Mongólia 2 ou o capítulo dos banheiros decrépitos e um povo incrível

Olá, amigo leitor. Espero que você não esteja bêbado e tenha chegado sem querer nesse site, mas se esse foi o caso torço para que minhas palavras entorpeçam mais você do que o álcool. Ninguém merece encarar essa vida de cara limpa.

Esse é mais um relato sobre a Mongólia, como os mais atentos já adivinharam pelo título. Só que agora não vou falar nada sobre nosso roteiro e as atrações que visitamos, assunto do post anterior.

Esse é um texto para falar sobre nossa experiência com as famílias nômades, nossa experiência com nosso guia e motorista e nossa experiência com banheiros que desafiaram nossa capacidade fisiológica.

Como já expliquei no outro post, fechar um tour é também importante para arranjar acomodações na Mongólia. Fora Ulan Bator não existem grandes cidades, aliás qualquer tipo de cidade já é algo raro. O que tem por lá são algumas vilas espalhadas pelo país, algumas maiores e outras menores. E elas também são raras, então depender da sorte em um local com um clima inclemente e natureza inóspita não é uma boa. Com o pacote que fechamos (e como acontece com todos os outros) nós ficávamos em ger’s de famílias nômades. Os gers são a moradia tradicional dos nômades, uma espécie de tenda, e com o tour sempre tínhamos um ger pra chamar de nosso no fim do dia. Apesar de os nativos serem muito hospitaleiros, não sei o quanto seria possível fazer esse tipo de acordo “por conta”.

Aliás, os ger são incríveis. “Casinhas” circulares e espaçosas, (considerando que podem ser montadas e desmontadas) eles são tipo coração de mãe, cabe tudo lá dentro. Os nossos sempre eram simples e apenas continham nossas camas e no máximo uma mesinha para comer. Mas os “oficiais”, das famílias, tinham de tudo em apenas um cômodo: fogão, camas, armário, tv, etc…. e todos membros da família vivem sob o mesmo teto, dormindo espalhados pelo chão. É apertado e bagunçado (para nós), mas parte de um estilo de vida incrível que ainda é a regra para uma parcela considerável da população. Rapaz, imagina um país em que parte do povo ainda se desloca de lá pra cá com suas “casas móveis”? Doideira.

O famoso ger
Interior de um dos ger em que nós ficamos
Interior do ger de uma família – até forno tem, tudo no mesmo cômodo

Aliás, falando nos nômades, eles foram a parte mais especial do nosso tempo na Mongólia. Fechar um tour em um grupo pequeno é a chance de conhecer de perto as famílias que os recebem. A cada noite víamos e conversávamos com pessoas diferentes, desde nômades do deserto que criam camelos a nômades das montanhas que criam cavalos (aliás, as famílias sempre tem algum tipo de criação animal). Vimos membros do rebanho sendo mortos e cortados na nossa frente, acompanhamos a produção de uma bebida local feita de leite de égua, o cozimento das tripas de uma ovelha (que impestiou todo o ger), ouvimos histórias e brincamos com as crianças. Foi memorável.

A vida na Mongólia
Fomos convidados para um chá com essa família

Uma das experiências mais legais da viagem aconteceu em um dia em que a Marina interagiu bastante com as crianças de uma família, e eu, menos simpático acabei fazendo um desenho do homem-aranha montado em um camelo pra um dos meninos, afinal era um grupo criador de camelos. Eu gostei de fazer, ele achou o desenho meio tosco mas gostou de receber (acho). Tá valendo.

Marina interagindo 1
Marina interagindo 2
O famigerado desenho

E já que comecei falando tudo isso sobre os ger, vale lembrar um ponto importante sobre eles e sobre nossa jornada na Mongólia. Obviamente são instalações simples, sem qualquer infraestrutura relacionada a higiene ou eletricidade. Quer dizer, banheiros existem sim, chuveiros e luz elétrica já são bem mais raros.

Porém os banheiros não ficam dentro do ger, são daquele tipo “casinha triste que esconde um buraco no chão”. Sim, o banheiro era apenas um fosso, uma linha direta para um inferno de mal cheiro. Hoje, depois de 7 meses de viagem, já estamos acostumados com isso, mas ali no começo, no nosso segundo país, foi um choque. Na verdade não foi um choque, mas sim uma barreira para usos mais, errr, técnicos do toalete. Vou ser sincero, tive que vencer uma baita barreira pessoal para conseguir realizar todas minhas funções no banheiro/buraco, principalmente quando o buraco parecia um vórtex de moscas malditas que davam a impressão de querer invadir nossas cavidades.

Desculpe se fui muito explícito no parágrafo anterior, queria dividir com vocês o quão visceral a situação foi pra mim. Mas fiquei orgulhoso de superar essa barreira. Depois disso o resto dos banheiros asiáticos foram moleza.

O banho foi outro problema, que na verdade nem era um problema, pois não tinha solução. O negócio era ficar sujo por alguns dias e seguir a vida. Minha calça quase parava em pé sozinha, de tão degradada que estava ao fim da jornada. Em 5 dias tomamos 1 banho e meio. Isso porque foi apenas um banho decente e outro um pouco triste. O triste foi em um dos acampamentos, frio e quase sem água. Foi mais a ideia de um banho do que um banho em si. O outro, o bom, foi em uma vila. Na Mongólia têm estabelecimentos comerciais específicos para banho nas vilas, bem chique (não confundir com uma casa de banho japonesa, por exemplo, são só chuveiros pra tomar uma ducha mesmo).

O banheiro e o campo

Outro contato incrível que tivemos, e esse foi intenso (ficávamos o dia todo juntos), foi com nosso motorista e guia do tour. Dois figuras extremamente diferentes, mas que tornaram nossa viajam muito especial.

