Filipinas ou o capítulo da exploração marítima (TAO)

O tipo de lugar em que dormimos nas Filipinas

Sejam bem-vindos meus queridos companheiros de sofrimento. Colegas de assento nesse ônibus desenfreado que é a vida. Enquanto nossa parada final não chega deixo vocês com mais um amontoado de palavras para entorpecer a alma e, com muita sorte, trazer um sorriso para esses belos rostos.

Terminei o último texto quando chegamos em El Nido, uma cidade bem turística ao norte da ilha de Palawan. Supostamente um lugar incrível, um dos mais bonitos do mundo e etc… Acho que exploramos a região de “forma errada”, pois não achei El Nido tudo isso. Calma lá, claro que é um lugar lindo, mas nosso parâmetro para coisas bonitas já estava bem alto (e ainda aumentaria depois de El Nido), mas não me surpreendi tanto e desconfio que a culpa disso caí no ombro das hordas de turistas que assombram o lugar. Para ser justo, tivemos um único dia bem gostoso por lá – foi quando alugamos uma scooter e deslizamos por estradinhas à beira-mar até praias afastadas. Estar na estrada em um dia de sol enquanto desbravando vilas locais e passando por trilhas de terra/areia foi incrível. Um daqueles momentos da viagem de uma pulsante sensação de liberdade. Talvez a perpetuação do espírito “motoqueiro” que surgiu em mim no Vietnã. Claro, vale lembrar que tudo isso foi feito a menos de 80 km/h em uma motinho com a potência de um secador de cabelo, mas até o Motoqueiro Fantasma começou de baixo, então está valendo. 

Vai, pode rir, mas que é legal explorar uns países do sudeste asiático de motinho, é sim. 

Nuli Beach

Aliás nesse dia visitamos três praias diferentes. Na primeira, Nuli Beach, populada por surfistas, tive um encontro com um filipino que surgiu como um fantasma de umas pedras com uma arma (que parecia um arpão) na mão. Foi uma verdadeira aparição, como se um fantasma do universo de Waterworld estivesse se comunicando comigo. Ele se teletransportou para um lado da praia que só tinha eu (o lugar estava bem vazio), fez o movimento universal de “joia”em minha direção e desapareceu novamente. Certeza que foi algum Deus local dando seu aval para minha nova fase motoqueira. Obrigado, nobre espírito. 

Em uma das outras praias que visitamos, Nacpan, a Marina tomou um caldo incrível que está registrado em vídeo, recomendo conferir o Instagram do @sejogaai. Essa era uma praia mais cheia, mais “da modinha”, com diversos turistas sendo servidos em seus guarda-sóis a todo momento por Jarbas filipinos desesperados por uns dólares. Tinha potencial para ser o local mais bonito que visitamos no dia, mas o excesso de europeus estragou um pouco a mágica do lugar. Mesmo assim valeu a pena a visita, principalmente para ver a Marina quase ser levada por Netuno (não que eu gostaria que ela fosse embora para as profundezas, pelo amor de deus, é que foi engraçado mesmo). 

E na última praia visitada, a mais perto da cidade e do nosso hotel, curtimos um pôr do sol maravilhoso. Olha, não foi nada mal para um segunda-feira. Oras, como eu sei que era segunda-feira? Porque eu me lembro claramente de olhar, com o vento na cara, o sol já cansado no horizonte enquanto passávamos por uma estrada lotada de coqueiros e pensar “coitado de quem nunca começou uma semana assim”.

Pôr do sol na praia que esqueci o nome

No nosso outro dia em El Nido fizemos um dos famosos tours que tem por lá. Eles dividem as atrações por tours chamados de A,B,C e D. Sei lá se tem o tour E. Sei que fizemos o tour C, um dos mais recomendados, e foi bem mais ou menos. Visitamos lugares espetaculares, mas que estavam sempre cheios. Não dava pra admirar a paisagem com 376363 turistas por todos os lados. Nesse dia vi mais turista que mar. Longe de mim dizer que foi um dia ruim, mas de novo, perto do que já tínhamos passado (e ainda passaríamos), não foi espetacular. 

Bangalôs da TAO

E nesse mesmo dia tivemos nosso encontro introdutório para a TAO. 

Mas o que é TAO? Uma unidade internacional de espionagem? Uma seita secreta de surfistas motoqueiros? Um festival de música focado apenas na marimba? 

Não. Nada disso. Calma, eu explico.

TAO Experience é uma expedição. Ou um “mega passeio”. Algo nesses moldes. O que acontece é: essa empresa, a TAO, faz um tour de barco entre Palawan e Coron (grandes ilhas Filipinas) de 5 dias. Nesse meio tempo essa expedição para em diversas ilhotas pelo caminho e os participantes conhecem e dormem em lugares paradisíacos e “desertos”. Resumindo, é um baita negócio legal. E a nossa expedição partiria no dia seguinte, mas antes precisávamos participar desse encontro para acertar detalhes pendentes, conhecer os outros membros e falar com a tripulação. É tudo muito bem organizado e explicado. Vale a pena.

O grupo do nosso barco era bem diverso. Cerca de 20 pessoas de várias idades e países diferentes. Alguns tiozões holandeses, jovens australianos, umas canadenses, uns senhores ingleses e, claro, os brasileiros. Nós éramos seis, eu, a Marina e o Edgar e o Enzo, que já sabíamos que encontraríamos lá, e de lambuja conhecemos mais dois, a Nat e o Pedro.  E brasileiro tem aquele negócio: é cheio das panelinhas. Nós, cansados de interagir só com gringos, abraçamos o “grupinho” com felicidade. Não que não conversássemos com outras pessoas, longe disso, mas é bom dar uma papeada em português de vez em quando.

Naufrágio

A expedição em si foi surreal, vou resumir um pouco toda a experiência. Foi uma sensação incrível de desbravar ilhas Filipinas, fazer snorkels inesquecíveis, conhecer praias de água cristalina e areia branca, fazer cliff jumps de 10 metros, nadar com navios afundados da segunda guerra e dormir (quase) sob o luar em paraísos perdidos. Foram tantos locais bonitos que ficamos até anestesiados. Sério, é triste isso, mas até praias lindas podem virar rotina e o espetacular virar normal. Talvez isso tenha sido um indicador que nossas vidas estavam legais demais e o “foda” estava sendo a média de nossas experiências. Ou talvez fosse um indicador que nós já estávamos mortos por dentro e nem o mais belo canto do nosso planeta poderia nos emocionar. Talvez eu seja mais compatível com a segunda opção, mas a Marina não tem essa alma negra, então não sei qual a resposta correta.

Pôr do sol em uma ilha deserta

No fim a TAO é uma experiência rústica, mas sem ter são rústica. Você passa perrengues como dormir em cabaninhas de bambu ao relento, tomar banho de canequinha, ficar o dia no barco, estar sempre molhado e ter pouca roupa disponível. Mas, ao mesmo tempo, tem toda uma tripulação trabalhando para você, base camps com o mínimo de estrutura possível e comida e bebidas a quase toda hora (pelo menos bebidas). Vale a pena. Vale ainda mais se acontecer de você passar seu aniversário em uma praia surreal e com um naufrágio japonês ali perto, esperando para ser visitado. Foi o que aconteceu comigo e foi foda, mas não sei se é tão foda quanto aquele churrasco que termina com o choro de um velho amigo e o vômito de outro. Amizades realmente importam, veja só.

Deixo aqui a dúvida no ar e algum outro caro companheiro que passar o aniversário nas Filipinas pode responder de uma vez por todas o que é melhor: ilha perdida ou churrasco com Crystal?

Todos os brasileiros, menos eu, passaram mal antes ou durante a expedição (a Má passou logo no primeiro dia, mas melhorou), então nosso grupo estava sempre cambaleante durante curtição. Salientei esse ponto apenas reforçar que não sou chamado de “Wolverine brasileiro” à toa. Juro, muitas pessoas me chamam assim.

Puxei esse assunto relacionado à comida e as nossas sensibilidades gastro-intestinais pois esse foi um tópico que, principalmente durante a TAO, foi razão de um pico de ufanismo e saudades do Brasil. Acho que o excesso de peixe e vegetais, fora certo desgaste normal da viagem, me fizeram sentir saudades de qualquer comida do Brasil. Churrasco, coxinha, requeijão, brigadeiro, pão na chapa. Até aquele bife duro do quilo mais barato perto do trabalho, tudo deu saudades. Aliás, acho que você, senhor privilegiado por poder comer um arroz com feijão e farofa a hora que quiser, deveria valorizar mais a comida brasileira no geral. Durante meus tempos de reflexão marítima tentei tecer uma teoria do porquê nossa culinária é a melhor do mundo, mas percebi que não tenho argumentos suficientes para provar com fatos o que eu sei que é verdade dentro do meu coração. Meu único argumento é: confia em mim que eu sei do que estou falando. Comida brasileira é foda.

