Filipinas ou o capítulo do pôr do sol que não brinca em serviço

Como faz tempo que não posto vou colocar uma foto bonita para começar

Olha só, são eles mesmo, o grupo de corajosos leitores que decidiram dar mais uma chance para esse endereço virtual após um longo e tenebroso hiato. Gosto como vocês enfrentam a vida de frente sem deixar as amarguras tomarem conta da alma. Se fosse eu já estaria com minhas roupas de baixo estatelado no sofá curtindo a última bobagem qualquer na Netflix. Ainda bem que vocês gostam de ler. 

Esse é mais um post sobre as Filipinas e para quem não lembra, post sobre as Filipinas sempre começa com uma reclamação sobre transporte e deslocamento. Os mais memoriados vão lembrar que no último relato estávamos saindo de Cebu City até Maia, uma pequena cidade bem ao norte da ilha de Cebu. Bem, para fazer esse trajeto pegamos um (bom) ônibus local. O problema foi o trânsito infernal. Foram 5 horas para andar cerca de 130 km em estradinhas de qualidade duvidosa. Isso mesmo. Pelo menos tinha uma TV com filmes pirateados no busão, então fui curtindo um Mad Max tranquilo em meu canto. Ou quase, pois perto de nós sentou um israelense que não parava de puxar papo e, se vocês acompanham o blog , devem saber que nós não estávamos no clima para conhecer ninguém. Até gosto de pessoas, mas longe de mim. 

Chegamos em Maia no fim do dia e apesar do nosso destino final ser Malapascua, uma (outra) ilha que fica a cerca de uns 30 minutos de barco de onde estávamos, já não tinham mais balsas navegando devido ao horário. Resolvemos então seguir uma dica de nossos parceiros brasileiros, Ed e Enzo, que já tinham passado por aquele canto das Filipinas, e nos hospedamos em um dos pouquíssimos lugares possíveis em Maia, o Skip. Um hotelzinho escondido no fim de uma viela de terra/areia que parece não querer ser encontrado, pois nem site tem, mas que contrário às expectativas é um lugar agradável e organizado. Ficamos sozinhos no dormitório para oito pessoas, de tão isolado que estávamos por lá. Além de nós o hotel tinha como hóspedes apenas alguns europeus que me pareceram alemães, amigos do dono, o Skip (não sei se ele chama Skip mesmo, mas é como eu chamava ele). Lá foi onde tomamos um dos pouquíssimos banhos quentes que encontramos nas Filipinas e comemos bem, muito bem. Gostaria de falar em especial de um prato chamado “Bruce Lee Chicken”, que teoricamente segue uma receita do próprio Bruce Lee, pois o pai do Skip foi aluno do lendário ator/lutador (tinha até foto deles na parede). Além do prato ser muito bom, degustá-lo foi o mais próximo que eu já cheguei de “conhecer” o Bruce Lee, um dos meus ídolos. Eu gosto muito do Bruce Lee e acho que é o dever de todo ser humano assistir Enter the Dragon. Sim, um dos meus ídolos é um maluco que enfiava porrada nos outros em frente a uma câmera, desculpe. Pensando bem eu não sou a melhor pessoa para avaliar o “Bruce Lee Chicken”, pois um prato com esse nome poderia ser até coração humano com molho de alcaparras que eu acharia delicioso. Enfim, foram bons momentos no Skip e por causa da chuva alegremente estendemos nossa estadia para dois dias. Aproveitamos para comer bem, relaxar e arranjar umas brigas (uma das informações anteriores é falsa).

Após esses dias de puro relax partimos de Maia para o ponto alto da nossa viagem Filipina, a ilha de Malapascua, o lugar onde o pôr do sol nunca decepciona. 

Um dos portos de Malapascua

Saímos cedo do Skip e pegamos um ônibus local, bem mais barato que os tuktuks, até o porto, uma pontinha no extremo norte da ilha. Porto esse que era na verdade um amontoado de pedra, barcos e gente. Apesar da falta de preocupação com a segurança dos passageiros e a latente desorganização até que o local funcionava direitinho a sua bizarra maneira, como quase tudo no sudeste asiático.

Após um tempo mínimo de espera pegamos nossa balsa, junto com locais e outros turistas, até a pequena ilha que fica entre Cebu e Ormoc que também são ilhas, mas são ilhas grandes. Não se confunda. Malapascua é uma ilha pequena. Toda vez que faço um texto sobre as Filipinas eu canso de escrever “ilha”. 

Malapascua é um pequeno paraíso árido, com vegetação rasteira e muitas rochas. Tudo isso banhado por águas azul turquesa. 

Da uma sacada no lugar

A maior cidade, quer dizer, a maior concentração de gente fica na parte sul da ilha, que é cheia de hotéis, resorts e restaurantes. A parte norte é mais deserta e tem as melhores trilhas e praias. Demora mais ou menos meia hora de uma ponta à outra da ilha a pé. Sei que repito muito isso por aqui, mas amigos, que lugar incrível. Não estava muito cheio, as praias eram lindas, o clima tranquilo e ainda tinham bons lugares para comer e beber.

Outro ponto importante – estávamos energizados e com a sensação de liberdade em alta. 

Ficamos 6 dias por lá, por isso não vou detalhar o nosso itinerário senão gastarei a sua paciência e meus dedos descrevendo inúmeras horas em que passei imóvel sob o sol, refletindo se o barulho que vinha do meu estômago era fome ou algum tipo de indisposição. Não, não vou fazer isso com vocês. 

O que tenho para dizer e merece destaque é (e aqui vou correr o risco de ser redundante) Malapascua é fora do comum. Passamos a maioria dos nossos dias na praia bem ao norte chamada de… na verdade acho que ela chama North Beach mesmo. Baita lugar lindo. Areia branquinha, água transparente (parecia de filme), pouquíssimas pessoas e um clima relaxado. Ficamos muito tempo lendo e jogando cartas à beira daquele lindo mar. Inclusive venho aqui dizer que tranca é um jogo injusto e criado com o exclusivo intuito de me irritar, pois perdi QUASE todas as partidas para a Marina. Digo “quase” pois ganhei a partida mais importante, a que valia tudo. Me recuso a comentar sobre os supostos chiliques que dei durante os jogos, inclusive se a Marina falar disso saiba que é mentira. 

Para chegar à praia do norte nós tínhamos que andar um pouco ou usar o meio de locomoção oficial da ilha, o mototáxi clandestino. Alguns moradores locais tem moto e, por alguns trocados, estão dispostos a te levar na garupa para qualquer lugar. E era isso que acontecia. E o melhor, como somos pão duros usávamos apenas um “mototáxi” para nós dois, então íamos até o nosso pequeno paraíso em um sanduíche do amor formado por mim, Marina e um filipino sortudo. Tempos gostosos demais. 

E um último ponto sobre esse cantinho abençoado de Malapascua. Ao lado da ilha fica uma vila, então ali podíamos ver os moradores aproveitando a praia, o que é algo meio único no sudeste asiático (vimos mais isso nas Filipinas). Normalmente os pontos turísticos são sempre povoados apenas por turistas gringos.

ruínas de um resort abandonado perto da praia norte

Basicamente todos os nossos dias em Malapascua foram gastos procurando algum lugar pra comer nas praias do sul e aproveitando o norte para relaxar. Ficamos em dois hotéis, pois fizemos reservas “picadas”. No primeiro e mais caro nosso quarto parecia um cativeiro. Era todo feito de bambu, pequeno, quente, sem banheiro e com uma quantidade absurda de areia no chão. Eu estava esperando o grupo Tigre da polícia civil arrombar a porta a qualquer momento achando que tinha uma situação com reféns acontecendo ali. Nosso segundo hotel era bem mais barato e gostosinho, mas eu não tenho nada de engraçado pra falar sobre ele, então mil perdões. 

