Austrália e o capítulo da exploração oeste – parte 2

Mais um pôr do sol bacana – Gladstone

Olá, bravos sobreviventes do ano de 2020. Esse espaço virtual já estava abandonado, empoeirado e fadado ao esquecimento. Mas as circunstâncias peculiares da nossa realidade me levaram a reconsiderar as atualizações da nossa viagem, porque não é possível que ler estes textos seja pior que do ler as notícias. Divirta-se.

Em tempos mais felizes estávamos na Austrália, falando sobre uma road trip pelo deserto. Caso alguém queira relembrar basta clicar aqui.

Terminei o último texto com a promessa de comentar sobre duas experiências particularmente marcantes que aconteceram durante a tal da road trip. Agora, olhando com um certo distanciamento, talvez elas não sejam tão incríveis assim, Talvez você leia e pense “que merda hein”. Mas de alguma forma elas foram especiais para nós e por isso vou manter a promessa. 

A primeira das tais experiências aconteceu em Coral Bay, uma pequena cidade bem ao norte da costa oeste. E quando eu digo cidade pequena, acredite, era pequena. No máximo 4 ruas e 196 habitantes de acordo com um levantamento de 2006. 

Uma palinha de Coral Bay

A temporada de mergulhos com tubarões baleia tinha acabado de começar e resolvemos aproveitar (afinal tínhamos que fazer algo fora do carro). Nas Filipinas, por onde já tínhamos passado, existe um local em que também se pode nadar com o maior peixe do oceano, pagando muito menos inclusive, mas não nos interessou participar, pois lá os tubarões são alimentados todos os dias e são quase domesticados. Aliás são bem dos estranhos, como zumbis marinhos cercados por uma horda de humanos. Não nos pareceu algo agradável de fazer, nem para nós e nem para os tubarões baleia.

Na Austrália a história era diferente. O processo seria muito mais integrado com o ambiente e com a passagem do tubarão por aquelas águas, muito menos invasivo e muito, mas muito mais caro. Acho que essa é uma das poucas vezes que vou escrever isso na vida, mas fiquei feliz de ter pagado a mais.O esquema é muito profissional e as pessoas bem treinadas – um grupo pequeno de turistas pega o barco e faz snorkel enquanto um aviãozinho procura pelos tubarões e, assim que os avista, avisa a equipe no barco. Todo o processo é bem rápido e, na minha opinião, cheio de adrenalina. Nós, turistas, assim que o bicho é avistado, recebemos um  briefing rápido de como se portar na água, nos separamos em dois grupos e já ficamos a postos na parte traseira do barco para cair na água. Assim que o guia diz “vai” todos tem que pular no mar e nadar como se não houvesse amanhã, até que uma hora o bichão surge. 

Em todas as vezes que repetimos o processo o tubarão baleia passou por nós como se não fôssemos nada.  Um ser do tamanho de um micro-ônibus nadando com toda sua graciosidade e ignorando nós, os estranhos. Em alguns momentos conseguimos acompanhá-lo, e nadar ao seu lado foi incrível. Não dá para descrever a sensação de estar ali com um ser tão grande e majestoso, como se fôssemos colegas dando um passeio juntos. 

O tal do tubarão baleia

Para melhorar tudo e deixar a experiência mais graciosa, claro que eu passei uma vergonha, pois o processo contínuo de “caçar” o tubarão (pular no mar, subir no barco, se preparar de novo, ficar na parte traseira do barco esperando, pular no mar, subir no barco e etc…) me causou um sério enjoo, ainda mais porque ficávamos respirando aquele cheiro agradável de diesel do motor o tempo todo. Dessa vez fui eu quem acabei vomitando (e não a Marina), não uma, mas duas vezes. Pelo menos fiz tudo com a discrição de um lorde inglês. Um lorde inglês com restos de pão e manteiga pelo corpo, mas ainda um lorde inglês.

Talvez alguém tenha visto, não sei, mas foram regurgitadas consideráveis. Gosto de pensar que fiz minha parte para atrair o tubarão baleia para perto do barco. 

O esquema da lancha

E nesse dia, além disso tudo que já escrevi, ainda fizemos snorkel com tubarões “normais” e vimos tartarugas e baleias passando por nós. Nada mal para algumas horas no mar.  

A segunda experiência que gostaria de comentar foi quando resolvemos acampar no meio do nada em um camping perdido entre o mar e o deserto chamado Gladstone. O rastro de civilização mais perto do local era um pequeno posto de gasolina comandado por um casal de velhinhos a uns 18 km de distância. 

O lugar ficava bem à beira mar, em uma praia revolta com apenas um pontão quebrado que alguns malucos usam para pescaria. Chegamos no fim da tarde e estava praticamente vazio, apenas nós e mais uns dois ou três grupos de pessoas. Como a área de camping é vasta, ficamos bem isolados de todo mundo. Pelo terreno vimos alguns trailers antigos trancados, que pareciam abandonados. O deserto melancólico atrás de nós, o mar selvagem à frente e uns trailers misteriosos ali com a gente criaram um clima de filme de terror e eu estava crente que alguma hora uma família de caipiras canibais iria se esgueirar até nosso acampamento e tentar massacrar todo mundo (ou apenas tomar uma cerveja com a gente). Fico feliz que isso não tenha acontecido, mas digo também que estou preparado para esse tipo de cenário, então podem se acalmar os leitores mais aflitos, sei me virar pelos meandros da maluquice humana.

