Turquia ou A volta dos balões elusivos

ahhhhh Capadócia…

Olá, voyeurs da desgraça, glutões da vergonha alheia e acumuladores de experiências terceirizadas. Para os bravos que ainda leem isso aqui venho com mais uma dose de trevas importadas. Preparam-se, minha alma está sombria, afinal este é mais um capítulo em que falo sobre os malditos deslocamentos de viagem. 

Quem acompanha o blog há certo tempo já sabe que esses momentos de transferência de localidade são sempre estressantes. Sim, nós estávamos de carro na Turquia e dirigir por estradas estrangeiras é quase sempre um prazer, mas depois de visitar as praias do sudoeste do país precisávamos voltar (de carro) até a Capadócia, pegar um ônibus para Istambul e depois pegar mais outros dois ônibus para a Bulgária. E a Turquia não é um país pequeno, então imagina a trabalheira que foi fazer isso tudo. Olha, quem disse que o importante é a jornada e não o destino com certeza não ficou mais de 20 horas torto em um banco de transporte coletivo com a coluna gritando socorro e o nariz captando os mais desagradáveis cheiros. O negócio é não ter destino, pois aí tudo é jornada e tudo destino e as experiências boas e ruins se misturam em um grande caldeirão borbulhante que não dá a mínima para seus anseios por conforto, ou seja, eu fui usar uma metáfora e não sei mais do que estou falando. 

O importante é saber que estávamos em Ölüdeniz, a uns bons 800 km de Kayseri, e precisávamos retornar com nosso possante brocha até a região lunar da Capadócia. 

Estradas por colinas turcas

Voltamos por uma rota diferente da vinda e dessa vez fomos beirando o mar por boa parte do caminho. Passamos por cânions, vales e vilas praianas lindas, tudo no meio daquele cerrado mediterrâneo que é ao mesmo tempo familiar e estranho. Em dado momento viramos para o norte, em direção ao miolo do país, e foi aí que o caminho ficou realmente interessante. Cortamos uma bela cadeia de montanhas, um amontoado de rochas poderosas que ainda não tínhamos visto na Turquia. O sol queimava com gosto no céu, mas sem força, pois o ar estava quase gelado. Certa hora as nuvens tomaram conta do firmamento e a luz deu aquela impressão de se espalhar por aí filtrada por uma lente, o que deixou o percurso todo ainda mais único. De repente começamos a ver vários vendedores de mel na estrada, como se estivessem brotando do chão. Resolvemos parar em uma das mil barraquinhas que dizia ter o melhor mel da região, todas sinceras e todas mentirosas, para tomar um chá. Alguns minutos e uns dois chás depois tínhamos um novo amigo, que provavelmente era gentil por exercício da profissão e tudo bem, pois nós estávamos, mesmo que inconscientemente, cumprindo nossa cota de contato local (coisa que tanto nos cobramos). No fim foi uma transação comercial nos mais diversos sentidos. Engraçado isso de “contato local”. É possivelmente uma das coisas mais valiosas que a viagem pode trazer, mas em certos momentos, principalmente quando você não quer falar nem com a sua mãe com um bolo de cenoura na mão, é também um dos maiores pesos para se carregar, porque você fica se cobrando o tempo inteiro se não está inserido na cultura do país, se não está fazendo amigos, se não conheceu pessoas com histórias incríveis e etc… E tem horas meus amigos, tem horas que tudo que o “coitado” do viajante quer é pagar barato numa cerveja e contemplar a paisagem sem qualquer atividade que envolva comunicação profunda com outros seres. 

Nosso amigo turco que tinha um bom çay

Depois de terminado nosso rabisco pelas colinas turcas finalmente voltamos para Konya, onde passamos uma noite e depois voltamos para Capadócia por uma parte do caminho que, aí sim, já tínhamos percorrido. 

Tivemos uma última madrugada na Capadócia antes de devolver o carro na tarde seguinte, por isso decidimos tentar ver mais uma vez os malditos balões que salpicam o céu de Göreme e região. Fizemos (de novo) todo o ritual: acordamos às 3 da manhã, andamos no escuro até um mirante, experimentamos um leve frio e esperamos. Para quem não se lembra, um tempo antes passamos mais de uma semana na região e não vimos um mísero voo de balão devido ao mau tempo, mas desta vez estávamos esperançosos, pois pelo caminho até o topo do morro encontramos diversos balões sendo preparados para darem bom dia para o sol já na altitude. 

Nosso azar “balonesco” tinha ido embora. Será? Talvez. Não. Acho que não. Droga. Ele não foi embora. 

Foi mais ou menos assim a sequência de pensamentos que passou pelas nossas cabeças até percebermos que mais uma vez a Capadócia iria nos “decepcionar”. Malditos balões, fomos até a grande área, sofremos pênalti, convertemos a cobrança e aí o VAR veio para anular tudo. Não me pergunte a razão, mas de última hora tudo foi cancelado e mais uma vez ficamos sozinhos nas colinas de Göreme. Não é de todo ruim, afinal testemunhamos mais um rasgar de luz no céu do nosso amigo cheio de hélio naquela região esplendorosa, mas, de novo, sem balões. Pro inferno com balões. Agora já estou até conformado e feliz que esses aeróstatos horrendos não atrapalharam nossa vista. Menos lona no céu e mais natureza. Abaixo a intervenção do homem no espaço aéreo. 

mais uma madrugada pelos caminhos lunares de Goreme

Depois de mais essa tentativa frustrada deixamos Göreme para devolver o carro em Kayseri, uma cidade próxima. De lá começamos o rodeio do transporte público: esperamos algumas horas em uma rodoviária, pegamos um ônibus de mais de dez horas, chegamos em Istambul, ficamos em um hotel na rodoviária que gostaria de ser motel, pegamos um ônibus (de mais umas boas horas) logo no dia seguinte para Burgas, passamos pela fronteira, chegamos e esperamos mais um tempo para pegar outro ônibus para Sófia. Foram mais ou menos 5 dias desde que saímos de Ölüdeniz para finalmente chegar ao nosso destino na Bulgária. O melhor é que dava para ir direto de Istambul para Sófia, mas por uma mudança de planos repentina e uma pitada de nossa corriqueira burrice aumentamos ainda mais o tempo de viagem. Não foi nenhum perrengue extremo e tudo foi bem tranquilo, mas estávamos naquele momento da viagem que qualquer coisa que demorasse mais de alguns minutos enchia o saco, então imagine o nosso humor após essa dose nada módica da malha rodoviária turco-búlgara.  

