Turquia ou Limite vertical praiano

Pôrzão do sol lá pelas bandas de Ölüdeniz

Olá, amigos e amigas

Enquanto a pérfida luta contra a prisão da existência não termina, tentarei mais uma vez quebrar os grilhões da rotina e mostrar para vocês que o que está ruim pode sempre piorar. Já que a moda agora é queimar alguma coisa, bora lascar fogo no bom senso e na (minha) dignidade.

Depois de terminar nosso intenso quente e lotado mergulho ao passado, como relatado no post anterior, continuamos cruzando as planícies turcas em direção ao sol poente, buscando o laranja do céu e as praias do Mediterrâneo. 

Nossa primeira parada nessa empreitada litorânea foi na badalada cidade de Bodrum. Um lugar que não estava nos nossos planos, mas que incluímos para encontrar uma amiga da Marina. 

Bodrum é um lugar bonito, charmoso e cheio. Fantasmas de pele clara, bochechas rosadas e roupas que indicam pouca ou nenhuma familiaridade com uma divertida cidade de praia vagam aos montes por lá. Ou seja, Bodrum é lotada de turistas britânicos. Sim, é um lugar bem turístico, o que quer dizer que tem mais restaurantes, barzinhos, hotéis e loteamentos do que natureza. Não era o tipo de coisa que estávamos procurando, mas nos divertimos no período em que estivemos lá. Tomamos cerveja, comemos bem, observamos um belo pôr do sol e curtimos um dia interessante em uma das praias da cidade. Uma praia simpática, mas de pedra. Você deve estar se perguntando qual o problema, querido(a) leitor(a). Vou falar: praia de pedra é um negócio difícil de engolir. Os frágeis tecidos da realidade estão sempre instáveis em uma praia de pedra, como se o universo estivesse com sinal fraco e um chiado cinza dominasse nossas mentes. Percebemos que algo está errado. E isso acontece em qualquer praia de pedra, por mais bonita que ela seja. É como um andróide que não passa no teste Voight-Kampftt, no fim, por mais bem construído que seja, não é um ser humano. Não estou dizendo que a melhor praia de pedra do mundo é pior que a mais horripilante praia de areia que existe por aí, só estou dizendo que é complicado gostar desse negócio. E antes que alguém venha me dizer que pedra é bom porque não gruda e nem é invasivo como areia eu só tenho a dizer: você não sabe curtir uma praia, você não merece uma praia e você nem deveria pisar numa praia. Areia é o melhor denominador comum da sociedade, irrita e cola no corpo sem qualquer tipo de distinção, é o elemento que veio para nos mostrar que no fim somos todos iguais. Quem se dispõe a “enfrentar” a areia sabe que ela sempre vence, não importa quem você seja. E se não for para sair parecendo um frango à milanesa eu nem vou à praia. Enfim, desculpe o tom autoritário, mas esse é meu blog e o único ambiente no mundo em que eu posso exercer minha ilusão de poder, então me dê licença. 

Bodrum e suas via marítimas entupidas

Bodrum foi um ponto estranho no roteiro, mas divertido. Encontramos amigos e pudemos observar uma gama de personagens exóticos que rondam pela cidade, desde senhoras ricas e caricatas que andam com cachorrinhos birrentos a tiracolo e parecem saídas do desenho do Tintim a velhos bêbados que ficam aprisionados em seus pequenos barcos enquanto suas almas vagam livres por aí, esses saídos direto de uma obra Hemmingwayniana. O mais emblemático deles parou em uma mesa ao lado da nossa em um barzinho, sentou-se com os jovens que a ocupavam e começou a tocar a pior melodia que já saiu de qualquer violino do mundo. Tudo isso sem qualquer coisa parecida com um convite. No fim contou umas histórias, ganhou um sanduíche e minha admiração. Bodrum é um lugar estranho. 