E digo mais, podem me oferecer qualquer café da manhã gringo do mundo, sei que tem muito leitor aqui que é fã de um bacon com ovos ou um “english breakfast”, mas vocês me desculpem, nada é melhor que o velho pão na chapa e o misto da padaria, daqueles que já carregam o gosto de tudo que passou na chapa durante a semana. Isso mais um Nescau gelado ou um pingado é imbatível. Estou aberto a embates públicos com qualquer um que queira me refutar. Embates físicos e/ou orais, que fique claro

Outro ponto onde o ufanismo apertou o calo durante nossa expedição foi em relação a comunicação com europeus no geral.

Peguei um certo ranço dos gringos durante esse período, sempre se maravilhando por tudo, com uma ingenuidade e humor um pouco “bobos”. Sei que isso é tolice e provavelmente um reflexo de como precisávamos de um descanso, afinal conseguir se maravilhar é algo legal e que deve ser valorizado. Mas, como estávamos com nosso humor mais sombrio, preferimos o cinismo e a inigualável capacidade brasileira de criticar tudo. Juro que isso está curado agora.

Galera da TAO!

E, para completar as observações sobre a TAO, ficam os dois últimos destaques: o lechon mal cozinhado que quase nos matou e Brett, o explorer. O lechon nada mais era que um porco no rolete que a tripulação resolveu fazer como surpresa pros membros da expedição, mas deixaram apenas duas horas em uma brasa baixa e o bicho estava completamente cru. Foi bem no último dia e nosso desejo por carne foi apenas iludido por esse leitão maldito. Quanta decepção. Brett, por sua vez, era um australiano ímpar com um sotaque mais ímpar ainda. Um homem de meia idade, corpulento e meio gordinho, que se vestia como um explorador. Ele gostava de se envolver nas atividades da tripulação (tipo ajudar eles a cozinhar, o que é bem legal da parte dele) e ficava de forma bizarra sempre pelos cantos, nunca realmente interagia com o resto do pessoal. Na noite que fizemos uma fogueira, por exemplo, estava lá um grupo trocando ideia perto do fogo numa boa, do nada uma luz se acendeu na escuridão, todos nos assustamos com uma intervenção tão impactante vinda das sombras. Era o Brett, sentado sozinho. Ele resolveu ligar sua lanterna, ir até o fogo, revirar uns pauzinhos para atiçar as chamas e aí o que? Invés de ficar com a galera conversando ele voltou pro seu canto escuro, sentou e apagou as luzes. Foi dramático e foi lindo, quase como o Batman sendo abraçado pelas trevas. Brett, seu doce príncipe, nunca mude. 

Nossa fiel embarcação durante esses dias

Foram 5 dias inesquecíveis com a TAO. A aventura de uma vida, mesmo. Meu único arrependimento é saber que fizemos uma coisa tão incrível com um humor não tão incrível assim. Estávamos um pouco cansados e abalados por experiências recentes, com a mente a mil por hora e a alma um pouco envenenada. Mesmo assim foi incrível, mas eu explico melhor essa nossa condição “estranha” no próximo post.

Beijos Quentes

Vietnã ou o capítulo do Excesso de Vinho de Arroz

Esse relato cobre eventos de 19/12/2018 a 25/12/2018

Isso aí é normal no Vietnã

Olá, moradores do grande limbo cósmico chamado planeta terra. Estamos no fim de mais um movimento de rotação do nosso planeta (ou começo, sei lá quando você vai ler esse post) e nada melhor para acalmar a alma do que ler sobre as desventuras e percalços de pessoas que foram se aventurar por essa grande esfera maluca. Sim, eu disse esfera. Ou melhor, geoide. Aqui é uma blog livre de terraplanistas, se você acredita que nosso planeta é achatado por favor feche seu computador e vá ser feliz dentro da sua imaginação perversa. Ou não, eu gosto de ter leitores. Fica aí, meu chapa. 

No último relato descrevi nosso preguiçoso tempo por Luang Prabang, a famosa CIDADE GOSTOSA. Um lugar lindo, calmo e bom para comer, a base da felicidade para qualquer casal adepto da inércia como nós. 

Como vocês podem imaginar foi difícil dar tchau para Luang Prabang, principalmente porque para ir embora de lá pegamos um avião que parecia saído do Caçadores da Arca Perdida e confesso que, pela primeira vez na vida, fiquei com medo de voar. Pelo menos a tarde estava linda, um pôr do sol estarrecedor acompanhou nossa decolagem e deixou todas montanhas em torno da cidade douradas, o último presente de Luang Prabang para nós. Um bom dia para presenciar uma pane nas hélices do avião, cair no coração da selva e ter que comer os passageiros mortos para sobreviver. Se fosse para acontecer uma desgraça, melhor que acontecesse em um cenário bonito. 

Felizmente isso não ocorreu e após o paradoxo tempo de 60 minutos chegamos em Hanoi, Vietnã. Para nossa surpresa o tempo estava mais “fresco” do que considero confortável, um prelúdio para o que estava por vir na nossa jornada. 

Hanoi é um caos apaixonante. Uma mistura louca de scooters, buzinas, carros, cafés e pessoas do mundo todo. Sempre em movimento e sempre com algo para ver. Acho que senti aqui o que esperava ter sentido em Bangkok, aquele clima “sujeira underground interessante”. Para começar nada diz melhor “bem vindo à Hanoi” do que quase ser atropelado por uma moto. O trânsito é intenso e maluco, as calçadas existem apenas para estacionar scooters e semáforos são meramente decorativos. Atravessar a rua aqui é o maior ato de fé que praticamos na viagem – você pisa no asfalto e de repente se vê cercado de vietnamitas motorizados por todos os lados, me senti como Simba fugindo dos antílopes, búfalos ou o que quer que fossem aquelas animais que participaram de maneira robótica no assassinato de Mufasa (RIP). Claro, depois de um tempo a loucura acostuma e aí não é preciso nem olhar pros lados para atravessar uma rua, porque você sabe que a turma vai desviar, o movimento do trânsito lá é quase como um fluxo orgânico que sabe sempre encontrar seu caminho. Apesar de ser mais seguro do que aparenta ainda classificaria “ser pedestre em Hanói” como esporte radical. O Vietnamita tem uma habilidade com a scooter que é digna de nota, praticamente são os mongóis do séculos 21, só que invés de fazerem tudo em cima de cavalos usam motores de até 110 cilindradas. Sei que em diversas partes da Ásia a motinho é o principal meio de locomoção, inclusive na Tailândia e Laos por onde já tínhamos passado, mas mesmo assim elejo o Vietnã como a terra suprema da imprudência e habilidade sobre duas rodas. Talvez apenas os indianos consigam competir com os vietnamitas.

Hanói é uma cidade grande, com muito cinza e um bairro turístico chamado Old Quarter que é um chamariz para almas noturnas a procura de diversão. Bares, boa comida, uma explosão de luzes neon e aquela sensação de que alguma coisa inusitada está sempre a espera dentro das portinhas apertadas dos inúmeros estabelecimentos duvidosos de entretenimento. Vimos algumas poucas heranças da guerra: o museu, a prisão e restos de equipamentos americano pelas ruas, como tanques e caças, mas não visitamos esses lugares (sem falar que o quebra-pau nem chegou tão ao norte assim).

A beleza peculiar de Hanói

Achei uma cidade interessante de se visitar a pé, inclusive achamos um lugar (sem querer) que depois descobrimos ser bem turístico, são os trilhos de uma linha de trem que corta o meio da cidade. Existem diversos bares e cafés ao longo deles, bem coisa de hipster. Também existem milhares de casas amontoadas uma em cima das outras, um acúmulo vertical de concreto que acompanha a linha. Passamos nosso fim de tarde por lá e a Marina deixou uma marca permanente no local, pois pisou em toda uma passagem recém cimentada por um velhinho que quase surtou quando viu ela sapateando em cima do trabalho dele recém terminado. Claro que isso foi sem querer, mas o senhor não quis nem saber e começou a gritar para nós dois que por puro instinto nos mandamos de lá. A Marina estreou o que ainda irá se tornar a famosa calçada da fama de Hanói.

A linha do trem 1
A linha do trem 2

Depois de uma curta estadia na cidade partimos para Sapa, uma cidade bem ao norte do Vietnã, na região montanhosa do país. Para chegar lá pegamos um busão “leito” que nunca tinha visto na vida, nele o assento já é uma espécie de cama, algo estranho, mas confortável (se você não for muito alto). Pegar ônibus, van ou qualquer outro transporte terrestre pelo país é uma aventura, principalmente na região das montanhas, que é dominada por estradinhas estreitas e sinuosas. Digo isso pois os vietnamitas preferem usar a buzina ao freio.Impossível manter a conta do tanto de barbaridade motorizada que vi por lá.

Depois de uma boa dose de desconforto, dor, uma dose de bílis na garganta e paisagens exuberantes chegamos em Sapa, uma espécie de Campos do Jordão vietnamita. Isso se Campos estivesse em eterno estado de construção e fosse dominada por chineses. Não me levem a mal, a cidade fica em um lugar muito bonito, uma região cheia de vales e desfiladeiros, e ela própria é charmosa. E também bem turística. Até que gostei de Sapa, embora o frio estivesse apertando, mas nosso objetivo lá era fazer um trekking pelos vales e montanhas nos arredores da cidade, coisa que começamos no dia seguinte.