Nosso hotel de rodoviária era bem acolhedor

Alguns dos ônibus que pegamos tinham televisões embutidas no encosto de cabeça do banco da frente, como a maioria dos aviões, mas com um sistema bem mais precário. Tão mais precário que grande parte das televisões não funcionavam, mas em uma das pernas da viagem assisti um filme inteiro. Um filme chinês. Em turco. E deu para entender tudo. E não é piada não, realmente deu para acompanhar a história, mas claro, era um filme de artes marciais (coisa que eu amo), por isso o enredo não era dos mais rebuscados e dependente de falas. Nada como a linguagem universal da porrada. 

E foi assim, de forma cambaleante, meio torta e movida a muita batatinha e refrigerante que demos tchau para a Turquia, um país que chegou de mansinho no nosso itinerário, mas que nos cativou e rejuvenesceu nosso desejo por conhecer. Ficamos mais de mês por lá e ainda faltou muito para desbravar, por isso digo sem medo, podem ir para a Turquia, é um país incrível. 

Saudades Turquia

E aproveitem, porque caso ocorra um acidente e vocês acabem um pouco a esquerda do mapa em um lugarzinho chamado Europa, aí meus amigos, aí o monstro que devora contas bancárias aparece e não sobra ninguém vivo. Mas nossas aventuras na terra das coisas caras serão temas dos próximos blogs. 

Beijos quentes

Índia – Varanasi ou capítulo da viagem com o bode gigante

O rio e os ghats

Olá, amigos e amigas. Espero que a sua jornada nessa balsa melancólica chamada vida esteja, no mínimo, tolerável. Caso as coisas estejam ruins, não tema, eis aqui mais um texto para alimentar o escapismo que sua alma deseja. Não é nenhum Machado, Borges ou Roth, mas pelo menos você poderá ler sobre as loucuras de Varanasi e nosso papo com um bode gigante que ficava no meio da rua. Coisa fina. 

Os mais abundantes de ômega 3 devem se lembrar o desafio que foi chegar até Varanasi. Uma jornada que envolveu os mais variados tipos de transporte e muita troca não voluntária de fluído corporal. Foi cansativo, conseguimos deitar em uma cama muito após o marco da meia-noite, mas deu certo. 

Depois de uma necessária e pesada noite de sono nos demos conta que estávamos em Varanasi, um dos lugares mais antigos e caóticos do planeta. A sensação que nos tomou foi um misto de excitação com preguiça, aquela eterna dualidade das pessoas que não sabem se gostam ou não de sair do sofá. Eu explico. Pode parecer uma heresia estar em um lugar incrível como Varanasi e mesmo assim deixar o estado de torpor tomar conta do corpo, mas isso é mais comum do que vocês imaginam. Acontece em Varanasi, em praias paradisíacas das Filipinas ou em escandalosos desertos australianos. A preguiça não escolhe CEP e como já expliquei muitas vezes nesse cansado blog, viajar a longo prazo não é férias, as vezes a pessoa só quer comer mal e ficar o dia inteiro na horizontal. Ainda mais quando sabe que o mundo exterior é uma explosão de sentidos. Era essa nossa sensação após acordar em Varanasi.

Enfim conseguimos vencer o diabrete da letargia e sair. Sem plano mesmo, apenas queríamos olhar a cidade. Estávamos na parte antiga, no meio do emaranhado de corredores apertados entre prédios velhos perto dos ghats, as escadarias que dão para o Ganges. E foi ao passear por essas inesquecíveis escadarias que começamos a entender a cidade. 

A vida acontece no rio. 

Na verdade antes de conseguir andar pela parte interessante de lá tivemos que enfrentar uma pequena gincana para conseguir chips de celular indianos. Não vou comentar o ocorrido porque envolveu muitos passos perdidos, uma pequena dose de irritação e aquela boa e velha pitada de sorte.

Depois de garantir nossa conexão com a rede mundial de computadores conseguimos apreciar o Ganges.

A vida no Ganges

Chegamos lá no fim de tarde e no pouco tempo em que ocupamos as cadeiras cativas do chão empoeirado e pedregoso vimos de tudo: pessoas se banhando no rio, crianças brincando, inúmeros jogos de críquete, uma profusão de animais, grupos de meditação, grupos de oração e, claro, as cremações. Cada ghat tem um propósito específico, ou seja, é como se a margem do rio fosse dividida em setores. Alguns ghats são para cerimônias religiosas que acontecem ao fim de todo dia, outros para banho e yoga e dois específicos são crematórios. Sentar naqueles degraus e apenas observar foi melhor do que qualquer programação da TV de domingo.

Quero só estressar aqui um dos pontos que mencionei acima. As pessoas se banham no Ganges como se não houvesse amanhã, o que para nossa percepção ocidental é basicamente o mesmo que brincar todo dia de roleta-russa. Ao ler um pouco sobre Varanasi é fácil se deparar com a informação de que o Ganges, naquela altura, é bem poluído. Tem de tudo ali, inclusive pedaços humanos que podem passar boiando por você durante uma nadada matinal. Mas isso não impede os moradores, que tem uma relação profunda com o rio e provavelmente um sistema imunológico avantajado, de aproveitarem o Ganges. Eles nadam por diversão, tomam banho, lavam roupas e até bebem a água. A indicação é para que não locais não façam o mesmo e eu vou dizer que não fiquei tentado a fazer. Vi um ou outro ocidental brincando dentro das águas, por isso não sei o quanto esse “medo” do rio é verdade. Mas eu não estava em um bom momento da minha vida para enfrentar uma super-bactéria, por isso não arrisquei.

Os banhos no rio

Observar foi basicamente o que fizemos em Varanasi. Fomos em cerimônias que acontecem ao entardecer, vimos o sol nascer da margem leste do Ganges em um inesquecível passeio de barco e passamos muitas horas com as nádegas no concreto em meio a bagunça da cidade. Também andamos muito pelas vielas estreitas que beiram o rio. Ora elas estavam bloqueadas por motos, ora por bovinos e às vezes pelos dois ao mesmo tempo. Sem falar no lixo que toma conta do chão, um obstáculo a mais na gincana diária da locomoção. Macacos também rondam pelos tetos das antigas construções apenas a procura de almas inocentes para atazanar. Um grupo de símios juvenis atacou de forma impiedosa a Marina, que de alguma forma desafiou eles. Acho que foi o porte físico ameaçador dela que causou a confusão.