Nosso guia, o Babu, era bem jovem, lá perto dos seus 20 anos, ainda cursando faculdade e tudo. No começo ele pareceu meio displicente, meio desinteressado, mas logo começou a se abrir conosco e por fim já estava contando do drama de sua namorada que ia se mudar pra China em alguns dias. De uma cidade da parte oeste (não lembro qual), ele viveu quase sempre em áreas urbanas, não tem tanta ligação com antigas tradições (apesar da sua ocupação) e seu jeito lembra mais os jovens coreanos e japoneses que vemos por aí.

Já o motorista do tour, o incrível Mu, era um senhor muito alegre e retrato de um país de outros tempos. Ele não falava muito inglês, mas mesmo assim nos entendemos. Sempre pronto para mandar uma piada, contar da sua família, de seu passado como médico na Mongólia comunista (profissão que ele abandonou nos tempos atuais pois o salário é ruim, acredite) e das glórias de dias que já foram. O Mu também é chegado numa vodca e toda noite tomava um pouco do seu estoque pessoal. Até acabamos comprando algumas bebidas locais para dar e dividir (ninguém é de ferro) com ele.

Babu e Mu

Inclusive o melhor momento da passagem pela Mongólia foi na nossa última noite de tour, quando Mu e Babu resolveram beber conosco para celebrar. Entre goles da bebida quente e barata demos muitas risadas, aprendemos e, veja só, nos emocionamos. Mu cantou diversas canções populares entre os nômades e uma das mais belas falava sobre a importância da terra natal na vida de uma pessoa. Nós quisemos compartilhar algo de nossa cultura e colocamos Elis Regina para tocar, mas ele achou horrível e voltou a cantar as músicas dele. Faz parte. Essa foi uma noite especial.

Marina e um Mu um tanto quanto embriagado

Ainda para completar como era nosso esquema de sobrevivência, quem fazia nosso jantar era o Babu, normalmente a luz de lanternas. Ele não deixava a gente ajudar, e foi meio estranho ter essa “mordomia”. A comida era quase sempre boa, mas não dá pra fazer milagre. A Mongólia do interior não tem exatamente comidas leves, e comprar suprimentos com ele nas vilas foi uma atração à parte. Principalmente carne. A Marina não comeu mais carne vermelha depois que viu como os açougues funcionavam. Uma breve descrição de como eles são: tem bastante moscas e nenhuma refrigeração.

E um último comentário de algo que achei curioso na Mongólia. O povo nativo, célebres cavaleiros, substituíram os cavalos pelas motos. Lá todo mundo tem uma moto, e ao contrário do sudeste asiático, lá não dá pra ter scooter não. Tem que ser uma moto mais parruda pra aguentar as estradas locais.

Bom, o comentário era esse, desculpe a falta de nexo com o resto do texto.

Cavalo é coisa do passado

Ficam aqui as minhas impressões sobre um povo bravo e resiliente que vive em uma terra dura e linda. Um povo que tem orgulho da sua cultura e tradições. Por favor, Mongólia nômade, não seja engolida pelos tempos modernos (quer dizer, só se os seus habitantes quiseram mais conforto, aí não tem o que fazer).

Enfim, é isso.

Beijos quentes

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Mongólia 1 ou o capítulo do coito interrompido da aventura

Esse post cobre os eventos de 27/08/2018 a 01/09/2018

Olá sofredores da nação. Como vejo que vocês têm uma pitada de masoquista, vou colocar aqui mais um texto para quem quiser flagelar a alma.

Apesar de ter sido uma passagem rápida, a Mongólia foi um dos países que mais marcou nossa viagem até o momento. É também uma de nossas respostas padrão quando vem a inevitável pergunta “qual o país favorito de vocês?”. Sim, amigos, é isso mesmo. A Mongólia é especial. Um país bagunçado, selvagem e com um povo e uma história incrível. Vale a pena ir até lá, mesmo que não seja fácil chegar.

Chegamos em Ulan Bator de trem, a última parte da nossa já mencionada jornada Transiberiana. Era um dia frio e cinza, apesar de ainda ser fim de verão. Não sei se foi o clima, o trânsito ou nosso cansaço, mas não tivemos uma boa impressão da cidade. Meio espalhada e desorganizada, me lembrou uma São Paulo bem menos coesa.

Enfim, foram poucas horas ali. Tivemos apenas tempo de comprar alguns suprimentos, tomar um sonhado banho e nos organizar para o dia seguinte, quando nosso tour começaria.

Antes de falar sobre o tour apenas um comentário rápido sobre o hostel em que ficamos: é um lugar que recebe pessoas do mundo todo em busca de aventura. A cada hora chegavam e saíam grupos para passeios e o clima ali era muito legal, como se fosse uma fraternidade de desbravadores, um hub de exploradores. Claro que ninguém ali era um Marco Polo moderno, na verdade estávamos mais para versões pioradas do adulto de meia idade e acima do peso que faz cosplay de Indiana Jones, mas todo o clima do lugar ajudava a criar essa aura de aventura. E isso é importante, pois é coisa que a Mongólia faz constantemente, cria esse clima apenas para te mostrar, momentos depois, que você é apenas mais um turista perdido naquela imensidão selvagem.

E foi logo cedo, na madrugada do dia seguinte, que partimos para nossa jornada mongol.

Fechamos o pacote para explorar o Gobi com um itinerário de 5 dias que cruzava o país do centro-norte até locais perto de sua fronteira sul, onde começa a parte arenosa e mais quente do deserto. Passamos por estepes, montanhas, desfiladeiros e planícies amareladas até chegar nas grandes dunas que ficam na parte meridional da Mongólia, verdadeiros paredões guardando parte da fronteira com a China.

Aliás, para detalhar melhor, nossos pontos de parada foram:

White Stupa: antigas formações de calcário no meio de uma planície gigantesca. Uma primeira impressão interessante dos mistérios do país, pois foi onde encontramos nosso primeiro santuário xamã e onde vi (sem querer) uma senhora francesa urinando ao pé das colinas.

