Índia ou a parada (forçada) em Agra

Chegando em Agra e vendo o bichão

Amigos e amigas, eis aqui mais um episódio da sua perda de tempo periódica. Eu não tenho mais nada de interessante ou engraçado para escrever nas introduções. Imagine aqui o seu non-sense de agrado e fique feliz, por favor. 

Os leitores amaldiçoados com uma memória mais potente vão se lembrar que o último relato parou quando estávamos prestes a sair de trem da deliciosamente maluca Varanasi.

Não quis o destino que nós deixássemos um solo tão sagrado de maneira fácil. Chegamos na estação cerca de 8:30 da manhã, correndo igual loucos pois achávamos que perderíamos o nosso transporte. Para nossa alegria não perdemos nada, pois não havia nenhum transporte. Vimos o horário errado e o único trem que sairia para o nosso próximo destino, Agra, só deixaria a estação às 18:30. Como estávamos meio longe da parte mais interessante da cidade e estava um calor de belzebu, resolvemos ficar pela estação mesmo, afinal gastar tempo em hubs de transporte é nossa maior habilidade. Uma coisa curiosa e ainda não bem resolvida (para mim) aconteceu nesse dia. Descobrimos uma área designada apenas para turistas, um lugar amplo e confortável, com vários sofás e ar-condicionado. Bom, não? Sim, mas ao mesmo tempo uma multidão de indianos tinha que esperar pelos seus trens do lado de fora, com o conforto sufocante do chão duro e do clima escaldante. E o pior, o espaço de turistas estava vazio, ficamos apenas eu e a Marina a maior parte do tempo lá. Não, o pior não foi isso, o pior foi que estou aqui criticando essa divisão, mas me aproveitei dela, a hipocrisia nunca foi tão sedutora quanto um sofá aconchegante e um clima refrigerado. Não sei o que eu poderia ter feito para mudar aquilo, mas a verdade é que me acomodei ali no canto e nem pensei muito sobre. Com certeza o espaço era amplo o suficiente para abrigar vários locais. Um canadense que passou brevemente pela sala comentou comigo sobre a estranheza da situação, mas se resignou ao dizer “life is not fair” como um mantra da desigualdade. Talvez ele seja mais verdadeiro consigo mesmo do que eu, que não concordo com o mote triste, quer dizer, a vida não é justa mesmo, mas não acho deveríamos nos acostumar com isso, então concordo com a frase mas não como foi usada. Eu, mesmo incomodado, aproveitei até mais dos peculiares benefícios dessa maldita sala que ele e o máximo que eu fiz por essa situação foi desabafar aqui neste espaço tão visitado quanto a biblioteca municipal de Itu. A viagem serviu também para abrir as cicatrizes de nossas contradições e nos assolar com momentos que parecem pequenos, mas que vira e mexe assombram a consciência. O que resta é fazer algo com esse sentimento.

E depois dessa descida nos recantos mais escuros da minha mente, volto ao relato. Esperamos o dia inteiro na salinha dos turistas e no momento correto fomos para o esperado trem. Como compramos de última hora só tinha lugar no vagão leito sem ar-condicionado, que é no geral piorzinho que sua versão mais cara. Foi uma viagem tranquila, mas longa, mais de 12 horas (o trem atrasou) para percorrer cerca de 600 quilômetros e o nosso vagão não era o lugar mais limpo do planeta. Chegamos sem sono, mas não descansados em Agra. 

Agra Fort ao fundo

Uma breve visão do Taj Mahal, ainda do trem, já nos mostrou a grandeza do mausoléu, o negócio é bonito mesmo, mas mal sabíamos que nossa visita até ele que parecia tão próxima se adiaria por uns bons dias. Era manhã quando o trem nos largou na estação de Agra Fort e só iríamos no Taj na madrugada do próximo dia, tática para evitar o calor e as multidões. Aliás o calor foi o primeiro a nos cumprimentar na cidade, ali era mais abafado e mais insuportável que em Varanasi. No tuktuk a caminho do hotel fuleira de número 3442 da viagem já conseguimos notar como a influência muçulmana criou uma cidade com uma arquitetura bem diferente do que vimos em Varanasi, uma diversificação muito interessante. Deu para reforçar também a (acertada) impressão de que o clima de Agra estava semelhante ao de Mercúrio, o cabisbaixo planeta que fica perto demais do sol. Pense em um lugar quente. 

Agra foi uma cidade de uma grata surpresa, pois lá conhecemos o Caio (@caindopelomundo), outro viajante gente boa demais com quem fizemos amizade. Mas foi só isso mesmo, porque de resto foi só desgraça.

