Filipinas ou o capítulo da maratona de transportes

Olá, bravos leitores.

Venho mais uma vez com histórias da porção oriental de nosso humilde planeta, de terras antigas com costumes misteriosos, para preencher o vazio de suas caminhadas online. Na verdade conheço meus leitores e sei que a vida os abarrota de tarefas, pois são pessoas importantes e trabalhadoras, por isso desculpe por mais essa distração de seus verdadeiros objetivos. Os mais prudentes já classificaram em suas mentes esse blog como lixo virtual e estão longe das garras do demônio da procrastinação. Para os infelizes que ainda passam os olhos por essas linhas, chegou mais um relato.

Uma das coisas que mais vimos ao chegar nas Filipinas – transportes!

E esse demorou. Talvez um dos maiores intervalos de tempo desde que abri esse canal de comunicação com o mundo. E o pior é que nem tenho um bom motivo para não ter entrado em contato antes, apenas fui atacado pela boa e velha preguiça. 

Quando saímos do Camboja eu já imaginava  que estávamos prestes a enfrentar uma jornada para chegar ao nosso destino nas Filipinas e, meu Deus, como eu estava certo. Usar o termo epopeia não seria exagero (na verdade seria um uso completamente errado da palavra, mas dá o tom dramático correto), pois me senti como um antigo herói grego atravessando mares desconhecidos e enfrentando perigos diversos em prol de uma grande causa. Só que no nosso caso não teve nenhum perigo a ser enfrentado e nossa travessia marítima se deu pelos ares, um método de locomoção um pouco mais rápido do que a rapaziada grega estava acostumada. A grande causa em questão era nosso descanso sob coqueiros em uma praia de areias brancas e água cristalina. 

Porém chega de floreios, vou descrever aqui todos os passos dessa nossa aventura pelos transportes asiáticos.

Busão leito bem honesto no Camboja

Saímos na noite de 20 janeiro de Siem Reap. Pegamos um ônibus leito e às 5 horas da manhã do dia 21 estávamos em Phnom Penh, capital do Camboja. Nos dirigimos até o aeroporto e esperamos até às 14 para nosso voo. Calma que é agora que a coisa começa a ficar interessante. O avião saiu no horário e chegou na escala, Kuala Lumpur, às 18 horas. Esperamos por lá (comendo um McDonalds, porque somos filhos de Deus) até o embarque, às 20h. Aí foram mais quase 4 horas até Manila. Chegamos nas Filipinas perto da meia noite do dia 22. Você está confuso com tantos números e datas? Calma que tem mais. Dormimos, ou quer dizer, tentamos dormir, no aeroporto para economizar uns trocados. Ainda tínhamos que enfrentar mais um voo, mas ele só aconteceria às 17h do dia 22 (era de madrugada). Ou seja, muito tempo pra matar no incrível hub aéreo de Manila.

Nossa cama no aeroporto

Depois de muito rodar pelos terminais em busca de um lugar minimamente decente para dormir, encontramos uma espécie de chiqueirinho para passageiros rejeitados e perdidos. O campo de refugiados do local. O canto da turma de longa espera. Ali podíamos deitar em qualquer lugar (cadeiras duras ou chão) e dormir. Já eram 4 da manhã, por isso acatamos o chão sem o menor embaraço. Esticamos uma toalha e lá fomos nós para o abraço mais desajeitado e incômodo que Morfeu já me deu. Acordei lá pelas 8 horas da manhã com um barulho estranho e percebi que todos nossos colegas de chiqueiro tinham se mudado para um outro canto. A equipe de limpeza estava em ação ali do nosso lado e provavelmente não conseguiram nos acordar. Nós mudamos, naquele ritmo zumbi de quem não conseguia dormir bem há quase 48 horas, só para perceber que não deveríamos ter saído do lugar, pois aí a turma resolveu limpar o canto que tínhamos acabado de escolher. Voltamos para nossa região e dessa vez nos ajeitamos em cadeiras. A Má conseguiu pegar no sono e eu fiquei lendo. Depois disso achei que as coisas ficariam mais calmas, mas depois de umas duas horas percebi que estavam preparando uma missa (?) ali no nosso querido local. Isso mesmo, uma missa no aeroporto, e ainda convidaram a Marina para falar no púlpito. Era hora de dar tchau, sair da nossa bolha de proteção e finalmente desbravar os mistérios da rodoviária glorificada. Já era quase meio-dia então fomos comer, fazer check in e esperar o avião que partiria no período da tarde. Depois das horas mais arrastadas da minha vida finalmente embarcamos na última perna aérea da jornada e 1 hora depois chegamos em Puerto Princesa, que era, bem, um pouco longe ainda do nosso destino final. Como chegamos tarde arranjamos um hotel meia boca e capotamos. Logo cedo, na manhã do dia 23, partimos do terminal rodoviário da cidade, que mais parecia uma feira a céu aberto, e 3 horas de van depois, aí sim, aí sim chegamos em Port Barton, onde curtiríamos uma praia pelos próximos quatro maravilhosos dias sem traslados ou deslocamentos. Quando finalmente cai duro na cama do nosso quarto só conseguia escutar um remix estranho do tema da vitória do Ayrton Senna com Halleluya tocando em loop na minha cabeça. 

Missa(?) no aeroporto

Ufa. Cansou escrever isso tudo. Quase 3 dias para chegar de um lugar a outro. Claro que as Filipinas serem um país composto por mais ilhas do que gente não ajudou muito nessa história. 

