Maldivas ou o paraíso manchado

Vista comum pelas Maldivas

Olá, amigos e amigas da meia-noite. Enquanto estamos a espera da escuridão eterna que vai apagar a realidade como conhecemos, que tal curtir mais um capítulo deste humilde blog?

O capítulo anterior terminou quando estávamos prestes a sair de Rishikesh e da Índia e a caminho das praias paradisíacas das Maldivas.

Mas claro que o país de Shiva não nos deixaria sair dele sem uma última “provação”. Essa foi leve até: nosso ônibus de Rishikesh para Delhi atrasou algumas horas porque estava quebrado no acostamento da estrada. Tivemos que pegar um ônibus alternativo até a tal estrada e aí pegar o ônibus alternativo 2 até Delhi. O problema é que o ônibus alternativo 2 já estava bem cheio, então tiveram que acomodar os novos passageiros em um lugar em que novos passageiros não poderiam ser acomodados. Tudo bem, faz parte passar por esses momentos de extremo contato humano e até que após entrar no veículo com nossas mochilas colossais e esbarrar em vários indianos (sem querer), conseguimos uma “cabine” privada. Os ônibus leitos da Índia tem uma espécie de cabine com duas camas para os passageiros irem deitados e tranquilos, é bem bom, mas como o ônibus alternativo 2 já estava lotado tivemos que colocar nossas malas no compartimento junto com a gente e ficou tudo bem apertado. Aliás esse estilo de ônibus é maravilhoso para quem viaja em dupla, mas ficar com um estranho nessa cabininha do amor deve ser bem incômodo (ou bem gostoso, depende da sua disposição para se divertir).

Antes de continuar com o relato quero fazer um parêntese. Eu odeio minha mochila. Eu sei que uma mochila é tudo para um mochileiro e é quase um sacrilégio isso que estou dizendo, mas nós não temos uma boa relação. Claro, reconheço o quanto ela já me foi útil, quantos momentos gostosos dividimos e quantas barras já passamos juntos, mas a coisa toda ficou insustentável. E não é que a mochila é ruim, longe disso, na verdade o problema sou eu. Eu que imaginei que precisava de tantas coisas antes de começar a viagem e que peguei uma mala grande demais. Eu que não calculei que ficaria parecendo uma tartaruga ninja com ela nas costas. Ela é tão grande que parece que eu estou carregando um corpo pra lá e pra cá. E o tamanho irrita. Não só pela necessidade de despachar a mala quando pegamos avião, mas principalmente porque avião é o meio de transporte que menos usamos, nós “preferimos” vans apertadas, ônibus velhos, trens lotados e por aí vai. E juro, é horrível entrar nesses lugares com praticamente um baú nas costas. Eu me irrito e irrito os outros. Quero agradecer de coração minha cunhada que me emprestou a mochila, mas nosso relacionamento não foi dos melhores.

Terminada a sessão reclamação voltamos pro relato do ônibus apertado.

E foi numa colisão de corpos, bagagem e suor que fomos pra Delhi e finalmente chegamos ao aeroporto. Já era tarde da noite e passamos mais uma madrugada entre os rostos tristes que habitam o local nas horas mais escuras. Mas tudo bem, estávamos acostumados. E olhe só, o voo até saiu no horário. Nesse momento achamos que nosso azar com transportes estava terminando.  

Ledo engano, ledo engano.

Chegamos em Malé, capital das Maldivas, no período da tarde do dia seguinte. A ideia era passar uma noite lá e pegar uma balsa pública logo cedo. Isso porque as Maldivas são formadas por mais de 1000 ilhas e claro que os deuses, brincando com a gente, nos fizeram achar um hotel acessível em uma ilha bem longe da capital. Para chegar em qualquer outro lugar saindo de Malé existem algumas opções de transporte, como a balsa pública, a balsa noturna, speed boat e aviões pequenos. As duas últimas opções são as mais rápidas e mais usadas por turistas endinheirados. Elas funcionam quase todos os dias e chegar até uma ilha resort não vira uma epopeia. Não era nosso caso, usar uma lancha ou um avião acabaria com nosso budget, por isso optamos pela balsa pública que era 10 vezes mais barata. O problema é que essa balsa não serve todas ilhas todos dias, por isso calculamos nossa partida de Malé para segunda-feira de manhã, quando o rapaz do nosso hotel garantiu que sairia um transporte para Maamigili (nosso destino final). Conhecendo nossa sorte para esse tipo de coisa você já deve imaginar que o plano não deu certo. Não tinha balsa pública para Maamigili na segunda, só na quarta-feira, o que significaria que ficaríamos mais duas noites em Malé, onde a hospedagem é cara pra caramba. Já estava me preparando para dar tchau para um rim.

A alegria de ir na balsa noturna – pelo menos deu pra dormir bem

Foi aí que lembramos da balsa noturna, bem mais cara que nossa primeira opção, mas ainda acessível. Andamos a esmo no porto comercial a procura do tal barco e, apesar do cenário não ser convidativo, foi então que descobrimos a hospitalidade e desejo de ajudar dos maldivos. Que povo simpático. Estávamos um pouco com pé atrás em relação a proatividade alheia devido algumas experiências não tão bacanas na Ásia, mas lá a ajuda foi sempre sincera. Foi nossa primeira vez em um país de maioria muçulmana e isso me fez pensar na hospitalidade do Islã, coisa que já tinha ouvido falar. Enfim, achamos a tal balsa noturna e partimos às 23 horas para chegar apenas 6 da manhã em nosso destino. Ou seja, saímos de Rishikesh sábado cedo para chegar terça-feira aonde realmente queríamos estar. Entendeu porque às vezes cansa essa história de ir de um lugar pro outro? E olha que essa jornada foi bem tranquila perto do que já passamos ou de histórias que escutamos. 

Mas agora que mais uma saga dos transportes foi explicada (eu sei, sou repetitivo) chegou a parte interessante, a parte de falar desse “fundo de tela” da vida real que são as Maldivas, mais um lugar surreal que visitamos. 

Para explicar rapidamente, afinal não dei contexto nenhum, nosso hotel não era um resort ou algo do tipo, mas conseguimos um bom preço com refeições inclusas em uma hospedagem bacana em uma ilha local (Maamigili), ou seja, com uma vila funcional e não apenas tomada por um resort monstruoso. Mas, como descrito acima, não foi tão fácil assim chegar lá.

Começamos por Malé, que é uma cidade ajeitada e não tem nada de muito especial, mas fica em uma ilha (óbvio) e mesmo de lá, mesmo do caos urbano, já dá pra perceber que o mar na região é especial, transparente e convidativo. Aliás Male é daqueles lugares em que muitos pontos o que separa a terra do mar é uma simples muretinha. Cada vez que alguém fala em “aquecimento global” a população das Maldivas deve tremer. 

