Austrália e o capítulo da exploração oeste – parte 1

Muito do que vimos nessa road trip

E vejo que você, leitor(a), mais uma vez se desprendeu do limbo da existência para encontrar conforto nesse blog. Vou me esforçar ao máximo para não te decepcionar, mas já adianto, é melhor diminuir um pouco suas esperanças. Ou não, a nossa realidade anda tão sombria (principalmente no Brasil) que até esse amontoado de palavras vai te fazer bem.

O último relato terminou em Melbourne, onde caímos nas sedutoras e quentes garras de um sofá. Logo nosso aventura entre almofadas e travesseiros terminou e embarcamos para Perth, no lado oeste da Austrália.

Fomos para WA (Western Australia) pois queríamos explorar um canto menos turístico e menos cheio desse país gigante. Pesquisamos um pouco e ouvimos de outras pessoas que esse é o lado mais selvagem e até mesmo mais bonito desta ilha continental. Não posso confirmar que um lado é mais belo que o outro, mas que a parte ocidental é bem linda, isso é. 

Chegamos cedo em Perth, mas não deu para conhecer muito a cidade pois ficamos nos preparando para a nossa a viagem. Estávamos prestes a fazer mais uma road trip, muito mais longa que a que fizemos na Great Ocean Road, afinal seriam 12 dias de estrada. O plano era ir de Perth até Exmouth (e voltar), que fica a cerca de 1200 kms ao norte seguindo a costa. E foi o que fizemos. Claro, paramos muito pelo caminho, pois tem muita coisa bacana para ver. 

Já vou colocar umas fotos jogadas no texto porque tem muita foto bacana

Para essa viagem decidimos alugar um carro confortável e comprar apetrechos de acampamento para aproveitarmos os inúmeros campings que existem por toda Austrália. Uma alternativa para isso seria alugar uma campervan, motorhome ou até mesmo trailer, mas essas são opções caras, mesmo que você economize com acomodações. Acredite, sai mais em conta alugar uma boa SUV e caçar lugares de baixo impacto orçamentário para dormir. Claro, existe todo um estilo associado a uma campervan – é legal se sentir como o cara estranho da cidade que mora no carro, não se banha direito e vende produtos de origem ilícita. Essa foi uma vontade que matamos em nossa terceira road trip, mas este será assunto de um próximo relato. 

E teve ainda mais um ponto para termos escolhido um carro invés de uma campervan: não fizemos essa viagem sozinhos, pois o Paulo, um amigo de infancia, veio do Brasil nos encontrar só para cair na estrada. Sim, foi um momento muito feliz receber alguém, nossa primeira “visita” na viagem, e nos sentimos bem queridos. E não é pouca coisa vir do Brasil para Austrália, ficar uns 17 dias e voltar. Ou o Paulo gosta muito da gente ou ele não tem outros amigos. Acho que as duas opções são verdadeiras. 

Mais uma foto jogada do que vimos por lá

Enfim, o dia que chegamos em Perth (02/03) foi um dia de preparativos e espera, pois pegamos o Paulo no aeroporto apenas ao fim da tarde. E ali já começaram as provações que ele iria enfrentar. Como passaríamos apenas uma noite m Perth, reservamos um hostel bem fuleira. Eu e a Marina estávamos acostumados com esse tipo de acomodação, já eram quase 8 meses viajando por aí, mas o Paulo era/é menos familiarizado com perrengues da estrada. E vou ser justo agora, não era um hostel dos mais legais que já vi. Aliás foi o em que senti a energia mais estranha – nunca a frase “festa estranha com gente esquisita” fez tanto sentido, mesmo que não existisse festa nenhuma, só a “gente esquisita”. Quase conseguimos ficar sozinhos em um quarto, mas acabamos com um único companheiro, um senhor inglês de pouca higiene e adepto ao caos. Uma figura peculiar, mas bem gente boa. Tinha umas boas histórias, quando dava para entender o que ele falava. Eu, por exemplo, entendia 63,2% do que saia da boca dele.

Foi uma noite singular para nosso amigo. Compartilhar banheiros de baixa qualidade, dormir junto de um senhor que parecia fugido de um filme do Zé do Caixão e dormir em um colchão quase inexistente. Tudo isso para ser assimilado logo após uma jornada de 30 horas de voo. 

Mas a primeira provação dele passou e logo cedo embarcamos na nossa road trip. Saímos dirigindo ao norte sempre seguindo a costa, e como era fim de semana seguido de feriado, coisa que só descobrimos depois, as estradas perto de Perth estavam bem cheias. Cruzamos com milhares de trailers e SUVs preparadas para acampar, incrível a cultura do acampamento é forte na Austrália. Todo lugar tem camping e todo mundo sabe montar uma barraca em menos de 1 minuto. Acho que você não pode se considerar parte da WA se não souber acampar. 

Isso branco aí é tudo concha

Mas eles estão certos em querer essa comunhão com a natureza, pois lá é maravilhoso demais. Não vou entrar em detalhes do que fizemos a cada dia, mas passamos por uma mistura maluca de praia, com deserto e bush (a vegetação local) que nos deixou boquiabertos. Na altura de Perth a vegetação já é bem rasteira e alaranjada pela poeira, coisa que só se intensifica ao ir para o norte e em Exmouth o deserto toma conta do horizonte e por um momento parecia que estávamos dirigindo no inóspito interior do país, até que o mar resolveu aparecer na paisagem. É muito maluco, ainda mais para nós que estamos acostumados com uma costa cheia de vegetação como no sudeste do Brasil. 