Mas estar longe de tudo foi bem bacana. Quer dizer, seria ideal caso fôssemos preparados e experientes nesse tipo de coisa, coisa que não éramos. Para começar nem fogareiro ou algo do tipo tínhamos, pois vimos pelo nosso celular que o camping  (supostamente) tinha churrasqueira, o que acabou sendo uma mentira. Tivemos que improvisar uma fogueira, algo que agora eu me dou conta que é ilegal fazer por aquelas bandas, e nem fósforo ou combustível havia por lá. Enquanto fui correndo até o posto ver o que dava para arranjar, o Paulo, nosso amigo que nos acompanhou nessa aventura, conseguiu usar a pederneira da minha faca e acender a fogueira com uns jornais velhos e madeira seca. Voltei e descobri ele comemorando o feito como um homem das cavernas que descobriu o fogo. Coletamos mais madeira seca dos arbustos em volta (mais um ato ilegal nosso) e improvisamos uma grelha com um pedaço sujo de ferro que achamos no chão. Tudo bem higiênico.

O Churrasco em Gladstone

Enquanto isso a Marina mostrou que já pode ser considerada australiana e montou as barracas em menos de 1 minuto. 

Foi uma noite de improvisos, churrasco com carne suja (caiu no carvão diversas vezes), cerveja quente e KLB no som. Deu tudo tão errado que deu certo, e sujos, suados e queimados nos divertimos muito. Lá foi também onde vimos o pôr do sol mais bonito da Austrália. Toda vez que estamos passando um perrengue um pôr do sol bonito aparece, acho que é um jeito do universo de apaziguar as coisas. 

E o melhor da noite foi na hora de dormir, em que descobrimos que nosso convidado Paulo não cabia na barraca em que compramos (e ele tinha uma só pra ele, eu e a Má estávamos compartilhando outra). Ele resmungava e se debatia lá dentro, como um animal bêbado e enjaulado. Eu não conseguia parar de rir ao ver os pés dele despontando para fora da tenda. Acho que se eu estivesse um pouco mais sóbrio sentiria pena. Aposto que ele ficou com saudades do hostel esquisito em que colocamos ele no começo da viagem.

Foi um dia estranho e diferente, mas especial a sua maneira. Hoje me dou conta que cometemos algumas ilegalidades, coisa que eu não faria de novo, mas na hora estávamos lutando pela nossa sobrevivência, então está valendo. Fico feliz de não ter começado um incêndio imenso. 

Caso alguém queira saber mais dessa nossa jornada recomendo o perfil da Marina: @sejogaai – lá dá para ver bem por tudo que passamos. Eu já cansei de escrever, então o capítulo está quase no fim. O que resta dizer é que voltamos para Perth e ficamos alguns dias em um Airbnb até o Paulo ir embora e até começarmos outra road trip, dessa vez só eu e a Marina. 

Em Perth fizemos o que fazemos de melhor, fomos à praia, fizemos churrasco e bebemos umas cervejas diferentes. Baita cidade legal. 

Fiquem bem e não caiam numa espiral de loucura e ódio. 2020 vai passar. 

Beijos Quentes.

Filipinas ou a beleza do apocalipse

Olá, leitor(a) persistente.

Agradeço pela sua resiliência em não desistir desses textos quando eu mesmo já desisti de quase tudo. Você faz esse país ir para frente. Prometo por aquilo que me resta de bom e decente (não muito) que agora o blog terá atualizações mais constantes. Quero terminar logo de contar sobre essa jornada esquisita pelo mundo.

Kalanggaman

Para quem não lembra estávamos perdidos em uma ilhota no meio das Filipinas.

Kalanggaman, ou a ilhota da sedução, como gosto de chamar, é um pequeno ponto no mapa que fica a umas duas horas de distância de Malapascua e é o passeio mais famoso por lá. Kalanggaman é provavelmente o lugar mais bonito que visitamos nas Filipinas, e isso não é pouca coisa. É um lugar de filme, com mar tão azul que parece Gatorade. A água é a mais transparente que já vi, a areia a mais branca e os coqueiros vastos. Para completar existem dois bancos de areia na ilhota, um em cada ponta, que funcionam como caudas e dão um charme especial pro lugar. Um paraíso. E essa foi, tirando quando descrevi Bulog Dos, a única vez que usei a palavra “paraíso” sem exagero nesse blog. 

E o mais legal, acampamos nesse cenário cinematográfico por uma noite. 

Complicado…

Normalmente os passeios até Kalanggaman são bem básicos, os barcos chegam, ficam algumas horas e voltam antes do fim da tarde. Mas se você pagar a taxa da barraca e do pernoite pode capotar por lá. Foi o que fizemos e, graças a isso, presenciamos o melhor pôr do sol que já vi até hoje. Eu sei que tenho uma fixação em falar sobre pôr do sol, mas juro que esse foi emocionante. 