Foto aleatória pra quebrar um pouco o texto – Picnic Island

Depois fomos para Maamigili, a ilha em que ficamos hospedados. Ela fica há umas boas horas de barco da capital, em um atol distante. A praia de turistas (a em que estrangeiros podem nadar com roupas de banho e é limpa) tinha aquela cor de água de filme, um mar azul turquesa que parecia nos chamar para se banhar nele. Da areia conseguíamos ver o horizonte infinito com pequenas ilhas (e resorts) pipocando ao fundo. Tudo isso sob as sombras de coqueiros. Olha, não estava ruim não, mas por Maamigili ser uma ilha habitada por locais (e não só uma ilha resort) ela nos mostrou uma realidade diferente das Maldivas – mais disso a seguir. Além desses dois lugares fizemos passeios pelo atol onde fica Maamigili – para um resort e uma ilha deserta. E aí, meus amigos, aí foi só cenário de filme mesmo. Aquele mar que é ao mesmo tempo transparente e de um azul tão intenso que parece uma piscina translúcida de Gatorade, bancos de areia e coqueiros perdidos em uma imensidão aquática e uma vida marinha ativa que salpica essa tela azul de muitas cores diferentes. Eu sei que posso soar repetitivo, mas é impossível ficar fora da água nesses lugares. É tão bonito que não dá para não entrar. O oceano é uma sereia que atrai pelos olhos e não pelos ouvidos, sempre nos puxando para as profundezas. Para ser mais chucro: é foda. 

O resort típico das Maldivas – não, não ficamos hospedados aí

Agora falando sobre o resort – fizemos um passeio de um dia para um desses mega empreendimentos que tomam uma ilhota inteira e criam um paraíso hedonista para os afortunados. E sim, o lugar que visitamos era incrível e imagino que todos resorts devam ser. É a união de um cenário perfeito com luxo e conforto. Mas também é estranho frequentar algo assim vivendo tanto tempo os perrengues da estrada. Pessoas te levando pra lá e pra cá de carrinho de golfe, pessoas servindo comida e drinks, pessoas tomando conta dos seus filhos, pessoas secando suas costas com a língua (ok, eu exagerei e na verdade nem sei como esse exemplo funcionaria, afinal a língua só deixaria tudo mais molhado não é?). Eu não estou dizendo que esse tipo de coisa é ruim, nem que é boa, não vou mergulhar no abismo filosófico e discutir a moral e ética do tema. Só é tudo muito estranho, principalmente para quem veio, como a gente, da vivência de realidades com diferenças abismais para essa. E é tudo muito caro também, nossa única atividade por lá foi morrer nas belas praias da ilhota e, para não deixar passar em branco, consumir um drink no bar da piscina (que quase nos custou um órgão). Foi um belo dia. Para economizar até levamos marmita do nosso hotel all inclusive. 

Picnic Island

O outro passeio que fizemos foi para um ilhazinha bem perto de Maamigili chamada Picnic Island. Um lugar deserto, mas que provavelmente serve ou já serviu como fazenda de coqueiros. Enquanto explorava a ilha me deparei com diversas estruturas abandonadas. Me senti em Lost descobrindo as ruínas de complexos científicos ou algo do gênero. Não vou mentir – foi a volta daquele sentimento bobo de aventura ao se deparar levemente com o desconhecido ou o misterioso. Nessas andanças encontrei pedras que formavam diversas piscinas naturais e em um delas pude acompanhar uma moreia caçando caranguejos e foi um espetáculo incrível. Ela nadava ameaçadoramente, sempre a espreita, e quando percebia que um dos caranguejos tinha dado bobeira saía feito um míssil com metade do corpo para fora da água expondo seus dentes brancos e mordendo tudo que viesse pela frente. Foi uma cena feroz. Vida e morte no mundo selvagem. Parece que estou dramatizando demais um evento corriqueiro que demorou o total de uns 20 segundos, mas pensa só por um minuto, na escala dos caranguejos era a luta deles contra um infernal dragão aquático, praticamente a versão crustacea de Cadmo contra a serpente. No fim a moreia conseguiu arrastar um infeliz caranguejo para baixo de sua pedra favorita e a vida sobre as rochas voltou ao normal.

Não canso de colocar foto dessa ilha

A Picnic Island era incrível, como a maioria dos lugares nas Maldivas. Tínhamos acabado de vir de um cenário quase alienígena, as ferozes montanhas dos Himalaias e eu estava apaixonado por aquele visual, mas ali perto da água lembrei que para mim nada supera um mar azul, areia branca e uns coqueiros vistosos. O problema do lugar é que lá tinha muito lixo. Sim, lixo, uma tribulação recorrente nas Maldivas.

Já comentei que ficamos em Maamigili e que lá é uma ilha cidade, ou seja, é habitada por pessoas locais. Disse também que lá descobrimos um outro lado chocante da realidade do país, como diz a Marina “um tapa na cara”. Lá descobrimos como o lixo é tão parte do paraíso quanto o mar azul.

A cidade/vila de Maamigili não é suja, é inclusive bem organizada. Não testemunhamos nenhum ato que indique tamanho descaso ambiental para explicar o que vimos (já passamos por lugares que a população tinham pouca ou nenhuma consciência ambiental), mas fato é que ao nos aventurarmos para longe da praia dos turistas descobrimos um verdadeiro lixão a céu aberto nas areias da ilha. Esse lixo está lá por uma série de fatores: vem do mar que é cada vez mais um lugar de despejo das grandes nações (e isso é muito forte no sudeste asiático), falta de espaço e de soluções para o lixo produzido nas ilhas das Maldivas e também um pouco de falta de consciência das pessoas (turistas e locais). Fato é que vimos isso em Maamigili, vimos isso na Picnic Island e pelo o que pesquisamos acontece em várias outras ilhas que não sejam visitadas por celebridades.

Repara só no lixo na areia

Fato é que em uma tarde nublada nós resolvemos tentar melhorar minimamente a situação e ficamos umas boas horas catando tranqueiras da praia. Sabemos que  foi um esforço mínimo perto do que precisa ser feito, mas pareceu melhor do que apenas deitar com a barriga ao sol. Um fato curioso: após enchermos nosso primeiro latão de lixo um senhor que cuidava da praia de turistas veio nos ajudar e, com sua carriola, insistiu em levar o latão para um lugar apropriado. Nós o seguimos e vimos que o tal do lugar apropriado era um lixão improvisado em meio à vegetação bem pertinho do mar. Não serviu de muita coisa nosso suor inicial. Acho que esse foi mais um fato triste do que um fato curioso, mas a vida é assim, mais triste do que interessante. 

Resultado do nossa coleta de lixo

Além de pegar lixo das praias e torrar em cenários extravagantes também curtimos muito nosso quarto. Não, não é isso que você está pensando leitor de mente mais tórrida, é que no pouco tempo que ficamos lá choveu bastante. Mas foi bom, conseguimos relaxar e colocar séries, livros e filmes em dia. Uma hora até nos enchemos o saco e nadamos na chuva mesmo.

Outra coisa interessante que aconteceu foi que estávamos no país bem na época do Ramadã, quiçá a celebração religiosa mais importante do islã. Como o Ramadã exige uma série de sacrifícios e tem regras bem específicas, ele muda completamente a rotina de um país muçulmano, algo interessante de vivenciar em primeira mão. De dia não pode, entre outras coisas, comer ou beber água, então a noite é um período de encontros, confraternização e comida. Parecia uma rave de muitos dias, pois sempre quando íamos dormir escutávamos a vida acontecendo lá fora. 

No fim nossa estadia cumpriu seu papel e ainda nos acordou (finalmente) para mais uma realidade dura desse planeta. Mas havia chegado hora de sair desse paraíso maculado e seguir viagem.

Curtindo um sol

Foram mais algumas boas horas de balsa pública até Malé, onde pegamos um avião com destino para Délhi, mas que sabíamos que não seria nosso ponto final. Isso mesmo, não iríamos ficar na Índia, mas poucas horas antes de nosso voo não tínhamos ideia para onde prosseguir. Aliás o processo todo de decisão foi bem caótico e muito estressante, mas isso eu conto na próximo post.