Depois nos dirigimos para onde queríamos estar desde o começo, na região de Fethiye e Ölüdeniz. Para chegar lá foram cerca de 4 horas por estradinhas seguindo a costa turca, uma jornada extremamente agradável. Passamos por cidades minúsculas e belas, pequenas joias escondidas no Mediterrâneo. Foi uma pena termos um prazo de saída da Turquia (pois iríamos encontrar a mãe da Marina na Grécia), porque tenho certeza que dá para ir parando e explorando cada vilazinha à beira do mar. Enfim chegamos no nosso objetivo, um hotelzinho com clima caseiro que ficava na parte mais interiorana de Ölüdeniz. Fethye é uma cidade praiana de tamanho razoável, porém calma e gostosa. Ao seguir pela estrada principal e cortar as montanhas por cerca de 10 minutos é possível encontrar a vila de Ölüdeniz e caso continue na mesma estrada por mais uns 5 minutos chegará na praia de Ölüdeniz, um lugar popular nas férias de quem quer desfrutar o Mediterrâneo turco. Como estávamos de carro ficamos na vila que fica no meio do caminho, e apesar de ser uma região cheia de europeus descansando de suas rotinas, fica também perto de muitas prainhas mais reservadas e escondidas entre os vales que rasgam as montanhas que guardam o litoral daquela parte do mundo. Fomos lá para ficar 3 dias e acabamos ficando 7. Foram tempos relaxantes, daqueles momentos que praticamente fazem um carinho na alma. Todo dia exploramos praias diferentes, nossa hospedagem era ótima e barata, a comida nas redondezas era boa e o melhor, tínhamos café da manhã incluído na diária. E não, isso não é bobagem. Essa viagem me fez valorizar os cafés da manhã inclusos na diária como nunca antes, e o desjejum do nosso simpático hotel era fora de série. Queijos, diferentes tipos de azeitonas, pães, ovo, vários tipos de geleias, bolo e o melhor mel da história. Confesso que comia por duas ou três pessoas ali, o que é a melhor tática a se seguir para pular (e economizar) refeições ao longo do dia. Um homem com um bom café da manhã não quer guerra com ninguém. 

O Butterfly Valley e a praia lá embaixo – bela queda

Nesse período conhecemos praias incríveis, até porque a região era maravilhosa e facilitou nosso trabalho. Mais um lugar na Turquia em que eu ficaria mais de meses, tranquilamente. Uma mistura de montanhas, vales e praias perdidas entre pinheiros. Nunca achei que pinheiro combinasse com praia, mas ali eu entendi que areia branca e coqueiro não é o único combo possível para degustar de uma diversão marítima. Claro, existem lugares lotados e tomados pelas hordas estrangeiras, como a própria praia de Ölüdeniz, mas ali perto fomos em locais como Kabak e o Butterfly Valley, locais lindos e tranquilos. Kabak era o ponto mais afastado de onde estávamos e para chegar lá nos enfiamos no meio de estradas estreitas em um desfiladeiro e quase estacionamos no telhado de um pequeno barraco. Depois descobrimos que para descer até a praia do alto das montanhas (por lá é tudo desfiladeiro até o mar) é preciso pegar um ônibus especial ou andar por um tempo. Como estava quente e estávamos com aquela preguiça gostosa causada pelo excesso de sol e sal, optamos pelo ônibus/van apertado, uma opção sempre interessante para quem quer aliar o clima de praia com uma sauna. Kabak tinha um clima alternativo e místico, com muitos jovens turcos acampando por lá, daquele tipo de lugar em que as pessoas fazem yoga na praia e alguém se oferece para ler seus chakras. É um local lindo, na boca de um valezinho simpático e cercado por montanhas. Um defeito? Mais uma praia de pedra. Mas confesso que senti uma calmaria quase espiritual nas águas de Kabak. Ali pensei, “por que me estressar?” – Tudo estava tranquilo, nossos problemas eram pequenos perto da imensidão daquela natureza e eu estava viajando o mundo com a mulher que eu amo. Claro que esse estado mental zen não persistiu muito e logo na próxima baliza que precisei fazer já estava xingando até minha mãe. Ser iluminado não me cai bem, mas foi bom enquanto durou. 

Parte do rolêzinho para descer até a praia

O Butterfly Valley é um lugar que nem tenho capacidade léxica para descrever. Meu segundo lugar favorito na Turquia toda, com certeza (Capadócia ainda é rainha). Como diz o nome, é um vale, mas não é um vale como muitos outros que existem na região. Ele é estreito, íngreme, quase claustrofóbico. Como se fosse um corte fino nas montanhas feito pela espada de um deus durante a Titanomaquia. E ali embaixo, onde as montanhas finalmente terminam, fica uma prainha linda banhada por águas verdes transparentes. Dá para conhecer o vale pelo alto, a estrada dá a volta por ele e continua pelas montanhas, e a vista é embasbacante. Mas também dá para descer até o mar por uma trilha que beira os penhascos alaranjados. E que trilha. É um caminho quase vertical e que pode ser considerado complicado tecnicamente. Não é longo nem demanda muito esforço, mas deixa tenso. Em alguns momentos é necessário o uso de cordas para descer e subir as pedras. Sim, cordas. Coisa de quem é versado na aventura. Foi nossa versão particular do filme “Limite Vertical” e nós já podemos dizer que flertamos com os perigos da gravidade. Sim, logo eu que já ganhei o prêmio “mais tropeços que a média da população adulta de Itu 2017” consegui completar o nervoso percurso sem nenhum acidente, embora em dado momento eu tive que pular de um penhasco até outro no melhor estilo Missão Impossível. Não acredita? Azar o seu. Não preciso nem dizer que eu adorei descer e subir os precipícios, ainda mais porque fizemos tudo em um lindo dia agraciado pelo sol e eu pude limpar os baldes de suor que saíam de mim em um mar estonteante. Eu já falei da praia do Butterfly Valley, mas vale reforçar, que lugar incrível. Isolada, tem areia (e pedras), mar calmo, cor hipnotizante e um clima tranquilo, quase hippie. A paz de lá só é quebrada nos períodos em que as multidões pulam como pulgas dos navios de passeio que chegam nas ancoragens próximas, mas o caos dessa torre de babel convertida em tripulação só dura algumas horas – as infames “horas de visita”. Nos outros momentos a praia é dos malucos que acampam lá embaixo, de alguns locais e dos imbecis (como nós) que sobem e descem a trilha do desfiladeiro. Lá consegui dar mais um mergulho estilo “zen”. As águas da Turquia fizeram bem pra mim. Só as águas também, porque a trilha foi linda, mas nos deixou incapacitados no dia seguinte. A Marina parecia o cadeirudo (da novela A Indomada, lembra?) andando. O único ponto negativo foi não termos conseguido pegar a temporada de flores e das borboletas que lotam o vale, mas mesmo assim foi um dia de visões inesquecíveis.