Uma coisa peculiar sobre a ilha é que as crianças locais treinam cantar para turistas, mais especificamente a música tema do Titanic, esperado algum tipo de gorjeta, claro. Até aí tudo bem, o problema é que elas surgiam do nada, surgidas da areia em momentos inesperados. Certa vez estava eu lá curtindo o clima de uma pequena baía perto de uns restaurantes e do nada surgiram 4 crianças e começaram a cantar. Fiquei desesperado porque, bem porque eu sou eu, tenho problemas em chamar atenção e não sabia o que fazer, já que meu único pertence no momento era o shorts que eu estava usando, pois a Marina tinha ido comprar alguma coisa. Tentei avisar a molecada, mas eles continuaram a música e, ao acabar, ficaram bravos com as míseras moedas que eu achei no bolso. A vida é injusta.

A noite passeamos pela vila e descobrimos as crianças treinando a cantoria delas (com a mesma música, claro) em um karaokê local, a Marina até entrou na onda, cantando junto da janela do estabelecimento. 

Pôr do sol visto da trilha do farol (rimou)

Fora relaxar e comer, andamos muito por lá. Fizemos uma trilha rápida, conhecemos as vilazinhas da ilha e eu fiquei sem chinelo. E por que essa informação é importante? Oras, pois meu chinelo resolveu morrer no primeiro dia por lá, mas como sou brasileiro (e pão duro), me neguei a comprar um chinelo local que era bem ruim e resolvi andar descalço até chegar na Austrália, onde um amigo vindo do Brasil iria me trazer um novo par de Havaianas. O problema é que passamos por trilhas com pedras afiadas, locais com cacos de vidros e mais todo tipo de chão acidentado, e a Marina ficava bem brava que eu estava descalço, principalmente porque eu andava devagar. Mas até aí tudo bem, afinal meu pé é calejado, certo? Não. Eu pensava que era, mas a vida tá aí pra desmentir as verdades que contamos para nós mesmos. Uma noite saindo de um restaurante dei uma topada num degrau maldito, mas continuei andando, pois achei que nada tinha acontecido. Isso até sentir meu dedo um pouco molhado. Olhei pra baixo e ele estava inteiro vermelho, tinha conseguido arrancar um belo bife do meu dedão. E o melhor (ou pior), como lá o chão era 90% areia meu pé já estava a milanesa. Isso foi um saco , pois com medo de infeccionar a ferida eu andava igual o batoré da “Praça é Nossa” ou tinha que usar o pequeno chinelo da Marina, o que a deixava brava e me xingando a cada cinco minutos. Era melhor ter perdido o dedo.

Comecei esse texto falando sobre o pôr do sol em Malapascua e agora preciso me aprofundar no assunto, mas o problema é que não tem muito o que falar (ou eu não sei o que dizer), só que todo dia lá é um fim de tarde mais espetacular que o outro. É a combinação sublime daquele céu que fica inteiro rosa alaranjado com uma bola de fogo perfeita que se põe no mar. Todos os dias foram sensacionais, não dá pra falar “o pôr do sol do segundo dia foi mais caidinho”. Não. Confie em mim ou viaje até Malapascua e veja você mesmo. O mais legal é que sempre estávamos em lugares diferentes durante esse momento mágico do dia: em uma praia de pescadores locais, no meio de uma trilha perto de um farol, na incrível praia norte, na legal mas nem tão incrível assim praia sul, no restaurante italiano que tinha uma pizza barata e boa de dividir e em Kalanggaman. Kalanggaman? O que é isso?

Vila de pescadores

Kalanggaman é uma ilhota mágica que fica perto de Malapascua e com certeza é um dos lugares mais bonitos que conhecemos na viagem. Mas como já escrevi demais e ainda tem muito para falar sobre nosso acampamento a base de salgadinhos radiativos por lá vou dividir esse post em 2, fique esperto e não deixe de perder. 

Beijos Quentes

Filipinas ou o capítulo da exploração marítima (TAO)

O tipo de lugar em que dormimos nas Filipinas

Sejam bem-vindos meus queridos companheiros de sofrimento. Colegas de assento nesse ônibus desenfreado que é a vida. Enquanto nossa parada final não chega deixo vocês com mais um amontoado de palavras para entorpecer a alma e, com muita sorte, trazer um sorriso para esses belos rostos.

Terminei o último texto quando chegamos em El Nido, uma cidade bem turística ao norte da ilha de Palawan. Supostamente um lugar incrível, um dos mais bonitos do mundo e etc… Acho que exploramos a região de “forma errada”, pois não achei El Nido tudo isso. Calma lá, claro que é um lugar lindo, mas nosso parâmetro para coisas bonitas já estava bem alto (e ainda aumentaria depois de El Nido), mas não me surpreendi tanto e desconfio que a culpa disso caí no ombro das hordas de turistas que assombram o lugar. Para ser justo, tivemos um único dia bem gostoso por lá – foi quando alugamos uma scooter e deslizamos por estradinhas à beira-mar até praias afastadas. Estar na estrada em um dia de sol enquanto desbravando vilas locais e passando por trilhas de terra/areia foi incrível. Um daqueles momentos da viagem de uma pulsante sensação de liberdade. Talvez a perpetuação do espírito “motoqueiro” que surgiu em mim no Vietnã. Claro, vale lembrar que tudo isso foi feito a menos de 80 km/h em uma motinho com a potência de um secador de cabelo, mas até o Motoqueiro Fantasma começou de baixo, então está valendo. 

Vai, pode rir, mas que é legal explorar uns países do sudeste asiático de motinho, é sim. 

Nuli Beach

Aliás nesse dia visitamos três praias diferentes. Na primeira, Nuli Beach, populada por surfistas, tive um encontro com um filipino que surgiu como um fantasma de umas pedras com uma arma (que parecia um arpão) na mão. Foi uma verdadeira aparição, como se um fantasma do universo de Waterworld estivesse se comunicando comigo. Ele se teletransportou para um lado da praia que só tinha eu (o lugar estava bem vazio), fez o movimento universal de “joia”em minha direção e desapareceu novamente. Certeza que foi algum Deus local dando seu aval para minha nova fase motoqueira. Obrigado, nobre espírito. 

Em uma das outras praias que visitamos, Nacpan, a Marina tomou um caldo incrível que está registrado em vídeo, recomendo conferir o Instagram do @sejogaai. Essa era uma praia mais cheia, mais “da modinha”, com diversos turistas sendo servidos em seus guarda-sóis a todo momento por Jarbas filipinos desesperados por uns dólares. Tinha potencial para ser o local mais bonito que visitamos no dia, mas o excesso de europeus estragou um pouco a mágica do lugar. Mesmo assim valeu a pena a visita, principalmente para ver a Marina quase ser levada por Netuno (não que eu gostaria que ela fosse embora para as profundezas, pelo amor de deus, é que foi engraçado mesmo). 

E na última praia visitada, a mais perto da cidade e do nosso hotel, curtimos um pôr do sol maravilhoso. Olha, não foi nada mal para um segunda-feira. Oras, como eu sei que era segunda-feira? Porque eu me lembro claramente de olhar, com o vento na cara, o sol já cansado no horizonte enquanto passávamos por uma estrada lotada de coqueiros e pensar “coitado de quem nunca começou uma semana assim”.

Pôr do sol na praia que esqueci o nome

No nosso outro dia em El Nido fizemos um dos famosos tours que tem por lá. Eles dividem as atrações por tours chamados de A,B,C e D. Sei lá se tem o tour E. Sei que fizemos o tour C, um dos mais recomendados, e foi bem mais ou menos. Visitamos lugares espetaculares, mas que estavam sempre cheios. Não dava pra admirar a paisagem com 376363 turistas por todos os lados. Nesse dia vi mais turista que mar. Longe de mim dizer que foi um dia ruim, mas de novo, perto do que já tínhamos passado (e ainda passaríamos), não foi espetacular. 

Bangalôs da TAO

E nesse mesmo dia tivemos nosso encontro introdutório para a TAO. 