Beijos Quentes

Índia ou o capítulo do beijo de língua no Ganges

o Ganges cortando a cidade

Como vão os amigos e amigas desse lamaçal odioso chamado existência? Já descobriram se somos mais que um amontoado de carne movido a eletricidade ou não? Eu ainda não. 

E é com essa abertura cheia de alegria e otimismo que eu os saúdo e os convido para aproveitar mais um texto deste humilde espaço virtual.

Depois da minha explosão visceral e de uma visita anti-climática ao Taj Mahal, saímos da boca do inferno que é Agra no verão e fomos para partes mais frescas do país, para a terra dos ashrams e dos gringos iluminados. 

Chegar em Rishikesh, como chegar em qualquer lugar a 30 quilômetros de distância na Índia, foi penoso. Não. Será? Talvez. Em termos práticos foi bem tranquilo na verdade. Pegamos um ônibus noturno/leito até que confortável (mas sacolejante), trocamos de ônibus de manhã, andamos mais um pouco por estradas acidentadas, nos largaram em um cruzamento perdido em uma rodovia poeirenta e lá fomos recebidos por uma massa de motoristas de tuktuk. Quando eles viam que era um turista saindo de um dos ônibus algo maior parecia tomar conta desses empreendedores do trânsito e eles imitavam uma horda zumbi indo em direção à presa. É a vida e o negócio deles, quem não correr perde a vez. Fomos atingidos por um tsunami de ofertas, algumas gentis e outras agressivas, e após terminar com um felizardo sabe-se lá como tivemos a habitual negociação de preço para embarcar em mais um desses belos veículos improvisados que dominam a Ásia. Após alguns minutos montanha acima finalmente chegamos à cidade. Uma curta andada e estávamos no nosso hostel. Eu deixei toda jornada mais dramática do que ela foi, mas isso não quer dizer que não tenha sido cansativa. Viajar de forma barata é garantia de aventuras e muitas vezes uma necessidade, mas como torra a paciência.

É sempre um tal de: pega a mochila, deixa a mochila, procura o ônibus certo, opa não é esse, pega a mochila de novo, chacoalha mais que massa de bolo na batedeira, pega a mochila outra vez, surta, joga a mochila no chão e tira tudo de dentro, sai correndo só de cueca gritando…. Enfim, deu para ver que estávamos em uma fase de pouca tolerância para perrengue. Acho que é normal, até o mochileiro mais raiz da história tem sede por conforto e descanso de vez em quando e se ele disser que “não”, com certeza estará mentindo. É bom demais gastar o tempo com a pança pra cima também. 

O interior de um ônibus leito Indiano.

E foi após essa jornada “simples, mas não tão simples assim” que chegamos em uma cidade que se move em outro ritmo do que tínhamos visto até o momento na Índia. Rishikesh fica perto das montanhas, na base do começo dos Himalaias indiano, é um lugar de tradição espiritual e comunhão com a natureza. Ainda é uma cidade indiana e carrega parte das particularidades do país, mas lá tudo parece ter um nível menor de intensidade. Pôde-se inclusive dizer que Rishikesh é uma cidade tranquila, na medida do possível. 

O rio corta parte de Rishikesh bem ao meio e para atravessar de um lado para o outro só usando as famosas pontes Ram Jhula e Lakshman Jhula, e essa travessia é uma experiência a parte (mais disso a seguir). Como a cidade fica em um vale verdejante as margens do Ganges são encurraladas por encostas inclinadas de ambos os lados, por isso os inúmeros cafés, templos, hotéis, Ashrams e milhares de outras construções que compõem o cenário urbano vão ficando cada vez mais altos em relação ao rio, formando uma escadinha de cimento colorido no meio da vegetação. É uma cidade bonita.

Como é um lugar nas montanhas e de clima mais ameno, pegamos Rishikesh em alta temporada, afinal grande parte do restante do território indiano estava ardendo sob um calor impiedoso. Foi onde mais vimos turistas, tanto estrangeiros quanto indianos. Acho sempre sensacional ver um país sendo visitado pela própria população, parece bobagem, mas após ver como isso é raro no sudeste asiático dá até uma sensação de alívio perceber que os únicos aproveitando/conhecendo o país não são apenas uns branquelos esquisitos.

Uma das famosas pontes da cidade

E por falar em turistas foram eles, especialmente um tipo específico de turista, que me irritaram em Rishikesh. A cidade, com seus inúmeros retiros de yoga e meditação, é um imã poderoso para um tipo de viajante que já vi em vários outros locais, o pseudo-local-transcedental. Aquela pessoa que está há pouco tempo no país e já compra todas supostas roupas tradicionais possíveis (daquelas que vendem nas inúmeras lojinhas espalhadas pelo lugar e que nunca uma pessoa local usa), que começa a andar descalça pelas ruas para indicar intimidade com a energia da região, que exibe pinturas e marcas nativas pelo corpo, que desfila por aí como próprio Buda reencarnado e parece rejeitar qualquer traço de sua verdadeira terra natal. Sim, é aquele tipo “iluminadão” que parece saído de um festival hippie. Por que eles me irritam? Oras, nem eu sei direito. Talvez porque tudo me parece falso, uma maquiagem exagerada para tampar alguma cicatriz calcificada com insegurança. Para mim parece um uniforme usado por um tipo de pessoa que quer se encaixar até demais na cultura que está visitando. 

A outra resposta, a mais complexa e que eu menos gosto é: eu sou amargurado e invejoso. Isso mesmo. Talvez eu tenha algum tipo de inveja de pessoas que conseguem se deixar levar e submergir até esse ponto em uma nova cultura. E o pior é que não estão fazendo mal para ninguém. Não é novidade nenhuma que eu gosto de reclamar dos outros e qualquer coisa pinica minha alma azeda, eu até tenho orgulho de ser tão simpático quanto um velho com dor nos quadris. Provavelmente é isso, minha tendência a ser reclamão sempre precisa achar um alvo para colocar em prática o que eu faço de melhor. Mas o fato de eu saber que o problema é 99% meu e não dessas pessoas não faz eu gostar mais delas. Não me entendam errado, eu simpatizo com yoga, meditação e até com hippies. Eu também sei que todo mundo compra uma calça de elefante quando vai pra essas bandas, uma bata, uma regata diferente ou uma saia toda estilosa, mas usar o conjunto todo, a união de todos esses elementos de uma vez que forma o megazord da petulância, o “iluminadão”, é passar dos limites. E sim, eu sei que estou generalizando e implicando com o estilo alheio, mas você realmente quer argumentar com um cara que escreveu um parágrafo gigante para falar do desgosto dele por pessoas que exageram no nível de “hippeza”?

Só Vishnu para aguentar os iluminadões de Rishikesh

Feito o devido desabafo, vamos a parte mais descritiva do relato. 