As vielas perto do rio

Uma das experiências mais surreais de Varanasi vem do fogo e da carne. São as visitas aos crematórios. Queimar corpos à beira do Ganges (e depois jogar as cinzas nele), um rio sagrado no hinduísmo, é prática comum em Varanasi, uma cidade também sagrada. Por isso a existência dos crematórios ao ar livre. Cada um fica em uma ponta distinta do “circuito dos ghats” e um deles é bem pequeno se comparado ao outro. O crematório principal é uma visão quase lisérgica, uma mistura de fogo, animais, madeira, cinzas, água e fezes. Não é só que pessoas estão sendo queimadas em piras ali na sua frente, bem perto do rio, mas todo o resto do cenário é estranhamente bonito, como se pequenas partes erradas conseguissem formar um todo magnífico. As ruínas que fazem parte do ghat dão um tom certeiro de decadência histórica (e digo isso no melhor sentido possível). Elas são habitadas pelas pessoas que vão para Varanasi para morrer e estão “esperando sua hora”. Parte da tradição é que Varanasi é especialmente auspiciosa para morrer, segundo a crença falecer lá é uma forma de quebrar o ciclo de reencarnações. Por isso as moradias decrépitas cheias de anciãos a espera da facada temporal. 

O crematório

É uma visão única, algo que merece ser vivenciado. Nós ficamos ali por um bom tempo só observando o espetáculo de vida e morte. Ou só morte né, porque ninguém queimado ali quer reencarnar. Também acho que é errado chamar de espetáculo. Certo, vou reformular – “nós ficamos ali por um bom tempo só observando aquilo” – acho que agora está mais certeira a frase.

Mas acompanhar a cremação de humanos em meio a animais e cachoeiras de fezes não foi a experiência mais sensorial que tivemos na cidade.

Esse bode era grande demais, juro.

Varanasi é também conhecida por ter uma relação antiga e ritualística com substâncias que alteram o estado mental e seria pouco imersivo ir até um local desses e não se jogar no processo. Tomamos um lassi (iogurte local) levemente adulterado e saímos para experimentar toda glória da cidade com a percepção mais ajustada para a loucura local. Foi uma das noites mais memoráveis da viagem. Apenas eu, a Marina e nossas tagarelices de pouco sentido. É de uma superficialidade notória de viajantes desgraçar uma experiência religiosa dessa maneira, mas este é um sacrilégio que não me arrependo de ter cometido. Afinal foi nessa noite em que fomos acometidos por um ataque de culpa ao visitar um templo longe das nossas melhores condições, em que fizemos uma importante análise sociopolítica da Índia quase caindo dos degraus de um dos ghats e o mais importante, foi quando conhecemos nosso amigo bode. Como já disse a cidade é também tomada por animais, principalmente vacas, mas durante uma caminhada pelos ghats vimos esse bode que era quase do tamanho de um cavalo. Um exemplar mastodôntico do género Capra. O estado mental do momento nos impeliu a admirá-lo e tentar até puxar um papo, mas ele era era tímido e não respondeu. Ainda bem que as raízes do bom-senso me impediram de tentar montar no admirável ser, mas que eu quis, eu quis.

“olha lá os dois turistas bocozão”

Varanasi é um lugar intenso, mas no fim das contas gostamos tanto da experiência que estendemos nossa estadia, mesmo com o calor infernal que fazia durante o dia. É também um lugar que cansa, assusta e te afeta de algumas maneiras inesperadas, mas que merece muito ser visitado.

Depois de lá começamos mais um round de transportes capengas pela Índia e acho que foi aí que nossa energia começou a vacilar novamente, mas esse é assunto de um próximo relato.

Beijos Quentes

Do Nepal para Índia com umas paradas no caminho

Dos nosso dias de calmaria em Katmandu

Olá desbravadores de palavras alheias, bem vindos a mais um capítulo do seu nonsense favorito (espero).

Você deve se lembrar que no último post tínhamos acabado de vencer um dos maiores desafios da viagem, tiramos onda no topo do mundo e voltamos para contar história. Bom, acontece que após as aventuras Himalaias ainda ficamos mais um tempo no país das maiores montanhas do planeta. 

O resto dos nosso dias no Nepal foram de pura preguiça e recuperação física. Comemos muito, encontramos amigos antigos e fizemos amigos novos. Até ao cinema fomos. Não ficamos apenas em Katmandu, fomos também para Pokhara, uma cidade muito gostosa que rodeia um grande lago. Lá descobri que é possível passar o dia inteiro comendo no mesmo local e não se sentir mal por isso (sempre com a companhia de Daniel e Babi). O ápice de nossa visita à Pokhara foi numa noite em que recebemos o convite especial para beber com alguns locais, amigos de amigos. Nos embriagamos com um aguardente que mais lembrava água sanitária, enchemos a barriga com uns petiscos de qualidade duvidosa e ainda fomos sacaneados no fim da noite pelos nossos supostos companheiros nepaleses. Mesmo assim é inegável que existe algo de memorável em beber com pessoas de moral questionável em um beco escuro e misterioso. Foi uma noite interessante.

Após a estadia da preguiça em Pokhara seguimos viagem, ainda no Nepal, pois era hora de nos movimentarmos de novo, quebrar a aura de torpor e gula que tinha tomado conta de nós, e, para a tristeza dos restaurantes da região, saímos de lá em direção à Lumbini. 

Pokharam, a cidade do lago em que ficamos 1 semana comendo

Foi mais uma daquelas viagens de poucos quilômetros e muitas horas. Mais um ônibus sacolejante e quente no Nepal, daqueles que sugam as energias de qualquer viajante. Depois de um tempo considerável, uma paisagem linda e uns bons litros de suor derramados chegamos ao nosso destino.

Lumbini fica bem ao sul do Nepal, já em terreno plano, seco, quente e fora da influência vertical dos Himalaias. Sim, existe uma parte do Nepal tomada por selva e clima quase tropical, não são só montanhas geladas que formam o país. Lumbini também fica perto de um dos pontos mais populares de passagem terrestre para a Índia e não estávamos lá por coincidência, afinal depois de visitar a cidade o plano era cruzar para o país onde as vacas são sagradas. 