Se você olhar bem dá pra ver uma Marina ali

Yolun Am: um vale incrível que fica entre montanhas imponentes. Verde, frio e muito bonito. O acesso ao local já é meio precário e as chuvas ainda fizeram o favor de piorar tudo, tivemos que andar uma boa parte do caminho até o parque nacional, pois nosso motorista não quis arriscar o carro na estrada traiçoeira. Aqui foi um dos momentos em que fui da alegria extrema até a tristeza da realidade, pois fizemos um rápido passeio a cavalo pelo vale, momento em que me senti a reencarnação do Gengis Khan. Porém o cavalo insistia em me desobedecer e a cela fez uma ferida no meu cóccix (deixou em carne viva), incidentes que me lembraram que eu estou mais para um pobre camponês que perdeu a sua ovelha favorita do que para um conquistador mongol.

Os cavalos do vale do cofrinho ferido

Khongorun Els: a parte em que chegamos até as incríveis areias do Gobi. Um complexo que se estende por mais 180 kms e tem dunas de até 400 metros de altura. Inclusive a nossa principal atividade foi subir na maior duna da bagaça toda. Pulmão e panturrilha quase pediram arrego, mas depois de uma hora atingimos o topo do colosso de areia. Ficamos lá até o pôr do sol e foi uma das coisas mais especiais da viagem. Também tomamos uma vodka local enquanto lá em cima, como nosso motorista aconselhou, e depois descemos correndo desde lá o topo, emoção pura e embriagada. Pra melhorar jantamos ao pé do paredão arenoso, sob a luz da lua e com a companhia de ratos e cobras, o que deu um certo medo (não em mim, pois sou aventureiro). A parte negativa de nossa estadia nessa parte da Mongólia foi nosso passeio de camelo, que não foi nada demais, só machucou mais meu cóccix, me lembrou das minhas fraquezas e o nosso condutor ainda ficou encantado pela Marina. Confesso que fiquei um pouco inseguro ali, afinal naquele momento era um mongol selvagem e bronzeado contra um brasileiro com uma ferida no cofrinho. Mas tudo deu certo e nosso casamento continua de pé.

Baita trabalho chegar ali

Bayanzag ou Red Flaming Cliff: uma formação rochosa que surge perto de um desfiladeiro em uma planície desértica, um cenário que lembra Marte e um pouco do cerrado brasileiro. Assistimos outro pôr do sol incrível, que deixou o lugar ainda mais vermelho. Outro ponto interessante é que lá foram descobertos diversos fósseis, inclusive ovos (fossilizados, claro) de dinossauro. O lugar perfeito para o Indiana Jones moderno começar uma aventura, mas invés de dinossauros encontrei hordas de adolescentes coreanos.

Rapaz é bonito esse lugar
Moradores originais

Baga Gazriin Chuluu: mais uma série de penhascos, vales e formações rochosas que desafiam o comum, em uma parte bem mais fria e verde do país, pois já estávamos voltando para o norte. Ali foi incrível ter conhecido restos de antigos templos budistas que ficavam nessas colinas perdidas. Também vimos as cavernas apertadas que os monges usaram para se esconder dos oficiais comunistas algumas décadas atrás.

Mais desfiladeiros

Esse é o roteiro explicado de forma “rápida”. Foram muitas horas dentro de um carro, pois a distância coberta não foi pouca, mas acompanhar a mudança de clima e cenário foi incrível.

E agora vocês podem estar se perguntando “Mas nossa, precisava fechar tour? Não sai mais barato alugar um carro por lá?”

E eu respondo:

Não, camaradas. Não dá para conhecer a Mongólia sem algum guia ou tour. Quer dizer, até dá, mas uma parte muito limitada do país, talvez a capital e algo perto dela. O resto não. Digo isso pois as estradas são bem precárias, isso quando existem. Perdi a conta do número de vezes que nosso motorista jogou a van pra fora do asfalto e seguiu não sei quantos kms na terra, grama ou areia, sem seguir nenhum tipo de placa ou trilha. Sério, os motoristas de lá devem ser guiados por algum espírito ancião ou algo do tipo, pois eu tinha certeza que na maior parte do tempo o nosso piloto estava escolhendo direções aleatórias para tocar o carro. Mas o pior é que chegávamos no nosso destino. Como, eu já não sei. Só sei que meros mortais como nós não conseguiríamos fazer igual.

Exemplo de um caminho BOM de seguir na Mongólia

Outro ponto importante de fechar um tour é garantir acomodação com as famílias nômades que estão em cada região, pois não dá pra chegar nos pontos e procurar um hotelzinho ou hostel.

Mas a descrição de nossos locais de estadia, a decrepitude dos banheiros que encontramos, a falta de banho, nosso motorista e nosso guia e o contato humano incrível que tivemos são tópicos para o próximo post da Mongólia.

Só queria colocar uma foto que emanasse “mistério”

Por enquanto eu apenas queria descrever nosso trajeto e parte dessa terra linda em que a natureza parece mais selvagem do que em outros lugares. Um lugar de mistérios, que te faz sentir sempre como um explorador, mas ao mesmo tempo te lembra da sua incapacidade, seja com uma ferida na região das nádegas, um cavalo rebelde, animais silvestres que insistem em te fazer companhia e turistas que quebram a sua fantasia particular e jogam a realidade na sua cara. Não, Rafael, você não é diferente da senhora chinesa de 87 anos.

Esse, amigos, é o coito interrompido da aventura.

Conheçam a Mongólia.

Beijos Quentes

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Ferrovia Transiberiana ou o capítulo do lencinho umedecido

Esse post cobre os eventos de 17/08/2018 a 27/08/2018 (acho)

O leitor mais fiel ou mais atento deve se lembrar de como comentei o quanto trens seriam importantes para nossa estadia na Rússia. Ora, isso porque o grande plano nesse país gigante era justamente cruzá-lo de trem, como intrépidos desbravadores indo em direção ao misterioso oriente em cavalos feitos de fogo e aço. Aventureiros a bordo do peculiar. Caçadores de emoção se jogando no desconhecido. Ou melhor (e mais verdadeiro), dois desanuviados viajando tranquilamente com milhares de famílias russas.