Os caminhos de Sapa

Nosso passeio foi um trekking de 3 dias e 2 noites e fomos com uma guia local, moradora das inúmeras vilas que ficam espalhadas pela região. Estávamos no extremo noroeste do país, um lugar que abriga 5 tribos nativas diferentes (com costumes, roupas e idiomas diferentes) e passamos por vilas de várias delas pelo caminho, foi muito bacana. Pegamos um tour privado, mais caro, mas que seguia uma rota bem menos utilizada por agências turísticas e valeu a pena, senti que passamos por locais bem autênticos e como eu adoro andar, fazer trilha é uma das atividades que revive o velho “espírito de aventura” de que tanto gosto de sentir. Não sei explicar, mas parece que vagando por aí tenho a impressão de estar interagindo com a natureza e os ambientes que visitamos. Aliás, que cenários incríveis. Atravessamos terraços lamacentos de arroz, trilhas que rodeavam montanhas e desfiladeiras, florestas de bambus e vales que dormem à sombra do monte Fan Si Pan, a montanha mais alta da Indochina. Em um desses vales, no nosso segundo dia de caminhada, senti uma alegria e paz que há muito tempo não sentia, foi uma avalanche bucólica que me deixou leve e calmo. Foi um momento de quase parar no tempo, a realidade consistia apenas de  nós três e o sons da natureza deslizando por um corte em meio às montanhas do Vietnã. Desculpe o lapso poético aqui, prometo que nunca mais irá acontecer.

Esse vale era demais

Outra ponto que gostei muito do passeio foi que dormíamos em casas de locais e fazíamos refeições com eles. Os lugares eram simples, porém acolhedores, e a primeira noite foi memorável, pois o anfitrião da casa (que não falava uma palavra de inglês) me encheu de vinho de arroz, ou como eles chamam aqui, happy water. Foi divertido e um pouco tenso ter que virar muitos shots daquele negócio com um gosto bem mais ou menos, mas seria falta de educação recusar, ainda mais porque os anfitriões estavam recebendo um amigo. Mas deixa eu elucidar aqui, não é que foram 2 ou 3 shots. Nem 4 ou 5. Nem 6 ou 7. Foram mais de 10 shots (não lembro quantos exatamente) de um destilado potente. Olha, o pessoal teve sorte que eu não vomitei todo frango e rolinhos primavera que tinha comido, porque as chances eram altas. Consegui me segurar, não passei vergonha e apenas fiquei vermelho como meus companheiros de bebedeira. Passei no teste e agora já posso integrar qualquer exército revolucionário do norte do Vietnã. Enquanto isso a Marina conversou muito com nossa guia e a nossa anfitriã, as únicas que falavam inglês no local e ambas de tribos diferentes. Ela pode entender em primeira mão como os povos das montanhas se viram de tudo quanto é jeito para sobreviver e mandar os filhos para as escolas, mesmo quando não é temporada de colheita de arroz. Foi uma experiência profunda culturalmente e enquanto isso eu só estava me afogando em álcool e decisões ruins.

Rapaz….

Interessante que depois do jantar todo mundo senta perto do fogo usado para cozinhar, que faz vezes de lareira, e conversa um pouco. Nessa noite apenas eu e a Ma estávamos no homestay, por isso interagimos bastante com a família da casa, todos da tribo Red Dzao. Nossa guia (a querida Mu), por exemplo, é Hmong e mora apenas alguns quilômetros de distância de onde dormimos. 

E essa foi a tônica do trekking todo. Cenários incríveis, situações inusitadas (até por um velório passamos), contato local (aparentemente) autêntico e aquela mistura gostosa de frio e suor que deixa qualquer um que não está com as doses de Energil C em dia resfriado. Demos uma baita sorte pois fizemos a trilha antes do tempo virar um amontoado de nuvens cinzas, temperaturas perto de 0 e tristeza. 

Boa companhia

Voltamos pra Sapa no dia 23 e decidimos ficar duas noites na cidade pra relaxar um pouco e comemorar o natal. Não conseguimos, pois na véspera da festa do bom velinho ficamos conversando com a família por ZAP e quando saímos para comer tudo já estava fechado na cidade, menos uns poucos bares, por isso tomamos uma cerveja com valor exorbitante e jogamos truco. Um brinde às tradições natalinas.

Depois de Sapa decidimos continuar pelo norte do país, mas dessa vez fomos para uma região um pouco mais central e bem perto da fronteira com a China, a província de Ha Giang. Nossa viagem até lá foi conturbada, como são todas viagens em vans apertadas na Ásia, mas isso é assunto para o próximo post. Não perca nossa aventura de moto por penhascos vietnamitas.

Beijos quentes

Tailândia ou Chiang Mai e as lanternas do apocalipse

Esse relato cobre os eventos de 20/11/2018 a 27/11/2018.

Olá, companheiros da tormenta. Enquanto o relógio da perdição não bate meia-noite agracio vocês com mais um capítulo de nossa jornada um pouco torta.

Saímos do calor úmido e perverso de Bangcoc para encontrarmos paragens mais frescas bem ao norte da Tailândia, em Chiang Mai.

Chiang Mai, apesar de afastada da parte sul do país (onde ficam as incríveis praias e ilhas) e de ser até mesmo longe da capital, é um daqueles lugares que fazem parte de quase todos roteiros de quem visita a Tailândia. Não é por menos, a cidade, a maior da região norte, tem uma história incrível (já foi capital de um reino antigo) e é considerada uma das mais sagradas da Tailândia. O centro histórico, que ainda esbanja as ruínas da muralha que cercava o seu canal, abriga mais de 200 templos, um mais bonito que o outro.

Ruínas em Chiang Mai

Sabíamos que Chiang Mai era um lugar especial, mesmo sendo “popular”, só não sabíamos que cairíamos de paraquedas na cidade durante o seu festival mais famoso, o Yi Peng, o festival das lanternas. Olha, tem que ser muito perdido para chegar lá sem nem se tocar sobre o tal festival, tem gente que programa toda uma viagem baseada apenas nessa celebração, mas bem, nós somos as pessoas que ficaram perdidas e sem dinheiro em um parque chinês e literalmente esquecemos que o mês de fevereiro existia nas Filipinas (causo ainda a ser contado por aqui), por isso tudo é possível. Nós só queríamos conhecer a cidade e ir para o nosso retiro de meditação, que ficava ali pela região.

Nos demos conta que o festival estava para acontecer ainda em Bangcoc, quando tentamos comprar uma passagem de trem alguns dias antes de partir e o jovem do guichê praticamente riu das nossas caras. Estava tudo lotado. No fim achamos um ônibus de última hora e fomos, junto com todos turistas presentes na Tailândia naquele momento, até Chiang Mai.

Pensa em uma cidade que estava cheia. Pensou? Era Chiang Mai quando estávamos por lá. Tinha estrangeiro saindo até do bueiro. Mesmo assim aproveitamos bastante a nossa quase uma semana por lá. Que cidade gostosa. Acho que esse é o melhor jeito de descrever Chiang Mai – é um lugar gostoso. Como um amigo disse, parece cidade de praia sem praia. Ou uma cidade do interior de São Paulo com bastante estrutura. Não é a toa que lá é, como descobrimos depois, um paraíso de nômades digitais.

Um dos muitos templos

Deu para aproveitar bastante o centro antigo, andamos pra lá e pra cá vendo templos e tomando Thai Tea sob um sol bem intenso, mas muito mais tolerável do que enfrentamos em Bangcoc. Foi incrível ver a vida acontecendo ao lado de ruínas sagradas e grandes locais de adoração. Também aproveitamos muito às noites, encontramos um querido casal de amigos moradores da cidade (conhecemos eles em PhiPhi) que nos apresentou a vasta colônia brasileira que habita Chiang Mai. Tem gente trabalhando online, gente trabalhando em hostel, gente fazendo freelance e gente se virando como dá. Acho que brasileiro gosta tanto de Chiang Mai quanto de Phiphi. O importante é que conhecemos um pessoal bacana e tomamos umas cervejas geladas.

Além deles também encontramos outros viajantes brasileiros, mais especificamente representantes guerreiros do segmento de “famílias viajantes”, os incríveis @gemeosnamochila e @pelomundocomolucas. Compartilhamos um delicioso almoço em que considerei a possibilidade de nunca ser pai. Brincadeira, pessoal. Brincadeira. Eles são sim uma baita inspiração para nós.