Paramos em Lumbini porque lá é o local de nascimento de Siddhartha Gautama, o Buda. Achamos que pela história envolvida seria um local interessante de conhecer, mas vou dizer, Buda poderia ter nascido em Cesário Lange que seria melhor viu. Baita experiência infernal que passamos na cidade. Claro, existe um complexo budista interessante na cidade em que é possível visitar templos budistas de diversos países do mundo e todos são muito lindos. Nesse mesmo complexo fica a casa (hoje um museu) onde Buda nasceu. Intrigante e importante. Mas é “só” isso. Lumbini não oferece muito mais que essa atração que pode ser visitada em algumas horas, só uma horda de motoristas de tuktuk que ficam com os olhos brilhando ao avistar algum turista. Oras, mas até aí a cidade não ter grandes atrações não é problema nenhum, afinal fomos ver algo específico e procurar um teto antes da nossa troca de países. O problema é que estava calor demais em Lumbini. Um calor seco e infernal que nunca senti antes. Pior até que a baforada úmida de lugares como Bangkok e Manaus. Mas não era só isso, antes fosse. Ficamos em um quarto simples em um hotel simples (do jeito que a gente gosta) que foi planejado especificamente para ser quente. Acho que durante a construção o empreiteiro do lugar pensou  “qual seria o equivalente imobiliário a um forno gigante?” E aí foi e criou nosso quarto. Ele ficava na esquina do prédio que tinha formato em L, recebia sol o dia todo e tinha uma ventilação pífia. Para melhorar tempestades castigaram a região quando estávamos lá, por isso a luz vacilou mais do que já vacila normalmente no Nepal, ou seja, nosso ventilador, nosso único amigo, apenas tinha pequenos soluços de vida. Mas calma, você acha que acabou? Claro que não, eu não brinco em serviço na hora de reclamar de alguma coisa. Pense em todo cenário que já descrevi até agora: calor extremo, atmosfera sufocante e desconforto. Sabe o que pode melhorar tudo? Mosquitos. Sim, além de tudo o nosso quartinho dos infernos ainda era um portal para uma dimensão habitada apenas por mosquitos. Vocês podem estar pensando que estamos frescos, que o lugar deveria ser tranquilo e nós que não aguentamos o tranco, mas digo o seguinte: já dormimos em diversos “buracos” nessa viagem, já cansei de descrever quartos como “cativeiro” e mesmo assim esse foi pior, sendo que ele era até bonitinho (aparência não é tudo). Foram duas noites complicadas e sem descanso.

Um dos templos do complexo

O complexo de templos e o museu, como eu disse, são interessantes e apesar de não ser um lugar grande, também não é possível fazer tudo a pé. Lembra que falei que estava um calor infernal? Sabe como exploramos tudo? De bicicleta. Isso mesmo. As vezes eu e a Marina temos umas ideias tão boas quanto quem achou que Fanta Uva era algo digno de existir. Apesar de quase termos derretido sob sol do meio dia até foi um passeio bacana. Na casa do Buda está demarcado o ponto exato onde ele nasceu, o que achei interessante, pois uma coisa é saber o local de nascimento (como a cidade), outra é o ponto exato de onde o jovem saiu do ventre. E pior que um monte de gente faz preces e oferendas ali, mas vai que o rapaz que fez a demarcação errou por alguns metros e todo mundo está adorando o local onde, sei lá, dormia o cachorro do Buda. 

Quintal do Buda

Brincadeiras a parte, foi impactante conhecer um lugar com tamanho peso histórico e importância espiritual (para esse lado do mundo principalmente). Aliás, achei a mistura de hinduísmo com budismo do Nepal incrível. Alguns nativos nos disseram que tem como religião, como guia espiritual, o hinduísmo, mas que seguem o budismo como modelo de pensamento. “Good thinking” foram as palavras deles, achei interessante. 

Profundo, impactante, importante… Posso usar o termo que quiser, mas a verdade é que não gostamos da maior parte do nosso tempo em Lumbini e finalmente tinha chegado a hora de ir embora. Não só ir embora da cidade, mas também do Nepal. Mal sabíamos que estávamos prestes a começar uma das maiores epopeias da viagem.  

O dia começou cedo, antes das 6 da manhã. Precisávamos pegar um ônibus até um cidade vizinha e depois outros ônibus até a fronteira. A ideia era pegar o primeiro transporte disponível do dia, mas assim que arrumamos tudo uma tempestade tomou conta dos céus e tivemos que esperar. Lá pelas 8 da manhã conseguimos sair e entramos em um ônibus que tinha cara de “vou quebrar”. E ele quebrou. Esperamos por outro no meio de uma estradinha triste e enlameada. Demoramos quase duas horas para andar 20 quilômetros, mas enfim chegamos na cidade vizinha. Mais um transporte público de 15 minutos e estávamos em Sunauli, a movimentada fronteira. Eram milhares de caminhões e ônibus de um lado e do outro. Nós atravessamos a pé, passamos na sinistra imigração do Nepal e depois, quando chegamos na imigração indiana, tivemos que esperar sentados por uma hora pois o aparelho de scanner deles estava quebrado. Era um daqueles dias. Nesse meio tempo conhecemos outros viajantes e decidimos dividir um táxi com eles, afinal nossa jornada estava longe de terminar. Não era só passar para a Índia e pronto. Tínhamos que ir até Gorakhpur e de lá pegar um trem até Varanasi, nosso destino final. Mas da fronteira para Gorakhpur o ônibus leva umas 3 horas e o trem até Varanasi mais umas 6 horas. Era muito chão para andar ainda.

O ônibus para sair de Lumbini. Aquele que ia quebrar e quebrou.