Passamos uns dias gostosos e calmos, bem ao ritmo de Rishikesh. Andamos muito a beira do rio (não tem como escapar disso) e nos aventuramos na travessia das pontes que conectam as margens. Atravessar Rham Jhula é especial inclusive para os indianos, pois o local onde ela foi construída faz parte de um mito hindu importante, Mas enfim, para mim, um ocidental perdido, o motivo de ser algo único foi outro. Imagine a rua 25 de março perto do natal, ou a onda de pessoas que vai atrás do trio no carnaval de Salvador, ou qualquer outra multidão que brotar na sua cabeça. Agora coloque essa multidão em um espaço estreito e comprido, talvez com uns dois metros e meio de largura. Coloque ainda, no meio disso tudo, algumas vacas e umas pessoas com motos. E lembre que essa farofa humana acontece naquele espaço apertado que já descrevi e que ainda fica suspenso a uns bons metros de um rio gelado, ou seja, a única direção é pra frente, sem saídas de emergência. Você se sente apertado como uma sardinha, mas ao menos tem uma bela vista. O melhor é quando você acha que não dá para ficar mais cheio e aparece um bovino preguiçoso deitado no meio do caminho, aí todos tem que se afunilar em um espaço menor ainda. Eis que você quer tirar foto da vaca na ponte, mas demora demais e BIBIBI, já tem uma moto buzinando na sua orelha. Sim, você não esperava por isso, mas eles permitem que motos passem por ali, o que parece meio maluco. Aliás a coisa toda é bem maluca. Só a Índia para transformar a experiência de atravessar uma ponte em algo único e intenso.

Foi mais ou menos assim que me senti na primeira vez em Rham Jhula. Depois nós nos acostumamos com as travessias e verdade seja dita, não é sempre que as pontes estão super cheias. Mas a primeira vez foi especial. 

Foi tranquilo atravessar a ponte

Além de andar muito pra lá e pra cá, curtir o visual da cidade e o raro clima de calmaria, também nos aventuramos em algumas cerimônias religiosas. Ao fim da tarde existem celebrações exaltando o rio semelhantes às de Varanasi, a beira do Ganges, mas as de Rishikesh são menores e mais intimistas.

Fomos em uma que ficava bem na curva do rio, em uma escadaria limpa e organizada. A cerimônia aconteceu durante o pôr do sol e como estávamos na margem leste a bela estrela de fogo desceu até a terra bem à nossa frente, dando tons alaranjados para uma estátua gigante de Vishnu que vigiava o ritual. Em dado momento fomos até essa estátua que ficava contra a escadaria e ver toda celebração por outro ângulo foi incrível, estavam todos juntos, apinhados na escadaria, uma hemorragia de cores escorrendo até o rio ao som de palavras sagradas. Foi uma bela visão.

Achamos esse um evento mais “confortável” e agradável de acompanhar do que todos os outros que vimos em Varanasi. Acho que acolhedor é o melhor termo para descrever essa diferença.

A Má, já em outro dia, participou de mais uma dessas celebrações, no templo de Shiva, um dos maiores e mais importantes da cidade. Ela foi ativa no ritual todo e aprendeu alguns conceitos hindus, mas eu não posso transmitir aqui como foi essa experiência, pois como ela foi com mais outras 4 brasileiras que conhecemos por lá e eu me retirei para o hostel e joguei um pouco de video game. Eu sei, eu sei. Sou um fracasso. 

E o tão alardeado Ganges? Oras, ele não é limpo na região? Sim, claro, você está certo fiel leitor. E nós interagimos com ele, fique tranquilo. 

A primeira parte dessa interação foi um simples banho em uma das inúmeras praias que tem pelas suas margens. Existem lugares lindos e quase desertos para nadar no Ganges, mas nós escolhemos um bem populoso e sem nenhum capricho estético. Como o cenário não ajudou nossa primeira entrada no rio foi pífia, uma simples molhada de canela. Porém já tinha sido mais do que fizemos em Varanasi (ou que eu tive coragem de fazer em Varanasi). Mas, claro, teve a segunda parte da nossa interação com o Ganges e essa foi mais intensa, afinal fizemos um rafting nele.

Um templo e o Ganges

Rafting sempre foi um daqueles (muitos) negócios que eu sempre quis fazer e nunca tinha movido uma palha para concretizar. Quando surgiu a chance de realizar a atividade em um rio tão sagrado e famoso nos animamos muito. Fala aí, legal demais puxar um papo falando “já fez rafting? Então, certa feita eu estava na Índia e acabei fazendo no Ganges e menina você não vai acreditar…” Bom, é um jeito bem pedante também de começar um assunto, mas tem sua mágica. E lá fomos nós para o tal rafting. 

Foi rápido, mas foi gostoso. Pegamos algumas corredeiras mais fortes, pulamos na água gelada do rio e apreciamos um visual incrível entre montanhas indianas. Em nenhum momento o rolê ficou radical ou desafiador demais, acho que nós já estávamos acostumados com sacolejadas. Mas foi bom sim, recomendo muito para quem um dia estiver por lá e quiser fazer mais que yoga. Agora posso dizer que minha relação com o Ganges ficou bem mais íntima. Eu já nadei nele, eu já rezei nele e eu já engoli água dele (que seria equivalente a um beijo talvez?). Então tá aí, eu já beijei o Ganges de língua. 

E fora tudo que já foi descrito a única atividade que fizemos por lá ainda não mencionada aqui foi yoga em um Ashram, aqueles retiros famosos, sabe? Bom eu não fiz nada disso, mas a Marina e nossas amigas brasileiras acharam um que aceitava pessoas de fora para uma classe e se aventuraram. Eu fiquei pelo hostel me sentindo deslocado perto da galera jovem e cool que frequentava a sala comum. Não é fácil ser uma alma velha presa em um corpo não mais tão jovem e capenga. 

E assim foi Rishikesh, um lugar de muitas andanças, mas também de muita calmaria e refeições lentas. Um lugar que nos ajudou a relaxar em um país tão intenso como a Índia. O lugar onde fizemos novas amizades e renovamos votos com as antigas, como o Ganges. O lugar que me fez pensar nas diferenças entre cidades que permeiam o mesmo rio e o mesmo país, cada uma com sua magia. E o lugar que foi um belo jeito de fechar nossa estadia na Índia.

Uma cerimônia na beira do rio

Sim, isso mesmo. Apesar de termos ficado apenas em 3 cidades (em 17 dias), encurtamos nosso tempo indiano. Decidimos comprar uma das poucas passagens baratas para Maldivas e curtir um pouco de praia e sol. Nada pessoal com a Índia, um lugar incrível, mas já chegamos feridos em seu solo e lá, com sua intensidade, mais algumas cicatrizes se abriram, precisávamos de tempo para descansar e curar. Bom, fica a vontade e necessidade de voltar.

E foi assim que direto de Rishikesh partimos para o aeroporto de Delhi e depois para as Maldivas. Mas isso é assunto da próxima newsletter.

Beijos Quentes

Índia ou a parada (forçada) em Agra

Chegando em Agra e vendo o bichão

Amigos e amigas, eis aqui mais um episódio da sua perda de tempo periódica. Eu não tenho mais nada de interessante ou engraçado para escrever nas introduções. Imagine aqui o seu non-sense de agrado e fique feliz, por favor. 

Os leitores amaldiçoados com uma memória mais potente vão se lembrar que o último relato parou quando estávamos prestes a sair de trem da deliciosamente maluca Varanasi.