Mais uma vez reflito: como era paciente o povo que saía em uma banheira de madeira pelo mundo, só para chegar em algum lugar uns bons 20 meses depois. Por isso que os navegadores e colonizadores cagavam tudo quando achavam terras novas, imagina o tanto de energia que esse povo não acumulava durante a viagem. Energia mal direcionada dá nisso. Quem sabe uma yoga ou um tai chi chuan no navio não tivessem deixado essa galera mais relaxada. Muito me surpreende que um marinheiro mais sagaz não tenha chegado no Bartolomeu Dias, Colombo ou Pedro Álvares e dado a letra “o capitão, o pessoal já tá meio ensandecido de ficar muito tempo aqui, por que o senhor não puxa um alongamento ali no convés só para dar uma descontraída?”.

O mundo poderia ser outro caso isso tivesse acontecido. 

Bom, tem só um detalhe de toda essa narrativa migratória que eu mantive escondido sob o manto escuro e frio da vergonha, uma peça vital de informação que demonstrará que não apenas o destino e os meios de transporte asiáticos foram os culpados pela nossa demora para chegar até Port Barton, pois nós também tivemos nossa parcela de culpa. Para entender como isso aconteceu é necessário voltar alguns meses atrás, para quando estávamos na Tailândia, mais precisamente em uma noite em que chegamos embriagados no quarto após uma noite de diversão de qualidade. Foi nessa madrugada, lá pelas 3 da manhã, quando estávamos encharcados de álcool e com poder de raciocínio muito do impedido que resolvemos ser uma boa hora para comprar as passagens da nossa então futura ida para as Filipinas. O resultado disso foi que ao invés de comprarmos um voo para às 5 da manhã eu, Rafael, comprei um voo para às 5 da tarde, um erro que nos deixou mais umas 12 horinhas no aeroporto. Tranquilo. Acontece. Estou com a consciência limpa. 

Só para deixar o post mais poético

E sim, esse capítulo do blog foi apenas sobre o nosso deslocamento insano entre Camboja e Filipinas. Se ele foi cansativo de ler  imagine como foi na vida real. 

Prometo que o próximo relato será mais interessante. Ou não.

Beijos quentes

Camboja ou o capítulo do voluntariado – Parte 2

Nossa galerinha

Do rio mais lamacento e da pradaria mais poeirenta surge, como um bálsamo para dias difíceis, mais um capítulo deste blog sobre o Camboja. Pode respirar aliviado(a), limpar a lágrima que escorreu nesse rostinho lindo e comece a ler. 

No post anterior falei sobre como era a vila, a escola em que ficávamos e o potencial de destruição dos nosso “alunos”. Agora vou falar mais sobre nosso dia a dia lá. Para os que perderam a parte 1, clique aqui.

Nossa rotina era mais ou menos a seguinte: acordávamos umas 7 da matina, tomávamos café e das 8 às 10 dávamos aula pra turma da manhã. Essa era a molecada mais carente, os que dormiam lá pois a situação em casa era extrema (pais alcoólatras, falta de comida, falta de água, etc…). Eles não iam para a escola pública da vila e se ficassem em casa teriam que trabalhar. Eram um pouco mais “atrasados” que o resto das crianças em inglês e bem distraídos, mas no fim acabamos nos apegando muito a eles, afinal estavam sempre lá com a gente (para o bem e para o mal). 

Parte da turma “da manhã”

Depois disso tínhamos um tempo de brincadeira e almoçávamos (as crianças também, o Rady alimenta as que ficam por lá). Depois, das 2 às 4, começava a turma da tarde, uma classe bem mais cheia, formada por toda criançada que chegava da aula na escola pública. Normalmente essa classe fluía melhor, apesar de ter mais bagunça. Meu Deus, como é difícil ensinar. E como é difícil ensinar sem ter uma língua base em comum. Passar conceitos é quase impossível. Às vezes o Rady nos ajudava, mas normalmente nossas aulas eram pautadas em vocabulário, coisas que conseguíamos transmitir com desenhos e mímicas. Certa vez tentei mostrar o mapa-múndi para elas e parecia que eu estava falando da teoria da relatividade. Quando tentamos ensinar os conceitos de “hoje, ontem e amanhã” também. Ser professor é saber lidar com a frustração. Aliás é muito legal quando você vê uma criança aprendendo algo que ela tinha dificuldade de assimilar, mas eu não tenho a paciência nem a nobreza para passar muitas vezes por esse processo, eu curtia os que pegavam tudo mais rápido. Um salve para os verdadeiros professores do mundo.

Depois dessa aula tinha mais um momento de brincadeira, normalmente eu jogava bola com as crianças, ou melhor, jogava a versão kamikaze de futebol que elas praticam. Até em mim elas davam carrinho e porrada, pensem em um jogo com raça.

A porrada comia solta nesses jogos de fim de tarde

Mesmo que tentássemos ficar tranquilos e, por exemplo, ler um pouco, não dava. A molecada estava sempre animada e eles precisavam de muita atenção. Aparecer com o celular em público era o mesmo que aparecer pintado de ouro e com duas bolas de sorvete na cabeça – o pessoal voava em cima.

Após a última bagunça do dia era banho e cama.

Mas calma lá, e o banho? Bom, até tinha um chuveiro, mas a pressão da água era a mesma do xixi do meu avô quando ele tinha 87 anos. Não dava nem pra molhar o cabelo. O que restava era usar uma torneira secundária e se virar no banho de canequinha. O toalete também não tinha descarga, claro. Era tudo na base do baldinho. As crianças eram bem encardidas, com problemas de pele e piolho, mas adoravam tomar banho, mesmo que não o fizessem “direito” (elas só se molhavam), pois em casa elas não tinham água assim. Nunca pensei que um chuveiro pudesse simbolizar tanto distanciamento social. Certo dia compramos suprimentos de higiene para todos, ensinamos a escovar os dentes e demos um banho bem dado na turma, com shampoo e tudo. Eles adoraram. 