Para ganhar tempo invés de ir de ônibus rachamos o táxi com outros turistas, como já disse, até Gorakhpur. Chegamos de tarde, mas ainda em tempo de pegar o último trem do dia. A estação estava abarrotada, parecia um mar de pessoas estiradas, era difícil ver o chão. Finalmente estávamos na Índia. Compramos o bilhete de trem mais barato que já vi na vida e logo depois descobri porque ele era tão barato assim. Quer dizer, logo depois nada, pois caiu um aguaceiro sem precedentes e o trem atrasou mais de uma hora. O que foi juntando de gente na nossa plataforma semi alagada não foi brincadeira, comecei a ficar nervoso, pois não sou o maior fã de multidões e fluídos corporais alheios. Quando o bendito trem resolveu dar as caras no horizonte a multidão pulsava. Estavam todos cientes do que iria acontecer e sabiam o que era necessário fazer, menos eu e a Marina, duas baratas tontas no meio de um formigueiro. O trem foi se aproximando e mesmo sem parar as pessoas já corriam para subir nos vagões ainda em movimento. Quase fomos atropelados umas três vezes. Corremos junto com a boiada, mas em ritmo muito mais lento, por isso em todo vagão em que entramos todo espaço físico possível já estava tomado. Éramos como dois touros numa loja de porcelana, com as mochilas gigantes nas costas batendo em todo mundo. Depois de alguns infernais minutos de luta em que eu xinguei muito o universo e transpirei em quantidades olímpicas achamos um vagão menos lotado, em que dava pra guardar as malas e ficar em pé pelo menos. Logo dois indianos muito simpáticos abriram espaço pra gente sentar, então não foi tão ruim. Foram seis horas cansativas, ora com o trem cheio, ora com o trem vazio, pois paramos em várias cidadezinhas pelo caminho. Um bom aquecimento para a claustrofobia indiana.

Nosso companheiros de viagem por algumas horas

Chegamos em Varanasi quase às 23 horas, dois vestígios do que um dia tinham sido seres humanos. Depois de muito negociar um tuktuk e acordar um preço que eu tenha certeza que foi caro demais ele nos deixou em frente a uma rua fechada e disse que dali em diante não poderia seguir, teríamos que andar o último quilômetro restante do trajeto.

Foi aí que realmente caiu a ficha que de onde estávamos. Para os que ainda não foram apresentados a esse maravilhoso lugar, Varanasi é uma das cidades mais antigas da Índia (quiçá a mais antiga) e um local sagrado para os Hindus, um lugar especial para morrer. A relação da cidade com o Ganges é íntima, afinal é o rio mais importante para o hinduísmo e ela fica situada na sua margem oeste. E ainda, Varanasi é intensa, como que um microcosmo intensificado de vários características da Índia – muita gente, muita cor, muita sujeira, muita espiritualidade, muita vaca na rua e muita coisa diferente. Diversos viajantes acham que é o lugar mais maluco de um país já maluco para nós ocidentais, e eu não posso negar. 

Imagens de um trem indiano

Quando o tuktuk nos largou no meio da rua  ficamos meios desnorteados, a cidade ainda pulsava apesar de ser quase meia noite. Mas era uma pulsação decadente, daquele estilo fim de noite. Pessoas pareciam voltar para suas casas e os que ainda perambulavam de um lado pro outro pareciam procurar alguma coisa. Passamos por fogueiras no meio da rua, desviamos de lixo e restos animais e quase fomos atropelados por uma vaca desgovernada (era só o que me faltava). O clima era estranho, mas em nenhum momento me senti inseguro. Seguimos o mapa e chegamos até os ghats (escadarias) que dão para o rio. Fui à cometido pelo clima de grandeza e antiguidade do lugar, mas não deu para absorver quase nada, pois já era quase meia noite e a prioridade era conseguir se limpar e ficar um pouco na horizontal. Andamos pelo rio e nada. Não achava a guest house. Resolvi subir por um beco escuro e cai em um labirinto de vielas estreitas, o que eu acho que deva ser a cidade antiga que beira o rio. Perambulei por uns 20 minutos a esmo e no fim só achei nosso hotelzinho porque Vishnu quis. Resgatei a Marina, que tinha ficado me esperando no Ganges e ufa, finalmente chegamos. Pensa num dia longo. Agora pensa num dia longo em que várias coisas dão errado. O nosso foi mais ou menos assim, mas o importante é que atingimos nosso objetivo. 

Chegar na Índia não foi fácil, mas rendeu uma boa história (acho). 

Mas chega, que fiquei cansado só de lembrar desse dia. Depois conto mais sobre Varanasi.

Beijos Quentes

Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 2

Subindo o mirante de Namche

Este foi um texto que escrevi após a odiável experiência de ver o final de Game of Thrones, por isso mantive abaixo a abertura original. Aprecie. 

E após quase sufocar no buraco sujo e escuro que foi a última temporada de Game of Thrones consegui recuperar o fôlego e escrever umas pataquadas. Mas sério mesmo hein, que finalzinho apressado o de GoT, não foi? Os roteiristas das duas últimas temporadas estavam com mais pressa para terminar tudo do que meu tio Apolinário para chegar em casa quando foi acometido por um furioso desconforto intestinal durante um show do Biquini Cavadão no Réveillon de 93. Spoiler: ele não achou um banheiro a tempo. Bom, pelo menos as duas histórias terminaram em merda. 

Mas chega de falar de série de fantasia com zumbi, dragão e gente brava, o negócio aqui é sério. Agora é hora de falar de um casal que andou tanto que praticamente cruzou a muralha e foi parar num lugar gelado que mais parecia a terra dos selvagens. Juro que agora acabaram as referências à cultura pop.

No último relato descrevi nosso trekking até Namche Bazar, a fascinante vila/cidade no topo das montanhas. Foi um período gostoso da nossa caminhada, pois ficamos duas noites no mesmo lugar, algo raro quando seu objetivo é andar todo dia. Nossa estadia “longa” se deu pela necessidade de fazermos aclimatação à altitude, ou em outros termos, tentar acostumar nosso corpo o máximo possível às grandes alturas. Um dia não é o ideal, mas também não dá para ficar a vida toda lá, então é melhor do que nada. 

No nosso dia de aclimatação fizemos um trekking rápido até um ponto de observação perto da vila. Subimos de 3.200 metros até 3.880 e depois descemos de novo. Parece pouco, mas vai você pegar uma subidinha bem da inclinada a mais de 3.000 metros do nível do mar. O pulmão fica bem debilitado e tudo é complicado. Me senti uma daquelas tias fumantes dos Simpsons. Claro, depois que você encontra seu ritmo de caminhada fica tudo mais fácil, mas até isso acontecer o ar “some” o tempo todo. 

O dia estava bonito e o céu azul e bem limpo, por isso conseguimos ver pela primeira vez o Everest no horizonte. Foi bem emocionante perceber que a partir daquele momento já poderia dizer “vi o Everest quase de perto”. A visão do mirante era incrível, dava para acompanhar os caminhantes seguindo a trilha uns 500 metros abaixo, fazendo zigue-zague nas encostas do vale com algumas grandes montanhas ao fundo, como Ama Dablam, Lhotse e o próprio Everest. Aliás dava pra ver só uma pontinha meio sem graça da maior montanha do mundo, que é tímida e bem inferior esteticamente comparada às outras companheiras, mas é o topo de tudo e com certeza tem uma mística inegável. Everest é aquela famosa pessoa “feia” com charme. 