Não quis o destino que nós deixássemos um solo tão sagrado de maneira fácil. Chegamos na estação cerca de 8:30 da manhã, correndo igual loucos pois achávamos que perderíamos o nosso transporte. Para nossa alegria não perdemos nada, pois não havia nenhum transporte. Vimos o horário errado e o único trem que sairia para o nosso próximo destino, Agra, só deixaria a estação às 18:30. Como estávamos meio longe da parte mais interessante da cidade e estava um calor de belzebu, resolvemos ficar pela estação mesmo, afinal gastar tempo em hubs de transporte é nossa maior habilidade. Uma coisa curiosa e ainda não bem resolvida (para mim) aconteceu nesse dia. Descobrimos uma área designada apenas para turistas, um lugar amplo e confortável, com vários sofás e ar-condicionado. Bom, não? Sim, mas ao mesmo tempo uma multidão de indianos tinha que esperar pelos seus trens do lado de fora, com o conforto sufocante do chão duro e do clima escaldante. E o pior, o espaço de turistas estava vazio, ficamos apenas eu e a Marina a maior parte do tempo lá. Não, o pior não foi isso, o pior foi que estou aqui criticando essa divisão, mas me aproveitei dela, a hipocrisia nunca foi tão sedutora quanto um sofá aconchegante e um clima refrigerado. Não sei o que eu poderia ter feito para mudar aquilo, mas a verdade é que me acomodei ali no canto e nem pensei muito sobre. Com certeza o espaço era amplo o suficiente para abrigar vários locais. Um canadense que passou brevemente pela sala comentou comigo sobre a estranheza da situação, mas se resignou ao dizer “life is not fair” como um mantra da desigualdade. Talvez ele seja mais verdadeiro consigo mesmo do que eu, que não concordo com o mote triste, quer dizer, a vida não é justa mesmo, mas não acho deveríamos nos acostumar com isso, então concordo com a frase mas não como foi usada. Eu, mesmo incomodado, aproveitei até mais dos peculiares benefícios dessa maldita sala que ele e o máximo que eu fiz por essa situação foi desabafar aqui neste espaço tão visitado quanto a biblioteca municipal de Itu. A viagem serviu também para abrir as cicatrizes de nossas contradições e nos assolar com momentos que parecem pequenos, mas que vira e mexe assombram a consciência. O que resta é fazer algo com esse sentimento.

E depois dessa descida nos recantos mais escuros da minha mente, volto ao relato. Esperamos o dia inteiro na salinha dos turistas e no momento correto fomos para o esperado trem. Como compramos de última hora só tinha lugar no vagão leito sem ar-condicionado, que é no geral piorzinho que sua versão mais cara. Foi uma viagem tranquila, mas longa, mais de 12 horas (o trem atrasou) para percorrer cerca de 600 quilômetros e o nosso vagão não era o lugar mais limpo do planeta. Chegamos sem sono, mas não descansados em Agra. 

Agra Fort ao fundo

Uma breve visão do Taj Mahal, ainda do trem, já nos mostrou a grandeza do mausoléu, o negócio é bonito mesmo, mas mal sabíamos que nossa visita até ele que parecia tão próxima se adiaria por uns bons dias. Era manhã quando o trem nos largou na estação de Agra Fort e só iríamos no Taj na madrugada do próximo dia, tática para evitar o calor e as multidões. Aliás o calor foi o primeiro a nos cumprimentar na cidade, ali era mais abafado e mais insuportável que em Varanasi. No tuktuk a caminho do hotel fuleira de número 3442 da viagem já conseguimos notar como a influência muçulmana criou uma cidade com uma arquitetura bem diferente do que vimos em Varanasi, uma diversificação muito interessante. Deu para reforçar também a (acertada) impressão de que o clima de Agra estava semelhante ao de Mercúrio, o cabisbaixo planeta que fica perto demais do sol. Pense em um lugar quente. 

Agra foi uma cidade de uma grata surpresa, pois lá conhecemos o Caio (@caindopelomundo), outro viajante gente boa demais com quem fizemos amizade. Mas foi só isso mesmo, porque de resto foi só desgraça.

No mesmo dia em que chegamos saímos para desbravar alguns pontos turísticos locais e almoçamos em um lugar chamado Sheroes, um café com um propósito incrível. Ele é organizado e operado por mulheres que sofreram ataques com ácido, algo ainda muito comum na Índia. As mulheres contam suas histórias para os visitantes e percebemos que os ataques têm os mais diversos (e idiotas) motivos, claro que todos pautados em um machismo muito inerte a sociedade local. Sabe uma das maiores lutas dessas mulheres? Que esse ácido não seja vendido de forma tão livre como é. Isso mesmo, no país uma substância que é notoriamente usada com propósitos violentos ainda pode ser comprada por qualquer maluco com ódio no olhar. Enfim, o lugar é muito interessante de ser conhecido e você ainda paga o que quiser, ou seja, você come e faz uma doação para a causa. Nós estávamos meio quebrados e não pagamos nada. BRINCADEIRA, claro que deixamos lá uma quantia que achamos justa e que era condizente com nossa realidade. 

O resto do dia em Agra foi pautado pelo calor (sim, vou falar dele de novo), por nossa tentativa de ver o Taj Mahal de um ângulo diferente ao pôr do sol e pelos milhares de golpes que tentaram nos aplicar. Acho que por ser uma cidade muito turística, Agra é um antro de golpes e pedintes. Entendo que a realidade da população média indiana é bem diferente da nossa e ao verem um turista eles vêm uma forma de sobreviver, mas enche o saco ser enganado toda hora. Agra acabou com nossa paciência para isso. Chegou ao cúmulo de pessoas pedirem para tirar foto com a gente e depois cobrarem. Claro que não caímos na maioria dos golpes, mas toda saída na rua era uma batalha contra contatos não solicitados e maliciosos. Só para reforçar, isso foi muito específico em Agra. Varanasi e Rishikesh foram locais mais tranquilos em relação ao tema. 

O dia foi desgastante, mas pelo menos a noite terminou com risadas e um vinho indiano que o Caio compartilhou conosco. Depois era só dormir embalado pelo álcool, conhecer o Taj na madrugada e ir para o próximo destino. Ou era isso o que a gente planejava. A vida tem uma maneira engraçada de dizer “você não está no controle”. Dessa vez a maneira escolhida foi uma violenta intoxicação alimentar que me acometeu. 

Acordei no meio da noite suando, com muito frio (lembra de quantas vezes falei como estava quente?) e com aquela vontade visceral de sentar no trono. Sim, foi feio, até 40 graus de febre eu tive. Sabe quando você passa mal e sabe exatamente o que causou? Então, eu sei o que foi nesse caso. Foi o que comi no Sheroes, um prato local e gostoso, mas que não conversou legal com meu sistema. Até o momento eu estava comendo apenas comida local sem nenhum problema, mas acho que a sobrecarga de temperos acontece uma hora ou outra. Talvez tenha sido alguma vingança ”carmática” das mulheres do café pelas vezes que já fui escroto na vida. 

O negócio é que eu fiquei em uma condição bem precária, quase a ponto de fazer uma participação em The Walking Dead. Não foi negócio de um ou dois dias, por isso tivemos que ficar mais umas 5 noites em Agra e mudar de hospedagem, nosso primeiro hotel era mais indicado para quem quisesse pegar tétano do que se curar de uma intoxicação alimentar. Inclusive fomos para um lugar muito melhor quase pelo mesmo preço. Foi bom ser “bem tratado” por alguns dias. 

Aliás esses foram dias de repouso e de nada muito emocionante. A não ser que você considere emocionante a queimação interna que tomou conta das minhas entranhas.