Aparato novo em mãos

Enfim, a semana seguia mais ou menos assim, com nossas aulas um pouco desajeitadas no começo, mas depois em um bom ritmo. Eu era meio maníaco e queria deixar tudo preparado, mas depois saquei que além das aulas estávamos lá por outros motivos também, e nem sempre a classe iria prestar atenção ou entender completamente a matéria.

O tempo todo seguiu mais ou menos como o descrito, muita atenção para as crianças, um pouco de falta de paciência em dados momentos, nenhum ou pouco espaço privado e uma tremenda raiva de ter perdido tempo com a porra de uma série chamada Mansão Hill ou algo assim. 

Fizemos uma vaquinha para a escola, que foi um sucesso (garantiu um poço novo de água e um terreno para plantio)  e um baita esforço de criação de conteúdo da Má. Aliás ela que fez tudo dar certo. Parabéns pra ela e muito obrigado pra quem ajudou de alguma forma! A Marina também pegou piolho das crianças, informação importante. 

No fim aprendi a lidar melhor com a carência da meninada e já abraçava todos sem parecer um robô de outro planeta. Mais uma conquista dessa experiência. 

As crianças agradecendo a quem doou

Fora aulas, brincadeiras, jogos de bola e etc… ainda fomos convidados pra dois casamentos, cada um em uma semana. Aliás de Novembro a Março é temporada de casamentos no Camboja, pois depois todo mundo tem que trabalhar nas plantações de arroz. O primeiro casório não foi notável, ficamos pouco e depois fomos tomar uma com a família do Rady em uma espécie de piquenique em um terreno em frente de onde ele morou quando criança. Essa parte foi gostosa, tomamos umas cervejas com uns cambojanos e não entendi nada da conversa deles. Também não parava de chegar gente, era pessoa saindo do mato, pessoa chegando de moto, de bicicleta, etc… uma noite interessante. Foi lá que nos ensinaram que toda vez que alguém vai beber é necessário brindar. Toda vez. TODA. É legal no começo, mas depois enche o saco. Não sei se isso é costume mesmo ou eles estavam zoando com a gente.

Eu fui de calça de trilha e tênis no casamento. E eu ainda me arrumei para esse

O segundo casamento aconteceu no vizinho da escola. Foi aí que descobrimos que as festas duram mais de um dia aqui, e que o som da cerimônia começa 5 da manhã, uma beleza. E a vila pode ser a mais pobre do mundo, mas aqui eles não economizam em som não. São umas 15 caixas gigantes empilhadas uma em cima da outra, como uma montanha de decibéis e ódio. E eles não deixam o volume moderado, é aquele volume tão alto que estoura tudo. Ninguém tá nem aí pra qualidade, o negócio é propagar o som pelo mundo. Música de festa, música de cerimônia, discurso dos sacerdotes, tudo passa por essas caixas da destruição. Foram dois dias seguidos com música no último volume desde a madrugada. Pelo menos aproveitamos mais esse casamento. Vi de perto a bagunça que é a festa. Realmente um evento comunitário, com a vila toda se juntando, comendo, crianças correndo, bichos passeando no meio de tudo, poeira, etc… um caos dos mais divertidos. Inclusive sequestraram a Marina pra colocá-la em um vestido e maquiagem tradicionais. O problema é que enquanto ela estava nesse processo um molequinho muito pentelho (nunca tinha visto antes) grudou em mim. Toda paciência que tive com os alunos não tive com ele e quase joguei o figura no fosso (errado demais, eu sei. Desculpe criança pentelha). Essa festa ainda aconteceu na nossa última noite lá, então os alunos pediram pra dançar com a gente. Foi uma cena engraçada (para não dizer outra coisa), baita technera rolando, um monte de criança correndo e se jogando na terra e eu e a Marina no meio. Isso em um casamento numa vila Khmer no meio do Camboja rural. A vida pode ser lindamente aleatória às vezes.

Marina trabalhada no tradicional e eu…bem..melhor deixar pra lá
Bagunça na rave casamento

Fora nossa vida no campo ficamos uns 4 dias em Siem Reap, uma cidade bem gostosa e barata pra se embriagar. Achei chopp por 2 reais. 

As ruínas são demais 1

Claro que visitamos o Angkor Wat e outros templos do complexo de ruínas. Uma experiência inesquecível para quem gosta desse tipo de coisa. Templos budistas e hindus “mais antigos que o Brasil”. Muitos sendo devorados pela natureza. Visual incrível e ainda mais legal se você é familiar com Uncharted, Tomb Raider e Indiana Jones. Fomos dois dias para o complexo, um de bicicleta (quase morremos com o calor) e outro de moto. Recomendo fortemente. Se você não tem muita noção do que estou falando dê um Google.

As ruínas são demais 2

Nosso dias por lá também foram marcados pelo encontro com um casal de amigos, o pessoal do @gemeosnamlchila. Família incrível que viaja na maior parceria. São mais incríveis ainda pois acharam no mercado local uma peça gigante de mozzarella, e meus amigos, vocês não sabem como um queijo bom faz falta depois de muito tempo de Ásia, mesmo que um “simples” mozzarella. 