Primeiro dia de festival

Claro, o festival aconteceu enquanto estávamos lá, inclusive começou no dia em que chegamos (ele dura alguns dias). A cidade estava linda, toda enfeitada com lanternas e ornamentos, o que só aumentou o charme do lugar. A abertura da cerimônia foi interessante, uma espécie de desfile de rua com danças típicas (pelo menos o que conseguimos ver). Apesar do índice desumano de gringos por metro quadrado toda a performance foi realizada por locais, o que sempre deixa tudo mais interessante. Os dias seguintes de festival foram marcados pelas oferendas e pedidos feitos em forma de lanternas e krathongs (barquinhos). O momento de soltura das lanternas é visualmente incrível, uma cena muito marcante da nossa viagem. Quando saímos do nosso hotel, à noite, e parte das lanternas já estavam no ar parecia que novas constelações estavam surgindo a cada segundo no escuro firmamento. Porém quando chegamos perto dos tradicionais locais de onde partem esses balões tailandeses a sensação foi outra. Invés de estrelas estáticas o que vimos foi muito movimento, uma coisa quase orgânica, como milhares de água-vivas nadando em um mar azul escuro, todas indo em uma só direção. Foi um espetáculo hipnotizante, mas causa uma certa estranheza ver mais estrangeiros participando dele do que locais. Sim, tinham muitos tailandeses nos rituais, mas mesmo assim a quantidade de “intrusos” na cerimônia era considerável. Confesso que não sei o que pensar sobre o tema. É interessante participar e se envolver com a cultura local, com certeza, mas quando será que a massificação do turismo de algo assim acaba cruzando a linha do aceitável? Aliás, existe essa linha? Só sei que muita gente que estava ali soltando lanternas não apresentava um grande envolvimento emocional e religioso com a cerimônia. Oras, até nós soltamos. Tudo bem que foi de um local mais reservado, com ajuda dos monges de um templo, mas mesmo assim não vou ser hipócrita e dizer que estava muito envolvido com a performance toda. Fui apenas mais um turista curioso que quis seguir a onda. E não vou nem falar dos polêmicos riscos ambientais das lanternas – uns dizem que não existe, pois elas são biodegradáveis, outros dizem que elas poluem rios e podem causar acidentes. Eu sei que curti o feito no momento, mas não faria de novo. Aliás não é difícil acreditar que essas lanternas possam causar queimadas e acidentes, só quando passeamos pelo rio vi umas 4 barraquinhas de comida que quase foram incineradas. E olha que ainda tinham uns gringos lá que se arrotassem no balão iriam causar uma explosão, a turma estava calibrada no álcool. Para se ter uma ideia em um dos mercados noturnos testemunhamos um jovem chinês exercitar o antigo ritual de vomitar até a alma, uma prática global.

Lanternas

Enfim, foi bonito, foi polêmico, foi interessante e graças a deus que acabou, porque tinha gente demais.

Logo após o termino do festival já deu para notar como a cidade esvaziou e tudo ficou um pouco mais calmo. Fizemos um passeio inesquecível para um dos templos mais famosos de lá, o Doi Suthep, que fica em uma montanha bem ao lado da cidade. Acordamos mais cedo do que qualquer ser humano deveria acordar, pegamos um tuktuk colina acima e assistimos a um nascer do sol inesquecível. Descemos a montanha por uma antiga trilha usada por monges e ainda paramos em um outro templo escondido pela mata e esquecido pela maioria dos turistas. Ao fim da caminhada voltamos de bicicleta para nosso hotel. Nesse mesmo dia fomos ao cinema, descobrimos que lá o filme demora meia-hora para começar e é necessário saudar o rei da Tailândia antes da película, o melhor é que ele garante que um vídeo sobre sua vida, digno de aniversário de 15 anos, passe antes de todas sessões. Só sendo rei mesmo para aprontar uma dessas e não ser zoado.

E, melhor que curtir um cinema relaxante foi a parte final do nosso dia, quando fomos à casa de um casal sensacional de amigos (aqueles que moravam em Chiang Mai e já comentei acima) e eles nos receberam com um jantar brasileiro: feijão, arroz, frango e farofa. Maravilhoso.

Cerveja e amizade (Re e Leo)

Isso foi logo antes do nosso retiro de meditação e agora tenho plena certeza que entupir todas as entranhas com feijão e farofa é o melhor ritual de preparação para qualquer prática espiritual. Pelo menos você enfrenta qualquer desafio feliz. É bem nutrido.

Fora isso o que fizemos foi curtir a cidade e dar uma passada “rápida” em Chiang Rai, outro local que muitos turistas visitam. Caso você queira conhecer Chiang Rai faça com calma e em mais de um dia, nos fizemos um passeio bate-volta e foi muito corrido. Não curtimos.

Nascer do sol no Doi Suthep

E foi assim que chegamos e aproveitamos, quase sem saber, uma das épocas mais intensas de Chiang Mai, um lugar delicioso e que merece ser visitado. Mas a estrada nos chamava, por isso demos tchau para o Léo e para Re, nossos amigos, e partimos para uma jornada dentro de nossas mentes em um retiro Vipassana. Esse é o tema do próximo post.

Beijos Quentes

Tailândia ou capítulo de Bangcoc e que fomos feitos de otários

Esse relato cobre os eventos de 12/11/2018 a 19/11/2018

Olá, colegas do abismo. Para os poucos que ainda torturam-se visitando esse blog eis aqui mais uma dose de masoquismo virtual. Como um Christian Grey de quinta categoria vou agora flagelar sua alma e, no final, ainda vou arrancar um sorriso desse rostinho lindo. A vida é assim, um teatro do absurdo e nós gostamos de coisas bizarras mesmo, não tenha medo.

Sobre o relato.

Sim, esse é mais um texto sobre a Tailândia. Peço paciência para você leitor(a), mas ficamos dois meses no país, por isso para seguir fielmente os passos da nossa jornada preciso registrar todos os capítulos da aventura no antigo Sião. Calma, tem algumas coisas interessantes que ainda serão relatadas, como nosso retiro de meditação, travessias malucas de fronteira e o torneio secreto de Muay Thai em que eu me inscrevi para vingar meu irmão. Uma dessas coisas é falsa, mas não vou falar qual.

O interior da Tailândia

O último capítulo foi todo dedicado ao nosso momento “lagoa azul” em Surin, isso se no filme a Brooke Shields tivesse recebido massagem de um Adonis coreano de frágil estabilidade mental, mas tudo bem, são águas passadas.

Saímos daquele pequeno paraíso e voltamos para nosso pântano favorito, Khura Buri. Ainda estávamos a uns 700 quilômetros de Bangcoc e já há mais de um mês na Tailândia, por isso decidimos apressar o passo ao norte e chegar logo na capital. Quer dizer, não apressamos tanto assim, senão teríamos pegado um avião ou ônibus direto para Bangcoc, mas queríamos viajar de forma barata e local, por isso primeiro fomos de lotação para Chumphon e de lá embarcamos, no dia seguinte, em um trem até nosso objetivo final.

Foi o trem mais lento que já andei na vida. Eu, de bicicleta, conseguiria ir mais rápido que o trem. Oras, acho que minha avó de andador conseguiria ir mais rápido que aquele trem, e olha que minha avó nem é boa com o andador. Mas mesmo assim foi uma experiência incrível. Cortamos florestas tropicais, pequenas e charmosas vilas e plantações de seringueiras. Durante todo o caminho estávamos rodeados de senhoras simpáticas, senhores de aparência dura e um mar de vendedores ambulantes que forneciam de tudo para os passageiros. Frutas, doces, bebidas, salgados, órgãos do mercado negro…tinha realmente de tudo. O que não tinha (ou quase não tinha) eram turistas, o que foi reconfortante.

E assim que cortamos o país em ritmo de internet discada de forma deliciosa. Mas após mais de 12 horas de viagem chegamos exaustos em Bangcoc, com um certo cansaço acumulado de uma série de translados e excessos anteriores. Aliás, quando nos aproximamos da cidade o visual bucólico deu lugar a vilas cada vez mais sujas e pobres. Passamos por lugares em que pessoas pareciam morar em mangues formados por chorume e lixo. Esses momentos são importantes para nos lembrarmos que a imagem que criamos na nossa cabeça de lugares que visitamos é, obviamente, só nossa. A realidade costuma ser muito mais mordaz que uma brochura de turismo ou o Instagram alheio, mas é fácil se esquecer disso.

A menina e a janela

Enfim, Bangcoc. Uma das grandes cidades que eu queria conhecer. Achava que iria encontrar algo claustrofóbico, energético e quase cinematográfico, como Hong Kong foi para mim. Uma cidade com aquela eterna aura de “algo proibido”, onde negócios escusos são feitos em um submundo perverso, mas interessante. Uma cidade que seria o cenário ideal para um filme noir ou cyberpunk.

Infelizmente não foi essa minha relação com o lugar. Muita gente ama Bangcoc, mas acho que eu tinha expectativas demais. Não desgostei de lá, longe disso, mas não foi memorável como é para tantos outros viajantes.

Para ser justo também não aproveitamos a cidade direito.

De dia estava um calor digno de satanás, que começava derretendo o corpo, depois queimava lentamente a vontade de existir e aí incinerava o restante da alma. Pensa numa pessoa que transpirou em Bangcoc, fui eu. Sim, eu transpirei mais que aquele alemão branquelo de quase dois metros e levemente pançudo que tem em toda viagem.