Saudades das praias turcas (menos as de pedra)

Não vou detalhar aqui nossas peripécias em todas praias que visitamos, pois até que fomos bem ativos nesses dias baseados em Ölüdeniz, mas apesar das andanças pra lá e pra cá conseguimos relaxar e entrar em sintonia com a sensação de descobrir, algo importante nesse tipo de viagem. Alugar carro não é a opção mais barata e com certeza diminui as chances de encontros inusitados (graças a Deus*), mas em contrapartida aumenta a liberdade para explorar, mesmo que o carro seja um péssimo Peugeot 301 com um motor que mais parece um secador de cabelo. 

Foram alguns dias e logo já precisávamos voltar para Capadócia, devolver nosso carro, pegar um ônibus para Istambul e aí partir para a Bulgária, nosso próximo destino. Mas os detalhes dessa jornada são tema para a próxima newsletter.

Beijos quentes

*Ao contrário de 99% dos viajantes de longa duração, eu não sou grande fã de contato com os outros nem gosto de puxar assunto com qualquer um. Sei que é algo vital para várias coisas, inclusive para o conhecimento de mundo, e reconheço sua importância, assim como reconheço a importância da ingestão de beterraba mesmo odiando beterraba.

Turquia ou derretendo junto com Alexandre o Grande

O castelo de algodão

Olá, guerreiros e guerreiras da paciência. Para os que ainda conseguem arrastar os olhos por essas linhas malditas, premio vocês com uma abertura otimista ao invés daquele costumeiro falatório sombrio e sem sentido que tanto gosto de colocar por aqui. Venho com um simples pensamento que pode mudar tudo para melhor. Alguns chamam de epifania e outros de insight. Eu chamo apenas de sabedoria. Bom, lá vai: alegre-se, o mundo pode estar pegando fogo e nossas vidas escorrendo por entre os dedos gordurosos da opressão, mas pense que em alguma obscura dimensão paralela o Jorge Vercillo é dono de 8 das 10 músicas mais tocadas na rádio. Uma realidade tenebrosa que eu nunca quero conhecer. 

No último relato tínhamos acabado de começar nossa jornada pelos campos dourados da Turquia. Passamos por Konya, tive a orelha incinerada e então continuamos viagem. Rasgamos o antiquíssimo solo turco em direção às ruínas da cidade de Hierápolis e às piscinas termais de Pamukkale.

Esses não são lugares perto de Konya, por isso ficamos umas boas horas na estrada até alcançarmos nosso destino. Gostaria de ter algo a comentar sobre a paisagem, mas achei tudo bem parecido com as grandes estradas que temos no sudeste do Brasil, nada demais. O fato mais relevante dessa viagem foi o nosso carro, que praticamente andou para trás perto dos outros (sim, estou reclamando dele de novo). Calma. Você deve estar pensando que eu sou maluco e é impossível um lugar na Turquia parecer o Brasil, e parece loucura mesmo, mas em muitos momentos achei esse pedaço de terra da Ásia Menor semelhante a nossa antiga Ilha de Vera Cruz. Mas depois passamos por estradas únicas e paisagens incríveis totalmente diferentes do que vemos no nosso país.

O importante é que mesmo as estradas comuns nos levaram ao nosso destino. Chegamos em Denizli, a cidade perto das atrações que eram nosso objetivo, em um fim de tarde chuvoso e quase frio. Arranjamos um hotel bom e barato, daqueles que faz a minha alma transbordar de alegria. Nada melhor do que economizar dinheiro com o mínimo de saneamento básico. A região de Denizli é conhecida pelas águas termais e o destino nos premiou com um hotel que tinha banheiras termais em cada quarto. Admito que sou um entusiasta de banhos de banheira, embora ache eles mais eficientes para o relaxamento do que para a limpeza, então logo quis aproveitar a atração que nos esperava, principalmente porque o dia não fazia questão nenhuma de ser agradável lá fora. 