Passamos por um lago rosa também

Passamos por praias lindas, que poderiam inclusive rivalizar com algumas das Filipinas. Locais de prática de windsurf, praias com o chão formado só por conchas brancas, praias que são berçários de tubarões, praias de água turquesa e com muitos corais e vida marinha. Passamos também por lagoas salgadas e quentes, por um lago rosa e um berçário de tartarugas marinhas. Também conhecemos o deserto e suas magias, como os antiquíssimos paredões de pedra de Kalbarri e as estranhas formações rochosas dos Pinnacles, um cenário digno de filme de ficção.

Trilha no meio do nada

Cruzamos cidades minúsculas, uma de 190 habitantes, e em alguns momentos ficávamos muito tempo sem encontrar outro ser vivo na estrada. Vimos alguns cangurus vivos e muitos mortos, pois infelizmente são atropelados aos montes – por isso nunca dirigimos após o entardecer. Bebemos nossa cota de (boas) cervejas locais e fizemos vários churrascos, inclusive porque lá na Austrália existem muitas churrasqueiras públicas espalhadas por espaços como praias e parques. É só chegar, usar, e manter a ordem. 

Vimos também uma boa quantidade de pores do sol inesquecíveis, daqueles que deixam o céu todo cor de rosa. Muita coisa aconteceu em cerca de 12 dias.

pôr do sol em uma cidadezinha com uns 500 habitantes

E eu posso ficar até 2030 escrevendo sobre o que vimos ou não, mas acho que as fotos cumprem melhor esse papel. O mais legal dessa experiência toda foi, apesar dos lugares maravilhosos que visitamos, a estrada. Existe uma magia em road trips que é difícil explicar. Você parece mais integrado ao ambiente, é mais fácil ir observando as mudanças ao longo do caminho e existe uma incrível sensação de liberdade de poder fazer o que quiser. Quer virar ali para ver aonde vai dar? Bora. Quer parar pra tirar foto? Fácil. Quer enfiar o carro na areia e dar uns cavalinhos de pau? Não recomendo, mas pode fazer. 

Vento na cara, mão no volante e flexibilidade para fazer o que der na telha criam uma combinação muito sedutora. 

E tem mais, a road trip gera conversas e camaradagem. Afinal são pessoas “presas” no mesmo espaço por muito tempo, e tem muita coisa que pode dar errado, mas quando a sintonia é boa, tudo fica mais interessante. 

Claro, como uma hora a conversa pode azedar eu me precavi e preparei uma playlist com o melhor dos anos 90 e 2000 (e um tiquinho dos anos 80) para levantar o astral dos meus companheiros. Posso estar exagerando, mas acho que fui o herói dessa viagem e mantive a sanidade de todos com essas músicas. Pela vitrola passaram KLB, Backstreet Boys, Pitty, CPM 22, Latino, Kelly Key e Avril Lavigne. Não tinha como dar errado.

Os Pinnacles – umas formações malucas no meio do deserto

Por isso fica aqui o recado, uma boa road trip precisa de uma boa playlist, vou deixar pública essa que criei no Spotify e colocar o link mais abaixo. De nada. 

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Ufa, foram mais de 2400 kms rodados e muita experiência bacana. No próximo post vou descrever melhor duas delas que foram daqueles momentos de levar para a vida inteira. Não vou me alongar mais, sei que todo mundo tem mais o que fazer. 

Beijos Quentes

Austrália e o capítulo de Melbourne e as pequenas alegrias

Foto bonito logo de cara mesmo

Olá exploradores do sinistro e do macabro, venho mais uma vez com a dose (agora) semanal de escuridão que tanto gostam. Espero que agora as coisas andem de vez nesse humilde espaço virtual. Pelo menos agora o texto é sobre outro país, chega de falar das Filipinas.

Como de praxe esse texto começa exatamente onde terminei o último relato, ou seja, estávamos prestes a começar (mais) uma maratona de deslocamentos para sair das Filipinas em direção a Melbourne, Austrália.

Farei um breve resumo dessa loucura movida a combustível fóssil, pois vocês não merecem mais uma descrição detalhada de voos e horários.

Acordamos cedo em Malapascua, uma ilha mágica perto de Cebu, e pegamos a balsa. Ao chegar no porto de Maia, já no continente, embarcamos em um ônibus (que tinha todos os últimos lançamentos do The Rock na sua televisão a bordo) para Cebu City. Cerca de 4 horas depois chegamos àquela triste desculpa para uma cidade. Gastamos tempo em um shopping e fomos para o aeroporto. E lá se foram 10 horas sentados no terminal 1 até nosso voo que partia apenas às 23h. Pelo menos terminamos de ver Russian Doll sentados nas duras cadeiras de um saguão esquecido pelo mundo. Voamos de Cebu para Manila, onde chegamos à 1 da madrugada. Demos aquela passeada pelo aeroporto até o check-in abrir, nosso avião para Melbourne partiria às 6 horas da manhã. E após longa espera embarcamos em um voo de 9 horas, SEM NENHUM LANCHE OU COMIDA, até a Austrália. Vou repetir aqui porque foi complicado – nem água eles serviam. Quer dizer, serviam, mas tinha que pagar. E era caro. E sim, eu posso ser muquirana além da conta, mas que sacanagem é essa de não oferecer um mísero copo da água em um voo intercontinental? Tenho uma relação de amor e ódio com essas cia aéreas low cost. Na verdade é só ódio mesmo, to pouco me lixando para conglomerados do transporte. 