De noite as ruas ficavam apinhadas de gente animada e agitação, afinal ficamos no coração da pseudo mochilagem, a Khao San Road. Mas nossos tempos de estripulias e perdição alcoólica já tinham passado (pelo menos na Tailândia) e estávamos em um momento mais calmo e contemplativo. Até tentamos forçar umas cervejas goela abaixo para entrar forçosamente no clima, mas nunca uma Chang desceu tão desgostosa na garganta de um homem. Estávamos em uma rotação diferente de toda aquela gente visitando Bangcoc.

Vida noturna

Obviamente que fizemos coisas bacanas lá. Conseguimos visitar apenas um templo de destaque, o Wat Pho, devido ao calor e a preguiça, e o lugar é impressionante. Cheio de gente, mas impressionante. Conseguimos também cair em um dos golpes mais conhecidos da cidade, aquele em que um sujeito simpático te aborda na rua, comenta sobre um feriado que não existe, diz que os templos estão fechados e oferece um tuktuk especial que vai fazer um tour maravilhoso por uma preço bacana. Coisa boa e barata demais é quase sempre bom demais para ser verdade, pelo menos por onde já tínhamos passado. E mesmo assim engolimos esse papo e visitamos um templo do elenco religioso coadjuvante da cidade, mais caído que paleteria mexicana hoje em dia, e uma malévola fábrica de ternos (onde ficaram muito decepcionados comigo quando eu não quis nenhum, logo eu que usei terno 3 vezes na vida) e foi nesse momento que percebemos a burrada e caímos fora. Nossas perdas foram mínimas, mas o golpe poderia ter feito um rombo gigante no orçamento caso não tivéssemos percebido. Enfim, depois dessa podemos já dar tchau pra cidadania brasileira, foi uma falta de instinto tremenda ter acreditado naquele jovem sorridente na rua. Inclusive não sei como estamos vivos até hoje nessa viagem.

Além de derreter em templos e levar golpes também visitamos um dos mercados flutuantes da cidade, muito interessante, mas seria mais interessante ver toda aquela dinâmica sem um milhão de estrangeiros por lá. Eu sei que também sou um deles e todo mundo só está curioso para conhecer o local (como eu), mas que seria mais bacana ver a versão “virgem” de um mercado desses, a isso seria. Mas o que vimos teve que bastar e gostei de conhecer o mini caos que se criou em cima de umas madeiras bambas boiando num rio. Comemos coisas boas, comemos coisas estranhas e eu vi uma senhora alimentando peixes como se estivesse alimentando cachorros, valeu a pena.

As peculiaridades do mercado

Só fomos parar no mercado flutuante pois antes, no mesmo dia, levamos um bolo do nosso free walking tour. Isso mesmo, pelo visto somos tão indigestos que nem a pessoa que faz o tour de graça pela cidade quis nos conhecer, imagina ela falando pro chefe “não, não, não… de graça com esses dois aí eu não faço”. Enfim, sei que ficamos um bom tempo plantados no porto onde deveria acontecer nosso encontro e nada. Acordar cedo dá nisso.

O programa mais legal de Bangcoc, para mim, não foi feito em Bangcoc. Foi nossa rápida visita à Ayutthaya, cidade capital do reino de mesmo nome, que foi uma força poderosa no sudeste asiático entre os séculos 14 e 17. Antes mesmo do Brasil ser “descoberto” ali pertinho de Bangcoc já existia uma cidade com construções quase alienígenas para nossos olhos ocidentais. As ruínas de Ayutthaya são incríveis, um misto de diferentes influências da região, principalmente Khemer, mas com personalidade própria. Visitar esse lugares, ou como a Marina diria “um amontoado de pedra antiga” é demais para mim. Gosto muito de ver ruínas, de imaginar a vida funcionando em arquiteturas e planos distantes e nessa altura da viagem ainda não tínhamos conhecido o Angkor, por isso as de Ayutthaya foram as primeiras ruínas bacanas que vimos. Foi um dia gostoso, em que pedalamos muito e eu tirei fotos ruins achando que estava arrasando. Apenas o sol que foi inclemente, como de costume, e eu perdi cerca de 43,7% da água do meu corpo enquanto estava em cima da bicicleta. Mas valeu a pena ter a liberdade de ir pra lá e pra cá como queríamos, sem depender de tour ou algum tuktuk. Apenas gostaria que inventassem uma bicicleta que não deixasse as nádegas doloridas.

Aliás, falando em Ayutthaya, impossível não lembrar do Sagat ao ver o Buda deitado de lá. Quase arranjei briga com um americano que estava de bobeira inspirado pela minha infância regada a Street Fighter. Eu ia dar meu golpe fatal nele, o “abraço do suor”, mas a Marina impediu.

Ruínas

Fomos e voltamos de lá com um trem quase tão lento quanto o que usamos para chegar em Bangcoc. Acho que é proibido que trens sejam rápidos na Tailândia. Mas, ao contrário do primeiro, esse não foi um transporte agradável, pois estava apinhado de gente do mundo todo. Muito agradável poder conhecer os odores únicos de cada canto do planeta.

Bangcoc foi isso para nós: muito calor, momentos altos, momentos baixos e sermos feitos de otários. Ainda que na nossa última noite por lá demos uma injeção de adrenalina na estadia ao fazer aquela bobagem de turista de comer os insetos repulsivos que uns locais vendem em toda Khao San. Pude degustar uma larva maravilhosa, com toques de noz moscada e um recheio parecido com mel. Perfeito. A Marina se aventurou com um escorpião, uma escolha bem pior ao meu ver, mas ela disse ter sido um dos pratos mais refinados que já provou na vida, e leve em conta que quem falou isso é a maior sommelier de McDonalds da América Latina.

E após a noite do referido banquete demos tchau para uma cidade que nos agradou, mas que eu esperava muito mais. Partimos de ônibus para Chiang Mai, onde chegamos (sem querer) para o famoso festival das lanternas.

Mas isso é tema do próximo post.

Beijos Quentes

Tailândia ou a ilha mágica

Esse relato cobre eventos de 06/11/2018 a 11/11/2018

Sejam bem-vindos amigos e amigas. Sobre o túmulo do bom-senso erguemo-nos em mais um dia de existência sem sentido. Para aumentar o nível do absurdo vivencial, eis aqui mais um capítulo do blog.

Saca só esse lugar. E o dia ainda estava “feio”

Os mais agraciados com memória se lembrarão que na última parte da aventura estávamos prestes a chegar em Surin.

Surin é um conjunto de ilhas e também um parque nacional na Tailândia. O acesso é restrito e a infraestrutura não é nem de perto a encontrada em outras ilhas do país. Não existem hotéis, resorts e restaurantes, apenas dois acampamentos em pontos distintos de uma das ilhas (a única em que se pode ficar). Nesses acampamentos existem banheiros e uma cantina. Para dormir os visitantes podem escolher entre tendas (acampar) ou uns poucos chalés que são bem caros. Para acampar é possível levar a própria barraca e só pagar a entrada do parque ou alugar as barracas que eles tem lá, muito mais acessível que os chalés, mas não é a coisa mais barata do mundo não. Além disso o parque nacional de Surin não é aberto para pernoites o ano todo, apenas em uma janela restrita entre outubro e maio. Todos esses fatores fazem o lugar ser um dos mais selvagens e sem turistas da Tailândia. E também um dos mais lindos.

Já da lancha que faz o transporte do porto de Khura Buri ficamos boquiabertos. Que mar. Que mar. Eu sei sou repetitivo e vou continuar sendo, sempre falando da cor do mar e etc… mas esses países da Ásia não pararam de me surpreender com suas belezas aquáticas. E olha que vínhamos de lugares lindos, como Phi Phi. Mas o azul de Surin… ah como o azul de Surin não tem igual. É forte e hipnotizante. Único. Deveria existir uma cor chamada “Azul de Surin”. Foi esse pedaço mágico de oceano que nos recebeu na ilha.

Ao chegar pagamos a entrada do parque (que dá direito de uma estadia de 5 dias, mas pode ser renovada) e fomos direcionados para nossa barraca, que ficava na areia bem em frente uma das praias. Aliás, ficava na praia. Se eu tropeçasse ao sair dela (algo muito provável de acontecer) já caía no mar. Olha, não tem hotel que se equipare com a vista da nossa “sacada” em Surin.

Garota local brincando na praia da cantina

A tenda era espaçosa e confortável, mas virava um forno durante o dia, mesmo a sob a sombra das árvores. O que, se você pensar bem, era um ponto positivo, pois assim a barraca fazia às vezes de acomodação e sauna, muito chique.

Mas sério, não dava para reclamar. A praia era linda e o mar estava ali disponível para nos refrescar quando desse na cuca. Aliás ficamos no acampamento 1, o único que estava aberto no nosso período de visita. Na nossa área podíamos curtir a praia em frente ao acampamento, a praia da chegada dos barcos e, com algum esforço, outras praias que ficavam na espécie de baía que a ilha forma, mas era necessário nadar pra chegar até elas. O acampamento 2 ficava na mesma ilha, mas na outra ponta da baía e em sua parte exterior, ou seja, dava pro mar aberto. Em teoria seria possível fazer uma trilha pela mata e visitar o acampamento, mas os cuidadores do parque fecharam o caminho devido ao alto número de cobras na floresta. Sim, Surin é bem selvagem. Mas não se aflija, amigo leitor, nós conseguimos chegar no outro acampamento. Já conto mais sobre isso.