E já que estou em um raro momento de sinceridade, tecnicamente o nosso plano (e o que acabamos fazendo) era usar a rota trans-mongoliana e não a Transiberiana de cabo a rabo, afinal não fomos até Vladivostok (do outro lado do país) e sim desviamos o trajeto para Ulan Bator, na Mongólia.

Foi sensacional de qualquer jeito.

Nossa jornada começou logo após a corrida contra o tempo em São Petesburgo, em que pegamos nosso trem faltando 5 minutos para ele partir (e lá eles são pontuais). Após achar nosso vagão embarcamos cansados, suados e duas ótimas representações do que são seres humanos sem condicionamento físico. Cambaleamos até nossos lugares e quase morremos para colocar nossas mochilas no local adequado, acima de nossas camas, que eram ambas a parte de cima do beliche.

Para os que não lembram da confusa descrição que dei dos trens da terceira classe no post anterior, nesses vagões não existem cabines fechadas, apenas dois beliches em uma espécie de “cabine aberta” e um outro beliche enfiado num canto triste do corredor. Ou seja, todo mundo vê todo mundo a todo o momento (mesmo nos mais íntimos). Refeições acontecem em uma mesinha comunitária que fica entre os dois beliches. Para quem fica no corredor a cama debaixo “vira” uma dessas mesinhas. Vou colocar uma foto e tudo ficará mais claro (espero).

“Cabine” da terceira classe
Beliches do corredor

Claro que quem está nas camas inferiores tem mais controle sobre o terreno da alimentação, afinal a mesa está ali a poucos centímetros de alcance, por isso, e pela comodidade de não ficar escalando toda hora, os locais inferiores esgotam mais rápido nos trens. Mas é aí que entra a etiqueta da locomotiva, que fomos aprendendo aos poucos, em que é aceitável que as pessoas do beliche de cima fiquem sentados, como em sofás, nas camas inferiores, pois elas precisam usar a mesa em algum momento e, por mais que essa seja uma afirmação contra intuitiva, se enchem o saco de ficarem deitadas o tempo todo (mal da pra sentar nos lugares de cima).

Agora você já sabe, se algum dia estiver em um trem russo e acordar com alguém te chutando muito provavelmente essa pessoa quer usar a mesa que você está bloqueando com seu corpinho. Na verdade não é tão diferente assim da dinâmica de qualquer trem leito compartilhado, mas para nós era novidade.

Marina curtindo a disputada mesinha

Estávamos indo para Kazan, que fica a 22 horas de São Petesburgo. Lá faríamos uma de nossas paradas pelo trajeto.

Ficaríamos dois dias em Kazan e depois partiríamos para Irkutsk (sendo esse o maior trajeto da nossa jornada) e de Irkutsk pegaríamos mais um trem até a Mongólia, mais precisamente Ulan Bator. Fizemos tudo isso mesmo e no fim contabilizamos 5 dias (não seguidos) dentro do trem. Haja livro e Netflix.

Fato importante que ainda não mencionei, você compra os tickets “por perna” e não uma passagem só para Transiberiana toda. Quer dizer, você pode ir direto de Moscou a Vladivostok, mas se prepare para ficar muitos dias seguidos no trem. Caso queira parar pelo trajeto é preciso comprar varias passagens diferentes. Para Kazan já tínhamos comprado o bilhete em Moscou, quando a senhora eficiente mas nem-tão-simpática-assim nos ajudou.

Voltando ao relato – Isso tudo quer dizer que tínhamos longas horas de trem a serem enfrentadas com corpos suados e desgraçados fisicamente. Felizmente nossos companheiros de “cabine” nos ajudaram a ajeitar nossas coisas e depois conseguimos nos limpar com o maior amigo desse tipo de viagem, o lencinho umedecido. Claro que nesses trens não tem chuveiro, muito menos na terceira classe onde o banheiro parece uma armadilha prestes a te jogar nos trilhos, por isso a higiene a base da umidade desses produtos para bumbum de neném é essencial.

“Limpos” e mais tranquilos finalmente conseguimos interagir com nosso colegas, pai e filho vindos do Tajiquistão e que tinham ido visitar parentes na Rússia. O pai não falava inglês e o filho, adolescente, tinha um sotaque bem carregado, como se alguém do Casseta e Planeta estivesse interpretando alguém do Tajiquistão falando inglês. Mesmo assim conseguimos conversar, dar algumas gargalhadas e ainda sobrou tempo pra ficar com inveja deles, pois no momento de comer só tínhamos miojo (os vagões tem água quente de graça. Por isso muita gente leva miojo e chá para essas viagens e deixa de pagar uma fortuna na comida suspeita do vagão restaurante) e a dupla fez surgir, do nada, um tupperware gigante com as mais variadas comidas do seu país natal. Cordeiro, frango, batatas e pães caseiros, tinha muita coisa. Eles eram verdadeiros invocadores de comida e aparentemente fizeram um banquete apenas para ter o que comer no trem e ainda levaram tudo no melhor estilo “marmita”. E a gente ali, com algumas Oreos e um miojo sem vergonha. Tristeza.

Entre mordidas e risadas no estilo “estou rindo pois não entendi nada do que você disse” descobrimos que a dupla não gostava muito dos Russos e que aparentemente o Tajiquistão é tranquilo de conhecer. Realmente parece um país incrível, mas depois descobrimos que pouco antes uns viajantes tinham sido mortos num aparente ataque terrorista por lá, então não sei o quão tranquilo o lugar realmente é (lembrando que sou completamente ignorante sobre o Tajiquistão e isso pode ter sido um incidente isolado).

Fora essa interação o que fizemos no trem foi: dormir, ler, escutar música e admirar a paisagem até chegar ao nosso destino.

