Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 3

Os últimos dias de trilha, a mais de 5.000 metros.

Olá companheiros dos fins dos tempos. Como estamos todo aguardando o inevitável colapso da sociedade, sugiro que você distraia-se com a leitura deste post. A essa altura você já viu todas séries possíveis mesmo, não custa nada dar uma chance para meu texto.

Esse é o derradeiro capítulo de nossa aventura Himalaia. No último post contei sobre como cruzamos vales gelados que ficam a mais de 5.000 metros de altura para chegar até Lobuche, a vila maldita. Um lugar sombrio, com clima denso, em que todos estão com cara fechada e apenas tentando sobreviver à aventura. 

Acho que o desanimo bateu em Lobuche porque estávamos pressentindo o que nos esperava, pois após uma noite fria no nosso quarto que mais parecia um cativeiro, que só conseguimos porque nossos amigos brasileiros (Daniel, Baia e Samir) cederam para nós, acordamos agraciados por uma bela tempestade de neve, daquelas que não deixam nem o sol atravessar as nuvens. Caso não tivéssemos conseguido um lugar para dormir estaríamos mais gelado que o Leo DiCaprio no fim de Titanic. Graças a deus pelo quarto/cativeiro. 

A temperatura caiu muito durante a noite, a neve tomou conta do cenário e o dia que se iniciava estava tomado por uma espécie de névoa desoladora. Começamos a trilha sem conseguir enxergar mais do que poucos palmos a nossa frente e o gelo que agora estava presente no solo causava os mais bizarros acidentes. Ver gente parando no meio da trilha para colocar grampos na bota não é uma visão muito acalentadora quando sua melhor e única ferramenta de caminhada é seu corpo meio surrado e acima do peso. De novo o clima “opressor” de Lobuche tomou conta de nossos corações, mas eis que após uma hora de caminhada a luz venceu, o dia se abriu e o sol tomou conta do céu. Nunca fui desses hippies que dão bom dia pro sol, inclusive julgo a turma que faz isso (se você faz, desculpe, já te julguei), mas nesse dia eu quis abraçar o astro rei com todas minhas forças, mesmo que isso fosse causar uma ou outra queimadura em meu corpinho. 

O caminho com a névoa – aí já estava até que bom

O cenário que até então era depressivo transformou-se em uma das paisagens mais lindas que já vi. Estávamos em uma parte plana do vale do Khumbu (situação rara), indo em direção a uma pequena cadeia de colinas rochosas que precisaríamos cruzar para chegar em Gorak Shep, a última vila antes do nosso objetivo final, o campo base do Everest. A nossa frente as já mencionadas colinas, ao lado direito o glaciar do Khumbu e montanhas como Lola, a esquerda mais montanhas que não sei o nome. Tudo branco, imaculado. Parte de uma outra dimensão. Não gosto de neve, mas deve admitir que o inferno branco deixou a paisagem muito mais linda – foi um passeio em um planeta desconhecido. Era complicado decidir entre andar ou apreciar o visual.

Foi um dos momentos em que tive certeza que aquela loucura e todas outras loucuras da viagem eram parte de decisão muito acertada em nossas vidas. Um daqueles raros momentos de epifania em que você se sente em paz com um caminho traçado e ou uma decisão tomada. Dessa vez a natureza empurrou essa epifania pela minha goela abaixo. Qualquer perrengue valeria a pena para viver aquilo e nem no Everest nós tínhamos chegado ainda. 

Rafael e Marina, exploradores interdimensionais presos em uma realidade feita de sal ou algo assim. Esse era o tipo de viagem que estava passando pela minha cabeça durante a ebriedade causada pelo momento de alegria, mas logo o frio, a fome e a sede fizeram questão de destruir o momento. Nada como a vida real martelando as durezas da realidade em nossos sonhos. Continuamos andando, era o que dava pra fazer. 