Mas o que é TAO? Uma unidade internacional de espionagem? Uma seita secreta de surfistas motoqueiros? Um festival de música focado apenas na marimba? 

Não. Nada disso. Calma, eu explico.

TAO Experience é uma expedição. Ou um “mega passeio”. Algo nesses moldes. O que acontece é: essa empresa, a TAO, faz um tour de barco entre Palawan e Coron (grandes ilhas Filipinas) de 5 dias. Nesse meio tempo essa expedição para em diversas ilhotas pelo caminho e os participantes conhecem e dormem em lugares paradisíacos e “desertos”. Resumindo, é um baita negócio legal. E a nossa expedição partiria no dia seguinte, mas antes precisávamos participar desse encontro para acertar detalhes pendentes, conhecer os outros membros e falar com a tripulação. É tudo muito bem organizado e explicado. Vale a pena.

O grupo do nosso barco era bem diverso. Cerca de 20 pessoas de várias idades e países diferentes. Alguns tiozões holandeses, jovens australianos, umas canadenses, uns senhores ingleses e, claro, os brasileiros. Nós éramos seis, eu, a Marina e o Edgar e o Enzo, que já sabíamos que encontraríamos lá, e de lambuja conhecemos mais dois, a Nat e o Pedro.  E brasileiro tem aquele negócio: é cheio das panelinhas. Nós, cansados de interagir só com gringos, abraçamos o “grupinho” com felicidade. Não que não conversássemos com outras pessoas, longe disso, mas é bom dar uma papeada em português de vez em quando.

Naufrágio

A expedição em si foi surreal, vou resumir um pouco toda a experiência. Foi uma sensação incrível de desbravar ilhas Filipinas, fazer snorkels inesquecíveis, conhecer praias de água cristalina e areia branca, fazer cliff jumps de 10 metros, nadar com navios afundados da segunda guerra e dormir (quase) sob o luar em paraísos perdidos. Foram tantos locais bonitos que ficamos até anestesiados. Sério, é triste isso, mas até praias lindas podem virar rotina e o espetacular virar normal. Talvez isso tenha sido um indicador que nossas vidas estavam legais demais e o “foda” estava sendo a média de nossas experiências. Ou talvez fosse um indicador que nós já estávamos mortos por dentro e nem o mais belo canto do nosso planeta poderia nos emocionar. Talvez eu seja mais compatível com a segunda opção, mas a Marina não tem essa alma negra, então não sei qual a resposta correta.

Pôr do sol em uma ilha deserta

No fim a TAO é uma experiência rústica, mas sem ter são rústica. Você passa perrengues como dormir em cabaninhas de bambu ao relento, tomar banho de canequinha, ficar o dia no barco, estar sempre molhado e ter pouca roupa disponível. Mas, ao mesmo tempo, tem toda uma tripulação trabalhando para você, base camps com o mínimo de estrutura possível e comida e bebidas a quase toda hora (pelo menos bebidas). Vale a pena. Vale ainda mais se acontecer de você passar seu aniversário em uma praia surreal e com um naufrágio japonês ali perto, esperando para ser visitado. Foi o que aconteceu comigo e foi foda, mas não sei se é tão foda quanto aquele churrasco que termina com o choro de um velho amigo e o vômito de outro. Amizades realmente importam, veja só.

Deixo aqui a dúvida no ar e algum outro caro companheiro que passar o aniversário nas Filipinas pode responder de uma vez por todas o que é melhor: ilha perdida ou churrasco com Crystal?

Todos os brasileiros, menos eu, passaram mal antes ou durante a expedição (a Má passou logo no primeiro dia, mas melhorou), então nosso grupo estava sempre cambaleante durante curtição. Salientei esse ponto apenas reforçar que não sou chamado de “Wolverine brasileiro” à toa. Juro, muitas pessoas me chamam assim.

Puxei esse assunto relacionado à comida e as nossas sensibilidades gastro-intestinais pois esse foi um tópico que, principalmente durante a TAO, foi razão de um pico de ufanismo e saudades do Brasil. Acho que o excesso de peixe e vegetais, fora certo desgaste normal da viagem, me fizeram sentir saudades de qualquer comida do Brasil. Churrasco, coxinha, requeijão, brigadeiro, pão na chapa. Até aquele bife duro do quilo mais barato perto do trabalho, tudo deu saudades. Aliás, acho que você, senhor privilegiado por poder comer um arroz com feijão e farofa a hora que quiser, deveria valorizar mais a comida brasileira no geral. Durante meus tempos de reflexão marítima tentei tecer uma teoria do porquê nossa culinária é a melhor do mundo, mas percebi que não tenho argumentos suficientes para provar com fatos o que eu sei que é verdade dentro do meu coração. Meu único argumento é: confia em mim que eu sei do que estou falando. Comida brasileira é foda.

E digo mais, podem me oferecer qualquer café da manhã gringo do mundo, sei que tem muito leitor aqui que é fã de um bacon com ovos ou um “english breakfast”, mas vocês me desculpem, nada é melhor que o velho pão na chapa e o misto da padaria, daqueles que já carregam o gosto de tudo que passou na chapa durante a semana. Isso mais um Nescau gelado ou um pingado é imbatível. Estou aberto a embates públicos com qualquer um que queira me refutar. Embates físicos e/ou orais, que fique claro

Outro ponto onde o ufanismo apertou o calo durante nossa expedição foi em relação a comunicação com europeus no geral.

Peguei um certo ranço dos gringos durante esse período, sempre se maravilhando por tudo, com uma ingenuidade e humor um pouco “bobos”. Sei que isso é tolice e provavelmente um reflexo de como precisávamos de um descanso, afinal conseguir se maravilhar é algo legal e que deve ser valorizado. Mas, como estávamos com nosso humor mais sombrio, preferimos o cinismo e a inigualável capacidade brasileira de criticar tudo. Juro que isso está curado agora.

Galera da TAO!

E, para completar as observações sobre a TAO, ficam os dois últimos destaques: o lechon mal cozinhado que quase nos matou e Brett, o explorer. O lechon nada mais era que um porco no rolete que a tripulação resolveu fazer como surpresa pros membros da expedição, mas deixaram apenas duas horas em uma brasa baixa e o bicho estava completamente cru. Foi bem no último dia e nosso desejo por carne foi apenas iludido por esse leitão maldito. Quanta decepção. Brett, por sua vez, era um australiano ímpar com um sotaque mais ímpar ainda. Um homem de meia idade, corpulento e meio gordinho, que se vestia como um explorador. Ele gostava de se envolver nas atividades da tripulação (tipo ajudar eles a cozinhar, o que é bem legal da parte dele) e ficava de forma bizarra sempre pelos cantos, nunca realmente interagia com o resto do pessoal. Na noite que fizemos uma fogueira, por exemplo, estava lá um grupo trocando ideia perto do fogo numa boa, do nada uma luz se acendeu na escuridão, todos nos assustamos com uma intervenção tão impactante vinda das sombras. Era o Brett, sentado sozinho. Ele resolveu ligar sua lanterna, ir até o fogo, revirar uns pauzinhos para atiçar as chamas e aí o que? Invés de ficar com a galera conversando ele voltou pro seu canto escuro, sentou e apagou as luzes. Foi dramático e foi lindo, quase como o Batman sendo abraçado pelas trevas. Brett, seu doce príncipe, nunca mude. 

Nossa fiel embarcação durante esses dias

Foram 5 dias inesquecíveis com a TAO. A aventura de uma vida, mesmo. Meu único arrependimento é saber que fizemos uma coisa tão incrível com um humor não tão incrível assim. Estávamos um pouco cansados e abalados por experiências recentes, com a mente a mil por hora e a alma um pouco envenenada. Mesmo assim foi incrível, mas eu explico melhor essa nossa condição “estranha” no próximo post.

Beijos Quentes

Filipinas e a preguiça em Port Barton

Olá, guerreiros e guerreiras à deriva no mar cósmico.