Para ser sincero essa foi a tônica de todas nossas outras viagens de trem pela Rússia. No começo todos se olham como suspeitos, mas logo uma cumplicidade (que não é necessariamente amizade), se forma. Foi assim com uma senhora e seu neto até Irkutsk e com um coreano figura até a Mongólia.

Visões da Sibéria 1

Sabe aquela história, que comentei lá em São Petesburgo, sobre o trem ser uma explosão de odores? É muito verdadeiro. Os russos viajavam em família, e as famílias levam seus próprios “banquetes” para a jornada. Tem sopa, tem cozido, tem pão, tem coisa estranha pra passar no pão e tem umas coisas mais peculiares, como uma turma que comprou um peixe cru em uma das paradas e começou a corta-lo e comê-lo ali na hora mesmo, tipo um sushi depressivo. Fora as comidas vale lembrar que são vagões apinhados de gente, gente com necessidades fisiologicas e que não tomam um banho decente há a algum tempo. Nossa viagem de Kazan a Irkutsk, por exemplo, foi bizarramente longa, ficamos mais de 48 horas seguidas enfiados no trem, e aí que volta nosso herói lencinho umedecido, salvando os últimos vestígios de higiene que temos nesses lugares. Acontece que nem todo mundo é adepto desse tecido mágico, e aí o bicho começa a pegar. Enfim, os vagões da terceira classe são uma definição clássica de “farofada”, mas é uma farofada boa, bem mais acessível do que esperávamos e o melhor de tudo, é uma farofada pontual.

O famigerado “peixão cru”

Foi uma experiência incrível, pois foi nosso primeiro contato “hard” com os locais de um país. Era fim de verão e vimos as famílias russas voltando para suas casas após as férias. Encontramos estrangeiros apenas na única vez em que visitamos o vagão restaurante, e era uma turma bem de nariz em pé, então fiquei feliz de ter ficado só com os russos de cueca lá da terceira classe.

Uma coisa que perdemos completamente nesses trens, além da privacidade, é a noção de tempo, principalmente durante as pernas mais longas. Dias viram noites e noites viram dias e tudo parece apenas um sonho febril. O nosso querido Einstein devia estar em um trem desses quando disse que o tempo era relativo, pois eu tive a impressão de ter passados algumas vidas ali dentro, e ao mesmo tempo foi tudo apenas um instante. Essa sensação só piora se como nós, você pegar um trem velho e quente. Pra ser sincero demos sorte a maior parte do trajeto, pegando trens “novos” e bons, mas justo no momento em que mais ficamos tempo seguido sobre trilhos o nosso vagão parecia um forno com tecnologia da era dos czares. Quase morri sufocado ali dentro, nunca achei que fosse suar tanto durante uma noite na Sibéria.

Esse foi o famoso “forno nos trilhos”

Aliás pegamos um resto de verão bem potente durante quase todo percurso, foi estranho acompanhar as paisagens “com vida” que passavam pela janela. Eu esperava ver aquela Sibéria melancólica, desbotada e reflexiva, quase como os cenários de um filme do Tarkovsky. Ao contrário, pegamos bastante sol e muito verde, mas ainda era a Sibéria. Casas de madeira naquele estilo único que não sei descrever (veja foto, é mais fácil), construções industriais abandonadas, muitos pinheiros e toda aquela vegetação da tundra (que se intensifica muito a partir de Ekaterimburgo) foram presenças certas no show que rolava fora do vagão.

Incrível ir acompanhando a paisagem. Lá perto do Baikal o clima começou a corresponder às expectativas e tudo ficou mais frio e cinza, então dá para falar que tivemos uma experiência completa na região.

Visões da Sibéria 2

Outra coisa digna de nota, eu falei pra caramba da terceira classe, mas para chegar até a Mongólia só existem trens que tem da segunda classe pra cima, por isso uma das nossas jornadas foi no estilo “mais patrão”. Que não é ruim, mas não é nem de perto tão interessante quanto o que vivenciamos.

Como tínhamos um tempo curto de Rússia, pois ainda precisávamos fazer um tour na Mongólia e depois entrar na China e já tínhamos passagem comprada (uma baita burrada) não conseguimos parar em muitas cidades pelo caminho. Aliás paramos mesmo em apenas duas.

Kazan foi a primeira. Nem tão longe assim de Moscou e ainda do lado ocidental da Rússia, é uma cidade interessante. Não diria notável, mas interessante. Existem influências asiáticas em geral, mas principalmente turcas e muçulmanas, afinal um dos marcos da cidade é uma mesquita (bonita demais, por sinal). Acho que dois dias por lá foram mais do que suficiente. Kazan ainda foi uma cidade de catarse, afinal a memória da copa do mundo ainda estava fresca e foi lá que o Brasil foi desclassificado. Minha intenção era arranjar briga com algum belga nas ruas, mas não encontrei nenhum. Lá também foi onde comi o pior algodão doce da minha vida. E, para não esquecer, foi onde tomamos vodka russa e fomos realmente destratados por um local (única vez), a senhora da estação de trem fingiu varias vezes que não existíamos, por isso aprendemos a comprar as passagens pela máquina de auto-serviço. Gostei de lá, mas provavelmente não voltaria.

A mesquita famosona
Pouca gente sabe, mas Ivan o Terrível era chegado numa bola

Outra cidade que visitamos pelo caminho foi a já mencionada Irkutsk, lá no coração da Sibéria e bem próxima do Baikal, o lago mais antigo do mundo. Eu esperava algo mais “largado”, sabe, estilo a Sibéria isolada que eu sempre ouvi falar, mas achei Irkutsk charmosa e até mesmo jovial. Cheia de casinhas de madeira que são um símbolo da região, mas também com prédios novos, restaurantes da moda e muitos jovens. Lá já da para ver em peso à população asiática que vive na Rússia, principalmente os mongóis, mas essa influência não necessariamente transborda para coisas como a arquitetura local. Enquanto estávamos lá ainda pegamos um ônibus e fomos visitar o lago, que infelizmente não é feito da incrível vodka barata Baikal, salvadora dos porres adolescentes e sem dinheiro.