Molecada vai deixar saudades

Recomendo que vejam os destaques do Instagram da Marina (@sejogaai) para entender melhor sobre nosso tempo no voluntariado, a história do Rady e até do Camboja no geral. 

Boa semana, não assassinem quem não mereça.

Beijos quentes.

Camboja ou o capítulo do voluntariado – Parte 1

Pôr do sol nos campos da vila

Do calor, da sujeira e da poeira eis que surge mais um episódio de alegria em suas vidas. Sim, amigos, está começando mais um capítulo do blog mais exclusivo do Brasil

Esse relato é sobre a experiência mais impactante que tivemos no ano, quem sabe na vida. Falando em ano, como está o seu até agora? Sei que no mínimo está sendo agitado, pois o mundo parece uma bagunça no geral. Mas não aquela baguncinha agradável, aquela baguncinha que começa como um churrasco despretensioso e termina com um nível muito além do recomendado de Velho Barreiro consumido, “Coração Sertanejo” no som e um revival da banheira do Gugu na piscina. Não. As coisas estão mais pro estilo “o tio voltou bêbado de novo do forró e está violento” de bagunça. Nada agradável. 

Será que algum lugar do mundo está legal no momento? Quer dizer, eu  passei por vários lugares legais, não tenho do que reclamar, mas eu não moro neles e sei que a maioria (senão todos) tem sérios problemas socioeconômicos. Vira e mexe me sinto culpado por estar visitando e me divertindo em um país com qual não concordo com políticas ou pior, está ou esteve envolvido em alguma atrocidade. Mas se eu fosse barrar lugares da nossa lista de viagem por isso quase não sobraria pra onde ir. Por exemplo, não fomos pra Myanmar por causa do massacre recente de muçulmanos, mas fechamos os olhos pra várias outras coisas – nada como uma dose diária de hipocrisia. Acho que esse tema rende um post em si, posso continuar outro dia.

Mas vamos falar de coisas mais leves,  como a guerra no Camboja e uma população quase que totalmente dizimada.

Calma, brincadeira, teremos pontos de alívio cômico nesse capítulo.

Caso vocês não lembrem o último capítulo terminou conosco saindo do Vietnã após a festança glacial em Ha Long Bay e indo pro Camboja, em direção ao nosso trabalho voluntário.

Eu estava nervoso, vou confessar. Pra variar criei uma pressão desnecessária sobre o fato, me preocupando se realmente conseguiria ensinar e ajudar essas crianças (ia lá dar aula de inglês). Além disso era uma situação muito fora da minha zona de conforto, teria que ter um nível de envolvimento com outros que quem me conhece sabe que não é meu forte. Enfim, fomos encarar.

A rua principal do vilarejo

Já vou adiantar aqui que foi uma experiência maravilhosa, daquelas de mudar a vida mesmo. Um soco de realidade. Eu sei (acho) que todo mundo do grupo restrito de leitores do blog é instruído e tem noção das diferenças sociais que existem no mundo, dos nosso privilégios e facilidades. Eu também sabia disso tudo e achava que conhecia da vida. Mas estar lá é diferente, é a materialização de um discurso interno que até o momento era só isso mesmo, um discurso. A porra da pirâmide de Maslow despencando na sua cabeça pra te fazer ver como os níveis inferiores são pesados e importantes. Água, comida, higiene. Ao aprender o tema na faculdade isso aí nunca foi preocupação. 

Desculpe se no momento meu discurso flutua pro lado do “iluminadão do voluntariado”, mas eu nunca tinha participado de ações tão intensas assim. Já tinha ajudado a cuidar de crianças no natal em uma escola no centro de São Paulo, ajudado a organizar mantimentos para Mariana e feito aquela ocasional doação de fim de ano para as crianças da creche Mãezinha, em Itu (sim, esse lugar existe). Ações rápidas e de pouco envolvimento. Sei que você, lendo isso, pode ser bem mais experiente que eu nesse quesito, e nesse momento eles devem estar lendo e pensando “no shit, Sherlock”. Juro que o momento iluminadão vai acabar. 

Enfim, foi bom e foi diferente. Fica a reflexão que no atual momento eu devo ter feito mais pelo Camboja do que jamais fiz pelo meu país, algo que quero mudar no futuro. 

Garotada e um amigo nos campos

Claro, alguns podem argumentar que a minha mera presença radiante nas ruas de São Paulo contribuiu pra elevar a moral dos trabalhadores brasileiros ao longo dos anos, mas eu não sei se foi pra tanto. Caso você não tenha notado o momento iluminadão já acabou e agora vou voltar pro relato.

Chegamos em Siem Reap e já tinha um motorista do projeto nos esperando. Mal pisamos no Camboja e já estávamos em direção ao voluntariado, onde ficaríamos duas semanas. A escola, ou centro, em que trabalhamos fica a uns 40 kms da cidade, numa vilazinha rural.   As estradas não são uma maravilha e em dado momento viram de terra, por isso mesmo um carro bom leva uns 40 ou 50 minutos pra chegar lá. 

Já era noite quando fomos recebidos por Rady, o idealizador do projeto, e algumas crianças que nos esperavam para dar um oi. O primeiro contato com elas já deu a tônica de como seriam os próximos dias. Bagunça, muitos apertões e abraços. Elas amam o toque, não sei se por carência emocional ou por serem um povo afetivo, desconfio que mais pelo primeiro quesito. Eu não sou a pessoa mais carinhosa que já pisou na terra, e mesmo sabendo onde estava indo e porque estava indo isso me causou estranheza. Esse excesso de contato que a molecada necessitava. Inclusive às vezes enchia bem o saco, para ser sincero, mas acostuma e, inclusive, amolece o coração.