A pontinha do Everest

E foi esse nosso dia de aclimatação em Namche. 

Após isso seguimos viagem, agora éramos nós percorrendo a sinuosa trilha entre os morros e que acompanha o vale que vimos lá do mirante. Esse foi um dia puxado, pois andamos bastante e logo após o almoço enfrentamos uma subida de duas horas com vento frio e um começo de chuva. Foi um dos piores dias da trilha para mim, pois não me agasalhei bem então toda vez que eu parava para descansar o vento gelado parecia cortar até meu osso em pequenos pedaços, poucas vezes um sofá e um cobertor me pareceram tão sedutores. Culpa, principalmente, da minha irritante mania de suar em demasia. Pense em algo que atrapalha a vida, pois não posso me mover para pegar algo como o controle remoto que já começo a transpirar. Comer algo no calor? Transpiro também. Andar até o carro após fazer compras no mercado? Com certeza estarei suando. Assistir um vídeo de um filhote de cachorro sendo resgatado de um rio com corredeiras bravas? Pode ter certeza que eu transpirei (de nervoso). Essa minha maravilhosa característica é principalmente ruim no frio, pois qualquer roupa pesada me faz transpirar, caminhar com roupa pesada então só piora tudo. E aí eu fico molhado, as roupas ficam molhadas e qualquer brisa fria é intensificada em 1000%. É chato e foi especialmente chato nesse dia.

O caminho até Tengboche com o Ama Dablam ao fundo

Depois de vencer esse desconforto imenso chegamos em Tengboche, uma vila ao topo da nossa subida de duas horas a 3.800 metros de altura, onde fica o mais importante monastério da região. Belo lugar para se construir um monastério, no alto de uma montanha e com outros picos ferozes e brancos de neve ao redor. Aliás o cenário todo era incrível. Com certeza é mais fácil encontrar algum tipo de iluminação ali do que em um apartamento apertado em São Paulo. Fica a dica para os leitores que procuram epifania espiritual. Enfim, nem dormimos em Tengboche pois a vila estava cheia, por isso seguimos viagem até Deboche, alguns quilômetros à frente. 

A vista do monastério mais alto do mundo para a vila de Tengboche

De Deboche fomos até Dingboche no dia seguinte, seguindo um bonito e pedregoso caminho em que finalmente superamos a marca de 4.000 metros. Aliás Dingboche fica a 4.410 metros de altura. Ali muita gente começa a sentir bastante os possíveis efeitos da altitude: dor de cabeça, enjoo, dificuldade de respirar, possíveis delírios  e vontade de assistir Caldeirão do Huck. Inclusive nesse trecho a mudança de vegetação e do cenário em geral é bem nítida, tudo fica rochoso, cinza, marrom e branco. As poucas plantas que ainda insistem em aparecer são rasteiras e parecem sofrer. Também foi nesse trecho do percurso em que presenciamos nossa primeira nevasca. Foi um momento muito especial, ainda mais porque não somos íntimos com neve (graças a Deus), mas mal sabíamos que daqui alguns dias estaríamos amaldiçoando essa porcaria branca.

Vista do mirante de Dingboche – vale até o Island Peak e a vila embaixo

Dingboche foi mais uma vila em que fizemos aclimatação e melhor ainda, foi mais um lugar interessante e bonito que encontramos pelo caminho. Pequena, simples (não existe nada no trajeto todo como Namche), e praticamente guardada pelo Ama Dablam, uma das montanhas mais bonitas dos Himalaias. Lá tem um café bem do gostoso e lotado de turistas, lugar que aproveitamos com nossas amizades da trilha (falarei delas mais abaixo) e onde encontramos outros brasileiros. O mirante em que fomos no nosso dia de “descanso” tinha uma vista surreal em duas direções: uma para o vale que segue em direção ao Island Peak, um lugar cinza e branco tomado por montanhas de aparência implacável e outra para o caminho que os trekkers seguem para o acampamento base, guardado por picos como o Cholatse e Taboche. Foi ali em cima, observando esses horizontes tão distantes da minha realidade que senti pela primeira vez que estava entrando em um mundo alienígena.

Ama Dablam, a montanha mais bonita do pedaço

Foi também onde, em meio a um momento de extrema emoção, avistei uma turista que se escondeu atrás de algumas pedras para fazer xixi. Ela se escondeu do grupo dela, mas esqueceu de que outras pessoas estavam subindo a trilha.

Após a aclimatação, já no dia seguinte, seguimos pelo percurso que eu chamo de “começo do vale do Khumbu”, mas sei que esse termo não é correto tecnicamente, já que o vale do Khumbu é uma região muito maior do que essa, mas o blog é meu e sinceramente eu não tenho um nome melhor para essa região que quero descrever. 

Andando pelo vale do Khumbu

O caminho começou fácil, fomos por cima de um morro cinza amarronzado acompanhando o que parecia um antigo leito de rio ou o efeito de derretimento de antigos glaciares. Abaixo de nós víamos pessoas caminhando nesse “leito”, na direção contrária. Eram trekkers voltando de suas empreitadas na região e indo para Periche, uma vila que fica ao pé do morro em que estávamos andando. Foi um dia que começou tranquilo mas logo se mostrou difícil, como a vida nos ensina, as coisas sempre podem piorar. Após o almoço (sempre algo “ruim” acontecia depois da nossa refeição) enfrentamos mais uma subida homérica, de novo de umas 2 ou 3 horas. Ao chegar ao topo nos deparamos com um solene e rústico memorial para honrar os mortos nas montanhas. A vista de lá também era incrível, uma visão panorâmica de quase tudo que tínhamos andado até o momento. Enquanto estávamos lá o tempo começou a dar uma virada, com ventos fortes e um princípio de chuva. Bem apropriado para o visual belo, mas opressivo, do memorial.