Irkutsk

Foi um dos poucos dias frios e chuvosos de toda nossa estadia, e uma neblina espessa cobriu o lago. Não foi necessariamente bonito de ver, mas foi interessante. Toda vila em torno daquele mundo de água parecia um cover de Silent Hill e eu tinha certeza que enquanto visitávamos o lugar os moradores estavam em algum porão secreto cultuando alguma coisa antiga e odiosa adormecida nas profundezas. Pra melhorar tudo eu e Marina fizemos uma trilha que parecia rápida, mas demorou um bocado. Ela deveria nos levar a um viewpoint, mas passamos por portões e grades fechadas no vilarejo e demos em algo que eu acho que era uma estação metereológica, em que o cachorro do guarda quase nos matou de susto. Tive certeza que esse era o momento de nossa viagem que os aldeões iriam nos sequestrar e nos oferecer ao deus ancião do fundo do lago. Ainda bem que eles viram que eu não tinha muito valor e nos deixaram ir.

Baikal

Como vocês podem ver eu viajei (na minha cabeça) bastante durante esse passeio, então foi um bom dia. Mas o momento mais incrível dele foi quando, na volta, uma senhora pediu para parar o ônibus (deixando claro que não era uma parada do trajeto), desceu e começou a fazer xixi ali na beira da estrada, com todos os outros passageiros observando. Depois ela voltou como se nada tivesse acontecido e mandou tocar o busão. Paguei um pau para a senhora.

Depois dessa só nos restou partir, também de trem, para a Mongólia, assunto do próximo post.

E termina aqui um relato atabalhoado e um pouco desconexo sobre essa experiência incrível que tivemos bem no começo da viagem e que até agora não sei se assimilei direito. Nossa jornada trans-mongoliana foi assim mesmo, confusa e estranha. E valeu a pena demais.

Caso tenha a oportunidade de fazer algo parecido só vá com mais tempo do que uns 11 dias. Existem varias outras cidades bacanas pelo caminho e quem sabe, vai que você descobre alguma seita milenar russa que tenta controlar as criaturas misteriosas da Sibéria. Boa sorte.

Beijos Quentes

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São Petesburgo ou o capítulo do semi-cativeiro

Esse post cobre os eventos que aconteceram entre 15/08/2018 a 17/08/2018

Ficamos um dia a mais em Moscou do que queríamos, tudo culpa de uma leve confusão ferroviária causada pela dificuldade de comunicação e falta de planejamento. Mesmo assim conseguimos comprar as desejadas passagens para São Petesburgo. A atendente do guichê nos salvou quando tudo parecia perdido, ela nos ajudou do jeito russo (um pouco sem paciência e grossa), mas ajudou. A máquina de auto atendimento parecia coisa de outro planeta, mas depois de entender um pouco melhor o alfabeto cirílico fica fácil. Muito chique né? Falar que sabe cirílico porque comprou passagens de trem pela Rússia. Esse tipo de viagem deixa qualquer um esnobe.

Saímos da cidade durante a noite e após um trem de nove horas estávamos em São Petesburgo. Essa foi o nosso primeiro contato com os trens que seriam tão importantes para nossa viagem Russa, foi também o primeiro contato com nossa amada (sem ironia) farofada da terceira classe, o bilhete mais barato desse maravilhoso meio de locomoção.

Claro que não sabíamos quase nada dos “rituais do trem”, aliás eu e a Marina somos campeões de nos metermos em situações sem saber nada de antemão. Se isso fosse um esporte estaríamos ali pau a pau com o Jon Snow para ver quem são os melhores.

E foi nesse clima que pegamos nosso transporte cheio de famílias russas se deslocando durante suas férias.

Vou fazer um resumo aqui pois teremos um capítulo apenas sobre os trens e nossa rota pela Sibéria.

Vamos lá: ao entrar no vagão já nos deparamos com um festival de sons e cheiros. Pegamos um trem noturno vindo de algum lugar do país, por isso ele já estava cheio de pessoas jantando, bebendo e/ou dormindo. Os vagões da terceira classe têm “cabines abertas” (sem paredes) com dois beliches que ficam onde seria a “cabine fechada” e uns beliches mais apertados no corredor. Essa disposição é importante pois existe toda uma etiqueta de poder ficar sentado na cama de quem está embaixo e utilizar as mesinhas comunitárias, mas como pegamos um trecho relativamente curto e fomos no corredor, um em cima e outro embaixo, não passamos por esse processo. Essa descrição ficou meio confusa, mas foi mais ou menos assim que nos sentimos nessa primeira jornada.

Porém fique calmo, apenas achamos confuso pois éramos praticamente virgens desse tipo de trem, talvez você, viajante mais experiente, não tenha nenhuma dificuldade em pegar uma locomotiva na Rússia.

Rafael no trem na Rússia
Sente o olhar de confiança do meninão

E foi assim que chegamos em São Petesburgo. Percebam que enrolei pra caramba e nem da cidade falei ainda, isso se chama literatura.

Mas antes de falar desse ilustre município russo (já aviso que vou gastar só uns dois parágrafos pra isso) preciso contar sobre a nossa experiência nos cinzentos subúrbios de lá.

Após sair da estação de trem e darmos uma leve aclimatizada com o lugar, pegamos um ônibus em direção a periferia. Isso porque em São Petesburgo teríamos nossa primeira experiência com Couchsurfing, aquela rede social em que pessoas oferecem e procuram acomodações, de graça, pelo mundo todo. Estávamos indo ao apartamento da Irina, nossa anfitriã da vez.

Chegar lá foi fácil, mas o bairro era bem afastado e um pouco caído. Um grupo de prédios de aparência antiga, como um conjunto habitacional soviético. O dia cinzento e chuvoso contribuiu para dar uma atmosfera mais sombria pro lugar. Claro que fomos em frente, afinal já sabíamos que o apartamento era afastado e provavelmente toda estranheza que estávamos sentindo naquele lugar era apenas fruto de algum preconceito nosso. Um dos motivos de viajarmos era abrir horizontes e sair da zona de conforto.