O dia nem estava bonito, o céu estava nublado e ostentando aquele “cinza tédio” que amargura o mais feliz dos humanos quando aparece de domingo. E a chuva também estava quase dando as caras, para terminar de arruinar o dia. Foi assim o tempo todo, mas bem no momento em que o sol descia rumo a oeste as nuvens abriram-se parcialmente e a luz atravessou a densa barreira acinzentada feito um holofote e iluminou bem a ponta de um dos bancos de areia da ilhota, como se indicando que ali seria o local ideal para apreciar o espetáculo que estava por vir. O jogo de luz, água e sombras já estava interessante e para melhorar tudo ao fundo passou, como quem não quer nada, uma baita tempestade empurrada pelo vento, o que formou um caos celeste surreal. Um emaranhado de azul, cinza, vermelho, amarelo e vermelho tomou conta do céu. O visual era ameaçador, mas deslumbrante. A tempestade ao fundo era digna do fim dos tempos e eu já estava preparado para cair na porrada com alguns dos cavaleiros do apocalipse, mas pelo menos estava tudo bem bonito.

Não dá para ver nem 1% do que realmente estava acontecendo

Alguns dos visitantes resolveram se aventurar até a ponta do iluminado banco de areia para ver tudo de mais perto, o que deu a impressão que eles estavam indo em direção ao arrebatamento ou dar as boas vindas para um ser alienígena prestes a descer dos céus. Uma cena que ficou marcada para na minha mente e que nenhuma foto que tirei conseguiu fazer justiça.  

Outra foto ruim de um momento incrível

E esse não foi o único espetáculo de Kalanggaman. Mas não mesmo. Pois ao anoitecer veio a lua, e não era qualquer lua chinfrim que você vê de Jandira ou Cesário Lange não, era noite de super lua. Ela estava tão grande e brilhante que parecia quase tocar a ilha. Uma pintura em tons escuros e prata.

Passamos momentos especiais nesse lugar perdido no Pacífico e tudo ainda coincidiu com nosso aniversário de casamento. Pensa em uma comemoração bacana.

Apesar dos tais momentos especiais nem tudo na nossa estadia foram flores. Aliás longe disso, até porque nem teve flor nenhuma. Para começar nossa única fonte de alimentos eram os salgadinhos radioativos comercializados na vendinha local. Isso mesmo, nossa preparação para acampar foi zero e nem um mísero sanduíche levamos. Por isso nosso almoço, nosso jantar, nosso café da manhã e nosso outro almoço teve como base um cardápio de variados snacks vindos direto de Chernobyl. Também dormimos no chão da barraca (sem proteção térmica ou algum tipo de colchão), que era bem vagabunda, e eu descobri que não tenho mais idade pra isso. Acordei com a coluna em um formato que até hoje desafia os ortopedistas. 

As vantagens de acordar sem a coluna

Mas esses contratempos não foram nada perto dos momentos marcantes que passamos na nossa ilha da sedução, que aliás tem esse nome porque ela seduziu a gente. Eu não tive condições de seduzir ninguém, Deus me livre fazer qualquer coisa naquele chão duro. Como já disse, não tenho mais idade.

Depois de Kalanggaman ainda voltamos pra Malapascua, onde ficamos mais dois dias. Sempre naquela mesma dinâmica que já descrevi anteriormente – praia do norte, encoxada de algum local na moto e restaurante gostoso na vila. Também conhecemos um casal de brasileiros muito gente boa, o Thiago e a Gabi.

É isso aí

Relaxamos, comemos e finalmente chegou o dia que eu achei que nunca chegaria. Em 22 de fevereiro começaríamos a nossa maratona para sair das Filipinas e do sudeste asiático. Estávamos cansados e precisávamos da Austrália, mas bateu um aperto no coração ao sair de um cantinho tão especial do planeta. 

E agora eu prometo que no próximo relato o nosso cenário já será outro. Esperem churrascos, porres, ressacas e muitas road trips nos próximos capítulos.

Beijos quentes

Filipinas e o capítulo em que nada muito interessante acontece

Olá, corajosos e corajosas.


Espero que tenham todos sobrevividos a mais uma semana nesse mar tempestuoso chamado vida que enfrentamos em uma canoa frágil e prestes a afundar. Espero que os tubarões da realidade não tenham abocanhado nenhum de vocês. Caso isso tenha acontecido, tenho esperança que você encontre conforto nos braços de uma pessoa amada e/ou em um copo de bebida. Mas, se nada disso funcionou, aí sim eu recomendo você ler esse blog para tentar se distrair. Mas tenha certeza que não tem nada de melhor para fazer antes. 

Andando pelas Filipinas dá para encontrar uns fortes perdidos

Esse relato continua exatamente de onde o anterior parou, no momento que, ainda na ilha de Cebu, nos despedíamos (junto com nossos companheiros Ed e Enzo) de Moalboal para ir em direção a Bohol. Que é… isso mesmo, outra ilha. Filipinas parece um pedaço de terra que foi estilhaçado a pisadas por um ser gigantesco. Nada é conectado, tudo é cortado por distâncias pequenas, porém irritantes, de água salgada. Dava saudades de um país continental como o Brasil. 