A água vinha de um buraco suspeito na parede e, como uma boa água termal, tinha um cheiro engraçado. Confesso que a cor não era muito bonita ou convidativa, mas mesmo assim eu estava disposto a me jogar naquele calor líquido e curar todas mazelas da viagem. Olha, e bota calor nisso. Foi um banho gostoso, mas demorou para a banheira ser habitável. A água estava muito quente. Muito quente mesmo. Só faltou o cheiro de enxofre no ar e algum diabrete me cutucando com uma lança para eu me sentir no inferno. Eu odeio banho quente demais, não consigo suportar altas temperaturas e definitivamente não sou um Targaryen. Mesmo assim insisti no mergulho termal e quase fui cozido vivo. As partes mais sensíveis do corpo (você sabe quais são) flertaram com a ideia de perder a pele, mas depois de terminada a experiência me senti revigorado e relaxado ao mesmo tempo.

 Viu, quem disse que não faz bem sofrer. 

Mais um pouco das doideras naturais

Ficamos dois dias por lá e foram dois dias sendo escaldado vivo por vontade própria, tudo pelo bem da saúde. Mas não foi só isso. Visitamos as famosas águas termais de Pamukkale, uma das atrações mais famosas da Turquia. E olha, apesar de não termos pegado todas as cascatas cheias, é um lugar lindo. As termas ficam em uma montanha de calcário branco moldado pelas águas, um espetáculo alvo de formas arredondadas que contrasta com o azul claro do líquido que brota de dentro da terra. Parece até artificial. Ao longo da colina, que ergue-se ao lado de uma pequena vila, existem diversas piscinas naturais em que a água flui formando mini cascatas. Acho que não fomos na melhor época, pois muitas dessas piscinas estavam secas, mas mesmo assim foi bonito de ver. Claro, dá para nadar e se jogar nesse líquido que já foi considerado sagrado, coisa que a Marina fez com mais entusiasmo que eu. Ela e um bom número de turistas com um tamanho duvidoso de sunga. Aliás a Marina estava tão entusiasmada para se banhar que acabou entrando numa parte proibida e protegida, coisa bem de brasileiro que adora levar apitada de guardinha na orelha – claro que ela fez isso sem querer, porque não viu uma plaquinha bem da escondida que dizia “proibido entrar”. Bom, para manter o caráter informativo deste post e mostrar que aqui não se fala só em desgraça e burrada vou dizer que Pamukkale significa “castelo de algodão” em turco, um bom indicativo de como é o lugar visualmente. 

Tava pouco suado o rapaz

O topo da colina branca é habitado pelas ruínas de Hierápolis, uma antiga cidade grega/romana/bizantina/otomana com muita história. Foi nosso primeiro contato com ruínas tão antigas e “ocidentais” (embora estivessemos tecnicamente na Ásia) daquelas bem de livro de história. Claro, já tínhamos passado por lugares anciões, como Varanasi, mas ali a história pulsa mais próxima de nós (para o bem e para o mal). Me senti em um set de filme andando pela necrópolis, pelo templo de Apolo e ao entrar no antigo teatro, que está muito bem conservado. Uma pequena onda de emoção surgiu no meu âmago. Impossível não se sentir oprimido pelo peso histórico de um lugar onde já passaram diferentes tipos de civilizações, imperadores, reis e até um apóstolo, que foi recebido tão bem na cidade que seus moradores resolveram apedrejá-lo até a morte. Nada como a hospitalidade de 2.000 mil anos atrás. 

Acabou a nossa visita a Pamukkale, mas não tinha acabado a veia histórica da nossa jornada. De lá fomos para Selçuk, a cidade que fica próxima às ruínas de Éfeso, o ponto principal nessa nossa caminhada em direção ao passado. Foi uma estadia rápida na região, chegamos de noite, conhecemos as atrações pela manhã e tarde e depois partimos para um outro destino. Foi uma visita apressada, mas foi também uma enxurrada de experiências e muitos anos de história empacotados em poucas horas. 

Éfeso

Importante dizer que lá gastamos mais do que deveríamos. Não ostentamos nas habitações, comida nem nada do tipo, juro que não contratei uma carruagem de ouro para passear pela cidade tal qual um Adriano falsificado, é que é bem caro para entrar nas atrações da região, que não são poucas. 