Mas no fim do dia 23 de fevereiro chegamos. Ufa. E após mais um pequeno passeio pelos transportes australianos, onde já pudemos notar a diferença entre continentes, finalmente estávamos na casa de nossos amigos, nosso destino pela próxima semana. Dois dias batendo perna e passando sede por aí para sentar a bunda em um sofá. E valeu a pena.

Melbourne

Antes de falar do nosso tempo preguiça, apenas uma observação de que foi estranho sair da Ásia e chegar em um país sem asiáticos sendo a maioria no cotidiano. Não que isso seja bom ou ruim. Quis dizer que foi uma mudança súbita de parâmetros quando já estávamos acostumado com a Ásia e, principalmente, com o sudeste Asiático. Por exemplo, ver pessoas brancas trabalhando no “dia a dia” foi peculiar. Mudou o rosto da mão de obra, mudou tudo. Foi a primeira vez em nossa viagem, fora alguns dias na Rússia, que uma mudança tão grande de “ares” aconteceu. 

E agora uma pausa para agradecer com entusiasmo demasiado a Clarissa e o João, nossos anfitriões na cidade. Primeiro porque receberam dois cacos humanos com uma lasanha quase melhor que a da minha falecida avó (e ela era italiana, de verdade, do tipo que nasceu na Itália mesmo), segundo por nos fazerem sentir em casa.

Quase todo nosso tempo em Melbourne aconteceu no apartamento desse casal supimpa, que, como já disse, nos receberam muito bem. 

Enfim, Melbourne. Que cidade, que tempo bom. Uma cidade com outro ritmo, mas que funciona. E como funciona. Funciona bem demais. Para mim, que estou acostumado com enchente e leptospirose Melbourne é o exemplo do ótimo funcionamento.  É anos luz melhor que São Paulo (e que praticamente todas outras cidades do mundo, afinal é muitas vezes votada como melhor lugar para viver). Lá o povo aproveita as ruas e os espaços públicos. Lá tem transporte bom e ótima integração com a natureza. Que lugar, que lugar. Moraria ali tranquilamente. 

Melbourne 2

Adorei o Shrine of Remembrance (memorial de guerra) e a biblioteca municipal. Aliás “de filme” essa tal biblioteca, deu até vontade de sentar lá e estudar, escrever, ou quem sabe resolver um crime em que o serial killer faz referência ao livro Paraíso Perdido, de Milton, em seus assassinatos (esse é o enredo de Seven, mas tudo bem). Também visitamos o Victoria Market, um lugar com um clima hipster, porém acessível, que tem comidas do mundo todo. Aliás boa parte da Austrália tem um clima hipster acessível, menos os confins interioranos que fazem cosplay do pior que existe no meio-oeste americano. 

Outro ponto positivo da cidade é que a galera começa a encher o caneco bem cedo, não tem essa de trabalhar igual maluco (pelo menos não é uma doideira igual temos no Brasil). Demais.

Fora isso curtimos muito o sofá da Clarissa. O apartamento deles é muito aconchegante e nossa recepção foi estelar. Teve churrasco (louvado seja o Senhor), lasanha, cinema, pinguim na praia e jogo de buraco. Minha fase mal humorada já estava passando a essa altura da viagem, então posso falar, pessoas são legais sim. Algumas. Bem poucas. Mas elas existem. 

O mais engraçado foi que os dias que passamos aproveitando uma casinha e um sofá nos lembraram dessas pequenas alegrias rotineiras. Saímos do Brasil justamente para fugir de muito disso, mas sempre gostamos de ter um canto nosso e de criar nossa vida em um microcosmo inabalável de amor e carinho. Pena que trabalho, trânsito, estresse e mais um monte de outras coisas entram no meio desse microcosmo que no fim não é tão inabalável assim. Nós sempre demos valor para isso, a viagem só nos fez ter saudades de alguns aspectos de uma vida mais tranquila e consequentemente valorizar ainda mais esse tipo de coisa quando voltarmos. Isso é, até tudo virar rotina e o marasmo e o vazio existencial inerentes ao ser humano tomarem conta das nossas almas novamente.

Enfim, tema para outro post.

Voltando à Austrália.

Na Road Trip deu para pegar uma onda em bells beach

Por lá não ficamos só parados não, acredite. Com muito esforço (para sair do sofá) fizemos a nossa primeira road trip australiana.

Durante os dias 28 de fevereiro e 1 de março alugamos um carro e fizemos  o trajeto conhecido como Great Ocean Road. Olha, recomendo, foi gostoso demais. 

Apenas nós dois, desbravando a estrada e parando em pontos de interesse. Foi a volta daquele sentimento que tanto falo aqui e nunca consigo descrever direito. É um misto de liberdade com aventura. Uma sensação que senti muito durante as road trips que fizemos pela Austrália, mas calma, esse tipo mágico de viagem é assunto de próximos relatos.

Voltando a estrada, e que estrada, passamos por lugares lindos – praias amarelas, praias brancas, faróis e paredões gigantescos desafiando o mar. Aliás tudo relacionado ao oceano nessa parte do país parece feroz, o mar é bravo, a terra termina de forma abrupta como garras rochosas, e os dois se chocam em uma briga eterna, em que a terra sempre cede um pouco de cada vez. É violento e é lindo. Uma dança sem sutilezas. 