Acompanhando o glaciar

Seguimos o resto final da andada diária acompanhando o glaciar do Khumbu, que parece um imenso rio gelado cortando a rocha negra. Passamos pelo nada convidativo basecamp do Lobuche Peak (a montanha estava encoberta por nuvens) e finalmente chegamos em Lobuche, onde passamos um breve nervoso por não termos lugar para dormir (a trilha é realmente cheia de turistas nessa época do ano e as vilas ficam cada vez menores). Com ajuda dos nossos amigos brasileiros arranjamos um quarto que mais parecia um cativeiro, mas que pelo menos era um teto nas nossas cabeças. Lobuche é cinza, fria (lá o frio começa a ficar insuportável, afinal são 4.900 metros acima do nível do mar) e eu não consigo racionalizar a razão, mas odiei aquele lugar. A vila tem um clima denso, claustrofóbico, parece que nos faz lembrar dos riscos e obstáculos desse tipo de empreitada. Mas essa foi minha impressão, obviamente. Caso queira tirar isso a limpo pode pegar um avião para Lukla, andar por cerca de 7 dias e se hospedar num dos raros lodges do lugar. 

Marina e Ama Dablam, de novo.

Lobuche é a penúltima vila antes de chegar ao Base Camp, mas para que a leitura desse post não dure mais que nosso tempo de caminhada vou encerrar ele por aqui. No próximo texto contarei sobre como quase perdi a mão e explodi meus pulmões a 5.500 metros de altura. 

Beijos Quentes

Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 1

vista comum durante a trilha

Olá fiéis seguidores desta estranha jornada pelo mundo e por minhas desventuras intestinais. Chegou o dia de vocês apreciarem mais um conto sobre a “viagem”. Quer saber por que eu usei aspas na palavra viagem? Porque na verdade fiquei 12 meses sem sair de um quarto escuro na casa da minha mãe, alternando entre o videogame e chorar em posição fetal. Essa história de volta ao mundo foi apenas uma fachada para vocês gostarem de mim. Brincadeira. Ou não. Ninguém nunca saberá a verdade. 

E agora vamos falar sobre o Nepal e o nosso trekking.

Saímos de Perth com um certo peso nas almas, uma mistura de receio com preguiça, afinal estávamos deixando um cantinho organizado e familiar para nos jogarmos no caos de sons e cores que é a Ásia. Adoramos nossos 7 meses asiáticos, mas eles nos cansaram bastante. Como seria nossa volta?

Após um atraso considerável no voo, umas voltas nervosas de avião por cima do aeroporto de Katmandu e um pouso inesperado em Calcutá, finalmente conseguimos chegar. Estávamos de volta para o rebuliço asiático. 

O Nepal já mostrou sua cara logo no aeroporto, nos deparamos com aquilo tudo que já tínhamos visto de uma maneira ou de outra por onde passamos: aglomerações ao invés de filas, taxistas abusivos, pessoas invadindo seu espaço pessoal para vender tours, multidões, buzinas, cores, poeira e tuktuks. O trânsito foi uma esperada confusão – mistura perigosa de falta de leis (ou fiscalização) com motoristas ousados demais. Katmandu não é grande e logo que saímos do aeroporto nos deparamos com vielas iluminadas por neon poderosos, construções tradicionais, templos e restaurantes em “buracos” na parede. E assim percebemos que estávamos é com saudades daquele caos todo. Foi uma volta da sensação de aventura, da dinâmica, do movimento e de viajar no “modo difícil”. Ter ido para Austrália foi incrível, inegável, mas o sentimento é outro ao chegar em cantos mais caóticos do mundo. 

A confusão de Katmandu

Katmandu é fascinante e peculiar, mas não dá para falar que é uma boa cidade. Tem muita história, alguns templos sensacionais, um bairro turístico muito interessante, mas é suja (não como a Índia), poeirenta e ainda muito destruída, consequência do terremoto de 2015. Triste ver como o dinheiro de ajudas internacionais e dos milhares de turistas que vão para lá todo ano praticamente não é revertido em benefício da população. 

Thamel, o canto onde ficam os turistas, é uma cidade a parte. Apesar de não refletir a realidade de Katmandu, é interessante. Conta com vários restaurantes bons, bares de origem suspeita, milhares de lojas de equipamento de caminhada e lojas de souvenir e tecidos, todos espremidos em vielas antigas e de arquitetura única. Parece um ponto de convergência de exploradores do mundo todo. 

Ficamos apenas dois dias lá antes de começarmos nossa própria aventura. Foram dois dias sem tempo nem para ir ao banheiro, pois cuidamos de todos preparativos para nossa trilha. Fechamos tudo com a agência e compramos equipamentos e suprimento que faltavam. Inclusive se você estiver precisando de casacos, jaquetas, calças ou qualquer coisa da North Face recomendo dar um pulo em Katmandu. Lá tem tudo o que você imaginar, só que muito mais barato. Claro, você pode acabar adquirindo produtos da Face North ou North Fade sem saber, mas mesmo assim vale a pena. Comprei vários produtos genéricos e todos aguentaram o tranco durante nossas andanças himalaias. 

Aliás, a trilha. Melhor explicar um pouco sobre ela antes de entrar em detalhes sobre os próximos dias. Bom, nosso grande objetivo ao ir para o Nepal era fazer um trekking até o acampamento base do Everest. Esse é um percurso que sai de um ponto com 2.800 metros de altitude e chega até outro com 5.400, ou seja, vai até bem alto, onde tem pouco oxigênio no ar. Falando de distância percorrida, são cerca de 130 quilômetros andados para ir e voltar. É bem frio também. São doze dias (ou mais) passando por pontes sacolejantes, beiradas traiçoeiras de precipícios, rios gelados e iaques com cara de poucos amigos. Mas assim, claro, não foi nada demais, coisa boba que fizemos por diversão sem nem perceber. 

Brincadeira, é uma baita aventura, com certeza. Mas isso não quer dizer que subimos o Everest. De novo, fomos “só” até o acampamento que todas expedições de alpinistas que realmente tentam alcançar o cume usam como base principal. Mas eu não vou ligar se vocês entenderem errado e dizerem por aí que estivemos no topo do mundo. Se não for muito trabalho podem falar também que eu encontrei um Yeti no caminho e obviamente ganhei dele em uma troca de socos amigável. E ele tava com uma faca. 