Nossa primeira parada foi, claro, no complexo principal da antiga Éfeso. Sabe aquela história de avalanche histórica? Pensa em um lugar que já recebeu Alexandre o Grande, Adriano, Marco Aurélio e Cleópatra e o profeta João. Já foi abrigo de uma das sete maravilhas antigas do mundo (o templo de Artémis) e já foi a segunda maior cidade do império romano.Tá bom ou quer mais? Bom, lá ainda conta com complexos islâmicos importantes, antigos fortes e a suposta última casa de Maria (aquela da bíblia). Enfim, eu acho demais pensar que estou pisando no mesmo solo que um dia já foi um lugar cheio de vida, intrigas e putaria. As ruínas são incríveis, mas confesso que achei Hierápolis mais bem restaurada. O grande teatro estava sob reparos e cheio de estruturas metálicas, o mais interessante que aconteceu por lá foi encontrar um chinês cantando ópera para testar a acústica. E olha que ele cantava bem. A biblioteca de Celso é linda, mas é também um grande chamariz de turistas que rondam ela como mariposas rondam uma lâmpada. O resto do local é impressionante e faz a imaginação voar pensando na escala daquilo tudo, mas até eu que sou bem do entusiasmado com essas coisas cansei de ver ruína. Culpa, em (boa) parte do sol impiedoso que pairava sobre nós. Os gregos/romanos foram grandes gênios, mas pensa num povo que não sabe fazer cidade com sombra, faltou essa aula nas escolas antigas de planejamento urbano. Meu deus do céu, quase morremos torrados nas ruínas, eu estava prestes a entrar em uma das antigas tumbas da necrópole só para me jogar no escuro.

A mistura de sol na cabeça, suor nos olhos e enxurrada de turistas estraga qualquer lugar do mundo, por isso logo nosso deslumbramento passou e só queríamos cair fora do passado e voltar para as maravilhas do século 21, mais precisamente para A MARAVILHA chamada ar-condicionado. Mesmo assim fiquei feliz de ter me irritado com o calor no mesmo lugar em que um dia o Alexandre o Grande deve ter reclamado de não conseguir parar de suar no fiofó. 

Ainda na região visitamos uma mesquita famosa, o complexo onde fica a suposta tumba do apóstolo João (que reconhecidamente morou em Éfeso e foi quem levou Maria para lá) e a casa onde Maria ficava escondida, nas montanhas próximas à cidade. Aliás essa foi a atração mais inútil e brochante de ser visitada, pois é longe, cara para acessar e dentro tem apenas uma pequena choupana que não parece ter nem 150 anos. Mais fácil a Maria do Bairro ter morado lá do que a Maria figura histórica/religiosa.

Doidera – Pamukkale

Foi uma visita rápida, mas prazerosa (apesar dos percalços). Eu não sairia feliz da Turquia se não tivesse ido em um sítio arqueológico tão significativo e sei que para a Marina o lugar tem, além do valor histórico, o valor religioso. Valeu a pena o maremoto solar que recebemos. 

E depois desse mergulho relâmpago no passado dirigimos nosso possante para locais mais focados no presente. Era hora de conhecer o litoral turco. E esse é o tópico do próximo post. 

Beijos Quentes

Turquia ou Capadócia e a maculação da minha alma

Capadócia é um região bem da bacana

Olá, participantes dessa maratona de sofrimentos chamada vida. Aguente firme, chegou mais um episódio das lastimáveis aventuras e patéticas reclamações do menor casal que já viajou o mundo.

No último post contei sobre o nosso rápido e tórrido caso de amor com Istambul. Foi triste e difícil sair de lá, afinal estávamos com tanta preguiça que até comprar um sorvete na esquina configurava-se como “trabalhoso” para nós, mas a vida segue e nossa viagem também seguiu, por isso fomos nos enfiar em mais um ônibus por cerca de 12 horas.

Estávamos indo em direção a Göreme, uma vila quase no centro do que é chamado de Capadócia, que é uma região e não uma cidade, estado ou coisa do tipo. A viagem foi tranquila e sem nenhum grande perrengue, o que de certa forma é uma novidade neste blog. Achei curioso que no ônibus o rapaz que atua como cobrador e ajudante de motorista também se arrisca como comissário de bordo durante a viagem. Sim, em dado momento ele tirou um carrinho dobrável e umas comidinhas de um compartimento secreto e passou servindo chá, água, suco e snacks. Chique. 

Foi um ônibus noturno, por isso no outro dia de manhã chegamos no nosso destino. Ou quase. Como Göreme estava com acomodações muito caras acabamos reservando um lugar em Ürgüp, uma vila próxima (10 quilômetros de distância) e também parte da região da Capadócia. Por isso lá fomos nós caçar uma van local quase que de madrugada para nos levar até nosso objetivo. Locomover-se a baixo custo é cansativo demais, mesmo quando é fácil. 