Tem lugar bonito demais por lá

A parte final da Great Ocean Road é a mais bonita, após o trecho pela “floresta”, ali na altura de Port Campbell. Os 12 apóstolos são realmente algo espetacular e ainda pegamos um fim de tarde com uma leve névoa cercando o lugar, parecia que alguma batalha épica estava prestes a acontecer, como se uma monstruosidade enorme fosse surgir do oceano a qualquer momento. Aliás ali por perto tem muitos pontos lindos, vale checar o Instagram da Má (@sejogaai) para ver todos, pois eu não vou ficar falando sobre um por um aqui. 

12 Apóstolos

Só vou falar que tudo valeu demais.

Depois disso voltamos para Melbourne apenas por um dia, nos despedimos de nossos amigos e partimos para Perth.

Essa foi um período especial em nossa viagem. Recarregamos energias, sentimos o gosto de ter uma casinha, mesmo que não fosse nossa, e ainda fomos bem tratados. Foi tudo que precisávamos para recuperar o gás que as maratonas de transporte asiático tinham roubado da gente. 

Beijos Quentes

Filipinas ou a beleza do apocalipse

Olá, leitor(a) persistente.

Agradeço pela sua resiliência em não desistir desses textos quando eu mesmo já desisti de quase tudo. Você faz esse país ir para frente. Prometo por aquilo que me resta de bom e decente (não muito) que agora o blog terá atualizações mais constantes. Quero terminar logo de contar sobre essa jornada esquisita pelo mundo.

Kalanggaman

Para quem não lembra estávamos perdidos em uma ilhota no meio das Filipinas.

Kalanggaman, ou a ilhota da sedução, como gosto de chamar, é um pequeno ponto no mapa que fica a umas duas horas de distância de Malapascua e é o passeio mais famoso por lá. Kalanggaman é provavelmente o lugar mais bonito que visitamos nas Filipinas, e isso não é pouca coisa. É um lugar de filme, com mar tão azul que parece Gatorade. A água é a mais transparente que já vi, a areia a mais branca e os coqueiros vastos. Para completar existem dois bancos de areia na ilhota, um em cada ponta, que funcionam como caudas e dão um charme especial pro lugar. Um paraíso. E essa foi, tirando quando descrevi Bulog Dos, a única vez que usei a palavra “paraíso” sem exagero nesse blog. 

E o mais legal, acampamos nesse cenário cinematográfico por uma noite. 

Complicado…

Normalmente os passeios até Kalanggaman são bem básicos, os barcos chegam, ficam algumas horas e voltam antes do fim da tarde. Mas se você pagar a taxa da barraca e do pernoite pode capotar por lá. Foi o que fizemos e, graças a isso, presenciamos o melhor pôr do sol que já vi até hoje. Eu sei que tenho uma fixação em falar sobre pôr do sol, mas juro que esse foi emocionante. 

O dia nem estava bonito, o céu estava nublado e ostentando aquele “cinza tédio” que amargura o mais feliz dos humanos quando aparece de domingo. E a chuva também estava quase dando as caras, para terminar de arruinar o dia. Foi assim o tempo todo, mas bem no momento em que o sol descia rumo a oeste as nuvens abriram-se parcialmente e a luz atravessou a densa barreira acinzentada feito um holofote e iluminou bem a ponta de um dos bancos de areia da ilhota, como se indicando que ali seria o local ideal para apreciar o espetáculo que estava por vir. O jogo de luz, água e sombras já estava interessante e para melhorar tudo ao fundo passou, como quem não quer nada, uma baita tempestade empurrada pelo vento, o que formou um caos celeste surreal. Um emaranhado de azul, cinza, vermelho, amarelo e vermelho tomou conta do céu. O visual era ameaçador, mas deslumbrante. A tempestade ao fundo era digna do fim dos tempos e eu já estava preparado para cair na porrada com alguns dos cavaleiros do apocalipse, mas pelo menos estava tudo bem bonito.

Não dá para ver nem 1% do que realmente estava acontecendo

Alguns dos visitantes resolveram se aventurar até a ponta do iluminado banco de areia para ver tudo de mais perto, o que deu a impressão que eles estavam indo em direção ao arrebatamento ou dar as boas vindas para um ser alienígena prestes a descer dos céus. Uma cena que ficou marcada para na minha mente e que nenhuma foto que tirei conseguiu fazer justiça.  

Outra foto ruim de um momento incrível

E esse não foi o único espetáculo de Kalanggaman. Mas não mesmo. Pois ao anoitecer veio a lua, e não era qualquer lua chinfrim que você vê de Jandira ou Cesário Lange não, era noite de super lua. Ela estava tão grande e brilhante que parecia quase tocar a ilha. Uma pintura em tons escuros e prata.

Passamos momentos especiais nesse lugar perdido no Pacífico e tudo ainda coincidiu com nosso aniversário de casamento. Pensa em uma comemoração bacana.

Apesar dos tais momentos especiais nem tudo na nossa estadia foram flores. Aliás longe disso, até porque nem teve flor nenhuma. Para começar nossa única fonte de alimentos eram os salgadinhos radioativos comercializados na vendinha local. Isso mesmo, nossa preparação para acampar foi zero e nem um mísero sanduíche levamos. Por isso nosso almoço, nosso jantar, nosso café da manhã e nosso outro almoço teve como base um cardápio de variados snacks vindos direto de Chernobyl. Também dormimos no chão da barraca (sem proteção térmica ou algum tipo de colchão), que era bem vagabunda, e eu descobri que não tenho mais idade pra isso. Acordei com a coluna em um formato que até hoje desafia os ortopedistas. 