Uma das mesquitas que flanqueam o Taj Mahal

A boa notícia é que no fim eu me recuperei. É pelo menos uma boa notícia para mim, espero que para você também. E, depois de recuperado, finalmente fomos ver o maldito Taj Mahal (a essa altura eu já estava com raiva da cidade e tudo que tem nela). Realmente é lindo, uma obra magnífica, um empreendimento humano sensacional feito (provavelmente) às custas de um monte de gente sofredora (como toda grande obra de uns bons anos atrás). Posso ficar aqui falando sobre a simetria, a grandiosidade ou as cores do lugar todo, mas vocês já devem ter lido esse texto umas mil vezes. Basta dizer que é bonito, mas não fiquei emocionado ou embasbacado pelo lugar como muitos ficam. Acho que ver coisas como as montanhas do Vale do Khumbu (Everest), as serras do Vietnã, o mar das Filipinas ou o deserto australiano te deixam mais calejados no quesito “emocionado com visões bonitas”. 

Finalmente tínhamos cumprido nosso objetivo em Agra e era hora de ir embora, mesmo que ainda segurando as tripas no corpo de forma capenga. 

O bichão – visita pós escabrosidades intestinais

Pegamos um ônibus leito “a lá Índia” (veja os stories do @sejogaai para entender) e claro que algumas boas horas, uns atrasos e umas sacolejadas depois estávamos em Rishikesh. 

Mas esse será o assunto do próximo post.

Beijos Quentes

Índia – Varanasi ou capítulo da viagem com o bode gigante

O rio e os ghats

Olá, amigos e amigas. Espero que a sua jornada nessa balsa melancólica chamada vida esteja, no mínimo, tolerável. Caso as coisas estejam ruins, não tema, eis aqui mais um texto para alimentar o escapismo que sua alma deseja. Não é nenhum Machado, Borges ou Roth, mas pelo menos você poderá ler sobre as loucuras de Varanasi e nosso papo com um bode gigante que ficava no meio da rua. Coisa fina. 

Os mais abundantes de ômega 3 devem se lembrar o desafio que foi chegar até Varanasi. Uma jornada que envolveu os mais variados tipos de transporte e muita troca não voluntária de fluído corporal. Foi cansativo, conseguimos deitar em uma cama muito após o marco da meia-noite, mas deu certo. 

Depois de uma necessária e pesada noite de sono nos demos conta que estávamos em Varanasi, um dos lugares mais antigos e caóticos do planeta. A sensação que nos tomou foi um misto de excitação com preguiça, aquela eterna dualidade das pessoas que não sabem se gostam ou não de sair do sofá. Eu explico. Pode parecer uma heresia estar em um lugar incrível como Varanasi e mesmo assim deixar o estado de torpor tomar conta do corpo, mas isso é mais comum do que vocês imaginam. Acontece em Varanasi, em praias paradisíacas das Filipinas ou em escandalosos desertos australianos. A preguiça não escolhe CEP e como já expliquei muitas vezes nesse cansado blog, viajar a longo prazo não é férias, as vezes a pessoa só quer comer mal e ficar o dia inteiro na horizontal. Ainda mais quando sabe que o mundo exterior é uma explosão de sentidos. Era essa nossa sensação após acordar em Varanasi.

Enfim conseguimos vencer o diabrete da letargia e sair. Sem plano mesmo, apenas queríamos olhar a cidade. Estávamos na parte antiga, no meio do emaranhado de corredores apertados entre prédios velhos perto dos ghats, as escadarias que dão para o Ganges. E foi ao passear por essas inesquecíveis escadarias que começamos a entender a cidade. 

A vida acontece no rio. 

Na verdade antes de conseguir andar pela parte interessante de lá tivemos que enfrentar uma pequena gincana para conseguir chips de celular indianos. Não vou comentar o ocorrido porque envolveu muitos passos perdidos, uma pequena dose de irritação e aquela boa e velha pitada de sorte.

Depois de garantir nossa conexão com a rede mundial de computadores conseguimos apreciar o Ganges.

A vida no Ganges

Chegamos lá no fim de tarde e no pouco tempo em que ocupamos as cadeiras cativas do chão empoeirado e pedregoso vimos de tudo: pessoas se banhando no rio, crianças brincando, inúmeros jogos de críquete, uma profusão de animais, grupos de meditação, grupos de oração e, claro, as cremações. Cada ghat tem um propósito específico, ou seja, é como se a margem do rio fosse dividida em setores. Alguns ghats são para cerimônias religiosas que acontecem ao fim de todo dia, outros para banho e yoga e dois específicos são crematórios. Sentar naqueles degraus e apenas observar foi melhor do que qualquer programação da TV de domingo.

Quero só estressar aqui um dos pontos que mencionei acima. As pessoas se banham no Ganges como se não houvesse amanhã, o que para nossa percepção ocidental é basicamente o mesmo que brincar todo dia de roleta-russa. Ao ler um pouco sobre Varanasi é fácil se deparar com a informação de que o Ganges, naquela altura, é bem poluído. Tem de tudo ali, inclusive pedaços humanos que podem passar boiando por você durante uma nadada matinal. Mas isso não impede os moradores, que tem uma relação profunda com o rio e provavelmente um sistema imunológico avantajado, de aproveitarem o Ganges. Eles nadam por diversão, tomam banho, lavam roupas e até bebem a água. A indicação é para que não locais não façam o mesmo e eu vou dizer que não fiquei tentado a fazer. Vi um ou outro ocidental brincando dentro das águas, por isso não sei o quanto esse “medo” do rio é verdade. Mas eu não estava em um bom momento da minha vida para enfrentar uma super-bactéria, por isso não arrisquei.

Os banhos no rio

Observar foi basicamente o que fizemos em Varanasi. Fomos em cerimônias que acontecem ao entardecer, vimos o sol nascer da margem leste do Ganges em um inesquecível passeio de barco e passamos muitas horas com as nádegas no concreto em meio a bagunça da cidade. Também andamos muito pelas vielas estreitas que beiram o rio. Ora elas estavam bloqueadas por motos, ora por bovinos e às vezes pelos dois ao mesmo tempo. Sem falar no lixo que toma conta do chão, um obstáculo a mais na gincana diária da locomoção. Macacos também rondam pelos tetos das antigas construções apenas a procura de almas inocentes para atazanar. Um grupo de símios juvenis atacou de forma impiedosa a Marina, que de alguma forma desafiou eles. Acho que foi o porte físico ameaçador dela que causou a confusão.

As vielas perto do rio

Uma das experiências mais surreais de Varanasi vem do fogo e da carne. São as visitas aos crematórios. Queimar corpos à beira do Ganges (e depois jogar as cinzas nele), um rio sagrado no hinduísmo, é prática comum em Varanasi, uma cidade também sagrada. Por isso a existência dos crematórios ao ar livre. Cada um fica em uma ponta distinta do “circuito dos ghats” e um deles é bem pequeno se comparado ao outro. O crematório principal é uma visão quase lisérgica, uma mistura de fogo, animais, madeira, cinzas, água e fezes. Não é só que pessoas estão sendo queimadas em piras ali na sua frente, bem perto do rio, mas todo o resto do cenário é estranhamente bonito, como se pequenas partes erradas conseguissem formar um todo magnífico. As ruínas que fazem parte do ghat dão um tom certeiro de decadência histórica (e digo isso no melhor sentido possível). Elas são habitadas pelas pessoas que vão para Varanasi para morrer e estão “esperando sua hora”. Parte da tradição é que Varanasi é especialmente auspiciosa para morrer, segundo a crença falecer lá é uma forma de quebrar o ciclo de reencarnações. Por isso as moradias decrépitas cheias de anciãos a espera da facada temporal. 

O crematório

É uma visão única, algo que merece ser vivenciado. Nós ficamos ali por um bom tempo só observando o espetáculo de vida e morte. Ou só morte né, porque ninguém queimado ali quer reencarnar. Também acho que é errado chamar de espetáculo. Certo, vou reformular – “nós ficamos ali por um bom tempo só observando aquilo” – acho que agora está mais certeira a frase.

