Bulgária, o país verde e esquecido – Parte 2

Um rôle pelos lagos glaciais de Rila

Bulgária, o país verde e esquecido – Parte 2

Olá patronos do nonsense e da vergonha alheia. Esse é mais um capítulo das aventuras pela Bulgária, a parte 2 do post anterior.

Só para relembrar – tínhamos alugado um carro e estávamos prestes a explorar cada canto do país. Ou melhor, cada canto que nosso prazo de 4 dias restantes lá permitisse. 

O primeiro objetivo era ir até umas cachoeiras e cavernas na região norte, em Lovech. Mas conseguimos errar o caminho mesmo usando mapas e GPS e fomos parar em um hotelzinho perto de Troyan, a mais de 30 quilômetros de distância do nosso destino – não tenho ideia de como isso aconteceu, mas mais uma vez acho um milagre não termos perdido ao menos um membro nessa viagem. Enfim, como na maioria das vezes, foi bom se perder, pois demos um passeio muito interessante – desbravamos diversos vilarejos com nosso carrinho, todos com um visual que eu classificaria como  “leste europeu de filme”. Casinhas velhas e rústicas, ruínas de grandes empreendimentos industriais esquecidos e a natureza tomando conta de tudo, o verde dominando o lugar e as pessoas. Se você der um Google em “interior leste europeu” vão aparecer fotos dos lugares por onde passamos. Ainda bem que os dias estavam lindos e o sol ardendo no céu, senão o cenário poderia ser bem deprimente, daqueles que fazem parte de películas B de terror em que viajantes vão parar em uma cidadezinha esquecida em que uma babushka qualquer coloca uma maldição neles e os locais andam com foices prontas para decapitar cabeças.

Uma vilazinha no meio do nada

O melhor de tudo foi que acabamos em um hotelzinho muito simpático e com uma dona mais simpática ainda, a Greta, e olha que ela nem tentou decapitar a gente. Inglês era a mesma coisa que nada para ela, mas nos entendemos por gestos e pelo intermédio providencial de um búlgaro-americano que estava de férias lá. A região era linda e acabamos fazendo uma trilha seguindo o cume de montanhas que começam a cordilheira dos balcãs. Um lugar bonito, verde e calmo. Fazer essa trilha foi quase um experimento zen – não era complicada, o caminho estava tomado por pequenas flores e o cenário de montanhas e pradarias acalmava mais que aquela dose de Maracugina com uma pitada de vodka pela manhã. Como é bom interagir e estar na natureza, ainda mais com vistas tão relaxantes quanto o mar de colinas verdes que víamos pelo caminho. No fim foi bom termos errado o nosso destino, conhecemos uma bela trilha, fomos até um esquisito, porém imponente, monumento no topo de uma montanha e visitamos uma vilazinha bem charmosa para jantar. 

Nosso rôle pelas encostas de morros verdes e floridos

Depois de dois dias no “lugar errado, mas certo” nos dirigimos ao sul de Sófia, para a famosa Rila. Na verdade, não fomos para a cidade de Rila, mas sim para Sapareva Banya, uma cidade (ou vila) que fica bem perto de uma das entradas do Rila National Park, onde fizemos o popular hike dos 7 lagos de Rila. Eu escrevi muito Rila nesse último parágrafo, desculpe.

No começo da trilha de Rila

Esse foi um trekking bem especial, algo memorável para fechar nossa estadia agradável mas não tão emblemática assim na Bulgária. Foram umas 5 ou 6 horas andando (não sei quantos kms percorremos. Eu sabia, mas esqueci. Desculpe, sou humano) no topo de montanhas que também fazem parte dos Balcãs. Para chegar lá em cima é necessário montar em um elevador daqueles de estação de esqui, em que você vai ao ar livre e com as perninhas balançando, tão confiável quanto meu tio Alcides com uma garrafa de Pitu na mão. Depois disso existem vários percursos a serem feitos, mas todos passam pelos tais 7 lagos que são formações glaciais ali na beirada do céu. O visual do lugar todo é de fazer o coração bater mais rápido, feroz e calmo ao mesmo tempo. Acho incrível como montanhas que parecem tão estéreis e solitárias vistas lá de baixo possuem tanta vida e complexidade nas suas encostas. Um mundo de verde, de animais e até corpos d’água. Um ecossistema único em um lugar quase isolado. Uma visão que vale a pena. Bom, para mim qualquer programa que envolva andar no meio do mato vale a pena, ainda mais quando é necessário algum tipo de esforço para ter as visões mais gratificantes. Muito melhor dar tudo de si em um exercício sabendo que no fim vamos ser presenteados com uma pintura da natureza ao invés do rosto sorridente de algum personal trainer mais simpático do que deveria te falando que você “mandou bem”. 