As vantagens de acordar sem a coluna

Mas esses contratempos não foram nada perto dos momentos marcantes que passamos na nossa ilha da sedução, que aliás tem esse nome porque ela seduziu a gente. Eu não tive condições de seduzir ninguém, Deus me livre fazer qualquer coisa naquele chão duro. Como já disse, não tenho mais idade.

Depois de Kalanggaman ainda voltamos pra Malapascua, onde ficamos mais dois dias. Sempre naquela mesma dinâmica que já descrevi anteriormente – praia do norte, encoxada de algum local na moto e restaurante gostoso na vila. Também conhecemos um casal de brasileiros muito gente boa, o Thiago e a Gabi.

É isso aí

Relaxamos, comemos e finalmente chegou o dia que eu achei que nunca chegaria. Em 22 de fevereiro começaríamos a nossa maratona para sair das Filipinas e do sudeste asiático. Estávamos cansados e precisávamos da Austrália, mas bateu um aperto no coração ao sair de um cantinho tão especial do planeta. 

E agora eu prometo que no próximo relato o nosso cenário já será outro. Esperem churrascos, porres, ressacas e muitas road trips nos próximos capítulos.

Beijos quentes

Filipinas ou o capítulo do pôr do sol que não brinca em serviço

Como faz tempo que não posto vou colocar uma foto bonita para começar

Olha só, são eles mesmo, o grupo de corajosos leitores que decidiram dar mais uma chance para esse endereço virtual após um longo e tenebroso hiato. Gosto como vocês enfrentam a vida de frente sem deixar as amarguras tomarem conta da alma. Se fosse eu já estaria com minhas roupas de baixo estatelado no sofá curtindo a última bobagem qualquer na Netflix. Ainda bem que vocês gostam de ler. 

Esse é mais um post sobre as Filipinas e para quem não lembra, post sobre as Filipinas sempre começa com uma reclamação sobre transporte e deslocamento. Os mais memoriados vão lembrar que no último relato estávamos saindo de Cebu City até Maia, uma pequena cidade bem ao norte da ilha de Cebu. Bem, para fazer esse trajeto pegamos um (bom) ônibus local. O problema foi o trânsito infernal. Foram 5 horas para andar cerca de 130 km em estradinhas de qualidade duvidosa. Isso mesmo. Pelo menos tinha uma TV com filmes pirateados no busão, então fui curtindo um Mad Max tranquilo em meu canto. Ou quase, pois perto de nós sentou um israelense que não parava de puxar papo e, se vocês acompanham o blog , devem saber que nós não estávamos no clima para conhecer ninguém. Até gosto de pessoas, mas longe de mim. 

Chegamos em Maia no fim do dia e apesar do nosso destino final ser Malapascua, uma (outra) ilha que fica a cerca de uns 30 minutos de barco de onde estávamos, já não tinham mais balsas navegando devido ao horário. Resolvemos então seguir uma dica de nossos parceiros brasileiros, Ed e Enzo, que já tinham passado por aquele canto das Filipinas, e nos hospedamos em um dos pouquíssimos lugares possíveis em Maia, o Skip. Um hotelzinho escondido no fim de uma viela de terra/areia que parece não querer ser encontrado, pois nem site tem, mas que contrário às expectativas é um lugar agradável e organizado. Ficamos sozinhos no dormitório para oito pessoas, de tão isolado que estávamos por lá. Além de nós o hotel tinha como hóspedes apenas alguns europeus que me pareceram alemães, amigos do dono, o Skip (não sei se ele chama Skip mesmo, mas é como eu chamava ele). Lá foi onde tomamos um dos pouquíssimos banhos quentes que encontramos nas Filipinas e comemos bem, muito bem. Gostaria de falar em especial de um prato chamado “Bruce Lee Chicken”, que teoricamente segue uma receita do próprio Bruce Lee, pois o pai do Skip foi aluno do lendário ator/lutador (tinha até foto deles na parede). Além do prato ser muito bom, degustá-lo foi o mais próximo que eu já cheguei de “conhecer” o Bruce Lee, um dos meus ídolos. Eu gosto muito do Bruce Lee e acho que é o dever de todo ser humano assistir Enter the Dragon. Sim, um dos meus ídolos é um maluco que enfiava porrada nos outros em frente a uma câmera, desculpe. Pensando bem eu não sou a melhor pessoa para avaliar o “Bruce Lee Chicken”, pois um prato com esse nome poderia ser até coração humano com molho de alcaparras que eu acharia delicioso. Enfim, foram bons momentos no Skip e por causa da chuva alegremente estendemos nossa estadia para dois dias. Aproveitamos para comer bem, relaxar e arranjar umas brigas (uma das informações anteriores é falsa).

Após esses dias de puro relax partimos de Maia para o ponto alto da nossa viagem Filipina, a ilha de Malapascua, o lugar onde o pôr do sol nunca decepciona. 

Um dos portos de Malapascua

Saímos cedo do Skip e pegamos um ônibus local, bem mais barato que os tuktuks, até o porto, uma pontinha no extremo norte da ilha. Porto esse que era na verdade um amontoado de pedra, barcos e gente. Apesar da falta de preocupação com a segurança dos passageiros e a latente desorganização até que o local funcionava direitinho a sua bizarra maneira, como quase tudo no sudeste asiático.