Nossa parte da ilha contava ainda com uma cantina (única “fonte” de comida da ilha), que servia refeições simples, e banheiros com chuveiros. Ficar lá não era nenhum hotel 5 estrelas, mas estava longe de ser um acampamento cheio de perrengues. Tinha alguns, claro, mas eles só deixaram tudo mais divertido.

Um dos principais “problemas” enfrentados foi a areia. Aquela linda e convidativa areia branca também conseguia ser cruel e teimosa. Era impossível não levar areia pra barraca e, bem, dormir com ela raspando no colchão fuleira que tínhamos era o mesmo que dormir em uma lixa. Ótimo para uma esfoliação de corpo inteiro.

Outro desafio apresentado por Surin foram as formigas. Isso mesmo, formigas. Eu não sei o que tinha mais lá na praia, se era areia ou formiga. Era impossível ficar deitado tranquilo curtindo o sol sem sentir algumas persistentes guerreiras te escalando. Tínhamos formiga em tudo quanto é lugar, desde os cabelos até os buracos mais escuros de nossos corpos. Elas nem picavam, mas enchia o saco tentar relaxar enquanto uns insetos subiam em nós. Eu só aprendi a masterizar a convivência com as formigas no nosso penúltimo dia lá.

Aliás não eram só essas pequenas trabalhadoras que visitavam o acampamento. Alguns turistas desavisados deixavam comida a mostra em suas barracas. E aí vinham os macacos. E os macacos de lá são ousados, e olha que macaco já é um bicho ousado por natureza. Eles entravam nas barracas, roubavam coisas, brigavam com humanos e tocavam o terror pelo acampamento. Era engraçado de ver, mas confesso que uma vez fiquei apreensivo, pois o macaco (grande) entrou na barraca de uma coreana com ela lá dentro, fiquei com medo dela se machucar, mas nada aconteceu. Ainda bem que nenhum deles veio se engraçar comigo, sou amante dos animais e fiquei temeroso da possibilidade de sair na mão com um símio enfurecido. Todo mundo sabe que macaco luta bem.

O pilantra

E a bicharada não parava por aí: era rato, cobra e mais algumas coisas peculiares com várias patas que visitavam nossas barracas. Foram dias emocionantes.

Aliás, falando em emoção, uma das coisas mais legais que fizemos por lá, fora relaxar torrando sob o sol, foi aproveitar a maré baixa e nadar/andar pelas pedras até o outro lado da baía, em direção ao acampamento 2. Passamos por duas praias desertas no processo (algo muito raro na Tailândia). Foi um momento incrível, uma junção da paz que a natureza traz com a adrenalina da nossa trilha aquática. E o visual não era nada mal. Ao chegar ao lado oposto da baía atravessamos um curto trecho de mata achamos o tal do acampamento 2. Como ainda não era temporada, lá só tinham alguns cuidadores arrumando tudo para a eminente onda de visitantes. A praia desse acampamento era bem maior e mais isolada, mas achei nosso cantinho mais aconchegante. E após essa visita fizemos o quê? Oras, nadamos tudo de volta. Pelo menos fomos presenteados com um pôr do sol incrível no caminho. Essa foi nossa mini aventura dentro da grande aventura de Surin, só faltou um embate subaquático com um tubarão para ela ser melhor ainda.

Falando em coisas embaixo da água, esse era um dos pontos fortes do local, a visibilidade e a vida presente no mar. Surin é, segundo muitos nos disseram, o melhor ponto de snorkel da Tailândia. No acampamento era possível fazer dois passeios diários de snorkel por um preço camarada, e eu participei de duas saídas em dias diferentes. Realmente a vida e os corais lá eram incríveis, só vi coisas mais legais em lugares remotos das Filipinas, mas a história mais interessante relacionada a snorkel aconteceu quando voltando de um desses passeios, em que fui sozinho, me deparo com a Marina sendo massageada por um coreano sarado que também estava acampando por lá. Eu cheguei perto com agressividade, sem dizer nada mas com uma linguagem corporal para impor respeito, mas logo o rapaz me envolveu no ritual dele que era um misto de medicina coreana, chinesa e artes marciais e quando eu vi ele estava mexendo no meu peito. Mas não era de uma forma gostosa. Antes fosse. Ele primeiro deu umas espécies de tapas lentos, mas poderosos, que quase já expurgaram todo meu ar. Depois ele começou a fazer uns movimentos circulares com as pontas dos dedos e eu tinha certeza que ele ia arrancar meu coração do peito igual o vilão (que esqueci o nome) faz no Indiana Jones e o Templo da Perdição. Foi aí que percebi que a Marina não estava sendo massageada, mas sim torturada. De qualquer jeito eu salvei o dia e fui um herói. E sim, meu peitoral ficou dolorido por uma semana. Isso aconteceu logo em um dia que tudo tinha começado tão bem e eu tinha até visto golfinhos. Enfim, coisas de Surin.

Achamos que nossos dias lá seriam apenas pautados por longas esticadas na areia e mergulhos em águas incríveis, mas nós nos aventuramos na nossa própria trilha (como já relatado acima), fizemos yoga com uns tailandeses simpáticos, jogamos frisbee com outros tailandeses simpáticos, jogamos papo fora com o tal do coreano (que mal falava inglês) e com um francês que adorava nos dizer como ele nadava bem e ainda visitamos uma vila de “ciganos do mar”, uma antiga tribo de pessoas que já foram nômades aquáticos, mas hoje estão estabelecidos em uma comunidade dentro do parque nacional. Olha, foi uma estadia movimentada.

A tribo de ciganos do mar

Uma coisa muito bacana da ilha eram as pessoas que estavam no local. Não os visitantes das day trips que passavam lá vindo de outras cidades próximas, mas sim os membros do acampamento. Pareciam viajantes diferentes do que tínhamos visto até aquele momento – interessados, curiosos e levemente desajustados. Aquele tipo de pessoa “raiz” que quer apenas devorar o mundo. Para se ter uma ideia, ao voltarmos do parque nacional passamos de novo pelo hotel do Tom e da Ann e lá encontramos com um francês, um velho amigo deles que estava indo para Surin. Ele visitava o lugar todo ano há quase 3 décadas e a primeira vez descobriu o local apenas seguindo “um boato de viajantes”. Imagina ter a coragem de desbravar um país apenas por causa de um boato? Era esse o tipo de maluco que achamos por lá.

E outra coisa muito bacana, Surin foi o primeiro lugar da Tailândia onde achamos turistas tailandeses

Um mergulho rápido e várias cores

Olha, foi uma estadia quase perfeita: relaxamos, lemos, nadamos e nos aventuramos. Conhecemos e dividimos. Enfrentamos sol, calor e também chuvas torrenciais (e nossa barraca aguentou, ainda bem). Tudo isso em um dos lugares mais lindos que já vimos.

Com certeza Surin foi o canto mais especial que achamos na Tailândia.

Mas depois de 5 dias precisávamos ir embora e então voltamos para Khura Buri prontos para seguir mais ao norte ainda, dessa vez em direção à abafada Bangcoc.

E isso será o tema do próximo post.

Beijos quentes.

Tailândia ou o capítulo da arte de pegar carona e dormir no pântano

Olá, compatriotas do tártaro e das sombras. Chegou o momento da semana que até os círculos mais profundos da deep web temem, a atualização desse querido blog.

No último relato tínhamos acabado de chegar em Phang Nga, uma cidadezinha interiorana do sul da Tailândia, para tentar a sorte com uma carona. O primeiro dia na missão foi uma falha completa – andamos muito, fomos a atração ambulante ao passarmos em frente a uma escola em horário de saída, tomamos chuva e nenhum motorista sequer olhou para nossas tristes caras.

Para mudar essa situação resolvemos nos preparar melhor para a manhã seguinte. Quando a chuva deu uma trégua nos aventuramos na noite da cidade. Passamos por uma feirinha local, um shopping decadente e algumas lojinhas de rua. Depois de adquirir o material que necessitávamos (que eram apenas pedaços de papelão), fizemos o mapeamento da região para achar um lugar mais propício à bondade dos veículos passantes. Por sorte Phang Nga é uma cidade de praticamente uma avenida só e nosso hotel ficava quase na sua saída. Achamos um posto de gasolina na boca da estrada que seria perfeito para nossos objetivos.

De volta ao nosso quarto fizemos um trabalho de artesanato digno de ensino fundamental e escrevemos em tailandês e inglês o nome do nosso destino e a palavra “obrigado”.