Família do Mehmet sem o Mehmet – acordamos todo mundo

Depois de algum tempo finalmente chegamos na casa do Mehmet, nosso anfitrião. Em Ürgüp ficamos numa casa de família, mas não foi por Couchsurfing. Na verdade esse lugar estava listado no Airbnb com um preço muito bom, por isso pegamos a oferta. Foi como se tivéssemos alugado um quarto na casa dele. No fim foi uma experiência incrível, mas foi estranho chegar logo cedo na casa de outra pessoa, principalmente porque o Mehmet entendeu errado nossa mensagem e achou que nós chegaríamos à noite, o que nos levou a: 1) acordar ele 2) acordar a família dele toda que estava passando o Ramadã lá (a celebração estava em seus últimos dias) 3) tomar um café da manhã com a família toda, que nós acordamos, sem o Mehmet, porque ele precisou sair correndo para trabalhar. 

Foi uma daquelas cenas surreais que surgem as vezes em obras de realismo fantástico, como se estivéssemos em um filme co-dirigido por Fellini e Roberto Benigni – o casal atordoado, a família confusa, uma criança elétrica e eles sem falarem um pingo de inglês e nós com entendimento zero de turco. Claro que nos entendemos, no fim todo mundo se entende, e um café da manhã com todos tipos de azeitonas possíveis ajudou muito. Aliás eu adorei a concepção de café da manhã dos turcos – alguns tipos de queijo (de cabra principalmente), tomates frescos, pepino, pães diversos, milhares de azeitonas, pistache e nozes, manteiga, frutas e geleias. É farto, gostoso e leve. Quer dizer, se você comer a mesma quantidade que eu comi não é leve não, mas ok. 

Rimos, comemos e (não) nos entendemos, foi interessante. Depois saímos para conhecer Ürgüp enquanto eles arrumavam nosso quarto, pois não nos esperavam aquela hora. 

Um pouco de Ürgüp

A vila é charmosa, arrumada, pequena e da mesma cor de todas as vilas da Capadócia, um bege amarelado que tem o mesmo tom das rochas onde as construções eram escavadas antes. É uma sensação estranha observar uma cidade que tem apenas uma cor, sem um escape de tom, parecia que um gigante tinha jogado um balde de areia em cima de todas construções. De longe os detalhes, que são muitos, parecem se perder em uma massa uniforme, mas ao chegar perto de cada casa ou prédio é sempre possível se surpreender com alguma coisa nova. Aliás a Capadócia e suas vilas são uma visão surreal. Vindo de Göreme para Ürgüp já tínhamos visto uma pitada do que essa região tem para oferecer. Construções escavadas na pedra, cidade fundindo-se com natureza e formações rochosas bizarras. É um lugar incrível.

Pelos vales perdido

Mas melhor do que ficar restrito à vista das cidades ou participar de tours com mais pessoas do que deveriam caber em uma van é se enfiar no meio dos vales esquizofrênicos da região. Sim, dá para andar por conta própria pelas milhares de trilhas que existem ao redor de Urgup, Göreme, Uçhisar e outras vilas da Capadócia. É muito lugar pra desbravar. Nosso dia favorito aconteceu quando nos enfiamos no meio dos caminhos estreitos de alguns vales locais, mais especificamente o Swords Valley, Red Valley e Rose Valley. Foi um dia inteiro andando entre um lugar que parecia o filho renegado da lua com Marte. A diversidade de cenários em espaços tão próximos é fantástica. Em dado momento estávamos no fundo de um mini cânion apertado e cinza, alguns minutos depois subíamos uma colina para nos depararmos com um labirinto de morros rosas que parecia dentes saindo da terra e aí mais adiante nos vimos perdidos entre ferozes formações lunares emergindo como espinhos do chão. Isso tudo apenas nesta pequena região que mencionei. Fora o cenário de cair o queixo ainda nos deparamos com casas e até igrejas escavadas nas pedras, algumas mais antigas que aquele queijo que você deixou no fundo da geladeira jurando que um dia ainda vai comer. É maluco demais pensar em toda história e toda gente que já viveu naquele lugar em condições tão peculiares. Uma das igrejas que encontramos era gigantesca, uma verdadeira catedral dentro de uma rocha.  Ainda bem que eu não nasci em tempos mais antigos, porque o esforço necessário para criar algo desse tipo não condiz com meu nível de comprometimento e energia, se dependesse de mim os moradores da Capadócia não conseguiriam nem enfiar o dedão dentro de um pedregulho. 

Casas nas pedras

Outra coisa que achei incrível é o quão complexo são os cânions e vales que se formam na região. De uma vista panorâmica parece ser uma região árida e simples, incrível, mas simples, com diversos rasgos na terra e umas colinas de formato peculiar se erguendo aqui e ali. Mas ao nos aventurarmos pelas trilhas vimos como cada um desses desfiladeiros escondiam uma vegetação vasta e mais profundidade e beleza do que era possível ver de longe. Nas nossas andanças tivemos que atravessar uma mata espessa lotada de abelhas. Provavelmente era uma trilha fechada que os dois imbecis resolveram seguir e quase terminamos como o menininho do filme “Meu Primeiro Amor”.  Mas o visual que encontramos pelo caminho valeu a pena.