Após um tempo mínimo de espera pegamos nossa balsa, junto com locais e outros turistas, até a pequena ilha que fica entre Cebu e Ormoc que também são ilhas, mas são ilhas grandes. Não se confunda. Malapascua é uma ilha pequena. Toda vez que faço um texto sobre as Filipinas eu canso de escrever “ilha”. 

Malapascua é um pequeno paraíso árido, com vegetação rasteira e muitas rochas. Tudo isso banhado por águas azul turquesa. 

Da uma sacada no lugar

A maior cidade, quer dizer, a maior concentração de gente fica na parte sul da ilha, que é cheia de hotéis, resorts e restaurantes. A parte norte é mais deserta e tem as melhores trilhas e praias. Demora mais ou menos meia hora de uma ponta à outra da ilha a pé. Sei que repito muito isso por aqui, mas amigos, que lugar incrível. Não estava muito cheio, as praias eram lindas, o clima tranquilo e ainda tinham bons lugares para comer e beber.

Outro ponto importante – estávamos energizados e com a sensação de liberdade em alta. 

Ficamos 6 dias por lá, por isso não vou detalhar o nosso itinerário senão gastarei a sua paciência e meus dedos descrevendo inúmeras horas em que passei imóvel sob o sol, refletindo se o barulho que vinha do meu estômago era fome ou algum tipo de indisposição. Não, não vou fazer isso com vocês. 

O que tenho para dizer e merece destaque é (e aqui vou correr o risco de ser redundante) Malapascua é fora do comum. Passamos a maioria dos nossos dias na praia bem ao norte chamada de… na verdade acho que ela chama North Beach mesmo. Baita lugar lindo. Areia branquinha, água transparente (parecia de filme), pouquíssimas pessoas e um clima relaxado. Ficamos muito tempo lendo e jogando cartas à beira daquele lindo mar. Inclusive venho aqui dizer que tranca é um jogo injusto e criado com o exclusivo intuito de me irritar, pois perdi QUASE todas as partidas para a Marina. Digo “quase” pois ganhei a partida mais importante, a que valia tudo. Me recuso a comentar sobre os supostos chiliques que dei durante os jogos, inclusive se a Marina falar disso saiba que é mentira. 

Para chegar à praia do norte nós tínhamos que andar um pouco ou usar o meio de locomoção oficial da ilha, o mototáxi clandestino. Alguns moradores locais tem moto e, por alguns trocados, estão dispostos a te levar na garupa para qualquer lugar. E era isso que acontecia. E o melhor, como somos pão duros usávamos apenas um “mototáxi” para nós dois, então íamos até o nosso pequeno paraíso em um sanduíche do amor formado por mim, Marina e um filipino sortudo. Tempos gostosos demais. 

E um último ponto sobre esse cantinho abençoado de Malapascua. Ao lado da ilha fica uma vila, então ali podíamos ver os moradores aproveitando a praia, o que é algo meio único no sudeste asiático (vimos mais isso nas Filipinas). Normalmente os pontos turísticos são sempre povoados apenas por turistas gringos.

ruínas de um resort abandonado perto da praia norte

Basicamente todos os nossos dias em Malapascua foram gastos procurando algum lugar pra comer nas praias do sul e aproveitando o norte para relaxar. Ficamos em dois hotéis, pois fizemos reservas “picadas”. No primeiro e mais caro nosso quarto parecia um cativeiro. Era todo feito de bambu, pequeno, quente, sem banheiro e com uma quantidade absurda de areia no chão. Eu estava esperando o grupo Tigre da polícia civil arrombar a porta a qualquer momento achando que tinha uma situação com reféns acontecendo ali. Nosso segundo hotel era bem mais barato e gostosinho, mas eu não tenho nada de engraçado pra falar sobre ele, então mil perdões. 

Uma coisa peculiar sobre a ilha é que as crianças locais treinam cantar para turistas, mais especificamente a música tema do Titanic, esperado algum tipo de gorjeta, claro. Até aí tudo bem, o problema é que elas surgiam do nada, surgidas da areia em momentos inesperados. Certa vez estava eu lá curtindo o clima de uma pequena baía perto de uns restaurantes e do nada surgiram 4 crianças e começaram a cantar. Fiquei desesperado porque, bem porque eu sou eu, tenho problemas em chamar atenção e não sabia o que fazer, já que meu único pertence no momento era o shorts que eu estava usando, pois a Marina tinha ido comprar alguma coisa. Tentei avisar a molecada, mas eles continuaram a música e, ao acabar, ficaram bravos com as míseras moedas que eu achei no bolso. A vida é injusta.

A noite passeamos pela vila e descobrimos as crianças treinando a cantoria delas (com a mesma música, claro) em um karaokê local, a Marina até entrou na onda, cantando junto da janela do estabelecimento. 