No mesmo dia em que chegamos saímos para desbravar alguns pontos turísticos locais e almoçamos em um lugar chamado Sheroes, um café com um propósito incrível. Ele é organizado e operado por mulheres que sofreram ataques com ácido, algo ainda muito comum na Índia. As mulheres contam suas histórias para os visitantes e percebemos que os ataques têm os mais diversos (e idiotas) motivos, claro que todos pautados em um machismo muito inerte a sociedade local. Sabe uma das maiores lutas dessas mulheres? Que esse ácido não seja vendido de forma tão livre como é. Isso mesmo, no país uma substância que é notoriamente usada com propósitos violentos ainda pode ser comprada por qualquer maluco com ódio no olhar. Enfim, o lugar é muito interessante de ser conhecido e você ainda paga o que quiser, ou seja, você come e faz uma doação para a causa. Nós estávamos meio quebrados e não pagamos nada. BRINCADEIRA, claro que deixamos lá uma quantia que achamos justa e que era condizente com nossa realidade. 

O resto do dia em Agra foi pautado pelo calor (sim, vou falar dele de novo), por nossa tentativa de ver o Taj Mahal de um ângulo diferente ao pôr do sol e pelos milhares de golpes que tentaram nos aplicar. Acho que por ser uma cidade muito turística, Agra é um antro de golpes e pedintes. Entendo que a realidade da população média indiana é bem diferente da nossa e ao verem um turista eles vêm uma forma de sobreviver, mas enche o saco ser enganado toda hora. Agra acabou com nossa paciência para isso. Chegou ao cúmulo de pessoas pedirem para tirar foto com a gente e depois cobrarem. Claro que não caímos na maioria dos golpes, mas toda saída na rua era uma batalha contra contatos não solicitados e maliciosos. Só para reforçar, isso foi muito específico em Agra. Varanasi e Rishikesh foram locais mais tranquilos em relação ao tema. 

O dia foi desgastante, mas pelo menos a noite terminou com risadas e um vinho indiano que o Caio compartilhou conosco. Depois era só dormir embalado pelo álcool, conhecer o Taj na madrugada e ir para o próximo destino. Ou era isso o que a gente planejava. A vida tem uma maneira engraçada de dizer “você não está no controle”. Dessa vez a maneira escolhida foi uma violenta intoxicação alimentar que me acometeu. 

Acordei no meio da noite suando, com muito frio (lembra de quantas vezes falei como estava quente?) e com aquela vontade visceral de sentar no trono. Sim, foi feio, até 40 graus de febre eu tive. Sabe quando você passa mal e sabe exatamente o que causou? Então, eu sei o que foi nesse caso. Foi o que comi no Sheroes, um prato local e gostoso, mas que não conversou legal com meu sistema. Até o momento eu estava comendo apenas comida local sem nenhum problema, mas acho que a sobrecarga de temperos acontece uma hora ou outra. Talvez tenha sido alguma vingança ”carmática” das mulheres do café pelas vezes que já fui escroto na vida. 

O negócio é que eu fiquei em uma condição bem precária, quase a ponto de fazer uma participação em The Walking Dead. Não foi negócio de um ou dois dias, por isso tivemos que ficar mais umas 5 noites em Agra e mudar de hospedagem, nosso primeiro hotel era mais indicado para quem quisesse pegar tétano do que se curar de uma intoxicação alimentar. Inclusive fomos para um lugar muito melhor quase pelo mesmo preço. Foi bom ser “bem tratado” por alguns dias. 

Aliás esses foram dias de repouso e de nada muito emocionante. A não ser que você considere emocionante a queimação interna que tomou conta das minhas entranhas.

Uma das mesquitas que flanqueam o Taj Mahal

A boa notícia é que no fim eu me recuperei. É pelo menos uma boa notícia para mim, espero que para você também. E, depois de recuperado, finalmente fomos ver o maldito Taj Mahal (a essa altura eu já estava com raiva da cidade e tudo que tem nela). Realmente é lindo, uma obra magnífica, um empreendimento humano sensacional feito (provavelmente) às custas de um monte de gente sofredora (como toda grande obra de uns bons anos atrás). Posso ficar aqui falando sobre a simetria, a grandiosidade ou as cores do lugar todo, mas vocês já devem ter lido esse texto umas mil vezes. Basta dizer que é bonito, mas não fiquei emocionado ou embasbacado pelo lugar como muitos ficam. Acho que ver coisas como as montanhas do Vale do Khumbu (Everest), as serras do Vietnã, o mar das Filipinas ou o deserto australiano te deixam mais calejados no quesito “emocionado com visões bonitas”. 

Finalmente tínhamos cumprido nosso objetivo em Agra e era hora de ir embora, mesmo que ainda segurando as tripas no corpo de forma capenga. 

O bichão – visita pós escabrosidades intestinais

Pegamos um ônibus leito “a lá Índia” (veja os stories do @sejogaai para entender) e claro que algumas boas horas, uns atrasos e umas sacolejadas depois estávamos em Rishikesh. 

Mas esse será o assunto do próximo post.

Beijos Quentes

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