Pelos caminhos de Rola

Nossa aventura ali pelos lados de Rila foi praticamente isso. Quer dizer, descobrimos que Sapareva Banya tinha uma bela de uma pizzaria e lá, andando pelas ruas, nos deparamos com um costume peculiar dos locais: todos colocam, em frente às casas, pôsteres de familiares que morreram. Com foto e tudo. Alguns já tinham batido as botas há anos e o pôster continuava lá pregado na rua para todo mundo ver. E as fotos dos falecidos não eram das melhores, eu se fosse da cidade já faria, antes de partir, uma curadoria bacana das minhas top 5 fotos para serem inseridas nesse mórbido monumento, não gostaria de passar vergonha depois do rigor mortis. Minha preferência seria uma foto de sunga ou regata, ou quem sabe usando os dois ao mesmo tempo. Talvez eu deva dar umas ideias para esses tais búlgaros.

Um pouco mais alto – ainda em Rila

Para ser sincero eu acho que as fotos e cartazes eram dos mortos das famílias, mas não tenho certeza, pois não pesquisei direito o assunto, por isso gostaria muito que o leitor mais ávido pela verdade fizesse a devida investigação e compartilhasse com o mundo. De qualquer jeito era um negócio estranho. 

Lugarzinho estranho

Depois disso restou voltar para a capital, errar o caminho na hora de devolver o carro (porque a Marina deixou um McDonalds como destino no GPS), ir para a rodoviária (mais uma) e pegar mais um ônibus, dessa vez para a Grécia. Foram dez dias na Bulgária, um lugar gostoso, que pode ser explorado melhor e me parece ter mais para oferecer, o único problema é lembrar que ele existe. 

Após essa pausa idílica e preguiçosa, era hora de retomar um ritmo mais intenso na viagem, principalmente porque a sogrinha estava chegando para nos visitar. Esse é o assunto dos próximos posts.

Beijos Quentes

Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 1

vista comum durante a trilha

Olá fiéis seguidores desta estranha jornada pelo mundo e por minhas desventuras intestinais. Chegou o dia de vocês apreciarem mais um conto sobre a “viagem”. Quer saber por que eu usei aspas na palavra viagem? Porque na verdade fiquei 12 meses sem sair de um quarto escuro na casa da minha mãe, alternando entre o videogame e chorar em posição fetal. Essa história de volta ao mundo foi apenas uma fachada para vocês gostarem de mim. Brincadeira. Ou não. Ninguém nunca saberá a verdade. 

E agora vamos falar sobre o Nepal e o nosso trekking.

Saímos de Perth com um certo peso nas almas, uma mistura de receio com preguiça, afinal estávamos deixando um cantinho organizado e familiar para nos jogarmos no caos de sons e cores que é a Ásia. Adoramos nossos 7 meses asiáticos, mas eles nos cansaram bastante. Como seria nossa volta?

Após um atraso considerável no voo, umas voltas nervosas de avião por cima do aeroporto de Katmandu e um pouso inesperado em Calcutá, finalmente conseguimos chegar. Estávamos de volta para o rebuliço asiático. 

O Nepal já mostrou sua cara logo no aeroporto, nos deparamos com aquilo tudo que já tínhamos visto de uma maneira ou de outra por onde passamos: aglomerações ao invés de filas, taxistas abusivos, pessoas invadindo seu espaço pessoal para vender tours, multidões, buzinas, cores, poeira e tuktuks. O trânsito foi uma esperada confusão – mistura perigosa de falta de leis (ou fiscalização) com motoristas ousados demais. Katmandu não é grande e logo que saímos do aeroporto nos deparamos com vielas iluminadas por neon poderosos, construções tradicionais, templos e restaurantes em “buracos” na parede. E assim percebemos que estávamos é com saudades daquele caos todo. Foi uma volta da sensação de aventura, da dinâmica, do movimento e de viajar no “modo difícil”. Ter ido para Austrália foi incrível, inegável, mas o sentimento é outro ao chegar em cantos mais caóticos do mundo. 

A confusão de Katmandu

Katmandu é fascinante e peculiar, mas não dá para falar que é uma boa cidade. Tem muita história, alguns templos sensacionais, um bairro turístico muito interessante, mas é suja (não como a Índia), poeirenta e ainda muito destruída, consequência do terremoto de 2015. Triste ver como o dinheiro de ajudas internacionais e dos milhares de turistas que vão para lá todo ano praticamente não é revertido em benefício da população. 