Pôr do sol visto da trilha do farol (rimou)

Fora relaxar e comer, andamos muito por lá. Fizemos uma trilha rápida, conhecemos as vilazinhas da ilha e eu fiquei sem chinelo. E por que essa informação é importante? Oras, pois meu chinelo resolveu morrer no primeiro dia por lá, mas como sou brasileiro (e pão duro), me neguei a comprar um chinelo local que era bem ruim e resolvi andar descalço até chegar na Austrália, onde um amigo vindo do Brasil iria me trazer um novo par de Havaianas. O problema é que passamos por trilhas com pedras afiadas, locais com cacos de vidros e mais todo tipo de chão acidentado, e a Marina ficava bem brava que eu estava descalço, principalmente porque eu andava devagar. Mas até aí tudo bem, afinal meu pé é calejado, certo? Não. Eu pensava que era, mas a vida tá aí pra desmentir as verdades que contamos para nós mesmos. Uma noite saindo de um restaurante dei uma topada num degrau maldito, mas continuei andando, pois achei que nada tinha acontecido. Isso até sentir meu dedo um pouco molhado. Olhei pra baixo e ele estava inteiro vermelho, tinha conseguido arrancar um belo bife do meu dedão. E o melhor (ou pior), como lá o chão era 90% areia meu pé já estava a milanesa. Isso foi um saco , pois com medo de infeccionar a ferida eu andava igual o batoré da “Praça é Nossa” ou tinha que usar o pequeno chinelo da Marina, o que a deixava brava e me xingando a cada cinco minutos. Era melhor ter perdido o dedo.

Comecei esse texto falando sobre o pôr do sol em Malapascua e agora preciso me aprofundar no assunto, mas o problema é que não tem muito o que falar (ou eu não sei o que dizer), só que todo dia lá é um fim de tarde mais espetacular que o outro. É a combinação sublime daquele céu que fica inteiro rosa alaranjado com uma bola de fogo perfeita que se põe no mar. Todos os dias foram sensacionais, não dá pra falar “o pôr do sol do segundo dia foi mais caidinho”. Não. Confie em mim ou viaje até Malapascua e veja você mesmo. O mais legal é que sempre estávamos em lugares diferentes durante esse momento mágico do dia: em uma praia de pescadores locais, no meio de uma trilha perto de um farol, na incrível praia norte, na legal mas nem tão incrível assim praia sul, no restaurante italiano que tinha uma pizza barata e boa de dividir e em Kalanggaman. Kalanggaman? O que é isso?

Vila de pescadores

Kalanggaman é uma ilhota mágica que fica perto de Malapascua e com certeza é um dos lugares mais bonitos que conhecemos na viagem. Mas como já escrevi demais e ainda tem muito para falar sobre nosso acampamento a base de salgadinhos radiativos por lá vou dividir esse post em 2, fique esperto e não deixe de perder. 

Beijos Quentes

Filipinas e o capítulo em que nada muito interessante acontece

Olá, corajosos e corajosas.


Espero que tenham todos sobrevividos a mais uma semana nesse mar tempestuoso chamado vida que enfrentamos em uma canoa frágil e prestes a afundar. Espero que os tubarões da realidade não tenham abocanhado nenhum de vocês. Caso isso tenha acontecido, tenho esperança que você encontre conforto nos braços de uma pessoa amada e/ou em um copo de bebida. Mas, se nada disso funcionou, aí sim eu recomendo você ler esse blog para tentar se distrair. Mas tenha certeza que não tem nada de melhor para fazer antes. 

Andando pelas Filipinas dá para encontrar uns fortes perdidos

Esse relato continua exatamente de onde o anterior parou, no momento que, ainda na ilha de Cebu, nos despedíamos (junto com nossos companheiros Ed e Enzo) de Moalboal para ir em direção a Bohol. Que é… isso mesmo, outra ilha. Filipinas parece um pedaço de terra que foi estilhaçado a pisadas por um ser gigantesco. Nada é conectado, tudo é cortado por distâncias pequenas, porém irritantes, de água salgada. Dava saudades de um país continental como o Brasil. 

Chegar em Bohol, como chegar em qualquer lugar nas Filipinas, foi uma tarefa cansativa. Pegamos um ônibus apertado até Oslob (cerca de duas horas de viagem), embarcamos em uma balsa em um mar agitado e enfrentamos mais duas horas de pessoas passando mal ao nosso lado. Quase fui vítima de uma senhora asiática que invocou suas tripas ali mesmo. E aí teve mais um tuktuk, claro, quando finalmente mudamos de ilha. Entre tempo de transporte e tempo de espera foi-se um dia inteiro nessa jornada maluca. Um exercício cansativo e que nos deixou, com o perdão da palavra, com o saco na lua.

Chocolate Hills em Bohol

Apesar de termos ficado quatro noites em Bohol, quase não fizemos nada por lá, e nem acho que tem tanto assim o que fazer (o que provavelmente é uma afirmação errônea de quem não aproveitou muito bem o lugar, se for para lá pesquise melhor invés de confiar em mim). Ficamos perto de Alona Beach, região que parece prestes a virar um paraíso de resorts, principalmente para turistas coreanos. Não sei a razão disso, pois não achei as atrações tão espetaculares quanto as encontradas em outras ilhas. Claro, são lugares bonitos, não estou dizendo que são feios como a praia da Enseada pós festa de réveillon, mas como estávamos vindo de verdadeiros paraísos o “bonito” ficou um pouco sem graça. 

Para ser justo, nosso cansaço mental, já mencionado no post anterior, nos acompanhou até Bohol, e aliado ao seu melhor amigo, o cansaço físico, nos transformou em uma pilha de trapos humanos. Estávamos em estado de ressaca perpétua. Era tanta preguiça que sair do quarto do hotel era tão cansativo quanto uma maratona. Sim, eu sei, é muita frescura para quem estava viajando o mundo, mas acontece, fazer o que. 

Claro, não foram dias completamente inúteis. Saímos da cama (com esforço), conhecemos, comemos, respiramos, comemos e também comemos mais um pouco. 