Venho mais uma vez como um buraco negro sugando tudo que existe para o vácuo existencial, inclusive a sua energia profissional. Deixe os compromissos de lado, coloque o celular no mudo, mande o chefe calar a boca e curta mais um relato da viagem. 

Da última vez contei sobre a jornada sem fim para chegar até as Filipinas, mais precisamente para Port Barton. Continuo deste ponto.

Port Barton é puro relax

Port Barton foi um lugar de descanso. Uma praia bem da gostosinha, não necessariamente deslumbrante, mas vizinha de locais legais e com um clima muito agradável. Uma vila simples, sem grandes atrações e sem grandes estruturas. Não é um lugar cheio, tem um clima relaxado, bons bares, restaurantes bacanas, areias confortáveis e convidativas em dias preguiçosos. Se tivéssemos pegado 4 dias de sol por lá teria sido perfeito, mas na verdade foram 2 dias e meio de chuva e tempo ruim, e o resto de deslumbramento do astro rei. O nosso ínicio lá foi complicado, pois foi quando o tempo ruim reinou e o humor da dupla estava inconstante, para dizer o mínimo. Além do cansaço físico veio uma onda de cansaço psicológico acompanhada de questionamentos sobre a viagem. Fato que rolou principalmente com a Má. Mas passou e logo ela começou a se sentir melhor.

Coincidentemente foi quando o tempo abriu e pudemos finalmente curtir um dia preguiça nota 9 nas Filipinas. Dia esse que foi coroado com uma macarrão show de bola do nosso restaurante favorito da vila, o Gorgonzola (foi o único que frequentamos, pois a Má gosta de repetir lugares). Nesse dia comemos massa, mas lá é um lugar famoso por ter uma pizza estupidamente grande. Uma coisa que parece meme de internet, mas que tá ali acontecendo na sua frente e você só se sente grato por presenciar. Não sei se o dono errou as medidas do forno a lenha na hora de construir e agora tem que fazer pizzas enormes para compensar ou algo do tipo, sei que é grande, é bom e existe. Enfim, se um dia estiver por Port Barton vá ao Gorgonzola. 

Olha o tamanho disso – quase sem recheio porque somos mão-de-vaca

Foi em Port Barton que conhecemos uma dupla de irmãos brasileiros, o Ed e o Enzo, os dois muito gente boa. Ali nas areias relaxantes e no clima ébrio da vila nasceu uma parceria incrível, afinal os dois foram nossos companheiros por quase todo o resto das andanças pelas ilhas do Pacífico.

Foram tempos de pouca esforço, apesar de até termos ido andando para uma praia vizinha. Não era nada demais. Voltamos. E pegamos chuva. Mas enfim, como eu dizia antes de perder o fio da meada: Port Barton foi um lugar para se afundar na preguiça e abraçar o clima zen que alguns locais das Filipinas podem oferecer. Caso eu soubesse que outras ilhas/praias seriam tão mais cheias teria ficado muito mais tempo no nosso paraíso regado a reggae, cerveja quente e pizzas descomunais. Minha dica para os viajantes é: aproveite Port Barton. Quer dizer, se você quiser relaxar né, pois se quiser muito agito aí você se vira e pesquisa um lugar melhor. 

Uma casinha perdida no canto da praia

No nosso último dia por lá demos uma explorada na praia e compramos coco de duas menininhas que aparentavam morar em um casebre na ponta menos turística da vila. Também meio que participamos de uma festa de aniversário local de um avô de 60 anos que rodava numa carcaça de aparência de uns 90. Fomos convidados para a celebração apenas porque estávamos andando pela areia e a família, empenhada em um churrasco com peixe pescado na hora, foi com a nossa cara. Devem ter gostado do semblante simpático da Marina, porque eu tenho jeito de bad boy.

Acho que Port Barton está bem resumida por aqui. O que mais teve de significativo foi isso, a superação dos obstáculos mentais e o descanso em um lugar estranhamente charmoso. 

Um dia bom nas Filipinas

Depois disso pegamos o transporte para El Nido, nosso próximo destino em Palawan (esse é o nome da ilha em que estávamos). Mas calma lá, não foi um transporte qualquer, não amigos. Quem me dera.

Foi a Van da Morte.

Uma jornada inesquecível em uma singela máquina de tortura sobre quatro rodas. Entre curvas fechadas e aceleradas insanas do condutor, nada mais fizemos do que tentarmos sobreviver sem esparramar parte das nossas tripas pelo veículo. Quer dizer, a Marina falhou na missão e deixou metade do peso dela em vômito pro dono do automóvel. Ela regurgitou tudo em um saquinho frágil que quase não aguentou o árduo trabalho de conter aquela massa nojenta, porque de novo, foi muita coisa. Quando as luzes da van se acenderam, em uma das paradas, e eu vi o tamanho do “serviço” da minha esposa repousando ainda quente em seu colo não pude conter um riso nervoso. Aquele riso de quem sabe que se a sacola plástica vermelha não desse conta do recado ia ter vômito pra tudo quanto é lado. Felizmente nessa mesma parada nossa heroína de estômago frágil se desfez do pacote maldito e seguimos cambaleantes até a rodoviária de El Nido. Chegamos depois de três horas, semi-vivos, mas chegamos. As estradas e os motoristas do sudeste asiático são uma aventura à parte.

El Nido é uma cidade estranha, parece apenas uma pontinha de concreto perto de uma praia com algumas ramificações em outras direções, como um vírus se espalhando. Nada do charme ou “vibe gostosinha” tão presente nas cidades litorâneas, mas com uma horda de turistas. Lá é um local que está ficando muito popular entre viajantes. As grandes belezas estão em lugares próximos, já que a cidade fica quase no extremo norte da ilha de Palawan, e é perto de diversas outras ilhotas paradisíacas.

O clima único das praias Filipinas

\PARAAAAAAAAAAA PARAAAAAAA PARAAA – Kleber, João

Mas El Nido  e nossas aventuras pelas estradas Filipinas são temas do próximo post. Aguarde, leitor ansioso.

Beijos quentes

Filipinas ou o capítulo da maratona de transportes

Olá, bravos leitores.

Venho mais uma vez com histórias da porção oriental de nosso humilde planeta, de terras antigas com costumes misteriosos, para preencher o vazio de suas caminhadas online. Na verdade conheço meus leitores e sei que a vida os abarrota de tarefas, pois são pessoas importantes e trabalhadoras, por isso desculpe por mais essa distração de seus verdadeiros objetivos. Os mais prudentes já classificaram em suas mentes esse blog como lixo virtual e estão longe das garras do demônio da procrastinação. Para os infelizes que ainda passam os olhos por essas linhas, chegou mais um relato.

Uma das coisas que mais vimos ao chegar nas Filipinas – transportes!

E esse demorou. Talvez um dos maiores intervalos de tempo desde que abri esse canal de comunicação com o mundo. E o pior é que nem tenho um bom motivo para não ter entrado em contato antes, apenas fui atacado pela boa e velha preguiça. 

Quando saímos do Camboja eu já imaginava  que estávamos prestes a enfrentar uma jornada para chegar ao nosso destino nas Filipinas e, meu Deus, como eu estava certo. Usar o termo epopeia não seria exagero (na verdade seria um uso completamente errado da palavra, mas dá o tom dramático correto), pois me senti como um antigo herói grego atravessando mares desconhecidos e enfrentando perigos diversos em prol de uma grande causa. Só que no nosso caso não teve nenhum perigo a ser enfrentado e nossa travessia marítima se deu pelos ares, um método de locomoção um pouco mais rápido do que a rapaziada grega estava acostumada. A grande causa em questão era nosso descanso sob coqueiros em uma praia de areias brancas e água cristalina. 

Porém chega de floreios, vou descrever aqui todos os passos dessa nossa aventura pelos transportes asiáticos.