Caronando

Pode parecer bobagem, mas estávamos um pouco nervosos. Seria a primeira vez pegando carona em uma viagem e, claro, em um país que não o Brasil. Oras, acho que até no Brasil nós não pegávamos carona com estranhos, afinal nossa cidade natal é pequena e praticamente toda carona (quando necessária) é com algum conhecido e se na grande São Paulo alguém estranho nos oferecesse carona eu sairia correndo, pois ainda não estou pronto para perder meus órgãos. E a Marina, você indaga? Eu largaria ela à mercê de um desconhecido? Oras, ela corre mais rápido que eu, a menina já estaria na lua quando eu começasse a me movimentar. E não, ainda não aprendi a confiar na boa vontade do paulistano.

Enfim, seria uma carona rápida, estávamos nos dirigindo para Khura Buri, umas duas horas ao norte de onde estávamos. De lá pegaríamos um barco para o parque nacional de Surin. Mesmo assim estávamos ansiosos.

E quando o dia seguinte chegou fomos até nosso local de combate, colocamos um sorriso no rosto (isso foi especialmente difícil para mim, pois a Marina diz que não sei sorrir direito) e balançamos nossas plaquinhas para os carros que passavam. Uma dica que li na internet e comecei a aplicar foi: estabelecer contato visual com o motorista. É uma boa dica, por um momento é criado aquele vínculo de estranheza que acontece quando você está encarando uma pessoa e ela percebe repentinamente. Mas é difícil manter esse vínculo, pois ele é pautado em uma situação desconfortável, tipo quando você está na sala junto com a sua tia e ela começa a se acabar em beijos molhados com o Clóvis, o novo namorado dela. Por isso eu senti que alguns motoristas quase pararam após estabelecida essa ponte de olhares, mas desistiram no minuto final. Tudo bem, continuei ali sorrindo meu melhor sorriso falso.

Depois de uma meia hora plantados no ponto insisti para que a Marina aplicasse a técnica do contato visual e logo um casal em uma Hilux parou e nos ofereceu carona. Acho que a Marina estabelece vínculos visuais melhores que os meus. Talvez toda aquela história de estranheza e desconforto seja exclusivo a minha triste pessoa, quem sabe. O importante é que conseguimos uma carona após eu incomodar alguns motoristas.

Os anjos da carona

Foi uma viagem apertada e silenciosa. Tentamos contato, mas nenhum dos dois falava inglês. Agradecemos muito eles pararem e seguimos quietos então. Algumas tentativas de papo logo morreram naquele silêncio ensurdecedor do incômodo com o alheio. Tenho quase certeza que os dois eram colegas de trabalho e não um casal com algum tipo de relacionamento, tanto pelas roupas quanto pela bagagem deles. Talvez fossem espiões de alguma nação vizinha e tinham acabado de roubar planos dos militares tailandeses, quem sabe, mas por mais que eu queira florear essa história o momento mais “emocionante” da carona toda foi quando o homem abriu a janela e jogou um papel de bala pra fora. A Marina quase pulou no pescoço dele.

E foi assim a história de como chegamos em Khura Buri, outra cidadezinha de “uma rua só” perdida no litoral da Tailândia. Khura Buri é um lugar quente, abafado, úmido e tropical. É uma cidade simples cortada por um rio que parece ser a casa de muitos crocodilos (não é). Apelidamos Khura Buri de “nosso pântano favorito”.

Khura Buri – aqueles NÃO eram nossos chalés

Logo que pulamos do carro de nossos amigos “espiões” seguimos a placa de um hotelzinho que vimos da estrada. Nossa plano era dormir uma noite lá e no dia seguinte ir para Surin, mas não tínhamos nada marcado.

Após seguir por uma estradinha lamacenta que acompanhava de lado um rio e do outra a mata fechada, demos de cara com uma clareira em que ficavam uns chalés rudimentares. Por sorte pegamos a dona dos chalés por lá, a Am (caso contrário teríamos que andar até a cidade de novo). Ela logo nos liberou uma das casinhas simples e disse para pagarmos depois, no escritório dela que ficava na (única) avenida da cidade. Ela avisou que também trabalhava com transportes para Surin, por isso a ideia era já matar tudo com uma cajadada só.

Aproveitamos para relaxar um pouco no nosso novo abrigo, feito de madeira e muita oração para ficar em pé. Foi lá que o apelido de “pântano” surgiu para Khura Buri, pois tínhamos a sensação que qualquer momento ou o chalé iria se enterrar no solo molhado do lugar ou algum réptil gigante iria nos atacar. Mas brincadeiras a parte, foi uma boa estadia. O lugar era limpo e confortável, apesar do banho ser frio e de caneca. Foi também uma das acomodações mais baratas que pagamos na Tailândia e, apesar da simplicidade e do local isolado, com um dos melhores sinais de internet da viagem toda. “Nossa, mas não é bom se desconectar quando assim na natureza?” – pergunta você, leitor mais inconveniente. Claro, é sim, mas se eu estiver morrendo devorado por um crocodilo uma internet boa é imprescindível para que eu conte o que está acontecendo para o mundo.

Enfim, nos adoramos o “pântano”.

Durante a tarde fomos para a cidade, almoçamos e fechamos tudo com a Am e o marido dela, o Tom. Eles são um casal batalhador e gente boa que além do hotel e da agência, ainda gerenciam um reggae bar no mesmo local do escritório, que também é a casa deles. Eles nos convidaram para voltar à noite e conferir mais essa faceta empreendedora deles, e foi o que fizemos. Mas antes de irmos tomar umas com nossos novos amigos locais paramos para jantar. E foi um jantar bizarro. Khura Buri não tinha muitas opções de restaurantes então fomos para o mesmo lugar em que almoçamos. Mas claro que o lugar era também a casa de uma família e acho que a dona só resolveu nos atender porque não poderia desperdiçar uns trocados. Comemos enquanto a família dela assistia tv. Quer dizer, enquanto o marido dela resmungava algumas coisas do sofá, o filho pelado (e o garoto não era novinho não) desfilava sua nudez pra lá e pra cá e uma novela muito peculiar, de vampiros tailandeses, passava na televisão. Foi um momento estranho.

Depois desse pulo na mente de um David Lynch asiático nos dirigimos pro bar. Os únicos clientes éramos nós e mais dois casais que também iam para Surin com os serviços do Tom e da Am. Foi divertido. Bebemos com os dois, conhecemos seus filhos e parte de seus amigos e comemos uma pimenta local que quase acabou com a minha boca. Estava tudo pronto para irmos pra Surin e ainda sairíamos de Khura Buri de forma “perfeita”.

Am e Tom

Mas claro que não foi isso que aconteceu.

O dia acordou chuvoso e feio, mais cinza que São Paulo em seus melhores (piores) momentos. Por isso resolvemos ficar mais uma noite na cidade. Dessa vez nos abastecemos de salgados e porcarias do seven eleven local (toda cidade na Tailândia tem um, por menor que seja) e evitamos as estranhezas dos restaurantes da região. A tarde o Tom levou a gente e um casal de alemães (que também adiaram em um dia a viagem deles) para uma cachoeira local. Não era nada demais, o que ele chamou de cachoeira era na verdade uma correnteza com pedras, mas demos uma nadada nas águas geladas do rio e foi gostoso. A caminhonete do Tom quebrou bem ali no meio do mato e ficamos mais de uma hora empurrando ela pra lá e pra cá tentando fazer pegar no tranco. Não deu.

Repara na minha chinela

O passeio foi interessante para vermos os entornos da cidade e perceber como a mata é fechada e tropical naquela parte da Tailândia. Khura Buri ainda é bem ao sul de Bangcoc, mas lá já dava pra sentir a mesma asfixia úmida que a capital propicia. Quase um gostinho de Brasil e suas florestas.

E esse foi nosso dia extra na cidade. Com comida ruim pra saúde mas boa pra alma, passeio meia boca e exercícios forçados. Continuamos gostando muito de Khura Buri, apesar de não ter nada de especial por lá.

E finalmente no dia seguinte conseguimos ir para Surin. Eu sei que não expliquei muito o que é Surin ainda, mas esse será o assunto do próximo post. Só vou adiantar que é um conjunto de ilhas e parque nacional que só abre em determinada época do ano, tem número limitado de visitantes e infraestrutura simples, por isso tivemos que acampar por lá. Foi nosso lugar favorito na Tailândia (um país que amamos) e onde peguei a Marina recebendo massagem de um coreano bem à beira mar (talvez por isso ela tenha gostado tanto). Mas como já disse, Surin será o tema do próximo post.

Beijos Quentes

Tailândia ou o capítulo da reabilitação no Jurassic Park

Amigos, amigas e fiéis leitores

Eis aqui mais uma dose do seu antídoto semanal para a escuridão da rotina e a solidão da vida moderna. Com esses textos você se sente melhor por 5 minutos ao perceber que existe alguém pior que você na Terra (eu). Mas cuidado, como qualquer coisa em excesso o consumo intenso do blog pode causar danos e levar a casos de diarréia crônica. Leia moderadamente.