Chegar em Bohol, como chegar em qualquer lugar nas Filipinas, foi uma tarefa cansativa. Pegamos um ônibus apertado até Oslob (cerca de duas horas de viagem), embarcamos em uma balsa em um mar agitado e enfrentamos mais duas horas de pessoas passando mal ao nosso lado. Quase fui vítima de uma senhora asiática que invocou suas tripas ali mesmo. E aí teve mais um tuktuk, claro, quando finalmente mudamos de ilha. Entre tempo de transporte e tempo de espera foi-se um dia inteiro nessa jornada maluca. Um exercício cansativo e que nos deixou, com o perdão da palavra, com o saco na lua.

Chocolate Hills em Bohol

Apesar de termos ficado quatro noites em Bohol, quase não fizemos nada por lá, e nem acho que tem tanto assim o que fazer (o que provavelmente é uma afirmação errônea de quem não aproveitou muito bem o lugar, se for para lá pesquise melhor invés de confiar em mim). Ficamos perto de Alona Beach, região que parece prestes a virar um paraíso de resorts, principalmente para turistas coreanos. Não sei a razão disso, pois não achei as atrações tão espetaculares quanto as encontradas em outras ilhas. Claro, são lugares bonitos, não estou dizendo que são feios como a praia da Enseada pós festa de réveillon, mas como estávamos vindo de verdadeiros paraísos o “bonito” ficou um pouco sem graça. 

Para ser justo, nosso cansaço mental, já mencionado no post anterior, nos acompanhou até Bohol, e aliado ao seu melhor amigo, o cansaço físico, nos transformou em uma pilha de trapos humanos. Estávamos em estado de ressaca perpétua. Era tanta preguiça que sair do quarto do hotel era tão cansativo quanto uma maratona. Sim, eu sei, é muita frescura para quem estava viajando o mundo, mas acontece, fazer o que. 

Claro, não foram dias completamente inúteis. Saímos da cama (com esforço), conhecemos, comemos, respiramos, comemos e também comemos mais um pouco. 

Dentre essas atividades o maior destaque foi um tour pelo interior da ilha, em que passamos por diversos pontos diferentes ao longo do dia. Adorei conhecer o Tarsius, um bicho nativo de uma parte específica do sudeste asiático que é totalmente único. Ele tem olhos grandes como de mangás (quadrinho japonês), dedinhos pequenos e um rabo duro e asqueroso. Parece um esquilo que deu errado. E tem mais, se você fizer muito barulho ele comete suicídio batendo a cabeça sem parar contra o tronco de árvores. Pensa em um bicho que precisa de mais tratamento psicológico que a sua prima que acabou de anunciar para a família toda que só “se alimenta de luz” . É o Tarsius.

Tarsius

Outro ponto de Bohol que queríamos conhecer eram as famosas Chocolate Hills, cartão postal da ilha. Uma série de colinas arredondadas, de formato e tamanho similares, que formam uma paisagem magnífica. Vimos o pôr do sol lá e foi bacana, mas acho que todo mundo presente achou mais legal do que eu. Talvez eu esteja cada vez mais velho e ranzinza, o que é bem provável. Gosto de pensar que meu “animal espiritual” é um senhor de 75 anos preso em um ciclo sem fim na fila do INSS.

Também passamos pelo Rio Loboc, o mais famoso da ilha, que tem uma bela água cor de esmeralda. Mas foi só, passamos por cima dele em uma ponte e depois mal o vi de novo.

O rio Loboc

Enfim, Bohol foi praticamente isso. Quer dizer, teve mais um passeio de certo destaque, um passeio tristíssimo em que o objetivo era ver vagalumes que ficam em árvores à beira do rio, obviamente durante a noite. O passeio tinha potencial, supostamente seria um espetáculo lindo e onírico, mas o lugar era longe, uns chineses do nosso grupo atrasaram o tour e chegando lá vimos que era melhor eu ter subido na árvore com uma lanterna presa às nádegas do que o “show” que os vagalumes deram. Faria mais luz e com certeza seria um entretenimento de melhor qualidade. Não sei se pegamos um dia ruim ou se é sempre assim, mas não deu pra ver nada, só ficamos rondando com o barco no escuro enquanto éramos agraciados por um acalentador cheiro de diesel. Foi horrível.

E por fim retornamos à Cebu. Nos despedimos, agora sim, dos nossos divertidos companheiros brasileiros e voltamos a ser apenas eu e a Má na viagem. Que sentimento gostoso.

Novamente, nada contra outras pessoas, mas foi revigorante voltarmos ao modo “natural” da nossa jornada. Eu e Marina contra o mundo. Mais livres para escolher, para ir e vir e, principalmente, para errar. 

Pegamos uma balsa para a horrenda Cebu City logo às 6 da manhã, pois nosso dia seria longo. Precisávamos fazer uma porção de coisas que no fim descobrimos serem inúteis, ou seja, logo cometemos um ato clássico da dupla: desperdiçar muito tempo e algum dinheiro em um lugar tosco. Nós realmente estávamos de volta!  

Aliás vou até detalhar essa nossa peripécia, que é bem vergonhosa, já adianto. Quando entramos nas Filipinas olhamos o carimbo de nossos passaportes e achamos que só teríamos 30 dias no país. Baita injustiça, já que brasileiros podem ficar 59 dias sem visto nessa terra de ilhas abençoadas. E o pior, nós ficaríamos 31 dias ao todo por lá e ficamos com medo de algum agente da imigração encrencar conosco por apenas 1 dia de excesso, por isso decidimos passar em um escritório da imigração filipina, em Cebu, para resolver essa patavina. Bom, após pegar a balsa achamos um escritório e nos deslocamos do porto até ele em um dia cinza e chuvoso, esperamos o escritório abrir e fomos quase os primeiros a serem atendidos para… para… bem, para o funcionário que nos atendeu falar em menos de 1 minuto que nossa situação estava OK. 