Como estava tudo escuro não deu pra ver muita coisa, só que a escola operava em uma estrutura bem simples, com duas casas de bambu para as crianças mais carentes da vila dormirem, uma cozinha quase a céu aberto, um chuveiro e um toalete (depois comento sobre a qualidade deles). Algumas casinhas de madeira serviam como classes e uma outra casa maior, também de madeira, era um grande quarto pros voluntários, no caso nós eramos os únicos lá no momento. Logo fomos dormir. Ou tentar. A ansiedade dentro de mim era quase opressora.

Casinhas usadas pelas crianças mais carentes – sala de aula era atrás delas

O dia seguinte era segunda-feira, mas feriado, uma data comemorando o fim da guerra civil que assolou o país, por isso não teve aula, mas fomos com uma caravana de crianças conhecer a vila. Na verdade não tinha muito o que conhecer, o local é formado por algumas casas e plantações que beiram uma grande estrada de terra vermelha. Andamos com a molecada por quase toda essa estrada, passando por casas simples até uma rua pavimentada que é a marca não oficial do fim daquela comunidade. Visualmente o lugar me lembrou muito a savana africana. Plano, com horizonte longínquo, muita vegetação seca e amarela, plantações de arroz inativas e algumas árvores aqui e ali. Sem falar que tudo lá tem tons de laranja e vermelho, principalmente por causa da poeira que toma conta de tudo.  A poeira vermelha da estrada que gruda em tudo e em todos. Eu lembro da vila e imediatamente lembro dessa poeira, um lembrete incômodo da realidade do local, algo que te puxa de novo para uma realidade que não é nem um pouco melhor do que um sonho. Considerando que estávamos no Camboja, talvez o visual devesse ser mais de floresta tropical do que o que vimos, não sei se o cenário em questão foi construído pela interferência do homem ou aquela região em particular é assim

Rostos sorridentes na poeira

Sem falar que é bem quente, andar por ali onde não tem tanta oferta de sombras é muito cansativo. O calor é diferente do que senti na Tailândia, que era úmido como Manaus. Ali era seco. Enfim, calor gera suor, e suor, com a já supracitada poeira, gera uma pasta grudenta e irritante que é parte integral do “milanesa do Camboja”.

Estilo das casas locais

As casas da vila são, no geral, bem módicas, por falta de um termo melhor. Geralmente de madeira ou bambu e apenas com um cômodo onde todos dormem juntos, cozinham, etc… muitas delas são suspensas, quase como em palafitas, apesar de eles não serem uma população ribeirinha ou morarem em uma área de inundação. É simplesmente tradição, até porque o espaço que fica embaixo das casas é usado para relaxar, armazenar coisas e para lazer. Grande parte delas não tem eletricidade ou acesso a água, por isso muitas crianças gostam de ficar na escola, que tem uma infraestrutura melhor que a média da região. Aliás, água por ali é só de poço, encanamento e saneamento básico são um sonho distante. 

É um lugar bem pobre.

Nada de selva por aqui

Outra coisa que observei durante essa primeira andada pela vila e que confirmei nos outros dias: o povo por aqui adora camisetas de futebol. Camboja é um país que parece ter seguido os conselhos de moda do Rafael de 15 anos, que acreditava que camiseta de time, shorts de tactel e chinelo é o único visual possível. Aqui muita gente anda assim. Meninos, meninas, adultos, eu….  No começo achei que era paixão pelo esporte, mas comecei a tentar a puxar papo sobre o tema e ninguém entendia muito. Depois saquei que aquelas camisetas do Barcelona, Juventus e Real Madrid só estavam vagando pelas ruas porque deviam ser as mais baratas nas lojas. Se você ainda não entendeu, obviamente não eram camisetas oficiais. Mas importante dizer, eles adoram esporte por aqui, principalmente vôlei e futebol, mas não necessariamente conhecem esses times que citei.  

Depois que demos esse nosso passeio pela vila voltamos pra escola e ficamos brincando com as crianças até o almoço. Todas refeições eram bem simples e locais, o Rady mesmo que preparava tudo. Acho que ao longo dos dias comi carne de cobra e com certeza tomei uma sopa de formigas, mas normalmente o que comíamos eram vegetais e frango. Com arroz, claro. 

Parte da nossa turminha incrível

O período da tarde desse mesmo dia foi uma experiência meio traumática pra gente, pois o Rady saiu e nós ficamos tomando conta das crianças, só que sem ele lá (e talvez pela excitação de nosso primeiro dia) elas viraram uns capetas. Ficavam brincando com coisas como facas (??), se batiam, gritavam, fizeram guerra de talco e água, sujaram a escola inteira e em dada hora começaram a comer larvas da folha de bananeira. Nós ficamos igual baratas tontas tentando entender o que fazer e como controlar aquela horda de adoráveis delinquentes. No fim desse primeiro dia eu já estava cansado e bem do arrependido. Mas depois as coisas melhoraram. Nada como uma noite de sono quase em coma pra curar esse tipo de coisa.

Vou dividir o post em 2 partes, pois tem bastante coisa para contar. Agora que a vila e as crianças já foram apresentadas no próximo texto vou detalhar nossa rotina e as peripécias em que nos enfiamos – por exemplo, participamos, sem querer, de dois casamentos. Aguarde.