Busão leito bem honesto no Camboja

Saímos na noite de 20 janeiro de Siem Reap. Pegamos um ônibus leito e às 5 horas da manhã do dia 21 estávamos em Phnom Penh, capital do Camboja. Nos dirigimos até o aeroporto e esperamos até às 14 para nosso voo. Calma que é agora que a coisa começa a ficar interessante. O avião saiu no horário e chegou na escala, Kuala Lumpur, às 18 horas. Esperamos por lá (comendo um McDonalds, porque somos filhos de Deus) até o embarque, às 20h. Aí foram mais quase 4 horas até Manila. Chegamos nas Filipinas perto da meia noite do dia 22. Você está confuso com tantos números e datas? Calma que tem mais. Dormimos, ou quer dizer, tentamos dormir, no aeroporto para economizar uns trocados. Ainda tínhamos que enfrentar mais um voo, mas ele só aconteceria às 17h do dia 22 (era de madrugada). Ou seja, muito tempo pra matar no incrível hub aéreo de Manila.

Nossa cama no aeroporto

Depois de muito rodar pelos terminais em busca de um lugar minimamente decente para dormir, encontramos uma espécie de chiqueirinho para passageiros rejeitados e perdidos. O campo de refugiados do local. O canto da turma de longa espera. Ali podíamos deitar em qualquer lugar (cadeiras duras ou chão) e dormir. Já eram 4 da manhã, por isso acatamos o chão sem o menor embaraço. Esticamos uma toalha e lá fomos nós para o abraço mais desajeitado e incômodo que Morfeu já me deu. Acordei lá pelas 8 horas da manhã com um barulho estranho e percebi que todos nossos colegas de chiqueiro tinham se mudado para um outro canto. A equipe de limpeza estava em ação ali do nosso lado e provavelmente não conseguiram nos acordar. Nós mudamos, naquele ritmo zumbi de quem não conseguia dormir bem há quase 48 horas, só para perceber que não deveríamos ter saído do lugar, pois aí a turma resolveu limpar o canto que tínhamos acabado de escolher. Voltamos para nossa região e dessa vez nos ajeitamos em cadeiras. A Má conseguiu pegar no sono e eu fiquei lendo. Depois disso achei que as coisas ficariam mais calmas, mas depois de umas duas horas percebi que estavam preparando uma missa (?) ali no nosso querido local. Isso mesmo, uma missa no aeroporto, e ainda convidaram a Marina para falar no púlpito. Era hora de dar tchau, sair da nossa bolha de proteção e finalmente desbravar os mistérios da rodoviária glorificada. Já era quase meio-dia então fomos comer, fazer check in e esperar o avião que partiria no período da tarde. Depois das horas mais arrastadas da minha vida finalmente embarcamos na última perna aérea da jornada e 1 hora depois chegamos em Puerto Princesa, que era, bem, um pouco longe ainda do nosso destino final. Como chegamos tarde arranjamos um hotel meia boca e capotamos. Logo cedo, na manhã do dia 23, partimos do terminal rodoviário da cidade, que mais parecia uma feira a céu aberto, e 3 horas de van depois, aí sim, aí sim chegamos em Port Barton, onde curtiríamos uma praia pelos próximos quatro maravilhosos dias sem traslados ou deslocamentos. Quando finalmente cai duro na cama do nosso quarto só conseguia escutar um remix estranho do tema da vitória do Ayrton Senna com Halleluya tocando em loop na minha cabeça. 

Missa(?) no aeroporto

Ufa. Cansou escrever isso tudo. Quase 3 dias para chegar de um lugar a outro. Claro que as Filipinas serem um país composto por mais ilhas do que gente não ajudou muito nessa história. 

Mais uma vez reflito: como era paciente o povo que saía em uma banheira de madeira pelo mundo, só para chegar em algum lugar uns bons 20 meses depois. Por isso que os navegadores e colonizadores cagavam tudo quando achavam terras novas, imagina o tanto de energia que esse povo não acumulava durante a viagem. Energia mal direcionada dá nisso. Quem sabe uma yoga ou um tai chi chuan no navio não tivessem deixado essa galera mais relaxada. Muito me surpreende que um marinheiro mais sagaz não tenha chegado no Bartolomeu Dias, Colombo ou Pedro Álvares e dado a letra “o capitão, o pessoal já tá meio ensandecido de ficar muito tempo aqui, por que o senhor não puxa um alongamento ali no convés só para dar uma descontraída?”.

O mundo poderia ser outro caso isso tivesse acontecido. 

Bom, tem só um detalhe de toda essa narrativa migratória que eu mantive escondido sob o manto escuro e frio da vergonha, uma peça vital de informação que demonstrará que não apenas o destino e os meios de transporte asiáticos foram os culpados pela nossa demora para chegar até Port Barton, pois nós também tivemos nossa parcela de culpa. Para entender como isso aconteceu é necessário voltar alguns meses atrás, para quando estávamos na Tailândia, mais precisamente em uma noite em que chegamos embriagados no quarto após uma noite de diversão de qualidade. Foi nessa madrugada, lá pelas 3 da manhã, quando estávamos encharcados de álcool e com poder de raciocínio muito do impedido que resolvemos ser uma boa hora para comprar as passagens da nossa então futura ida para as Filipinas. O resultado disso foi que ao invés de comprarmos um voo para às 5 da manhã eu, Rafael, comprei um voo para às 5 da tarde, um erro que nos deixou mais umas 12 horinhas no aeroporto. Tranquilo. Acontece. Estou com a consciência limpa. 

Só para deixar o post mais poético

E sim, esse capítulo do blog foi apenas sobre o nosso deslocamento insano entre Camboja e Filipinas. Se ele foi cansativo de ler  imagine como foi na vida real. 

Prometo que o próximo relato será mais interessante. Ou não.

Beijos quentes

Camboja ou o capítulo do voluntariado – Parte 2

Nossa galerinha

Do rio mais lamacento e da pradaria mais poeirenta surge, como um bálsamo para dias difíceis, mais um capítulo deste blog sobre o Camboja. Pode respirar aliviado(a), limpar a lágrima que escorreu nesse rostinho lindo e comece a ler. 

No post anterior falei sobre como era a vila, a escola em que ficávamos e o potencial de destruição dos nosso “alunos”. Agora vou falar mais sobre nosso dia a dia lá. Para os que perderam a parte 1, clique aqui.

Nossa rotina era mais ou menos a seguinte: acordávamos umas 7 da matina, tomávamos café e das 8 às 10 dávamos aula pra turma da manhã. Essa era a molecada mais carente, os que dormiam lá pois a situação em casa era extrema (pais alcoólatras, falta de comida, falta de água, etc…). Eles não iam para a escola pública da vila e se ficassem em casa teriam que trabalhar. Eram um pouco mais “atrasados” que o resto das crianças em inglês e bem distraídos, mas no fim acabamos nos apegando muito a eles, afinal estavam sempre lá com a gente (para o bem e para o mal). 

Parte da turma “da manhã”

Depois disso tínhamos um tempo de brincadeira e almoçávamos (as crianças também, o Rady alimenta as que ficam por lá). Depois, das 2 às 4, começava a turma da tarde, uma classe bem mais cheia, formada por toda criançada que chegava da aula na escola pública. Normalmente essa classe fluía melhor, apesar de ter mais bagunça. Meu Deus, como é difícil ensinar. E como é difícil ensinar sem ter uma língua base em comum. Passar conceitos é quase impossível. Às vezes o Rady nos ajudava, mas normalmente nossas aulas eram pautadas em vocabulário, coisas que conseguíamos transmitir com desenhos e mímicas. Certa vez tentei mostrar o mapa-múndi para elas e parecia que eu estava falando da teoria da relatividade. Quando tentamos ensinar os conceitos de “hoje, ontem e amanhã” também. Ser professor é saber lidar com a frustração. Aliás é muito legal quando você vê uma criança aprendendo algo que ela tinha dificuldade de assimilar, mas eu não tenho a paciência nem a nobreza para passar muitas vezes por esse processo, eu curtia os que pegavam tudo mais rápido. Um salve para os verdadeiros professores do mundo.