Como assim OK, meu chapa? Nós tínhamos olhado diversas vezes aqueles passaportes e tínhamos certeza do problema. Era só observar que nosso tempo máximo de estadia estava marcado para 22 de Março e…. E foi aí que nosso mundo ruiu e nos tocamos que ainda estávamos em Fevereiro e que sairíamos em 23 de Fevereiro do país. O oficial da imigração tinha nos dado 59 dias de estadia, mas por alguma birutice coletiva nós dois deletamos um mês inteiro de nossas mentes e já achávamos que estávamos em Março, o que atrapalhou a “complexa” conta de subtração que fizemos para calcular nosso tempo de estadia. Foi vergonhoso. Foi irritante. Único ponto positivo foi não ter que enfrentar nenhum trâmite burocrático, mas “só”.

Uma foto bonita para vocês esquecerem nossas burradas

Fora que o funcionário do escritório ainda nos deu um olhar que era um misto de dó com preocupação, meio que duvidando das nossas capacidades cognitivas. Pior que eu nem posso culpar ele. 

Só nos restava comemorar (ou lamentar) e continuar com o itinerário do dia.

Depois dessa epopeia da burrice pegamos um ônibus de umas 5 horas até Maia, extremo norte da ilha de Cebu, onde aí sim iríamos pegar uma balsa até Malapascua, uma pitoresca ilha entre Cebu e Leyte, nosso último destino nas Filipinas. 

Segurem-se pois os relatos das Filipinas estão acabando. Depois de Malapascua, a terra do pôr do sol que nunca decepciona, já chega a Austrália. 

Até a próxima e, claro, beijos quentes.

Filipinas ou a fênix da decepção ou nosso tempo em Coron e Moalboal

Post atrasado tem que abrir com foto bonita de Moalboal

Olá, turma.

Não, ainda não fiz como os mais sábios que desistem de tudo pois sabem que nem adianta tentar. Apenas atrasei uns bons dias a atualização deste espaço virtual porque fui capturado pelo rodamoinho lamacento que é a vida. Contas, trabalho, apostas no jogo do bicho, o tipo de coisa que toma o tempo do cidadão brasileiro. Mas agora estou de volta, pronto para decepcionar vocês e me decepcionar também, com um post curto apenas para aquecer os motores deste calhambeque enferrujado movido a bobagens. 

No texto passado contei sobre nossas desventuras no alto mar filipino. Foram dias de sol, água e higiene pessoal debilitada. Ou seja, valeu a pena

Depois que a expedição com a TAO terminou desembarcamos em Coron, outra ilha que faz parte do país. Uma ilha média que fica cercada por ilhotas menores, pequenos paraísos próximos. Coisa de outro mundo mesmo. Filipinas é um país lindo, dos mais lindos que já vi na vida, mas o espetáculo que presenciamos ao fazer um passeio por Coron ganha de quase tudo que vimos nesse tesouro do pacífico. 

Aliás Coron é o nome da cidade, não sei se o nome da ilha, talvez seja. O caso é que é uma cidade bem da simpática. Mais acessível e menos lotada que El Nido, pelo menos no pouco tempo que ficamos por lá. 

Sair da nossa vida marítima foi bom, finalmente tomamos um banho decente, comemos pizza e, no dia seguinte, nosso único inteiro lá, fizemos um passeio privado (ainda com nossa gangue de brasileiros) para uma série de praias além do canal de Coron, local onde venta muito e o mar fica mais arredio. Não foi fácil fazer a travessia, na ida ficamos um pouco tensos pois até a tripulação do nosso barquinho estava nervosa, quando vi até o capitão colocando colete salva-vidas eu tive certeza de que iríamos afundar, afinal um velho lobo do mar filipino não deveria se assustar com nada. Deu tudo certo. Depois, na volta, navegamos enfrentando ondas grandes que castigaram o barco e nos molharam muito, mas apenas rimos da situação. Coisa de brasileiro tonto mesmo, pois depois encontrei europeus que fizeram o mesmo passeio e estavam horrorizados com as condições. Já que é para morrer, melhor morrer se divertindo.

E como já adiantei ali em cima no texto, as praias que conhecemos nesse passeio são de outro planeta. Mesmo após a TAO, que elevou o sarrafo de “beleza praiana” nas nossas vidas, posso dizer que essas ilhas foram alguns dos lugares mais belos que já vi. Outra coisa que fez a nossa quase morte valer a pena. 

Se alguém quiser dar um Google, pesquise por  Bulog Dos. Uma pintura turquesa e amarela no meio do oceano arredio. Com águas mornas e calmas e muita vida em volta, é, sinceramente, um dos mais incríveis espetáculos visuais que esses cansados olhos já presenciaram. E olha que eu já vi meu tio Glauber dançar na festa do Havaí de 2002 vestido de Carmem Miranda. É um  lugar para amarrar uma rede, ler um livro, tomar uma cerveja e ser feliz. 