Thamel, o canto onde ficam os turistas, é uma cidade a parte. Apesar de não refletir a realidade de Katmandu, é interessante. Conta com vários restaurantes bons, bares de origem suspeita, milhares de lojas de equipamento de caminhada e lojas de souvenir e tecidos, todos espremidos em vielas antigas e de arquitetura única. Parece um ponto de convergência de exploradores do mundo todo. 

Ficamos apenas dois dias lá antes de começarmos nossa própria aventura. Foram dois dias sem tempo nem para ir ao banheiro, pois cuidamos de todos preparativos para nossa trilha. Fechamos tudo com a agência e compramos equipamentos e suprimento que faltavam. Inclusive se você estiver precisando de casacos, jaquetas, calças ou qualquer coisa da North Face recomendo dar um pulo em Katmandu. Lá tem tudo o que você imaginar, só que muito mais barato. Claro, você pode acabar adquirindo produtos da Face North ou North Fade sem saber, mas mesmo assim vale a pena. Comprei vários produtos genéricos e todos aguentaram o tranco durante nossas andanças himalaias. 

Aliás, a trilha. Melhor explicar um pouco sobre ela antes de entrar em detalhes sobre os próximos dias. Bom, nosso grande objetivo ao ir para o Nepal era fazer um trekking até o acampamento base do Everest. Esse é um percurso que sai de um ponto com 2.800 metros de altitude e chega até outro com 5.400, ou seja, vai até bem alto, onde tem pouco oxigênio no ar. Falando de distância percorrida, são cerca de 130 quilômetros andados para ir e voltar. É bem frio também. São doze dias (ou mais) passando por pontes sacolejantes, beiradas traiçoeiras de precipícios, rios gelados e iaques com cara de poucos amigos. Mas assim, claro, não foi nada demais, coisa boba que fizemos por diversão sem nem perceber. 

Brincadeira, é uma baita aventura, com certeza. Mas isso não quer dizer que subimos o Everest. De novo, fomos “só” até o acampamento que todas expedições de alpinistas que realmente tentam alcançar o cume usam como base principal. Mas eu não vou ligar se vocês entenderem errado e dizerem por aí que estivemos no topo do mundo. Se não for muito trabalho podem falar também que eu encontrei um Yeti no caminho e obviamente ganhei dele em uma troca de socos amigável. E ele tava com uma faca. 

No dia 10 de abril, uma quarta feira, acordamos duas da manhã, pegamos uma van assassina de bem-estar (mais uma) que nos levou por encostas sinuosas e curvas malditas até Ramechhap, uma cidadezinha que fica a umas 5 horas da capital e tem um dos aeroportos mais tristes que já vi. Bom, nem é um aeroporto na verdade, é uma pista de pouso curta que tem uns casebres em volta onde o pessoal improvisou imigração, balcão de cia aérea e etc… Inclusive estou falando do aeroporto pois era esse nosso destino, foi lá pegamos um avião até Lukla, uma vila nas montanhas onde o trekking realmente começa. Chegar e sair de Lukla de avião é uma das experiências mais aterrorizantes que já tive, e olha que eu já fui chamado para subir no palco em uma daquelas peças interativas. Os aviões que chegam até lá são modelos pouco mais avançados do que o saudoso 14-bis e a pista de pouso de Lukla é mais emocionante que qualquer montanha-russa do Beto Carrero – ela é curta, extremamente curta para que qualquer coisa aconteça com segurança lá. De um lado termina em um morro e do outro em um desfiladeiro. Caso esteja duvidando de mim basta dar um Google em “Lukla Airport” e ver por você mesmo. 

A carroça voadora

Subimos em nossa carroça voadora, demos sorte pois não morremos, chegamos em Lukla, conhecemos o rapaz que iria nos ajudar com as mochilas e já começamos a andar. E sim, nós contratamos um porter, o Gopal (no último dia ele me disse que esse não era o nome dele, mas pedia para a gente chamar ele assim). É estranho e desconfortável olhar uma outra pessoa carregar a maior parte das suas coisas, mas conversamos com muitos viajantes que já tinham feito a trilha antes e todas disseram que em época de alta temporada é bom ter um porter ou guia, pois eles te ajudam a reservar lugar nos lodges (espécie de pousadas)  que ficam pelo caminho. Ir sozinho é correr o risco de chegar em vilas mais elevadas e inóspitas e ficar sem teto para dormir. E isso realmente acontece. Outro ponto – essa é a única profissão deles, muitos como o Gopal só trabalham durante temporada, então não sei o quanto isso é ajudar diretamente a economia local ou não. Talvez eu só esteja me enganando. Mas é perfeitamente possível fazer a trilha sem um guia ou algo do tipo, tudo é bem sinalizado, milhares de pessoas andam pela mesma região e daria sim para completar a caminhada com mais peso nas costas. No fim eu e minha fiel companheira fomos bem econômicos, juntamos todas nossas coisas em um mochila que ficou com 13 quilos (essa o porter levou), eu levei uma mochila com mais algumas coisas aleatórias e uns casacos (ficou com uns 7 quilos) e a Má levou um mini mochila com menos de 1 quilo. Estávamos bem leves. 