Marina olhando pelo vale que tínhamos atravessado

Atravessamos os amontoados de rocha que se colocaram de forma muito inconveniente no meio de nossa amada planície de neve e logo estávamos em Gorak Shep (5.164 metros) um triste amontoado de casas e resistência humana em um lugar horrível para se existir. Ainda desgosto mais de Lobuche, mas Gorak Shep foi um péssimo local para dormir. Lá é frio. É mais que frio, é muito frio. É gelado, glacial, muito além do sub-zero. Isso em uma época que não deveria ser tão fria, mas tivemos a “sorte” de pegar uma primavera atípica na região. Para melhorar ficamos em um lodge em que o quarto oferecia exatamente nenhuma proteção contra o frio. Para vocês terem ideia o telhado era vazado e praticamente nevava em nossas camas. A sala comum do lugar também não era tão quente quanto às outras que passamos, e todo mundo lá só tinha cara de triste e sofredor. Resumindo, não sei se deu para perceber mas não gostamos muito de dormir em Gorak Shep.

Desconhecido que entrou na minha foto.

Porém estou me adiantando na história, pois quando chegamos lá ainda estávamos animados, era dia, e só faltavam algumas horas para chegarmos ao basecamp. O itinerário era ir de uma vila para outra e até o campo base e voltar no mesmo dia. 

Almoçamos no lodge, esperamos nossos amigos brasileiros, chegarem a vila  e saímos todos juntos em direção ao tão esperado destino. Aliás eu só mencionei eles de forma superficial até agora, mas conhecemos esse grupo de brasileiros no nosso primeiro dia de trilha e apesar de não andarmos juntos, nos encontramos bastante pelo percurso. Pessoal bem do gente boa. 

O começo da caminhada até o acampamento base.

Já era de tarde e o dia tinha perdido seu brilho, e como acontecia na maioria das tardes naquela região, ficou cinza e nublado. O caminho até o acampamento base foi tranquilo e cheio de risadas. Para chegar lá de Gorak Shep foi necessário atravessar uma série de morros irregulares cheios de mini precipícios, com a companhia do glaciar ao nosso lado direito. Mais ou menos o que tínhamos enfrentado entre Lobuche e Gorak Shep. 

E quando as tendas amarelas das expedições que sobem o Everest já estavam bem próximas e visíveis começou uma bela de uma nevasca. Pisamos no acampamento base sendo castigados por um odioso amontoado de neve. Tudo ficou mais frio, mais cinza e mais escorregadio. Um momento que deveria ser de emoção e orgulho virou algo nas linhas de “vamos tirar uma foto ali com a plaquinha que prova que chegamos até aqui e ir embora deste inferno logo”. 

O acampamento base – a tempestade tinha acabado de começar. A montanha atrás NÃO é o Everest.

A neve deixou a volta muito mais emocionante e fomos nos equilibrando entre pequenos desfiladeiros e pedras soltas. Estava bem frio, estávamos molhados e cansados, mas mesmo assim foi nesse momento que a nossa ficha caiu, que percebemos o que tínhamos acabado de fazer. Chegamos no basecamp e ainda estávamos enfrentando uma nevasca, coisa que não é para qualquer um. Me senti como um antigo viking cruzando uma planície gelada com meus companheiros de exploração. Não tenho a menor ideia porque pensei nisso, afinal o que tem a ver um viking com os Himalaias? Mas eu sou a pessoa que às vezes pensa que montar em um avestruz é o mais próximo que podemos chegar de montar em um T-Rex, então perdoem a falta de coerência da minha mente. 

Foi sensacional, foi marcante e foi foda. Mas voltar para Gorak Shep foi horrível. Como eu já disse, nossas roupas estavam encharcadas e a vila é o inferno gelado na terra. Demoramos muito para nos aquecermos de novo e tivemos que ficar boa parte da noite em frente ao fogão/caldeira do lodge tentando secar as únicas roupas de frio que tínhamos. E aí na hora de dormir ainda tivemos que enfrentar um quarto com uma temperatura negativa. Eu tava quase colocando fogo no meu saco de dormir para me aquecer um pouco. Iria morrer? Sim. Provavelmente causaria uma tragédia? Sim. Mas com certeza eu iria desta para melhor bem quentinho e feliz. 

No acampamento base – não parece mas a tempestade estava bem forte.

