uma noitada de karaokê com japoneses “de verdade”. Isso aconteceu pois de dia fomos contar sobre nossa viagem para uma galera na escola de inglês em que meu amigo, o Ale, trabalha. Era uma “free talk class”. Foi muito bacana e deu para interagir com uma turma diferente, desde adolescentes até senhorinhas que estão estudando a língua (até autografo demos). O melhor foi que depois recebemos o convite para um happy hour cantante e foi mágico. Para vocês terem ideia tinha um japonês no grupo com o apelido de Charlie Brown, em homenagem ao personagem de mesmo nome do Lost In Translation. A cantoria aconteceu em uma salinha minúscula com mais tons de marrons do que eu poderia imaginar que existem, mas muito bem equipada, até pandeiro eles têm para acompanhar quem canta. Claro, como se pede em um bom karaokê a galera encheu a cara, inclusive a gente. Charlie Brown é um astro, o cara cantou, dançou e conseguiu suar mais que eu quando jogo bola. Até o tema de entrada do Dragon Ball Z ele cantou, em japonês, é claro. Eu cantei. Sei que isso parece bobagem, mas quem me conhece sabe que evito os caminhos da melodia vocal com todas minhas forças, mas era o Japão e eu estava bêbado, então por que não homenagear o Seal?

A turma da nossa talking class. Consegue adivinhar quem é o Charlie Brown?

E foi nesse dia que eu aprendi algo importante – para ser japonês “de verdade” você precisa passar em algum teste de canto, não é possível. Todo mundo canta bem! Eu, que já sou um desastre, quase fui deportado quando abri a boca.

Enfim, essa foi uma noite inesquecível.

E foi assim que terminamos nossa estadia no Japão, um lugar memorável para mim. Hoje já se foram mais de 9 meses de viagem e passamos por lugares fantásticos, mas ainda tenho lembranças muito especiais de lá. É longe, é caro, mas é incrível.

Beijos Quentes