Parecia Marte lá embaixo

Bom, eu me empolguei descrevendo as belezas da Capadócia, mas é porque foi um dos lugares que mais gostei de toda a viagem. É diferente. Impressiona. Caso você passe lá um dia vá além dos passeios de balão e explore o lugar de perto. 

Aliás o dia em que exploramos os vales que mencionei acima foi especial, pois terminamos ele tomando uma cerveja com Mehmet e sua mãe (os únicos moradores fixos da casa onde ficamos) e rindo bastante. A mãe dele é incrível e não fala nada de inglês, mas mesmo assim conseguiu nos mostrar fotos de suas viagens e contar da família. 

Pela Lua

Depois de três dias saímos de Ürgüp e fomos para Göreme, dessa vez ficamos em um hotel mesmo, assim estávamos mais perto das trilhas e vales da região. Göreme também é de onde saem os famosos balões da Capadócia e embora não fôssemos embarcar em um (no caso porque não tínhamos um fígado extra para vender e bancar o voo) queríamos acordar cedo e ver eles subindo aos céus de um mirante nas montanhas do Swords Valley. Para isso teríamos que acordar lá pelas 3 da manhã e andar por 1 hora até a desgraça do mirante. E foi o que fizemos. Infelizmente. Acordamos cedo, enfrentamos um friozinho chato, cruzamos um cemitério turco no meio da escuridão (sem querer), subimos a trilha no escuro, chegamos no topo do morro (onde fica um sofá velho para acomodar os aventureiros) e esperamos. Esperamos. E esperamos. Normalmente os balões começam a subir lá pelas 5 da manhã (nessa época do ano), pois o sol agracia a humanidade com sua presença flamejante umas 5:15. Mas nesse dia nada. Quando deu 5:30 começamos a desconfiar que talvez os voos tivessem sido cancelados. Quando vimos 6:15 no relógio tivemos certeza disso, mas ainda decidimos esperar mais um pouco, nos agarrando a mesma esperança perversa que fazia minha tia Mirtes comprar uma tele-sena toda semana. Em algum momento, perto das 7 da manhã, decidimos voltar para o hotel e para nossas camas, tristes e traumatizados pela falta de balões. O dia até estava bonito, mas eles cancelam os voos lá por qualquer coisinha, acho que tem a ver com alguma bobagem como segurança dos turistas ou algo do tipo. Enfim, ficamos uns sete dias na região e não vimos os balões em nenhum deles, tudo culpa do mau tempo.

Sei lá

Mas, apesar do trauma flutuante, foram tempos gostosos demais na Capadócia. Eu ficaria por lá 1 mês tranquilamente. Fizemos outras trilhas, visitamos o castelo de Uçhisar (que também é escavado nas rochas e fica no ponto mais alto da região), visitamos uma cidade subterrânea, descobrimos cafés escondidos em cantos perdidos dos cânions, tomamos muito chá e ainda relaxamos. Ainda conhecemos um casal de viajantes brasileiros muito gente boa (@livrespelomundo), a conexão foi instantânea e poderosa, apesar de apenas um dia juntos. Foi demais.

Esse morrão de pedra é o castelo de Uçhisar – era usado como um castelo mesmo
Foto seguidinha porque esse lugar era muito legal – mais casas na pedra perdidas por aí

Ou quase, pois foi lá que também aconteceu o maior trauma recente da minha vida adulta. Foi onde perdi a dignidade. Foi onde minha alma foi maculada e todo respeito usurpado do meu coração. Não sou mais o mesmo Rafael desde então, e, apesar de nunca ter sido grande coisa, ouso dizer que agora sou um homem pior do que era. Vou explicar o que aconteceu. Em uma tarde preguiçosa resolvemos tomar um sorvete. A Turquia é cheia de sorveteiros “brincalhões”, que ficam fazendo truques com a casquinha e “enganando” os turistas. Você já deve ter visto um vídeo disso, é praticamente uma atração turística por lá e as crianças adoram. Coisa que não me interessa, credo, longe de mim. Sou tão reprimido em alguns sentidos que ser feito de bobo pelo rapaz do sorvete na frente dos outros ativa uma vergonha poderosa e primitiva no meu âmago. Ou seja, eu nunca escolheria em sã consciência tomar um sorvete num lugar desses. Enfim, estávamos andando por Göreme atrás do nossa delícia gelada e achamos um lugar “normal”, não era desses cheios de truques. Ou pelo menos eu achava que não era. O rapaz do balcão serviu a Marina e, na minha vez, vi que um riso malicioso surgiu no canto da sua boca. Ele pegou o sabor escolhido colocou na casquinha e na hora de me entregar virou a casquinha de ponta cabeça e eu quase enfiei a mão no sorvete. Nessa hora meu cérebro deu uma pane, eu cheguei a pensar “meu deus, será que isso vai acontecer?”, mas já era tarde demais, o sorveteiro maligno, num golpe ágil e cruel, recolheu o braço e estocou com firmeza, enfiando o sorvete no meu nariz. Isso mesmo, eu, um homem adulto, levei uma sorvetada no nariz. Uma sorvetada no nariz do nada, no meio da praça da cidade. Meu mundo acabou naquele momento. Minha dignidade saiu correndo e eu fiquei com cara de bobo enquanto aquele turco dos infernos me observava morrer por dentro. Quando recobrei a consciência resmunguei em português, limpei o rosto cheio de sorvete de melão e sai sem nem olhar para trás. Mas o estrago já tinha sido feito, eu nunca mais seria o mesmo. 