Dentre essas atividades o maior destaque foi um tour pelo interior da ilha, em que passamos por diversos pontos diferentes ao longo do dia. Adorei conhecer o Tarsius, um bicho nativo de uma parte específica do sudeste asiático que é totalmente único. Ele tem olhos grandes como de mangás (quadrinho japonês), dedinhos pequenos e um rabo duro e asqueroso. Parece um esquilo que deu errado. E tem mais, se você fizer muito barulho ele comete suicídio batendo a cabeça sem parar contra o tronco de árvores. Pensa em um bicho que precisa de mais tratamento psicológico que a sua prima que acabou de anunciar para a família toda que só “se alimenta de luz” . É o Tarsius.

Tarsius

Outro ponto de Bohol que queríamos conhecer eram as famosas Chocolate Hills, cartão postal da ilha. Uma série de colinas arredondadas, de formato e tamanho similares, que formam uma paisagem magnífica. Vimos o pôr do sol lá e foi bacana, mas acho que todo mundo presente achou mais legal do que eu. Talvez eu esteja cada vez mais velho e ranzinza, o que é bem provável. Gosto de pensar que meu “animal espiritual” é um senhor de 75 anos preso em um ciclo sem fim na fila do INSS.

Também passamos pelo Rio Loboc, o mais famoso da ilha, que tem uma bela água cor de esmeralda. Mas foi só, passamos por cima dele em uma ponte e depois mal o vi de novo.

O rio Loboc

Enfim, Bohol foi praticamente isso. Quer dizer, teve mais um passeio de certo destaque, um passeio tristíssimo em que o objetivo era ver vagalumes que ficam em árvores à beira do rio, obviamente durante a noite. O passeio tinha potencial, supostamente seria um espetáculo lindo e onírico, mas o lugar era longe, uns chineses do nosso grupo atrasaram o tour e chegando lá vimos que era melhor eu ter subido na árvore com uma lanterna presa às nádegas do que o “show” que os vagalumes deram. Faria mais luz e com certeza seria um entretenimento de melhor qualidade. Não sei se pegamos um dia ruim ou se é sempre assim, mas não deu pra ver nada, só ficamos rondando com o barco no escuro enquanto éramos agraciados por um acalentador cheiro de diesel. Foi horrível.

E por fim retornamos à Cebu. Nos despedimos, agora sim, dos nossos divertidos companheiros brasileiros e voltamos a ser apenas eu e a Má na viagem. Que sentimento gostoso.

Novamente, nada contra outras pessoas, mas foi revigorante voltarmos ao modo “natural” da nossa jornada. Eu e Marina contra o mundo. Mais livres para escolher, para ir e vir e, principalmente, para errar. 

Pegamos uma balsa para a horrenda Cebu City logo às 6 da manhã, pois nosso dia seria longo. Precisávamos fazer uma porção de coisas que no fim descobrimos serem inúteis, ou seja, logo cometemos um ato clássico da dupla: desperdiçar muito tempo e algum dinheiro em um lugar tosco. Nós realmente estávamos de volta!  

Aliás vou até detalhar essa nossa peripécia, que é bem vergonhosa, já adianto. Quando entramos nas Filipinas olhamos o carimbo de nossos passaportes e achamos que só teríamos 30 dias no país. Baita injustiça, já que brasileiros podem ficar 59 dias sem visto nessa terra de ilhas abençoadas. E o pior, nós ficaríamos 31 dias ao todo por lá e ficamos com medo de algum agente da imigração encrencar conosco por apenas 1 dia de excesso, por isso decidimos passar em um escritório da imigração filipina, em Cebu, para resolver essa patavina. Bom, após pegar a balsa achamos um escritório e nos deslocamos do porto até ele em um dia cinza e chuvoso, esperamos o escritório abrir e fomos quase os primeiros a serem atendidos para… para… bem, para o funcionário que nos atendeu falar em menos de 1 minuto que nossa situação estava OK. 

Como assim OK, meu chapa? Nós tínhamos olhado diversas vezes aqueles passaportes e tínhamos certeza do problema. Era só observar que nosso tempo máximo de estadia estava marcado para 22 de Março e…. E foi aí que nosso mundo ruiu e nos tocamos que ainda estávamos em Fevereiro e que sairíamos em 23 de Fevereiro do país. O oficial da imigração tinha nos dado 59 dias de estadia, mas por alguma birutice coletiva nós dois deletamos um mês inteiro de nossas mentes e já achávamos que estávamos em Março, o que atrapalhou a “complexa” conta de subtração que fizemos para calcular nosso tempo de estadia. Foi vergonhoso. Foi irritante. Único ponto positivo foi não ter que enfrentar nenhum trâmite burocrático, mas “só”.

Uma foto bonita para vocês esquecerem nossas burradas

Fora que o funcionário do escritório ainda nos deu um olhar que era um misto de dó com preocupação, meio que duvidando das nossas capacidades cognitivas. Pior que eu nem posso culpar ele. 

Só nos restava comemorar (ou lamentar) e continuar com o itinerário do dia.

Depois dessa epopeia da burrice pegamos um ônibus de umas 5 horas até Maia, extremo norte da ilha de Cebu, onde aí sim iríamos pegar uma balsa até Malapascua, uma pitoresca ilha entre Cebu e Leyte, nosso último destino nas Filipinas. 

Segurem-se pois os relatos das Filipinas estão acabando. Depois de Malapascua, a terra do pôr do sol que nunca decepciona, já chega a Austrália. 

Até a próxima e, claro, beijos quentes.