Mas acompanhar a cremação de humanos em meio a animais e cachoeiras de fezes não foi a experiência mais sensorial que tivemos na cidade.

Esse bode era grande demais, juro.

Varanasi é também conhecida por ter uma relação antiga e ritualística com substâncias que alteram o estado mental e seria pouco imersivo ir até um local desses e não se jogar no processo. Tomamos um lassi (iogurte local) levemente adulterado e saímos para experimentar toda glória da cidade com a percepção mais ajustada para a loucura local. Foi uma das noites mais memoráveis da viagem. Apenas eu, a Marina e nossas tagarelices de pouco sentido. É de uma superficialidade notória de viajantes desgraçar uma experiência religiosa dessa maneira, mas este é um sacrilégio que não me arrependo de ter cometido. Afinal foi nessa noite em que fomos acometidos por um ataque de culpa ao visitar um templo longe das nossas melhores condições, em que fizemos uma importante análise sociopolítica da Índia quase caindo dos degraus de um dos ghats e o mais importante, foi quando conhecemos nosso amigo bode. Como já disse a cidade é também tomada por animais, principalmente vacas, mas durante uma caminhada pelos ghats vimos esse bode que era quase do tamanho de um cavalo. Um exemplar mastodôntico do género Capra. O estado mental do momento nos impeliu a admirá-lo e tentar até puxar um papo, mas ele era era tímido e não respondeu. Ainda bem que as raízes do bom-senso me impediram de tentar montar no admirável ser, mas que eu quis, eu quis.

“olha lá os dois turistas bocozão”

Varanasi é um lugar intenso, mas no fim das contas gostamos tanto da experiência que estendemos nossa estadia, mesmo com o calor infernal que fazia durante o dia. É também um lugar que cansa, assusta e te afeta de algumas maneiras inesperadas, mas que merece muito ser visitado.

Depois de lá começamos mais um round de transportes capengas pela Índia e acho que foi aí que nossa energia começou a vacilar novamente, mas esse é assunto de um próximo relato.

Beijos Quentes

Do Nepal para Índia com umas paradas no caminho

Dos nosso dias de calmaria em Katmandu

Olá desbravadores de palavras alheias, bem vindos a mais um capítulo do seu nonsense favorito (espero).

Você deve se lembrar que no último post tínhamos acabado de vencer um dos maiores desafios da viagem, tiramos onda no topo do mundo e voltamos para contar história. Bom, acontece que após as aventuras Himalaias ainda ficamos mais um tempo no país das maiores montanhas do planeta. 

O resto dos nosso dias no Nepal foram de pura preguiça e recuperação física. Comemos muito, encontramos amigos antigos e fizemos amigos novos. Até ao cinema fomos. Não ficamos apenas em Katmandu, fomos também para Pokhara, uma cidade muito gostosa que rodeia um grande lago. Lá descobri que é possível passar o dia inteiro comendo no mesmo local e não se sentir mal por isso (sempre com a companhia de Daniel e Babi). O ápice de nossa visita à Pokhara foi numa noite em que recebemos o convite especial para beber com alguns locais, amigos de amigos. Nos embriagamos com um aguardente que mais lembrava água sanitária, enchemos a barriga com uns petiscos de qualidade duvidosa e ainda fomos sacaneados no fim da noite pelos nossos supostos companheiros nepaleses. Mesmo assim é inegável que existe algo de memorável em beber com pessoas de moral questionável em um beco escuro e misterioso. Foi uma noite interessante.

Após a estadia da preguiça em Pokhara seguimos viagem, ainda no Nepal, pois era hora de nos movimentarmos de novo, quebrar a aura de torpor e gula que tinha tomado conta de nós, e, para a tristeza dos restaurantes da região, saímos de lá em direção à Lumbini. 

Pokharam, a cidade do lago em que ficamos 1 semana comendo

Foi mais uma daquelas viagens de poucos quilômetros e muitas horas. Mais um ônibus sacolejante e quente no Nepal, daqueles que sugam as energias de qualquer viajante. Depois de um tempo considerável, uma paisagem linda e uns bons litros de suor derramados chegamos ao nosso destino.

Lumbini fica bem ao sul do Nepal, já em terreno plano, seco, quente e fora da influência vertical dos Himalaias. Sim, existe uma parte do Nepal tomada por selva e clima quase tropical, não são só montanhas geladas que formam o país. Lumbini também fica perto de um dos pontos mais populares de passagem terrestre para a Índia e não estávamos lá por coincidência, afinal depois de visitar a cidade o plano era cruzar para o país onde as vacas são sagradas. 

Paramos em Lumbini porque lá é o local de nascimento de Siddhartha Gautama, o Buda. Achamos que pela história envolvida seria um local interessante de conhecer, mas vou dizer, Buda poderia ter nascido em Cesário Lange que seria melhor viu. Baita experiência infernal que passamos na cidade. Claro, existe um complexo budista interessante na cidade em que é possível visitar templos budistas de diversos países do mundo e todos são muito lindos. Nesse mesmo complexo fica a casa (hoje um museu) onde Buda nasceu. Intrigante e importante. Mas é “só” isso. Lumbini não oferece muito mais que essa atração que pode ser visitada em algumas horas, só uma horda de motoristas de tuktuk que ficam com os olhos brilhando ao avistar algum turista. Oras, mas até aí a cidade não ter grandes atrações não é problema nenhum, afinal fomos ver algo específico e procurar um teto antes da nossa troca de países. O problema é que estava calor demais em Lumbini. Um calor seco e infernal que nunca senti antes. Pior até que a baforada úmida de lugares como Bangkok e Manaus. Mas não era só isso, antes fosse. Ficamos em um quarto simples em um hotel simples (do jeito que a gente gosta) que foi planejado especificamente para ser quente. Acho que durante a construção o empreiteiro do lugar pensou  “qual seria o equivalente imobiliário a um forno gigante?” E aí foi e criou nosso quarto. Ele ficava na esquina do prédio que tinha formato em L, recebia sol o dia todo e tinha uma ventilação pífia. Para melhorar tempestades castigaram a região quando estávamos lá, por isso a luz vacilou mais do que já vacila normalmente no Nepal, ou seja, nosso ventilador, nosso único amigo, apenas tinha pequenos soluços de vida. Mas calma, você acha que acabou? Claro que não, eu não brinco em serviço na hora de reclamar de alguma coisa. Pense em todo cenário que já descrevi até agora: calor extremo, atmosfera sufocante e desconforto. Sabe o que pode melhorar tudo? Mosquitos. Sim, além de tudo o nosso quartinho dos infernos ainda era um portal para uma dimensão habitada apenas por mosquitos. Vocês podem estar pensando que estamos frescos, que o lugar deveria ser tranquilo e nós que não aguentamos o tranco, mas digo o seguinte: já dormimos em diversos “buracos” nessa viagem, já cansei de descrever quartos como “cativeiro” e mesmo assim esse foi pior, sendo que ele era até bonitinho (aparência não é tudo). Foram duas noites complicadas e sem descanso.