Foi uma noite tenebrosa. Talvez mais pela minha ansiedade do que pelas dificuldades do clima. Não consegui pregar o olho. Talvez pelo de que teria que acordar às 5 da manhã para subir um pico próximo da vila chamado Kala Patthar. A Marina estava tranquila, já tinha pulado fora dessa. O Kala Patthar é o pico mais alto que alguém pode subir sem conhecimento técnico, basicamente uma ladeira gigante que te leva até quase 5.600 metros de altura. A ideia é subir bem cedo pois assim é possível ver o sol nascendo atrás do Everest e ainda dá tempo de voltar e fazer o dia render, afinal o plano era começar nossa descida de volta para Lukla no mesmo dia. Sei que minha insônia foi tanta que acordei nosso guia/porter umas da 4 da manhã e partimos mais cedo para a empreitada. 

Logo que saímos percebi que o céu estava muito claro, com as estrelas brilhando intensamente no firmamento. De longe dava para ver as lanternas dos trekkers que já tinham começado a subida ao cume. Não demorou e comecei a me arrepender da minha decisão. Talvez tenha sido efeito das roupas ainda semi molhadas ou só o clima que estava mais inclemente ainda, mas comecei a sentir um frio avassalador nos pés. Começamos a subida e eu dei um belo de um gás deixando muita gente pra trás. Também quase cuspi meu pulmão no processo e quando descobri que minha arrancada não serviu de nada, pois ainda tínhamos umas 2 horas de subida, quis chorar. O caminho estava tomado pela neve, algo incomum para essa época do ano, o que deixou a trilha mais cansativa e traiçoeira. Para melhorar tudo escorreguei, como faço sempre, pois acho que tenho algum gene que me faz escorregar mais do que o normal, e enfiei a mão sem luva na neve, o que foi um ótimo remédio para curar o frio que sentia no pé, porque aí eu percebi que dava pra ser muito pior. Lembrando que ainda era de madrugada e o sol não tinha aparecido ainda. Embora a vista do vale do Khumbu iluminado pelas estrelas tenha sido quase onírica, minha mão estava virando uma garra atrofiada de tanto frio. Eu só queria que o maldito sol surgisse logo por trás do Everest. 

Subida do Kala Patthar – o sol estava quase aparecendo.

A subida até o pico foi muito difícil, talvez o único momento na trilha toda em que eu me senti verdadeiramente cansado e sem ar. Não sei se fui em um ritmo muito apressado ou se sou mole mesmo, mas sei que quando cheguei lá só queria sentar e descansar. Só depois de alguns minutos que consegui tirar algumas fotos e apreciar a vista, uma visão realmente incrível de um vale gelado cercado pelas maiores montanhas do mundo. Uma demonstração de pura potência da natureza. Fantástico e surreal. Mas eu estava com muito frio e só queria sair dali, por isso logo comecei a descer. Encontrei dois amigos brasileiros chegando, até mais acabados do que eu, e ainda avistei um rapaz vomitando ao longo da trilha. Pelo menos não tinha sido difícil só pra mim. Na descida eu só queria me jogar na neve e ir rolando até lá embaixo, um jeito mais rápido, fácil e perigoso de cumprir o objetivo. Mas não, o nosso frágil corpo humano impede esses momentos de diversão, por isso tive que ir escorregando pela trilha, igual um bocó. Mas finalmente cheguei na base e voltei pro lodge, com uma carinha tão sadia quanto a de alguém que acabou de sobreviver a uma explosão atômica. Mal conseguia falar. Foi sensacional ter atingido o cume do Kala Patthar, poder dizer que já escalei algo nos Himalaias e cheguei a 5.600 metros de altitude, mas a melhor parte da experiência toda foi voltar. 