Depois dessa aula tinha mais um momento de brincadeira, normalmente eu jogava bola com as crianças, ou melhor, jogava a versão kamikaze de futebol que elas praticam. Até em mim elas davam carrinho e porrada, pensem em um jogo com raça.

A porrada comia solta nesses jogos de fim de tarde

Mesmo que tentássemos ficar tranquilos e, por exemplo, ler um pouco, não dava. A molecada estava sempre animada e eles precisavam de muita atenção. Aparecer com o celular em público era o mesmo que aparecer pintado de ouro e com duas bolas de sorvete na cabeça – o pessoal voava em cima.

Após a última bagunça do dia era banho e cama.

Mas calma lá, e o banho? Bom, até tinha um chuveiro, mas a pressão da água era a mesma do xixi do meu avô quando ele tinha 87 anos. Não dava nem pra molhar o cabelo. O que restava era usar uma torneira secundária e se virar no banho de canequinha. O toalete também não tinha descarga, claro. Era tudo na base do baldinho. As crianças eram bem encardidas, com problemas de pele e piolho, mas adoravam tomar banho, mesmo que não o fizessem “direito” (elas só se molhavam), pois em casa elas não tinham água assim. Nunca pensei que um chuveiro pudesse simbolizar tanto distanciamento social. Certo dia compramos suprimentos de higiene para todos, ensinamos a escovar os dentes e demos um banho bem dado na turma, com shampoo e tudo. Eles adoraram. 

Aparato novo em mãos

Enfim, a semana seguia mais ou menos assim, com nossas aulas um pouco desajeitadas no começo, mas depois em um bom ritmo. Eu era meio maníaco e queria deixar tudo preparado, mas depois saquei que além das aulas estávamos lá por outros motivos também, e nem sempre a classe iria prestar atenção ou entender completamente a matéria.

O tempo todo seguiu mais ou menos como o descrito, muita atenção para as crianças, um pouco de falta de paciência em dados momentos, nenhum ou pouco espaço privado e uma tremenda raiva de ter perdido tempo com a porra de uma série chamada Mansão Hill ou algo assim. 

Fizemos uma vaquinha para a escola, que foi um sucesso (garantiu um poço novo de água e um terreno para plantio)  e um baita esforço de criação de conteúdo da Má. Aliás ela que fez tudo dar certo. Parabéns pra ela e muito obrigado pra quem ajudou de alguma forma! A Marina também pegou piolho das crianças, informação importante. 

No fim aprendi a lidar melhor com a carência da meninada e já abraçava todos sem parecer um robô de outro planeta. Mais uma conquista dessa experiência. 

As crianças agradecendo a quem doou

Fora aulas, brincadeiras, jogos de bola e etc… ainda fomos convidados pra dois casamentos, cada um em uma semana. Aliás de Novembro a Março é temporada de casamentos no Camboja, pois depois todo mundo tem que trabalhar nas plantações de arroz. O primeiro casório não foi notável, ficamos pouco e depois fomos tomar uma com a família do Rady em uma espécie de piquenique em um terreno em frente de onde ele morou quando criança. Essa parte foi gostosa, tomamos umas cervejas com uns cambojanos e não entendi nada da conversa deles. Também não parava de chegar gente, era pessoa saindo do mato, pessoa chegando de moto, de bicicleta, etc… uma noite interessante. Foi lá que nos ensinaram que toda vez que alguém vai beber é necessário brindar. Toda vez. TODA. É legal no começo, mas depois enche o saco. Não sei se isso é costume mesmo ou eles estavam zoando com a gente.

Eu fui de calça de trilha e tênis no casamento. E eu ainda me arrumei para esse

O segundo casamento aconteceu no vizinho da escola. Foi aí que descobrimos que as festas duram mais de um dia aqui, e que o som da cerimônia começa 5 da manhã, uma beleza. E a vila pode ser a mais pobre do mundo, mas aqui eles não economizam em som não. São umas 15 caixas gigantes empilhadas uma em cima da outra, como uma montanha de decibéis e ódio. E eles não deixam o volume moderado, é aquele volume tão alto que estoura tudo. Ninguém tá nem aí pra qualidade, o negócio é propagar o som pelo mundo. Música de festa, música de cerimônia, discurso dos sacerdotes, tudo passa por essas caixas da destruição. Foram dois dias seguidos com música no último volume desde a madrugada. Pelo menos aproveitamos mais esse casamento. Vi de perto a bagunça que é a festa. Realmente um evento comunitário, com a vila toda se juntando, comendo, crianças correndo, bichos passeando no meio de tudo, poeira, etc… um caos dos mais divertidos. Inclusive sequestraram a Marina pra colocá-la em um vestido e maquiagem tradicionais. O problema é que enquanto ela estava nesse processo um molequinho muito pentelho (nunca tinha visto antes) grudou em mim. Toda paciência que tive com os alunos não tive com ele e quase joguei o figura no fosso (errado demais, eu sei. Desculpe criança pentelha). Essa festa ainda aconteceu na nossa última noite lá, então os alunos pediram pra dançar com a gente. Foi uma cena engraçada (para não dizer outra coisa), baita technera rolando, um monte de criança correndo e se jogando na terra e eu e a Marina no meio. Isso em um casamento numa vila Khmer no meio do Camboja rural. A vida pode ser lindamente aleatória às vezes.

Marina trabalhada no tradicional e eu…bem..melhor deixar pra lá
Bagunça na rave casamento

Fora nossa vida no campo ficamos uns 4 dias em Siem Reap, uma cidade bem gostosa e barata pra se embriagar. Achei chopp por 2 reais. 

As ruínas são demais 1

Claro que visitamos o Angkor Wat e outros templos do complexo de ruínas. Uma experiência inesquecível para quem gosta desse tipo de coisa. Templos budistas e hindus “mais antigos que o Brasil”. Muitos sendo devorados pela natureza. Visual incrível e ainda mais legal se você é familiar com Uncharted, Tomb Raider e Indiana Jones. Fomos dois dias para o complexo, um de bicicleta (quase morremos com o calor) e outro de moto. Recomendo fortemente. Se você não tem muita noção do que estou falando dê um Google.

As ruínas são demais 2

Nosso dias por lá também foram marcados pelo encontro com um casal de amigos, o pessoal do @gemeosnamlchila. Família incrível que viaja na maior parceria. São mais incríveis ainda pois acharam no mercado local uma peça gigante de mozzarella, e meus amigos, vocês não sabem como um queijo bom faz falta depois de muito tempo de Ásia, mesmo que um “simples” mozzarella. 

Molecada vai deixar saudades

Recomendo que vejam os destaques do Instagram da Marina (@sejogaai) para entender melhor sobre nosso tempo no voluntariado, a história do Rady e até do Camboja no geral. 

Boa semana, não assassinem quem não mereça.

Beijos quentes.

Camboja ou o capítulo do voluntariado – Parte 1

Pôr do sol nos campos da vila

Do calor, da sujeira e da poeira eis que surge mais um episódio de alegria em suas vidas. Sim, amigos, está começando mais um capítulo do blog mais exclusivo do Brasil

Esse relato é sobre a experiência mais impactante que tivemos no ano, quem sabe na vida. Falando em ano, como está o seu até agora? Sei que no mínimo está sendo agitado, pois o mundo parece uma bagunça no geral. Mas não aquela baguncinha agradável, aquela baguncinha que começa como um churrasco despretensioso e termina com um nível muito além do recomendado de Velho Barreiro consumido, “Coração Sertanejo” no som e um revival da banheira do Gugu na piscina. Não. As coisas estão mais pro estilo “o tio voltou bêbado de novo do forró e está violento” de bagunça. Nada agradável. 