E essa não foi a única praia de cair o queixo que visitamos, passamos por mais uma belezura chamada Malcapuya, outro espetáculo da natureza que estava vazio quando chegamos e que após um breve mergulho na água foi tomada por hordas ensandecidas de turistas. Tudo bem, mesmo assim aproveitamos demais o dia.

Marina em um banco de areia pra lá de bonito

E nosso tempo em Coron foi esse, uma noite de pizza, um dia de passeio e umas cervejas para desbaratinar a mente no entardecer. Depois já tínhamos compromisso marcado em outros locais filipinos, mas me arrependo demais de não ter passado mais tempo em um lugar tão incrível e com um clima tão gostoso. 

De Coron fomos, de avião, para Cebu, outra ilha grande nas Filipinas. Ficamos um dia em Cebu City, que é um dos lugares mais desagradáveis que já conheci (e olha que eu conheço Salto), e depois partimos (junto com nossos amigos brasileiros) para a parte sudoeste da ilha, em direção a Moalboal. Isso em um ônibus de 4 horas mais apertado que a casa da sua tia acumuladora que não consegue parar de comprar produtos Polishop. 

Chegamos e achamos um McDonalds. E lá se foi o resto da tarde, jogando cartas e comendo frituras. Nada como aproveitar bem um lugar lindo como as Filipinas.

Olha a cor da água da cachoeira

Moalboal não tem muito o que fazer. Quer dizer,  tem as famosas cachoeiras Kawasan, o mergulho com as sardinhas, umas praias locais (uma bem bonita) e o passeio que envolve pegar um ônibus de duas horas até Oslob para mergulhar entre um milhão de pessoas e ver um tubarão-baleia semi-domesticado com uma eterna expressão de socorro nos olhos.

Dessas opções só fomos até a cachoeira, lugar incrível e lindo, me surpreendeu pois achei que seria mais cheia de gente e menos espetacular. Ela tinha vários andares, água azul turquesa e ainda fiz mais uns cliff jumps lá, dessa vez de 11 e 14 metros. Legal pra caramba. Acho que daqui a pouco alguém já começa a me chamar de “Homem-Aranha brasileiro”, quem sabe.

Moalboal foi ainda o lugar onde nossa turma brasileira cresceu exponencialmente. Encontramos amigos que já tínhamos visto na Tailândia, conhecemos gente nova e arrastamos o Ed e o Enzo para a galera. Foi uma bela de uma farofada lá na cachoeira. Como é bom fazer uma muvuca com nossos conterrâneos. Como eu disse, fora conhecer as Kawasan Falls esse não foi um ponto de muitas emoções, mas só de estar com pessoas bacanas valeu a pena. 

Brasileirada se locomovendo

Último ponto de destaque de Moalboal é que por lá alugamos uma motinho bem da fuleira, que nem chave tinha. Para andar só com ligação direta. Mas como foi bom ficar livre e poder explorar a região em um veículo digno de algum filme do Mad Max, foi mais um capítulo na minha recente história a lá Sons of Anarchy. 

Nossa motinho guerreira deu problema

E foi isso.

Esse foi um capítulo que cobriu muitos dias incríveis em que nós não estávamos com um humor tão incrível assim. Talvez até normal após quase 7 meses no caos da Ásia (gosto muito, mas cansa) e muitos dias com outros viajantes. É bem legal achar um grupo, é mesmo, mas eu já estava começando a sentir falta do nosso esquema mais ágil e privado em dupla – eu e Marina, os patetas, contra o mundo. 

Última fotinho para lembrar como o país é bonito

Nosso tempo nas Filipinas estava acabando, mas depois visitamos alguns lugares sobre qual vale escrever uma palavra ou duas, por isso tem mais texto pela frente. 

Beijos quentes

Filipinas ou o capítulo da exploração marítima (TAO)

O tipo de lugar em que dormimos nas Filipinas

Sejam bem-vindos meus queridos companheiros de sofrimento. Colegas de assento nesse ônibus desenfreado que é a vida. Enquanto nossa parada final não chega deixo vocês com mais um amontoado de palavras para entorpecer a alma e, com muita sorte, trazer um sorriso para esses belos rostos.

Terminei o último texto quando chegamos em El Nido, uma cidade bem turística ao norte da ilha de Palawan. Supostamente um lugar incrível, um dos mais bonitos do mundo e etc… Acho que exploramos a região de “forma errada”, pois não achei El Nido tudo isso. Calma lá, claro que é um lugar lindo, mas nosso parâmetro para coisas bonitas já estava bem alto (e ainda aumentaria depois de El Nido), mas não me surpreendi tanto e desconfio que a culpa disso caí no ombro das hordas de turistas que assombram o lugar. Para ser justo, tivemos um único dia bem gostoso por lá – foi quando alugamos uma scooter e deslizamos por estradinhas à beira-mar até praias afastadas. Estar na estrada em um dia de sol enquanto desbravando vilas locais e passando por trilhas de terra/areia foi incrível. Um daqueles momentos da viagem de uma pulsante sensação de liberdade. Talvez a perpetuação do espírito “motoqueiro” que surgiu em mim no Vietnã. Claro, vale lembrar que tudo isso foi feito a menos de 80 km/h em uma motinho com a potência de um secador de cabelo, mas até o Motoqueiro Fantasma começou de baixo, então está valendo. 