No dia 10 de abril, uma quarta feira, acordamos duas da manhã, pegamos uma van assassina de bem-estar (mais uma) que nos levou por encostas sinuosas e curvas malditas até Ramechhap, uma cidadezinha que fica a umas 5 horas da capital e tem um dos aeroportos mais tristes que já vi. Bom, nem é um aeroporto na verdade, é uma pista de pouso curta que tem uns casebres em volta onde o pessoal improvisou imigração, balcão de cia aérea e etc… Inclusive estou falando do aeroporto pois era esse nosso destino, foi lá pegamos um avião até Lukla, uma vila nas montanhas onde o trekking realmente começa. Chegar e sair de Lukla de avião é uma das experiências mais aterrorizantes que já tive, e olha que eu já fui chamado para subir no palco em uma daquelas peças interativas. Os aviões que chegam até lá são modelos pouco mais avançados do que o saudoso 14-bis e a pista de pouso de Lukla é mais emocionante que qualquer montanha-russa do Beto Carrero – ela é curta, extremamente curta para que qualquer coisa aconteça com segurança lá. De um lado termina em um morro e do outro em um desfiladeiro. Caso esteja duvidando de mim basta dar um Google em “Lukla Airport” e ver por você mesmo. 

A carroça voadora

Subimos em nossa carroça voadora, demos sorte pois não morremos, chegamos em Lukla, conhecemos o rapaz que iria nos ajudar com as mochilas e já começamos a andar. E sim, nós contratamos um porter, o Gopal (no último dia ele me disse que esse não era o nome dele, mas pedia para a gente chamar ele assim). É estranho e desconfortável olhar uma outra pessoa carregar a maior parte das suas coisas, mas conversamos com muitos viajantes que já tinham feito a trilha antes e todas disseram que em época de alta temporada é bom ter um porter ou guia, pois eles te ajudam a reservar lugar nos lodges (espécie de pousadas)  que ficam pelo caminho. Ir sozinho é correr o risco de chegar em vilas mais elevadas e inóspitas e ficar sem teto para dormir. E isso realmente acontece. Outro ponto – essa é a única profissão deles, muitos como o Gopal só trabalham durante temporada, então não sei o quanto isso é ajudar diretamente a economia local ou não. Talvez eu só esteja me enganando. Mas é perfeitamente possível fazer a trilha sem um guia ou algo do tipo, tudo é bem sinalizado, milhares de pessoas andam pela mesma região e daria sim para completar a caminhada com mais peso nas costas. No fim eu e minha fiel companheira fomos bem econômicos, juntamos todas nossas coisas em um mochila que ficou com 13 quilos (essa o porter levou), eu levei uma mochila com mais algumas coisas aleatórias e uns casacos (ficou com uns 7 quilos) e a Má levou um mini mochila com menos de 1 quilo. Estávamos bem leves. 

Outra coisa que esqueci de dizer e é bom explicar – em nenhum momento é necessário acampar durante o percurso, só se você quiser (para economizar) ou se ficar sem lugar pra dormir. Existem diversas vilas pelo caminho e sempre tínhamos onde parar para comer e para dormir. Ficávamos nos famosos lodges, hospedagens pequenas e simples espalhadas por todo canto nesse ponto do planeta. Certo, agora que tirei isso da frente posso prosseguir.

O aeroporto de Lukla

Começamos em Lukla, quase sem dormir, após rir na cara do perigo ao embarcar no famigerado ”avião” e com fome. Ainda bem que o primeiro dia foi curto e pouco cansativo. Mesmo assim já deu um gostinho do que viria pela frente. Lukla fica 2.800 metros acima do nível do mar, já é um local onde o frio se faz presente, mas ainda não se sente muito a altitude. Até Phakding, a vila onde dormimos, andamos por um verdejante vale dos Himalaias, sempre acompanhando um rio cor de jade num sobe e desce leve. Ao fundo montanhas cobertas de gelo salpicavam no horizonte, mas nenhuma dessas era ainda o Everest. O primeiro e o segundo dia de caminhada, em que a vegetação é mais densa, as vilas maiores e mais fartas e os arrozais visíveis me lembraram um pouco do nosso trekking pelo Vietnã, só que com muito mais stupas budistas pelo caminho. Um visual calmo, tranquilo e quase isolado, não fossem os cerca de 30 mil turistas que passam lá por ano. Uma coisa diferente entre o primeiro e o segundo dia foi o nível de esforço físico necessário para alcançar nossos destinos. Saímos de Phakding, a 2.600 metros e precisaríamos chegar em Namche Bazar, a 3.200. Foi um dia longo, de lindas paisagens e em que cruzamos a ponte mais famosa desse trekking todo, que inclusive aparece no filme Everest de 2015. O problema é que após ela tivemos que enfrentar uma subida contínua de quase 2 horas. A primeira “mega subida” da trilha toda. Isso em um caminho estreito, perigoso e que precisávamos dividir com outros caminhantes e burros de carga. No meio da subida passamos até por um lugar em que supostamente é possível ver o Everest de longe, mas o céu parece sempre estar encoberto perto dele, baita montanha tímida viu, nunca quer aparecer pros outros. 

Passando pelas vilas

O importante é que suados, cansados e talvez até um pouco assados finalmente chegamos em Namche Bazar, pra mim a vila mais impressionante do caminho todo. Foi um momento bem impressionante, pois só dá para ver Namche em sua totalidade ao passar por uma curva  fechada beirando um penhasco e aí depois do que parece ser o limite da cordilheira do nada lá está ela: uma cidade toda na montanha acobertada pela neblina.

Parece tranquilo, mas essa ponte se mexia um bocado

Mas é engraçado que ela não está no topo da montanha, ela parece acompanhar a encosta em forma de ferradura, como se estivesse na beira do precipício. Para mim Namche lembrou uma cidade em uma pequena baía marítima, só que essa baía está uns bons metros acima do mar. E na frente da vila o que tem? Montanhas, claro! Duas, bem grandes, brancas e imponentes, ali paradas, apenas exibindo seu topo tomado pela neve. Eu achei o lugar incrível e com uma vista incrível, realmente marcante. É uma vila mais desenvolvida que as outras, afinal é o último grande ponto antes de o caminho se enveredar por terrenos mais complicados, talvez por isso seja menos “autêntica”, mas ainda assim notável. Lembro de pensar duas coisas quando cheguei lá: se Shangri-la realmente existe fica em algum lugar naqueles vales perdidos dos Himalaias e talvez seja uma cidade parecida com Namche Bazar. 

Namche Bazar

Foram dois dias na vila, pois lá fizemos nossa primeira aclimatação. Mas isso eu vou detalhar mais no próximo post. Escrever sobre tanto esforço físico me cansou. 

Beijos Quentes