Chega de enrolação. Como diria Gilberto Barros “Vaaaaai DJ”

No último relato eu e a intrépida Marina ainda estávamos no golfo da Tailândia, a parte leste da região sul do país. Nossa ideia era ir de Koh Tao até Railay Beach, lá do outro lado, na costa banhada pelo Andaman. Para isso fizemos uma pequena jornada que envolveu uma balsa noturna, uma van apertada e um Long Boat (aquele barquinho tradicional que você vê em 9 a cada 10 fotos da Tailândia). Começamos a viagem às 9 da noite na balsa, que balançava furiosamente e fez eu me arrepender de tentar jogar o Switch ali. Mais um episódio em que quase vomitei na viagem. Pelo menos era uma balsa leita, então a solução para não passar vergonha e derramar fluidos corporais nos outros passageiros foi dormir. Chegamos 5 da manhã no continente e aí foi a vez de ir suando na vanzinha do aperto por cerca de 3 horas. Ufa, aí sim finalmente estávamos em Krabi, do lado “certo” da Tailândia. Apesar de Railay ser no continente é uma região cercada por montanhas de calcário e um mangue traiçoeiro (não sei se é “traiçoeiro”, apenas quis adicionar emoção ao relato), por isso tivemos que pegar um Long boat para chegar até lá.

Chegando em mais um paraíso

Railay, mais um lugar incrível na Tailândia (já cansei de escrever a palavra “incrível” aqui no blog). Pense no lugar como que uma pequena península escondida no recorte litorâneo da Tailândia. Existem umas quatro praias na região de Railay, que é super pequena, mas apenas duas são interessantes: Raylay West e Phra Nang Beach. Railay tem uma aura selvagem, com grandes paredões de calcário se misturando com uma vegetação tropical densa, e um mangue fechado que corta as praias e parte da vilazinha que fica na área mais firme da pontinha de terra. Para seguir o padrão Tailândia a água lá era fantástica, não tão transparente quanto de outros locais e um pouco mais verde, até um pouco mais escura, mas ainda sensacional. Diversas formações rochosas que desafiam a lógica escapam com fúria do oceano para dar aquele toque especial no horizonte, como é de costume nessa parte do mundo. Se as outras ilhas lembravam constantemente filmes de pirata, Railay me lembrou um cenário que apareceria em alguma película do King Kong ou Jurassic Park. Na região ainda existem algumas cavernas interessantes de serem exploradas e os paredões são propícios para escalada, tudo para aumentar o nível de “selvageria” do lugar. Mas não se enganem, ainda é um local muito turístico, em boa parte do dia fica cheia de grupos de chineses que visitam praias lindas e não entram no mar não sei porque, mas normalmente as massas surgem em “one day trips” e nem todo mundo fica na vilazinha, ou seja, é um lugar mais calmo e bom pra descansar se comparado com outras praias e ilhas tailandesas, basta apenas saber onde ir e que horas ir.

Vista da caverna de Phra Nang

A vila de Railay merece um parágrafo a parte, pois lá é uma versão asiática da Jamaica. Sim, Railay é “legalize” e vi por ali uma coisa que não achei que existisse, tailandeses rasta. Vários bares e restaurantes interessantes e com temática reggae pipocam pelos cantos e pôsteres do Bob Marley dividem uma cerveja com os macacos selvagens que vira e mexe aparecem para dar um oi. Apesar disso Railay não ostenta o clima de festa desenfreada dos últimos locais que visitamos, graças a Deus, pois nós não aguentaríamos mais muita coisa. Claro, dá para se divertir e perder a dignidade, isso sempre é possível, mas é uma região mais suscetível ao “relax”.

Bob onipresente

Acho que já deu para sentir o clima do lugar né? Bom para relaxar, ler, contemplar, se aventurar um pouco e ainda para “buscar iluminação” (não disse como).

Essa foi uma parte importante da nossa viagem, acho que conseguimos descansar e ainda nos reconectarmos um pouco com as intenções iniciais da jornada. Não quero desvalorizar a parte da “festa”, que foi boa demais, mas tínhamos entrado em um modo “férias”, algo que não conseguiríamos manter a longo prazo. Pra começar precisávamos muito economizar, e em Railay unimos o útil ao (des)agradável e emagrecemos com a incrível técnica de passar fome. Isso mesmo, é simples e rápido, basta fazer apenas uma refeição por dia e ainda dividir ela com seu companheiro(a) e você verá resultado em seu corpo e no seu humor. Pelo menos funcionou para nosso bolso.

Claro que queríamos relaxar e economizar, mas tivemos uma recaída leve para nossos dias de farra e em certa noite consumimos mais álcool do que o necessário nas areias de Railay West. Não fomos para uma festa nem nada do tipo, éramos nós dois e algumas (várias) cervejas, o pôr do sol e..bem..o luar (a coisa se estendeu por mais tempo do que o previsto). Ok. Admito. Não foi uma recaída de leve, foi uma noite bem intensa de bebedeira, daquelas para acabar de vez com um ciclo, sabe? O importante foi que nos divertimos bastante.

Ficamos tanto tempo ali sentados que viramos aquela figura que existe em quase todas praias do mundo: o doidão da praia. Sabe aquela(s) pessoa(s) que fica o dia todo rolando no chão, gritando pro céu e é uma mistura triste de areia, suor e falta de prospecção na vida? Então, nós fomos essa figura por um dia. Acho que o clima hippie de Railay nos infectou. Foi divertido, mas assumir esse tipo de persona pode ser a droga de entrada para coisas mais pesadas, como por exemplo ser o maluco que faz parte de uma roda de violão a luz de fogueiras na praia. Deus me livre participar de rodinha de violão. Entendo que muita gente gosta, eu inclusive já fiz isso quando era mais novo e tenho amigos que ainda fazem, mas o excesso de Legião Urbana e Oásis que tive que aguentar acabaram com minha sanidade. Não desejo isso pra ninguém. Meus maiores medos, em ordem, são: ser chamado para o palco em uma peça de teatro interativa, participar de uma reunião de condomínio e ser o cara que canta em rodinhas de violão. Enfim, foi apenas uma noite de diversão em que a parte mais livre de nossos espíritos falou mais alto. Estou há 7 anos livre de rodinhas de violão, prometo.

Torrados na areia

Recuperados e purificados, curtimos Railay com mais calma e fizemos atividades mais saudáveis. Por exemplo, outro destaque da nossa estadia foi, no dia seguinte, ter alugado um caiaque e ter visto o pôr do sol no mar. Lá, diferente de Koh Tao e Phiphi, o pôr do sol era mais laranja, uma explosão no céu que sangrava em um degradê amarelado. Em outros locais a tela celeste era palco de uma briga entre um vermelho lavado e rosa, que era bonito também. Mas foi especial acompanhar os minutos finais da carruagem de Hélio do meio do oceano, perto de formações rochosas antiquíssimas e imponentes, onde tudo parecia perto e distante por um tempo. Um dos momentos para guardar com carinho dessa viagem.

Ainda sobre Railay, vale mencionar a Phra Nang Beach, a nossa favorita lá. A praia tem uma caverna sensacional, um rochedo com estalactites gigantes e uma ilhota que é a casa de um grande colosso de granito onde dá para chegar a pé (maré baixa) ou nadando. Visual estarrecedor, mas um lugar que fica bem cheio durante o dia.

Rolezinho tranquilo de caiaque

Nossos curto tempo de descompressão em Railay acabou e precisávamos seguir viagem. De lá fomos para Krabi. Um lugar que nenhum barqueiro queria nos levar pois não é necessariamente um ponto tão turístico, só uma cidade perto de vários lugares bacanas. Nossa ideia era pegar carona até uma ilha bem ao norte, e Krabi, uma cidade “grande”, era um bom ponto pra começar. Ficamos um dia por lá, em um hotel sujinho, mas bom (“sujinho mas bom” é o melhor combo de acomodação possível, sempre é barato porém super habitável), pois precisávamos planejar algumas coisas e foi lá o fatídico local onde despachei meu computador e parte do vídeo game pelo correio. Talvez uma das maiores cagadas da viagem, pois foi caro demais e obviamente que não obtive sucesso, mas é a vida. Mais um erro pro currículo.

No dia seguinte fomos até a rodoviária e decidimos subir um pouco mais a estrada antes de tentar pegar carona pro norte, por isso pegamos um ônibus de uma hora até Phang Nga, uma cidade bem pequena e sem nada notório pra falar. Quando chegamos andamos uma distancia nada saudável para a coluna com as mochilas, da rodoviária até a estrada principal que corta a cidadezinha. Tentamos pegar carona esse dia, mas não rolou. A chuva e a má vontade dos locais estragaram nossos planos. Comecei a desconfiar que minha cara de bad boy estava nos atrapalhando. Mais uma estadia em um hotelzinho “sujinho mas bom”.

Precisávamos planejar melhor todo esse processo de carona, afinal não tínhamos experiência nenhuma nisso. Coisa que fizemos, mas que vou contar com mais detalhes no próximo post. Spoiler: nossa carona foi com um grupo de rebeldes tailandeses que lutam contra o governo militar. Ou não. Você só vai descobrir se ler o próximo relato.

Beijos Quentes