Vai, pode rir, mas que é legal explorar uns países do sudeste asiático de motinho, é sim. 

Nuli Beach

Aliás nesse dia visitamos três praias diferentes. Na primeira, Nuli Beach, populada por surfistas, tive um encontro com um filipino que surgiu como um fantasma de umas pedras com uma arma (que parecia um arpão) na mão. Foi uma verdadeira aparição, como se um fantasma do universo de Waterworld estivesse se comunicando comigo. Ele se teletransportou para um lado da praia que só tinha eu (o lugar estava bem vazio), fez o movimento universal de “joia”em minha direção e desapareceu novamente. Certeza que foi algum Deus local dando seu aval para minha nova fase motoqueira. Obrigado, nobre espírito. 

Em uma das outras praias que visitamos, Nacpan, a Marina tomou um caldo incrível que está registrado em vídeo, recomendo conferir o Instagram do @sejogaai. Essa era uma praia mais cheia, mais “da modinha”, com diversos turistas sendo servidos em seus guarda-sóis a todo momento por Jarbas filipinos desesperados por uns dólares. Tinha potencial para ser o local mais bonito que visitamos no dia, mas o excesso de europeus estragou um pouco a mágica do lugar. Mesmo assim valeu a pena a visita, principalmente para ver a Marina quase ser levada por Netuno (não que eu gostaria que ela fosse embora para as profundezas, pelo amor de deus, é que foi engraçado mesmo). 

E na última praia visitada, a mais perto da cidade e do nosso hotel, curtimos um pôr do sol maravilhoso. Olha, não foi nada mal para um segunda-feira. Oras, como eu sei que era segunda-feira? Porque eu me lembro claramente de olhar, com o vento na cara, o sol já cansado no horizonte enquanto passávamos por uma estrada lotada de coqueiros e pensar “coitado de quem nunca começou uma semana assim”.

Pôr do sol na praia que esqueci o nome

No nosso outro dia em El Nido fizemos um dos famosos tours que tem por lá. Eles dividem as atrações por tours chamados de A,B,C e D. Sei lá se tem o tour E. Sei que fizemos o tour C, um dos mais recomendados, e foi bem mais ou menos. Visitamos lugares espetaculares, mas que estavam sempre cheios. Não dava pra admirar a paisagem com 376363 turistas por todos os lados. Nesse dia vi mais turista que mar. Longe de mim dizer que foi um dia ruim, mas de novo, perto do que já tínhamos passado (e ainda passaríamos), não foi espetacular. 

Bangalôs da TAO

E nesse mesmo dia tivemos nosso encontro introdutório para a TAO. 

Mas o que é TAO? Uma unidade internacional de espionagem? Uma seita secreta de surfistas motoqueiros? Um festival de música focado apenas na marimba? 

Não. Nada disso. Calma, eu explico.

TAO Experience é uma expedição. Ou um “mega passeio”. Algo nesses moldes. O que acontece é: essa empresa, a TAO, faz um tour de barco entre Palawan e Coron (grandes ilhas Filipinas) de 5 dias. Nesse meio tempo essa expedição para em diversas ilhotas pelo caminho e os participantes conhecem e dormem em lugares paradisíacos e “desertos”. Resumindo, é um baita negócio legal. E a nossa expedição partiria no dia seguinte, mas antes precisávamos participar desse encontro para acertar detalhes pendentes, conhecer os outros membros e falar com a tripulação. É tudo muito bem organizado e explicado. Vale a pena.

O grupo do nosso barco era bem diverso. Cerca de 20 pessoas de várias idades e países diferentes. Alguns tiozões holandeses, jovens australianos, umas canadenses, uns senhores ingleses e, claro, os brasileiros. Nós éramos seis, eu, a Marina e o Edgar e o Enzo, que já sabíamos que encontraríamos lá, e de lambuja conhecemos mais dois, a Nat e o Pedro.  E brasileiro tem aquele negócio: é cheio das panelinhas. Nós, cansados de interagir só com gringos, abraçamos o “grupinho” com felicidade. Não que não conversássemos com outras pessoas, longe disso, mas é bom dar uma papeada em português de vez em quando.

Naufrágio

A expedição em si foi surreal, vou resumir um pouco toda a experiência. Foi uma sensação incrível de desbravar ilhas Filipinas, fazer snorkels inesquecíveis, conhecer praias de água cristalina e areia branca, fazer cliff jumps de 10 metros, nadar com navios afundados da segunda guerra e dormir (quase) sob o luar em paraísos perdidos. Foram tantos locais bonitos que ficamos até anestesiados. Sério, é triste isso, mas até praias lindas podem virar rotina e o espetacular virar normal. Talvez isso tenha sido um indicador que nossas vidas estavam legais demais e o “foda” estava sendo a média de nossas experiências. Ou talvez fosse um indicador que nós já estávamos mortos por dentro e nem o mais belo canto do nosso planeta poderia nos emocionar. Talvez eu seja mais compatível com a segunda opção, mas a Marina não tem essa alma negra, então não sei qual a resposta correta.