Beijos Quentes

Vietnã ou o tiozão em Ha Long Bay

Podem sorrir amigo(a)s internautas, voltei de um dos círculos do inferno para trazer a sua dose semanal de sombras e perrengues. Tenha em mãos seu veneno de preferência, isole-se do mundo por uns três minutos e acompanhe mais uma dose de decisões precipitadas e burrices corriqueiras.

Ha Long Bay é o bitcho

No último post descrevi como tocamos o terror de moto nas montanhas vietnamitas, mas infelizmente nossa aventura com aroma de gasolina e motor 100 cilindradas ali perto da China terminou e após mais uma jornada nauseante em estradas sinuosas, vans apertadas e em um ônibus leito que foi redecorado com vômito por um pobre garotinho local, chegamos em Hanói.

Já era quase ano novo e precisávamos estar na capital, pois fechamos, junto com uma amiga da Marina que estava de férias no Vietnã, um cruzeiro em Ha Long Bay, um dos destinos mais turísticos do país. É um lugar surreal, apesar de super visitado. Um verdadeiro labirinto formado por milhares de grandes rochedos de calcário que emergem do mar cor de jade e criam desenhos únicos na água junto com piscinas naturais, ilhas e cavernas misteriosas. São como restos de uma antiga cidade perdida que foi parcialmente inundada. Ruínas do fantástico. Escombros de um lugar que existe só na imaginação. Bom, deu para perceber que visualmente o lugar é incrível e que eu me empolguei na minha descrição.

Mas voltando ao relato – ainda em Hanói pegamos o ônibus da nossa excursão (sim, era uma excursão) e partimos pro cruzeiro. Cruzeiro esse que era um daqueles “barco festa”, com bastante comida boa e gente querendo farrear. Não necessariamente nossa clima, mas para comemorar o ano novo valeu a pena e foi divertido.

Nosso grupo era formado por jovens de todas partes do mundo que tinham como objetivo encher a cara. O ambiente todo cheirava a “festa de faculdade”, inclusive o guia designado para tocar nossa horda de selvagens em ponto de ebulição, o simpático Crazy K. Sim, o guia se autodenominava Crazy K, o que eu achei bizarro, afinal ele pegou um nome que ele usaria como apelido em algum jogo de videogame ou se ele fosse parte de uma gangue de rua e transportou para a “vida real”. Talvez eu esteja filosofando demais sobre a alcunha do nosso querido mestre de cerimônias, mas algo não parecia estar certo ao falar em voz alta “Crazy K”. Tente você aí na sua casa, fale “Crazy K” e veja se soa legal. Não soa. Eu chamava ele só de K, o que era falta de educação, porque ele não queria ser chamado assim, mas eu me recusava a entrar nessa bolha fantasiosa maluca que todos estavam compartilhando ali na costa do Vietnã. É complicado ser mais retraído que o professor Pasquale e mais cheio de noias que aquela sua tia viciada em vinho Chapinha e remédio tarja preta.

Crazy K dando seu show

Mas mesmo com toda essa dureza de espírito eu me diverti.

Só o tempo que estava horrível, frio demais (quase zero graus) e cinza. O barco ainda era quente e confortável, mas isso se limitava a seu interior. O cruzeiro dispunha de uma série de aparatos para atividades divertidas, como caiaques, boias, jacuzzis e etc… Mas o clima congelante atrapalhou o aproveitamento disso tudo. Atrapalhou, mas não impediu. Boa parte da turma fazia qualquer coisa para se divertir, então quando percebi que aqueles quase adolescentes malucos estavam nadando no mar gelado me juntei a turma e, tomado (por osmose) de uma adrenalina juvenil, resolvi fazer o que eles estavam fazendo, que era pular do segundo andar do barco (que era bem alto) na água fria. Subi, me preparei, olhei, vi que era bem mais alto do que esperava, tremi, cogitei voltar, mas não podia decepcionar minha jovem turma, por isso pulei. Pulei com medo, mas pulei. Não foi o pulo mais bonito do mundo, mas pulei. Até que gostei da experiência, confesso, gerou uma sensação boa que depois me deu gás para tentar outros “cliff jumps” pela viagem, mas claro que o tiozão atrapalhado aqui caiu meio torto na água e machucou o braço, coisa de velho querendo se enturmar. 

Enquanto a Marina brincava de Rose..
…eu me tremia todo antes do pulo

Mais triste que minha queda da embarcação foi o que eu vi quando voltei a bordo: a jacuzzi grande e sensual que ficava na parte baixa, quase no mar, estava lotada. Cheia. Entupida. De homens. E eu tenho quase certeza que 80% deles eram héteros e estavam apenas esperando algo de erótico rolar ali. Uma verdadeira sopa de testosterona, testículos, álcool e falta de dignidade. Obviamente nenhuma mulher do grupo quis entrar ali. 

Brasil e Índia

A noite de ano novo veio, passou e nós acordamos com uma leve ressaca e uma nova amizade com um divertido grupo de indianos. O segundo (e último) dia do passeio também foi arruinado pelo clima glacial, e olha, poderia ter sido incrível. Digo isso porque passamos o dia e a noite em um alojamento em uma mini-ilha particular no meio da loucura visual que é Ha Long Bay. Um lugar escondido, recluso, com direito a praias exclusivas, rede de vôlei, churrasqueira e até uma bolinha de futebol para os mais talentosos. Teria sido incrível com sol e calor, mas o universo nos mandou um céu com cor de TV sem sinal e ventos dignos da região mais hiperbórea da Suécia. Aproveitamos a praia com nossos casacos de neve, que compramos para usar no Nepal. Você sabe que um dia é triste quando nem a vontade de tomar cerveja aparece. Mas foi bom, mesmo não sendo incrível. 