Será que algum lugar do mundo está legal no momento? Quer dizer, eu  passei por vários lugares legais, não tenho do que reclamar, mas eu não moro neles e sei que a maioria (senão todos) tem sérios problemas socioeconômicos. Vira e mexe me sinto culpado por estar visitando e me divertindo em um país com qual não concordo com políticas ou pior, está ou esteve envolvido em alguma atrocidade. Mas se eu fosse barrar lugares da nossa lista de viagem por isso quase não sobraria pra onde ir. Por exemplo, não fomos pra Myanmar por causa do massacre recente de muçulmanos, mas fechamos os olhos pra várias outras coisas – nada como uma dose diária de hipocrisia. Acho que esse tema rende um post em si, posso continuar outro dia.

Mas vamos falar de coisas mais leves,  como a guerra no Camboja e uma população quase que totalmente dizimada.

Calma, brincadeira, teremos pontos de alívio cômico nesse capítulo.

Caso vocês não lembrem o último capítulo terminou conosco saindo do Vietnã após a festança glacial em Ha Long Bay e indo pro Camboja, em direção ao nosso trabalho voluntário.

Eu estava nervoso, vou confessar. Pra variar criei uma pressão desnecessária sobre o fato, me preocupando se realmente conseguiria ensinar e ajudar essas crianças (ia lá dar aula de inglês). Além disso era uma situação muito fora da minha zona de conforto, teria que ter um nível de envolvimento com outros que quem me conhece sabe que não é meu forte. Enfim, fomos encarar.

A rua principal do vilarejo

Já vou adiantar aqui que foi uma experiência maravilhosa, daquelas de mudar a vida mesmo. Um soco de realidade. Eu sei (acho) que todo mundo do grupo restrito de leitores do blog é instruído e tem noção das diferenças sociais que existem no mundo, dos nosso privilégios e facilidades. Eu também sabia disso tudo e achava que conhecia da vida. Mas estar lá é diferente, é a materialização de um discurso interno que até o momento era só isso mesmo, um discurso. A porra da pirâmide de Maslow despencando na sua cabeça pra te fazer ver como os níveis inferiores são pesados e importantes. Água, comida, higiene. Ao aprender o tema na faculdade isso aí nunca foi preocupação. 

Desculpe se no momento meu discurso flutua pro lado do “iluminadão do voluntariado”, mas eu nunca tinha participado de ações tão intensas assim. Já tinha ajudado a cuidar de crianças no natal em uma escola no centro de São Paulo, ajudado a organizar mantimentos para Mariana e feito aquela ocasional doação de fim de ano para as crianças da creche Mãezinha, em Itu (sim, esse lugar existe). Ações rápidas e de pouco envolvimento. Sei que você, lendo isso, pode ser bem mais experiente que eu nesse quesito, e nesse momento eles devem estar lendo e pensando “no shit, Sherlock”. Juro que o momento iluminadão vai acabar. 

Enfim, foi bom e foi diferente. Fica a reflexão que no atual momento eu devo ter feito mais pelo Camboja do que jamais fiz pelo meu país, algo que quero mudar no futuro. 

Garotada e um amigo nos campos

Claro, alguns podem argumentar que a minha mera presença radiante nas ruas de São Paulo contribuiu pra elevar a moral dos trabalhadores brasileiros ao longo dos anos, mas eu não sei se foi pra tanto. Caso você não tenha notado o momento iluminadão já acabou e agora vou voltar pro relato.

Chegamos em Siem Reap e já tinha um motorista do projeto nos esperando. Mal pisamos no Camboja e já estávamos em direção ao voluntariado, onde ficaríamos duas semanas. A escola, ou centro, em que trabalhamos fica a uns 40 kms da cidade, numa vilazinha rural.   As estradas não são uma maravilha e em dado momento viram de terra, por isso mesmo um carro bom leva uns 40 ou 50 minutos pra chegar lá. 

Já era noite quando fomos recebidos por Rady, o idealizador do projeto, e algumas crianças que nos esperavam para dar um oi. O primeiro contato com elas já deu a tônica de como seriam os próximos dias. Bagunça, muitos apertões e abraços. Elas amam o toque, não sei se por carência emocional ou por serem um povo afetivo, desconfio que mais pelo primeiro quesito. Eu não sou a pessoa mais carinhosa que já pisou na terra, e mesmo sabendo onde estava indo e porque estava indo isso me causou estranheza. Esse excesso de contato que a molecada necessitava. Inclusive às vezes enchia bem o saco, para ser sincero, mas acostuma e, inclusive, amolece o coração.

Como estava tudo escuro não deu pra ver muita coisa, só que a escola operava em uma estrutura bem simples, com duas casas de bambu para as crianças mais carentes da vila dormirem, uma cozinha quase a céu aberto, um chuveiro e um toalete (depois comento sobre a qualidade deles). Algumas casinhas de madeira serviam como classes e uma outra casa maior, também de madeira, era um grande quarto pros voluntários, no caso nós eramos os únicos lá no momento. Logo fomos dormir. Ou tentar. A ansiedade dentro de mim era quase opressora.

Casinhas usadas pelas crianças mais carentes – sala de aula era atrás delas

O dia seguinte era segunda-feira, mas feriado, uma data comemorando o fim da guerra civil que assolou o país, por isso não teve aula, mas fomos com uma caravana de crianças conhecer a vila. Na verdade não tinha muito o que conhecer, o local é formado por algumas casas e plantações que beiram uma grande estrada de terra vermelha. Andamos com a molecada por quase toda essa estrada, passando por casas simples até uma rua pavimentada que é a marca não oficial do fim daquela comunidade. Visualmente o lugar me lembrou muito a savana africana. Plano, com horizonte longínquo, muita vegetação seca e amarela, plantações de arroz inativas e algumas árvores aqui e ali. Sem falar que tudo lá tem tons de laranja e vermelho, principalmente por causa da poeira que toma conta de tudo.  A poeira vermelha da estrada que gruda em tudo e em todos. Eu lembro da vila e imediatamente lembro dessa poeira, um lembrete incômodo da realidade do local, algo que te puxa de novo para uma realidade que não é nem um pouco melhor do que um sonho. Considerando que estávamos no Camboja, talvez o visual devesse ser mais de floresta tropical do que o que vimos, não sei se o cenário em questão foi construído pela interferência do homem ou aquela região em particular é assim

Rostos sorridentes na poeira

Sem falar que é bem quente, andar por ali onde não tem tanta oferta de sombras é muito cansativo. O calor é diferente do que senti na Tailândia, que era úmido como Manaus. Ali era seco. Enfim, calor gera suor, e suor, com a já supracitada poeira, gera uma pasta grudenta e irritante que é parte integral do “milanesa do Camboja”.

Estilo das casas locais

As casas da vila são, no geral, bem módicas, por falta de um termo melhor. Geralmente de madeira ou bambu e apenas com um cômodo onde todos dormem juntos, cozinham, etc… muitas delas são suspensas, quase como em palafitas, apesar de eles não serem uma população ribeirinha ou morarem em uma área de inundação. É simplesmente tradição, até porque o espaço que fica embaixo das casas é usado para relaxar, armazenar coisas e para lazer. Grande parte delas não tem eletricidade ou acesso a água, por isso muitas crianças gostam de ficar na escola, que tem uma infraestrutura melhor que a média da região. Aliás, água por ali é só de poço, encanamento e saneamento básico são um sonho distante. 

É um lugar bem pobre.

Nada de selva por aqui

Outra coisa que observei durante essa primeira andada pela vila e que confirmei nos outros dias: o povo por aqui adora camisetas de futebol. Camboja é um país que parece ter seguido os conselhos de moda do Rafael de 15 anos, que acreditava que camiseta de time, shorts de tactel e chinelo é o único visual possível. Aqui muita gente anda assim. Meninos, meninas, adultos, eu….  No começo achei que era paixão pelo esporte, mas comecei a tentar a puxar papo sobre o tema e ninguém entendia muito. Depois saquei que aquelas camisetas do Barcelona, Juventus e Real Madrid só estavam vagando pelas ruas porque deviam ser as mais baratas nas lojas. Se você ainda não entendeu, obviamente não eram camisetas oficiais. Mas importante dizer, eles adoram esporte por aqui, principalmente vôlei e futebol, mas não necessariamente conhecem esses times que citei.  