Pôr do sol em uma ilha deserta

No fim a TAO é uma experiência rústica, mas sem ter são rústica. Você passa perrengues como dormir em cabaninhas de bambu ao relento, tomar banho de canequinha, ficar o dia no barco, estar sempre molhado e ter pouca roupa disponível. Mas, ao mesmo tempo, tem toda uma tripulação trabalhando para você, base camps com o mínimo de estrutura possível e comida e bebidas a quase toda hora (pelo menos bebidas). Vale a pena. Vale ainda mais se acontecer de você passar seu aniversário em uma praia surreal e com um naufrágio japonês ali perto, esperando para ser visitado. Foi o que aconteceu comigo e foi foda, mas não sei se é tão foda quanto aquele churrasco que termina com o choro de um velho amigo e o vômito de outro. Amizades realmente importam, veja só.

Deixo aqui a dúvida no ar e algum outro caro companheiro que passar o aniversário nas Filipinas pode responder de uma vez por todas o que é melhor: ilha perdida ou churrasco com Crystal?

Todos os brasileiros, menos eu, passaram mal antes ou durante a expedição (a Má passou logo no primeiro dia, mas melhorou), então nosso grupo estava sempre cambaleante durante curtição. Salientei esse ponto apenas reforçar que não sou chamado de “Wolverine brasileiro” à toa. Juro, muitas pessoas me chamam assim.

Puxei esse assunto relacionado à comida e as nossas sensibilidades gastro-intestinais pois esse foi um tópico que, principalmente durante a TAO, foi razão de um pico de ufanismo e saudades do Brasil. Acho que o excesso de peixe e vegetais, fora certo desgaste normal da viagem, me fizeram sentir saudades de qualquer comida do Brasil. Churrasco, coxinha, requeijão, brigadeiro, pão na chapa. Até aquele bife duro do quilo mais barato perto do trabalho, tudo deu saudades. Aliás, acho que você, senhor privilegiado por poder comer um arroz com feijão e farofa a hora que quiser, deveria valorizar mais a comida brasileira no geral. Durante meus tempos de reflexão marítima tentei tecer uma teoria do porquê nossa culinária é a melhor do mundo, mas percebi que não tenho argumentos suficientes para provar com fatos o que eu sei que é verdade dentro do meu coração. Meu único argumento é: confia em mim que eu sei do que estou falando. Comida brasileira é foda.

E digo mais, podem me oferecer qualquer café da manhã gringo do mundo, sei que tem muito leitor aqui que é fã de um bacon com ovos ou um “english breakfast”, mas vocês me desculpem, nada é melhor que o velho pão na chapa e o misto da padaria, daqueles que já carregam o gosto de tudo que passou na chapa durante a semana. Isso mais um Nescau gelado ou um pingado é imbatível. Estou aberto a embates públicos com qualquer um que queira me refutar. Embates físicos e/ou orais, que fique claro

Outro ponto onde o ufanismo apertou o calo durante nossa expedição foi em relação a comunicação com europeus no geral.

Peguei um certo ranço dos gringos durante esse período, sempre se maravilhando por tudo, com uma ingenuidade e humor um pouco “bobos”. Sei que isso é tolice e provavelmente um reflexo de como precisávamos de um descanso, afinal conseguir se maravilhar é algo legal e que deve ser valorizado. Mas, como estávamos com nosso humor mais sombrio, preferimos o cinismo e a inigualável capacidade brasileira de criticar tudo. Juro que isso está curado agora.

Galera da TAO!

E, para completar as observações sobre a TAO, ficam os dois últimos destaques: o lechon mal cozinhado que quase nos matou e Brett, o explorer. O lechon nada mais era que um porco no rolete que a tripulação resolveu fazer como surpresa pros membros da expedição, mas deixaram apenas duas horas em uma brasa baixa e o bicho estava completamente cru. Foi bem no último dia e nosso desejo por carne foi apenas iludido por esse leitão maldito. Quanta decepção. Brett, por sua vez, era um australiano ímpar com um sotaque mais ímpar ainda. Um homem de meia idade, corpulento e meio gordinho, que se vestia como um explorador. Ele gostava de se envolver nas atividades da tripulação (tipo ajudar eles a cozinhar, o que é bem legal da parte dele) e ficava de forma bizarra sempre pelos cantos, nunca realmente interagia com o resto do pessoal. Na noite que fizemos uma fogueira, por exemplo, estava lá um grupo trocando ideia perto do fogo numa boa, do nada uma luz se acendeu na escuridão, todos nos assustamos com uma intervenção tão impactante vinda das sombras. Era o Brett, sentado sozinho. Ele resolveu ligar sua lanterna, ir até o fogo, revirar uns pauzinhos para atiçar as chamas e aí o que? Invés de ficar com a galera conversando ele voltou pro seu canto escuro, sentou e apagou as luzes. Foi dramático e foi lindo, quase como o Batman sendo abraçado pelas trevas. Brett, seu doce príncipe, nunca mude. 

Nossa fiel embarcação durante esses dias

Foram 5 dias inesquecíveis com a TAO. A aventura de uma vida, mesmo. Meu único arrependimento é saber que fizemos uma coisa tão incrível com um humor não tão incrível assim. Estávamos um pouco cansados e abalados por experiências recentes, com a mente a mil por hora e a alma um pouco envenenada. Mesmo assim foi incrível, mas eu explico melhor essa nossa condição “estranha” no próximo post.

Beijos Quentes