Outra coisa que esqueci de dizer e é bom explicar – em nenhum momento é necessário acampar durante o percurso, só se você quiser (para economizar) ou se ficar sem lugar pra dormir. Existem diversas vilas pelo caminho e sempre tínhamos onde parar para comer e para dormir. Ficávamos nos famosos lodges, hospedagens pequenas e simples espalhadas por todo canto nesse ponto do planeta. Certo, agora que tirei isso da frente posso prosseguir.

O aeroporto de Lukla

Começamos em Lukla, quase sem dormir, após rir na cara do perigo ao embarcar no famigerado ”avião” e com fome. Ainda bem que o primeiro dia foi curto e pouco cansativo. Mesmo assim já deu um gostinho do que viria pela frente. Lukla fica 2.800 metros acima do nível do mar, já é um local onde o frio se faz presente, mas ainda não se sente muito a altitude. Até Phakding, a vila onde dormimos, andamos por um verdejante vale dos Himalaias, sempre acompanhando um rio cor de jade num sobe e desce leve. Ao fundo montanhas cobertas de gelo salpicavam no horizonte, mas nenhuma dessas era ainda o Everest. O primeiro e o segundo dia de caminhada, em que a vegetação é mais densa, as vilas maiores e mais fartas e os arrozais visíveis me lembraram um pouco do nosso trekking pelo Vietnã, só que com muito mais stupas budistas pelo caminho. Um visual calmo, tranquilo e quase isolado, não fossem os cerca de 30 mil turistas que passam lá por ano. Uma coisa diferente entre o primeiro e o segundo dia foi o nível de esforço físico necessário para alcançar nossos destinos. Saímos de Phakding, a 2.600 metros e precisaríamos chegar em Namche Bazar, a 3.200. Foi um dia longo, de lindas paisagens e em que cruzamos a ponte mais famosa desse trekking todo, que inclusive aparece no filme Everest de 2015. O problema é que após ela tivemos que enfrentar uma subida contínua de quase 2 horas. A primeira “mega subida” da trilha toda. Isso em um caminho estreito, perigoso e que precisávamos dividir com outros caminhantes e burros de carga. No meio da subida passamos até por um lugar em que supostamente é possível ver o Everest de longe, mas o céu parece sempre estar encoberto perto dele, baita montanha tímida viu, nunca quer aparecer pros outros. 

Passando pelas vilas

O importante é que suados, cansados e talvez até um pouco assados finalmente chegamos em Namche Bazar, pra mim a vila mais impressionante do caminho todo. Foi um momento bem impressionante, pois só dá para ver Namche em sua totalidade ao passar por uma curva  fechada beirando um penhasco e aí depois do que parece ser o limite da cordilheira do nada lá está ela: uma cidade toda na montanha acobertada pela neblina.

Parece tranquilo, mas essa ponte se mexia um bocado

Mas é engraçado que ela não está no topo da montanha, ela parece acompanhar a encosta em forma de ferradura, como se estivesse na beira do precipício. Para mim Namche lembrou uma cidade em uma pequena baía marítima, só que essa baía está uns bons metros acima do mar. E na frente da vila o que tem? Montanhas, claro! Duas, bem grandes, brancas e imponentes, ali paradas, apenas exibindo seu topo tomado pela neve. Eu achei o lugar incrível e com uma vista incrível, realmente marcante. É uma vila mais desenvolvida que as outras, afinal é o último grande ponto antes de o caminho se enveredar por terrenos mais complicados, talvez por isso seja menos “autêntica”, mas ainda assim notável. Lembro de pensar duas coisas quando cheguei lá: se Shangri-la realmente existe fica em algum lugar naqueles vales perdidos dos Himalaias e talvez seja uma cidade parecida com Namche Bazar. 

Namche Bazar

Foram dois dias na vila, pois lá fizemos nossa primeira aclimatação. Mas isso eu vou detalhar mais no próximo post. Escrever sobre tanto esforço físico me cansou. 

Beijos Quentes