A ilhazinha particular
E como curtimos ela

Depois disso o que nos restou foi voltar para Hanói. Até tínhamos planos de explorar mais algum outro ponto do país, mas resolvemos aproveitar bem a capital, comer umas coisas diferentes e economizar um pouco. Ficamos naquela efervescência maluca de motos, luzes e gente do mundo todo. Hanói é demais.

As estranhezas de Ha Long Bay

Tínhamos prazo para sair do país, pois precisávamos partir para o Camboja, onde fizemos trabalho voluntário e eu finalmente pude espalhar minha ideologia anarquista para pequenas mentes em formação (dei aula de inglês). Na verdade estava bem nervoso quanto a esse capítulo da nossa viagem, mas isso é assunto para um próximo post. 

Beijos quentes

Vietnã ou os Hells Angels de Ha Giang

Já vou abrir com uma foto do caminho entre Dong Van e Meo Vac porque esse post tem muita imagem

Olá, amantes do fracasso. Mais uma vez dou as boas-vindas para aqueles que sabem que basta existir para que alguma coisa dê errado. Bom, mais errado que esse blog não há, por isso aproveite estes momentos raros em que você se depara com algo mais decrépito que as decisões que você tomou ao longo dessa vida.  

No último post estávamos em SaPa, no noroeste do Vietnã, onde fizemos uma trilha incrível e eu ingeri mais álcool do que estava planejando. No dia seguinte a um dos natais mais estranhos de todos os tempos continuamos nossa viagem, ainda pelo lado “de cima” do país, até Ha Giang.

Claro que andar pra lá e pra cá em terreno montanhoso nunca é fácil e isso é mais complicado ainda no sudeste asiático. Enfrentamos mais uma jornada de algumas boas horas (quase 5) em uma van apertada e com um motorista que jamais passaria no exame psicotécnico no Brasil. Foi chacoalhão de lá pra cá e de cá pra lá a viagem inteira, tudo em um veículo em que o limite máximo de pessoas foi devidamente desrespeitado. Imagine uma lata de sardinhas. Agora imagine essa lata sendo jogada pra cima e pra baixo e pros lados e pra trás por um criança birrenta que gosta de ouvir música vietnamita. Foi mais ou menos assim nossa viagem. Pelo menos resistimos bravamente e ninguém vomitou. 

Uma das inúmeras “vans da morte” descritas nesse post

O engraçado é que as vans por aqui não são apenas transporte, mas fazem também o papel de correio. Mais de uma vez, enquanto passávamos por algumas vilas, o motorista parava para receber um pacote que ele deixaria em outra vilazinha mais pra frente. E claro que essa de receber e transportar mercadorias diversas só deixou o ambiente agradável da van ainda mais apertado. Imagine uma lata de sardinhas sendo jogada pra lá e pra cá. Agora imagine essa lata sendo aberta, alguém colocando objetos diversos dentro e fechando novamente (sem tirar nenhuma sardinha). Foi gostoso. 

Após essa epopeia motorizada chegamos à Ha Giang (a cidade, que tem o mesmo nome da província). Passamos apenas uma noite lá, pois o crème de la crème da região é fazer algo chamado loop, que consiste em pegar as estradas que sobem as montanhas até quase a fronteira com a China, conhecer as vilas pelo caminho, voltar para Ha Giang e curtir o cenário no caminho. Realmente é um lugar lindo e que me surpreendeu. Achei que SaPa já tinha me deixado acostumado com as belezas dos vales e colinas do Vietnã, mas Ha Giang é diferente. Mais selvagem, verde, menos turística e com montanhas que desrespeitam qualquer tentativa de padronização da natureza – são grandes espinhos saindo da terra em ângulos impossíveis, colossos de rocha escura que nos fazem sentir pequenos e impotentes. A região toda é uma grande cicatriz na pele do planeta. Normalmente quem faz o loop aluga uma moto e fica de 3 a 4 dias explorando as estradas e parando nas vilas que se espalham pelas montanhas. Não foi nosso caso, pegamos uma época de muita chuva e neblina e não rolou a segurança para montar em uma motocicleta e rasgar estradas pelos penhascos (estradas essas de boas condições, mas estreitas e cheias de curvas). No fim subimos até a vila mais ao norte da região, Dong Van, de transporte público. Foi ruim. Foi mais um trajeto em que quase largamos nossas tripas pelo assoalho fedido da van, mas também foi bom ter evitado a aventura sobre duas rodas pois a estrada se mostrou um pouco traiçoeira e infestada de motoristas imprudentes. 

A vista do forte francês de Dong Van

Apesar da náusea causada pelo amigo motorista, o caminho foi lindo e peculiar. Dong Van também  um lugar muito interessante, com praticamente uma rua principal a vila é cheia de hostels e cafés, embora quase não tivesse turistas lá (acho que visitamos muito fora de temporada). Muitos dos visitantes que encontramos eram do próprio Vietnã, e é sempre legal conhecer um local que não é só pra “gringo ver”. A vila fica em um platô no alto do emaranhado de rochas que domina a região, e esse platô é também cercado pelos espinhos geológicos que já descrevi. Um pequeno vale verde e vivo  entre um deserto marrom escuro. No alto de uma das montanhas que vigia a vila ficam as ruínas de um antigo forte francês, um passeio rápido e interessante que fizemos logo no dia em que chegamos. Vale a pena visitar Dong Van, o lugar é demais. 