Então lá fomos nós, pulando de borrão cinza em borrão cinza até achar o prédio da Irina. Tivemos um pouco de dificuldade com o interfone, tocamos algumas vezes, até que uma voz masculina cansada nos atendeu. Entramos. O prédio era escuro e apertado. Acho que nunca tinha visto um prédio com corredores tão estreitos na vida. Passar ali de mochilão foi trabalhoso. O elevador era tão estreito quanto o resto da estrutura, mal coubemos eu e Marina lá dentro, e olhe que não somos os maiores espécimes da raça humana. Enquanto ascendíamos lembro de ver um grafite de um emoji triste, grande, bem na porta. Talvez um aviso do que estava por vir.

Irina nos recebeu sorridente e foi muito simpática, estava saindo pro trabalho mas antes nos mostrou tudo. E aí as coisas ficaram ainda mais estranhas. O apartamento tinha uma aura de estar constantemente sujo, empoeirado. Não que ele estivesse sujo naquele momento, ele parecia estar sempre sujo. O lugar comportava no máximo umas 5 ou 6 pessoas, mas Irina estava recebendo umas 12 quando chegamos. Tinham pessoas amontoados feito sardinhas em um quarto e o resto estava na sala, dormindo no chão ou em redes improvisadas. Ela nos mostrou nosso canto, um colchão com um jovem russo embalado no sono em uma rede bem em cima de nosso humilde leito. Ao nosso lado tinha um casal dormindo quase nu em uma cama improvisada. Na nossa frente tinha um rapaz da Letônia que acordou bem quando chegamos (era bem cedo) e ficou conversando sobre suas apostas comigo. Apesar de toda estranheza que cercava a situação e a estrutura com apenas um banheiro triste e sujo para um bocado de pessoas, resolvemos dar uma chance para esse lugar que parecia o começo de uma cópia barata do filme “O Albergue”. Estávamos cansados e demos uma dormida com o russo voador pairando sobre nossas cabeças. Foram umas duas horas de sono até o sexto sentido da Marina entrar de vez em colapso. Talvez ela tenha sonhado comigo perdendo um rim ou algo do tipo e quis ir embora. Um pouco sonado dei uma outra olhada pelo lugar e concordei prontamente. Aproveitamos que a Irina tinha ido trabalhar e saímos, deixando um presente que tínhamos comprado pra ela em cima da mesa. Em nossa última passagem pelo prédio estreito vi o quanto ele parecia o cenário de filmes como “The Raid” ou “Juiz Dredd”. Caso você não conheça esses filmes, isso não é um bom sinal. Demos tchau para aquele bairro melancólico e fomos para o centro da cidade.

Até hoje não sei se esse episódio foi frescura nossa de começo de viagem (depois enfrentamos perrengues similares) ou algo do tipo, mas como já disse, a situação toda era muito estranha. As fotos e a descrição do lugar no Couchsurfing não condiziam com a realidade, tudo era bem mais sujo do que esperado. Aliás acho que ali estava escrito que o limite máximo de hóspedes que a Irina recebia por vez eram 5 (posso estar enganado). Falando em Irina, ela é uma pessoa incrivelmente simpática e foi muito gentil conosco, mas mesmo assim a sensação de que em algum momento do dia alguém ia perder um órgão pairava forte no ar. Achamos melhor não arriscar.

Boa representação da aura do bairro da Irina

Depois do começo cheio de adrenalina o resto da nossa estadia em São Petesburgo passou sem grandes emoções. Achamos um bom hostel bem perto das atrações da cidade, andamos muito e curtimos rapidamente o local.

Achei São Petesburgo muito mais europeia que Moscou, muito mais ocidental. É, talvez, menos peculiar, mas tem bastante charme. O verão ainda tinha força, por isso foi gostoso demais andar pela cidade, cheia de canais e cortada pelo rio Neva. Aliás ali foi mais um lugar em que batemos perna pra valer. Dois dias visitando tudo que era possível. O palácio de verão, fortalezas, catedrais e, claro, o Hermitage (pra desespero da Marina). Quase der retemos ali dentro, o calor gerado por, bem, o sol e os infinitos grupos de turistas chineses estava insuportável. Mas o museu é incrível e valeu a pena.

E foi isso.

HermitageRasputin

No mesmo dia em que visitamos o museu a Marina ainda teve a incrível oportunidade de comer um strogonoff russo (tava bem bom) e eu comecei a perceber que nessa parte do mundo ninguém gosta de gelar muito a cerveja, fato que eu tomaria como certeza após mais alguns meses pela Ásia. Ainda levamos para o hostel, por teimosia da senhora Arrigoni, uma caixa gigante de framboesas que compramos de uma vendedora de rua. Até aí tudo bem, se não fôssemos embora da cidade em menos de 24 horas. Claro que deixamos 88% das framboesas no nosso quarto.

Minha última memória de São Petesburgo somos nós dois, no dia seguinte, correndo em direção à estação de trem para não perder nosso primeiro transporte do roteiro transiberiano, consequência de um erro de direção do ônibus tomado e uma certa enrolação de ordem gastro intestinal. Esse é um episódio que gosto de chamar de “Missão Impossível : Rússia” e envolveu muito suor e esforço de nossas colunas. Crianças, não corram pelo trânsito de uma cidade estrangeira com mochilões nas costas.

E enfim partimos em direção à Sibéria.

Beijos quentes

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Moscou ou o capítulo do nervosismo inicial

Esse post cobre os eventos que aconteceram entre 10/08/2018 e 14/08/2018

Catedral de São Basílio Minha ilustração acabando com a Catedral de São Basílio

Um relato do longíquo começo da viagem, quando nossos intestinos ainda não tinham sofrido e éramos virgens de golpes e burradas. Esses episódios iniciais serão mais impressões do que qualquer outra coisa, pois nosso tempo na Rússia são quase memórias de uma outra vida.