Um dos templos do complexo

O complexo de templos e o museu, como eu disse, são interessantes e apesar de não ser um lugar grande, também não é possível fazer tudo a pé. Lembra que falei que estava um calor infernal? Sabe como exploramos tudo? De bicicleta. Isso mesmo. As vezes eu e a Marina temos umas ideias tão boas quanto quem achou que Fanta Uva era algo digno de existir. Apesar de quase termos derretido sob sol do meio dia até foi um passeio bacana. Na casa do Buda está demarcado o ponto exato onde ele nasceu, o que achei interessante, pois uma coisa é saber o local de nascimento (como a cidade), outra é o ponto exato de onde o jovem saiu do ventre. E pior que um monte de gente faz preces e oferendas ali, mas vai que o rapaz que fez a demarcação errou por alguns metros e todo mundo está adorando o local onde, sei lá, dormia o cachorro do Buda. 

Quintal do Buda

Brincadeiras a parte, foi impactante conhecer um lugar com tamanho peso histórico e importância espiritual (para esse lado do mundo principalmente). Aliás, achei a mistura de hinduísmo com budismo do Nepal incrível. Alguns nativos nos disseram que tem como religião, como guia espiritual, o hinduísmo, mas que seguem o budismo como modelo de pensamento. “Good thinking” foram as palavras deles, achei interessante. 

Profundo, impactante, importante… Posso usar o termo que quiser, mas a verdade é que não gostamos da maior parte do nosso tempo em Lumbini e finalmente tinha chegado a hora de ir embora. Não só ir embora da cidade, mas também do Nepal. Mal sabíamos que estávamos prestes a começar uma das maiores epopeias da viagem.  

O dia começou cedo, antes das 6 da manhã. Precisávamos pegar um ônibus até um cidade vizinha e depois outros ônibus até a fronteira. A ideia era pegar o primeiro transporte disponível do dia, mas assim que arrumamos tudo uma tempestade tomou conta dos céus e tivemos que esperar. Lá pelas 8 da manhã conseguimos sair e entramos em um ônibus que tinha cara de “vou quebrar”. E ele quebrou. Esperamos por outro no meio de uma estradinha triste e enlameada. Demoramos quase duas horas para andar 20 quilômetros, mas enfim chegamos na cidade vizinha. Mais um transporte público de 15 minutos e estávamos em Sunauli, a movimentada fronteira. Eram milhares de caminhões e ônibus de um lado e do outro. Nós atravessamos a pé, passamos na sinistra imigração do Nepal e depois, quando chegamos na imigração indiana, tivemos que esperar sentados por uma hora pois o aparelho de scanner deles estava quebrado. Era um daqueles dias. Nesse meio tempo conhecemos outros viajantes e decidimos dividir um táxi com eles, afinal nossa jornada estava longe de terminar. Não era só passar para a Índia e pronto. Tínhamos que ir até Gorakhpur e de lá pegar um trem até Varanasi, nosso destino final. Mas da fronteira para Gorakhpur o ônibus leva umas 3 horas e o trem até Varanasi mais umas 6 horas. Era muito chão para andar ainda.

O ônibus para sair de Lumbini. Aquele que ia quebrar e quebrou.

Para ganhar tempo invés de ir de ônibus rachamos o táxi com outros turistas, como já disse, até Gorakhpur. Chegamos de tarde, mas ainda em tempo de pegar o último trem do dia. A estação estava abarrotada, parecia um mar de pessoas estiradas, era difícil ver o chão. Finalmente estávamos na Índia. Compramos o bilhete de trem mais barato que já vi na vida e logo depois descobri porque ele era tão barato assim. Quer dizer, logo depois nada, pois caiu um aguaceiro sem precedentes e o trem atrasou mais de uma hora. O que foi juntando de gente na nossa plataforma semi alagada não foi brincadeira, comecei a ficar nervoso, pois não sou o maior fã de multidões e fluídos corporais alheios. Quando o bendito trem resolveu dar as caras no horizonte a multidão pulsava. Estavam todos cientes do que iria acontecer e sabiam o que era necessário fazer, menos eu e a Marina, duas baratas tontas no meio de um formigueiro. O trem foi se aproximando e mesmo sem parar as pessoas já corriam para subir nos vagões ainda em movimento. Quase fomos atropelados umas três vezes. Corremos junto com a boiada, mas em ritmo muito mais lento, por isso em todo vagão em que entramos todo espaço físico possível já estava tomado. Éramos como dois touros numa loja de porcelana, com as mochilas gigantes nas costas batendo em todo mundo. Depois de alguns infernais minutos de luta em que eu xinguei muito o universo e transpirei em quantidades olímpicas achamos um vagão menos lotado, em que dava pra guardar as malas e ficar em pé pelo menos. Logo dois indianos muito simpáticos abriram espaço pra gente sentar, então não foi tão ruim. Foram seis horas cansativas, ora com o trem cheio, ora com o trem vazio, pois paramos em várias cidadezinhas pelo caminho. Um bom aquecimento para a claustrofobia indiana.

Nosso companheiros de viagem por algumas horas

Chegamos em Varanasi quase às 23 horas, dois vestígios do que um dia tinham sido seres humanos. Depois de muito negociar um tuktuk e acordar um preço que eu tenha certeza que foi caro demais ele nos deixou em frente a uma rua fechada e disse que dali em diante não poderia seguir, teríamos que andar o último quilômetro restante do trajeto.

Foi aí que realmente caiu a ficha que de onde estávamos. Para os que ainda não foram apresentados a esse maravilhoso lugar, Varanasi é uma das cidades mais antigas da Índia (quiçá a mais antiga) e um local sagrado para os Hindus, um lugar especial para morrer. A relação da cidade com o Ganges é íntima, afinal é o rio mais importante para o hinduísmo e ela fica situada na sua margem oeste. E ainda, Varanasi é intensa, como que um microcosmo intensificado de vários características da Índia – muita gente, muita cor, muita sujeira, muita espiritualidade, muita vaca na rua e muita coisa diferente. Diversos viajantes acham que é o lugar mais maluco de um país já maluco para nós ocidentais, e eu não posso negar. 

Imagens de um trem indiano

Quando o tuktuk nos largou no meio da rua  ficamos meios desnorteados, a cidade ainda pulsava apesar de ser quase meia noite. Mas era uma pulsação decadente, daquele estilo fim de noite. Pessoas pareciam voltar para suas casas e os que ainda perambulavam de um lado pro outro pareciam procurar alguma coisa. Passamos por fogueiras no meio da rua, desviamos de lixo e restos animais e quase fomos atropelados por uma vaca desgovernada (era só o que me faltava). O clima era estranho, mas em nenhum momento me senti inseguro. Seguimos o mapa e chegamos até os ghats (escadarias) que dão para o rio. Fui à cometido pelo clima de grandeza e antiguidade do lugar, mas não deu para absorver quase nada, pois já era quase meia noite e a prioridade era conseguir se limpar e ficar um pouco na horizontal. Andamos pelo rio e nada. Não achava a guest house. Resolvi subir por um beco escuro e cai em um labirinto de vielas estreitas, o que eu acho que deva ser a cidade antiga que beira o rio. Perambulei por uns 20 minutos a esmo e no fim só achei nosso hotelzinho porque Vishnu quis. Resgatei a Marina, que tinha ficado me esperando no Ganges e ufa, finalmente chegamos. Pensa num dia longo. Agora pensa num dia longo em que várias coisas dão errado. O nosso foi mais ou menos assim, mas o importante é que atingimos nosso objetivo. 

Chegar na Índia não foi fácil, mas rendeu uma boa história (acho). 

Mas chega, que fiquei cansado só de lembrar desse dia. Depois conto mais sobre Varanasi.

Beijos Quentes