Hells Angels

Ficamos três dias nas alturas vietnamitas e no segundo dia alugamos scooters por algumas horas para ir até Meo Vac, uma vila próxima, e voltar. Nos disseram que esse era o trajeto mais embasbacante do loop e aproveitamos um dia de sol para conferir. O trecho que rodamos tem pouco mais de 20 km (para ir e depois mais 20 km para voltar), mas apesar da distância quase inexistente demoramos mais de 4 horas para completar a jornada, desconfio que as paradas para tirar fotos do cenário singular foram a causa dessa demora. Claro que quando subíamos nas motos o asfalto gritava, parecíamos dois membros expatriados dos Hells Angels dedicados a tocar o terror em solos asiáticos. Curvas perigosas feitas de forma imprudente, brigas pelo caminho, bebedeira e muita velocidade. Claro que tudo isso só aconteceu na minha cabeça, pois nossas motinhos não passavam de 40 km/h nem com ajuda divina e nós, bem, acho que nós não somos tão radicais quanto eu imagino. 

Saca só como a estrada serpenteia a montanha
O belo rio que nos acompanhou por boa parte do trajeto

Mesmo assim foi um dos dias mais divertidos da nossa viagem, apesar do frio. Subimos montanhas, andamos na beira de precipícios, acompanhamos um rio cor de jade que domina o vale entre as duas vilas, nos enfiamos em plantações e demos tchau para muitos vietnamitas. Deu vontade de voltar alguma outra vez pro Vietnã, comprar uma moto (melhor que uma scooter) e conhecer o país de norte a sul, desta vez levando a sério o estilo de vida motoqueiro.

Os mistérios do vale

No dia seguinte a nossa aventura regada a gasolina fizemos uma trilha (a pé) de uns 14 km rodeando a montanha em que a vila de Dong Van fica. Durante nossa caminhada o tempo fechou e o céu escuro deu ares de que uma tempestade de proporções bíblicas estava por vir. A temperatura, que já não estava lá essas coisas, caiu muito, chegando quase perto de 0 graus (aliás foi um frio totalmente inesperado para nós, que esperávamos pegar um tempo desses apenas no Nepal). Com a chuva veio a neblina e o nosso trekking fico com um clima fantasmagórico. Apesar de atrapalhar a contemplação do cenário (era muito neblina, só enxergávamos apenas uns 3 metros a frente), isso deixou o dia mais divertido e com tons de filme de terror. Eu não me surpreenderia se a qualquer momento um exército de homenzinhos verdes tentassem nos abduzir ou uma horda zumbi aparecesse correndo entre as árvores. Importante notar que eu estaria preparado lidar com qualquer um desses cenários, por isso estava tranquilo.

Marina e o cenário nebuloso

Foi um trajeto sereno, tranquilo, em que o único barulho eram as gotas caindo na vegetação da montanha e meus gritos de desespero toda vez que eu quase escorregava na lama que dominou o chão. Passamos por alguns povoados simples, mas a trilha foi quase toda nossa, muito provavelmente porque ninguém é besta o suficiente para sair com o tempo pouco convidativo que imperava no céu. Em dado momento, no auge da neblina, encontramos uma senhora passeando calmamente entre sua plantação, segurando uma foice com a mesma tranquilidade que meu tio Tobias segura uma Itaipava. Se ela não tivesse uma aparência tão amigável confesso que ficaria com medo. 

Vontade de abraçar… exceto pela foice

Bem no fim do caminho a neblina finalmente se dissipou e fomos presenteados com uma visão incrível do vale de Dong Van, ainda semi-imerso em brumas e cercado pelos mais variados tons de verde, todos acentuados pela chuva que tinha cessado. Foi o auge desse nosso passeio frio e bucólico, que martelou mais uma vez em nossas mentes a importância da simplicidade e de um bom casaco.

O verde após a chuva
Dando tchau para a neblina

Nesse dia ainda caímos, sem querer, em uma festa de aniversário local com direito a cantoria e mais vinho de arroz. Estavámos lá bem tranquilos no nosso restaurante favorito da cidade, que é propriedade do dono de alguns hostels da vila, quando percebemos uma movimentação estranha na mesa ao lado. O dono e sua família estavam comemorando o aniversário de sua esposa com vários convidados, uma comitiva animada que logo ficou ainda mais animada devido ao álcool. No fim nos chamaram (e também outros turistas) para festa, que tinha karaokê de YouTube e bebida liberada. Tivemos que cantar “Ai se eu te pego” levemente embriagados enquanto a aniversariante, já devidamente enebriada, se derretia de amores pela nossa performance. Coisa de quem gosta de representar bem o Brasil no exterior. Isso porque no nosso tempo em Dong Van também pegamos a celebração adiantada de ano novo deles (isso foi uma outra noite), uma apresentação de diversos cantores amadores na praça central da cidade. Foi uma noite fria, animada e de pouco talento. Quem disser que não existe agitação nas montanhas do Vietnã não sabe do que está falando.

Mais um pequeno passeio em uma van da morte (com a estrada toda tomada pela neblina) e estávamos novamente em Ha Giang. Foi assim que acabou nossa estadia na região norte do país e para voltar para Hanói enfrentamos uma maratona de vans apertadas, ônibus intermunicipais imprudentes e uma série de enjoos e náuseas. Ufa. 

Um encontro inusitado durante a trilha

Retornamos para a capital quase no ano novo, pois durante as festividades iríamos conhecer as belas (e lotadas) águas de Ha Long Bay. Mas esse é o assunto do próximo post. 

Beijos Quentes