O sol quase aparecendo atrás do Everest (o pico do meio)

E o dia não acabou aí. Depois de toda provação nas alturas só tive tempo de tomar café e logo iniciamos nossa descida. Andamos cerca de mais 6 horas e passamos de 5.200 metros para 4.200. Passamos por precipícios escorregadios e lamacentos, ribanceiras trapaceiras e trilhas inundadas. Tudo culpa do amontoado de neve das nevascas recentes que começava a derreter. Claro que eu, que já levo mais tropeções que o ser humano médio e ainda estava em condições físicas horríveis pela subida feita mais cedo, quase me esborrachei no chão várias vezes. Me sentia uma casca de ser humano se arrastando pelo gelo. Até os trekkers mais idosos me ultrapassaram (e ainda deviam me xingar). Eu sei que esse tipo de trilha não é sobre competição com os outros, mas fica difícil se sentir bem quando até a velha surda da Praça é Nossa é mais rápida que você. E olha que sou acostumado a perder para a terceira idade, certa vez tentei acompanhar o ritmo do doutor Drauzio Varella, que encontrei correndo no Ibirapuera, e quase morri. Enfim, foi nesse ritmo modorrento que chegamos em Periche, uma cidade no outro lado do morro que cerca Dingboche. Lá conseguimos finalmente descansar com mais conforto e dormir bem. 

Vou resumir um pouco a volta, pois se não precisarei de umas três posts para contar tudo sobre a experiência. A única parte diferente do caminho de ida foi passar por Periche. Para chegar e sair de lá andamos pela porção baixa do que parecia ser um antigo leito de rio. Na ida tínhamos andado por cima do morro que acompanha esse leito e realmente a visão mudou. Uma mistura de alagado com deserto cinza tomou conta do cenário sempre vigiado ao fundo pelo Ama Dablam. Depois de cruzar uma ponte e andar por uma série de incríveis penhascos voltamos para o “caminho normal”. O retornar foi uma experiência nova, ângulos diferentes transformaram vistas teoricamente familiares em novidade. Voltar também foi cansativo, afinal para descer caminhamos em 3 dias o percurso que subimos em 8. Haja força no joelho para aguentar o tranco. 

O caminho da volta

No fim a vontade de terminar a experiência toma conta do espírito, não tem jeito. Sabe aquela sensação de “ok, já cumpri meu dever agora só quero relaxar”? Então, talvez isso também tenha nos deixados mais preguiçoso e dificultado um pouco o retorno. 

Foi também um alento sair do frio insuportável e chegar apenas no nível do frio meramente tolerável. Alegria maior ainda foi quando voltamos a ver árvores, florestas e bosques. 

E uma hora acabamos chegando em Lukla, de uma forma meio sonolenta e arrastada, mas chegamos. O único pico de emoção na volta foi causado pela notícia da morte de um companheiro de trilha, ele provavelmente escorregou em um dos trechos mais tranquilos do percurso, o que nos fez pensar em todos buracos, ravinas e desfiladeiros lamacentos e escorregadios que enfrentamos. A vida é estranha e quis o destino que dois seres humanos de pouca estatura e uma tendência para cair no chão conseguissem chegar são e salvos após essa aventura. Ainda bem. 

Mas os perigos da jornada ainda não estavam todos superamos. Nós chegamos em Lukla e pelo menos a andança tinha parado, mas no dia seguinte ainda precisaríamos enfrentar o maldito aeroporto daquele lugar. Eu já descrevi bem o nervoso que os aviões e a estrutura de Lukla e Ramechhap me causaram na ida, mas com certeza é pior sair do que chegar em Lukla. A porcaria do aeroporto fica na base de um penhasco e aquele avião bi-motor sem vergonha tem que acelerar com tudo e se jogar da montanha em um ato de fé que eu não estava preparado para cometer. Passei um nervoso ali que nem os desconfortos intestinais na Cidade Proibida tinham me causado. Um rapaz no nosso voo que até chorou. Foi intenso e agora, contando essa história, eu acho que é uma experiência válida e bacana.  Mas que na hora dá um baita medo, a isso dá. 

A desgraça da pista do aeroporto acaba ali mesmo. É um penhasco.

O importante foi que deu tudo certo, pousamos em Ramechhap e após mais uma van da morte de algumas boas horas (meu deus o Nepal poderia ser um pouquinho mais plano), chegamos em Katmandu. Estava terminada uma das experiências mais especiais da viagem. 

Marina e o Lola

Ainda ficamos alguns dias no Nepal e depois fizemos uma travessia insana para a Índia por terra, tópico do próximo post.

Beijos quentes.

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