Depois que demos esse nosso passeio pela vila voltamos pra escola e ficamos brincando com as crianças até o almoço. Todas refeições eram bem simples e locais, o Rady mesmo que preparava tudo. Acho que ao longo dos dias comi carne de cobra e com certeza tomei uma sopa de formigas, mas normalmente o que comíamos eram vegetais e frango. Com arroz, claro. 

Parte da nossa turminha incrível

O período da tarde desse mesmo dia foi uma experiência meio traumática pra gente, pois o Rady saiu e nós ficamos tomando conta das crianças, só que sem ele lá (e talvez pela excitação de nosso primeiro dia) elas viraram uns capetas. Ficavam brincando com coisas como facas (??), se batiam, gritavam, fizeram guerra de talco e água, sujaram a escola inteira e em dada hora começaram a comer larvas da folha de bananeira. Nós ficamos igual baratas tontas tentando entender o que fazer e como controlar aquela horda de adoráveis delinquentes. No fim desse primeiro dia eu já estava cansado e bem do arrependido. Mas depois as coisas melhoraram. Nada como uma noite de sono quase em coma pra curar esse tipo de coisa.

Vou dividir o post em 2 partes, pois tem bastante coisa para contar. Agora que a vila e as crianças já foram apresentadas no próximo texto vou detalhar nossa rotina e as peripécias em que nos enfiamos – por exemplo, participamos, sem querer, de dois casamentos. Aguarde.

Beijos Quentes

Vietnã ou o tiozão em Ha Long Bay

Podem sorrir amigo(a)s internautas, voltei de um dos círculos do inferno para trazer a sua dose semanal de sombras e perrengues. Tenha em mãos seu veneno de preferência, isole-se do mundo por uns três minutos e acompanhe mais uma dose de decisões precipitadas e burrices corriqueiras.

Ha Long Bay é o bitcho

No último post descrevi como tocamos o terror de moto nas montanhas vietnamitas, mas infelizmente nossa aventura com aroma de gasolina e motor 100 cilindradas ali perto da China terminou e após mais uma jornada nauseante em estradas sinuosas, vans apertadas e em um ônibus leito que foi redecorado com vômito por um pobre garotinho local, chegamos em Hanói.

Já era quase ano novo e precisávamos estar na capital, pois fechamos, junto com uma amiga da Marina que estava de férias no Vietnã, um cruzeiro em Ha Long Bay, um dos destinos mais turísticos do país. É um lugar surreal, apesar de super visitado. Um verdadeiro labirinto formado por milhares de grandes rochedos de calcário que emergem do mar cor de jade e criam desenhos únicos na água junto com piscinas naturais, ilhas e cavernas misteriosas. São como restos de uma antiga cidade perdida que foi parcialmente inundada. Ruínas do fantástico. Escombros de um lugar que existe só na imaginação. Bom, deu para perceber que visualmente o lugar é incrível e que eu me empolguei na minha descrição.

Mas voltando ao relato – ainda em Hanói pegamos o ônibus da nossa excursão (sim, era uma excursão) e partimos pro cruzeiro. Cruzeiro esse que era um daqueles “barco festa”, com bastante comida boa e gente querendo farrear. Não necessariamente nossa clima, mas para comemorar o ano novo valeu a pena e foi divertido.

Nosso grupo era formado por jovens de todas partes do mundo que tinham como objetivo encher a cara. O ambiente todo cheirava a “festa de faculdade”, inclusive o guia designado para tocar nossa horda de selvagens em ponto de ebulição, o simpático Crazy K. Sim, o guia se autodenominava Crazy K, o que eu achei bizarro, afinal ele pegou um nome que ele usaria como apelido em algum jogo de videogame ou se ele fosse parte de uma gangue de rua e transportou para a “vida real”. Talvez eu esteja filosofando demais sobre a alcunha do nosso querido mestre de cerimônias, mas algo não parecia estar certo ao falar em voz alta “Crazy K”. Tente você aí na sua casa, fale “Crazy K” e veja se soa legal. Não soa. Eu chamava ele só de K, o que era falta de educação, porque ele não queria ser chamado assim, mas eu me recusava a entrar nessa bolha fantasiosa maluca que todos estavam compartilhando ali na costa do Vietnã. É complicado ser mais retraído que o professor Pasquale e mais cheio de noias que aquela sua tia viciada em vinho Chapinha e remédio tarja preta.

Crazy K dando seu show

Mas mesmo com toda essa dureza de espírito eu me diverti.

Só o tempo que estava horrível, frio demais (quase zero graus) e cinza. O barco ainda era quente e confortável, mas isso se limitava a seu interior. O cruzeiro dispunha de uma série de aparatos para atividades divertidas, como caiaques, boias, jacuzzis e etc… Mas o clima congelante atrapalhou o aproveitamento disso tudo. Atrapalhou, mas não impediu. Boa parte da turma fazia qualquer coisa para se divertir, então quando percebi que aqueles quase adolescentes malucos estavam nadando no mar gelado me juntei a turma e, tomado (por osmose) de uma adrenalina juvenil, resolvi fazer o que eles estavam fazendo, que era pular do segundo andar do barco (que era bem alto) na água fria. Subi, me preparei, olhei, vi que era bem mais alto do que esperava, tremi, cogitei voltar, mas não podia decepcionar minha jovem turma, por isso pulei. Pulei com medo, mas pulei. Não foi o pulo mais bonito do mundo, mas pulei. Até que gostei da experiência, confesso, gerou uma sensação boa que depois me deu gás para tentar outros “cliff jumps” pela viagem, mas claro que o tiozão atrapalhado aqui caiu meio torto na água e machucou o braço, coisa de velho querendo se enturmar. 

Enquanto a Marina brincava de Rose..
…eu me tremia todo antes do pulo

Mais triste que minha queda da embarcação foi o que eu vi quando voltei a bordo: a jacuzzi grande e sensual que ficava na parte baixa, quase no mar, estava lotada. Cheia. Entupida. De homens. E eu tenho quase certeza que 80% deles eram héteros e estavam apenas esperando algo de erótico rolar ali. Uma verdadeira sopa de testosterona, testículos, álcool e falta de dignidade. Obviamente nenhuma mulher do grupo quis entrar ali. 

Brasil e Índia

A noite de ano novo veio, passou e nós acordamos com uma leve ressaca e uma nova amizade com um divertido grupo de indianos. O segundo (e último) dia do passeio também foi arruinado pelo clima glacial, e olha, poderia ter sido incrível. Digo isso porque passamos o dia e a noite em um alojamento em uma mini-ilha particular no meio da loucura visual que é Ha Long Bay. Um lugar escondido, recluso, com direito a praias exclusivas, rede de vôlei, churrasqueira e até uma bolinha de futebol para os mais talentosos. Teria sido incrível com sol e calor, mas o universo nos mandou um céu com cor de TV sem sinal e ventos dignos da região mais hiperbórea da Suécia. Aproveitamos a praia com nossos casacos de neve, que compramos para usar no Nepal. Você sabe que um dia é triste quando nem a vontade de tomar cerveja aparece. Mas foi bom, mesmo não sendo incrível. 

A ilhazinha particular
E como curtimos ela

Depois disso o que nos restou foi voltar para Hanói. Até tínhamos planos de explorar mais algum outro ponto do país, mas resolvemos aproveitar bem a capital, comer umas coisas diferentes e economizar um pouco. Ficamos naquela efervescência maluca de motos, luzes e gente do mundo todo. Hanói é demais.

As estranhezas de Ha Long Bay

Tínhamos prazo para sair do país, pois precisávamos partir para o Camboja, onde fizemos trabalho voluntário e eu finalmente pude espalhar minha ideologia anarquista para pequenas mentes em formação (dei aula de inglês). Na verdade estava bem nervoso quanto a esse capítulo da nossa viagem, mas isso é assunto para um próximo post. 

Beijos quentes