São tantas experiências e aprendizados diferentes que 6 meses na estrada parecem 6 anos. Me sinto em uma realidade paralela em que o tempo trabalha de forma diferente. É realmente uma doideira, e fica melhor ainda quando você entra no estágio da viagem que qualquer tentativa de marcação de tempo parece inútil e você não tem ideia nem em qual mês está. Os dias da semana são os primeiros a irem embora da cabeça, graças a Deus. Ninguém quer saber quando é segunda-feira.

Mas voltemos para a distante Rússia.

Chegar no primeiro país de uma jornada como a que estávamos prestes a realizar é excitante e amedrontador ao mesmo tempo. Ali é o começo de uma vida sem planos, em que as possibilidades são infinitas (ou parecem ser), mas também é o início de uma vida que necessita de uma série de habilidades/conhecimentos que não tínhamos. Éramos, e ainda somos, dois tontos que mal viajavam de férias, então começar a se virar com um orçamento diário baixo e fugir do modo “turismo tradicional” foi desafiador. Por exemplo, sacar dinheiro no aeroporto de Moscou (já que não queríamos trocar nosso limitado estoque de dólares em espécie) em um ATM que não tinha uma palavra em inglês foi aterrorizante. Quer dizer, isso pra mim que sou noiado. No fim foi “só” decorar o que as pessoas da frente estavam fazendo, copiar, e torcer pra aquela bagaça cuspir dinheiro. Parecia que eu estava tentando ver a senha de todo mundo enquanto observava o processo? Sim. Alguns russos me olharam torto? Com certeza. Mas o importante é que funcionou, como funcionou também descobrir qual ônibus pegar até o metrô, mesmo que ninguém lá falasse inglês direito.

Engraçado como nessa viagem variamos entre momentos “agora fudeu tudo” com “caralho nada pode me deter”. Enfrentar o caixa eletrônico da morte? “Fudeu”. Acertar quais transportes pegar? “Já sou local”.

Escrevendo agora eu vejo como fico nervoso com esse tipo de coisa e que claramente sairíamos do aeroporto numa boa, mas na hora meus amigos, aaaa na hora é cada suadouro que vem.

Mas o importante é que saímos vivos do aeroporto e, após uma jornadinha de ônibus e metrô, finalmente ter algum contato com a cidade. Também conhecemos nosso primeiro hostel da viagem e já começamos em um estilo “cápsula”. No começo foi estranho entrar naquilo que mais parecia um forno ou uma gaveta de necrotério, mas a garantia de privacidade e certeza de que não precisaria ficar de conversinha com qualquer viajante que entrasse no quarto ganharam meu coração.

E agora tínhamos que correr pra conhecer Moscou.

Só para contextualizar, nosso plano na Rússia era passar por Moscou e São Petesburgo, mas a cereja do bolo seria pegar o trem transiberiano até à Mongólia, por isso não sobrou muito tempo para os lugares já citados. Ficamos 17 dias no país e tínhamos que ir rápido pois já havíamos comprado passagem de entrada para China. Assunto para um outro momento.

De volta a Moscou.

Sete irmãs Moscou
Uma das sete irmãs durante a noite. Conta de luz tranquila.

Rapaz, que cidade legal. Peculiar, com uma aura diferente de outras metrópoles. Cosmopolita, mas com identidade. Moderna, mas ainda com aquele ar de poder da União Soviética. Aliás “poder” é a palavra de ordem lá. Parece que tudo é feito para mostrar isso. Nunca antes tinha visto uma cidade que demonstrasse tanta imponência como Moscou. Prédios gigantes e maciços, ruas largas, monumentos impressionantes, estações de metrô incríveis e um culto à força e ao belo.

Um lugar diferente, mas ainda “acessível”. Acho que eu esperava ver mais da transloucada Rússia “da internet”, coisa que achei no interior (assunto pra outro post).

Por lá fizemos o básico do turismo: praça vermelha, Kremlin, alguns museus, parques e fomos em um bunker desativado que era usado durante a guerra fria (foi incrível). Mas fazer “o turismo” nem sempre é o melhor, aliás tratamos esse começo de jornada como férias (não intencionalmente) o que é um erro.

Em uma viagem longa o ritmo tem que ser outro e batemos perna demais em uma Moscou quente pra caramba. Todo viajante experiente dá essa dica pros não tão experientes. “Viaje devagar”. Mas os novatos são teimosos e parecem que não escutam. Ou nós (eu e Má) que somos burros mesmo.

Tive um mal estar nesses primeiros dias, acho que foi o calor inesperado, o esforço físico e, principalmente, a energia gasta para chegar até ali. Como se todos os esforços pré viagem (organizamos coisa pra caramba) tivessem feito uma orgia com os medos do que estava por vir e a cria desse bacanal foi uma queda de pressão que me pegou de jeito.

Bunker Moscou
Uma imagem do bunker que visitamos e eu esqueci o nome.
Kremlin
Uma das catedrais dentro do Kremlin. Lembrar o nome é superestimado.
Museu de fliperamas soviéticos. Estilosos, mas bem chatinhos.
Metrô de Moscou
Saca só essa estação de metrô. Coisa de ficção mesmo. Ficar bebado aqui deve ser mo barato.

Nosso tempo em Moscou foi assim, rápido e bem turístico. Como foi em São Petesburgo. Com certeza eu gostaria de voltar para essas cidades com mais tempo e com tudo que sei hoje.

Aliás falando em São Petesburgo, esse é o assunto do próximo post.

Beijos quentes

PS: ainda sonho com o planejamento maravilhoso das linhas do metrô de lá, era muito fácil ir de um lugar ao outro. Às vezes sonho com outras coisas também, por exemplo tenho um sonho recorrente em que faço parte da gangue do Sons of Anarchy mas ando em uma scooter invés de uma motona invocada e todos lá me acham fudidão. Mentira, nunca sonhei isso, mas agora gostaria de ter sonhado.

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