Fica aí o aviso, quando você se leva a sério demais esse tipo de coisa pode acontecer. A minha rigidez interna foi estraçalhada por um sorveteiro e até agora estou recolhendo os cacos. 

E foi essa a única marca negra que a Capadócia me deixou.

eita

Após isso me reneguei, jurei vingança contra todos sorveteiros engraçadinhos, alugamos um carro e saímos para explorar a Turquia. Mas isso é o tema da próximo post.. 

Beijos quentes

Turquia ou a conturbada chegada em Istambul

Pôr do sol em Istambul

Olá, aventureiros do bairro proibido. Como a fênix que ninguém gostaria que ressurgisse eis que me ergo mais uma vez das cinzas virtuais para espalhar amargor e ressentimento. Prepara-se para mais um post deste blog.

Por falar em alegria, esse próximo relato trata sobre uma das situações que mais me alegram nessa vida – as mudanças de última hora. Claro que quem me conhece sabe que isso é uma grande mentira, o peso opressor da mudança de planos me faz suar e perder as estribeiras. Eu me transformo na máquina humana de xingar e transpirar. Claro, nesse ponto já tinham se passado 11 meses de viagem e aí as coisas já tinham melhorado  um pouco, mas ninguém muda tanto assim tão rápido. Eu vou usar a palavra ódio agora. Eu odeio quando algo sai fora do planejado (ou do meu controle). Já odiei mais, hoje odeio menos, mas ainda odeio. É tipo como minha tia Odete se sente em relação a mim. Ela finge que gosta, mas no fundo me odeia (e sempre me dava meias no Natal). E digo mais, tenho inveja e antipatia de quem declama com toda força dos pulmões “nossa, adoro mudanças de planos, o inesperado” – eu espero que você sofra nas profundezas do tártaro (mas no fundo tenho inveja de você), seu ser alienígena. Veja bem, odiar mudanças em rotas planejadas é uma coisa, não ter rota é outra. Me sinto muito mais confortável com a segunda opção, de verdade, afinal se nada tem para mudar, nada tenho para me estressar. Agora… mudanças muito repentinas e decisões em cima da hora tem para mim o mesmo efeito que mil pessoas beliscando sem parar o meu escroto esquerdo. Irrita em níveis estratosféricos. 

E eu escrevi tudo isso apenas para dar o contexto emocional de minha pessoa durante os apuros que passamos no aeroporto do Sri Lanka. 

Uma foto de uma ilha perdida no Mar de Mármara

Como alguns devem se lembrar, na último post estávamos prestes a sair das Maldivas. O que ninguém sabe é que nosso voo (que já tínhamos comprado) tinha como destino final Delhi, apesar de fazer uma escala no Sri Lanka, um país que a princípio não tínhamos pensado em conhecer, mas que após as dicas de amigos viajantes e uma pesquisa rápida nos cativou muito. Pois bem, o circo estava armado. Iríamos parar em um país apenas como escala e agora queríamos ficar nele. Tentamos de tudo para ficar por lá. Mandamos email, ligamos, mandamos mensagem e eu quase invadi o escritório da companhia aérea em Malé para tentar cancelar a ida até Delhi e ficar em Colombo (ou fazer um stop over de 15 dias). Nada deu certo. O universo queria que voltássemos para Índia. Porém só esgotamos todas nossas tentativas de conhecer o Sri Lanka no aeroporto das Maldivas, onde já não tínhamos mais internet, por isso resolvemos decidir qual seria nosso próximo destino (e comprar a passagem) na nossa rápida parada de 1 hora em Colombo, capital do Sri Lanka. 

Isso mesmo, iríamos comprar uma passagem para o dia seguinte contando apenas com a ajuda capenga da internet do aeroporto. Enfim, chegamos no nosso pit stop aéreo e começamos a considerar possibilidades. Após algumas discussões decidimos pelo Irã, mas uma conversa em tempo real com a família da Marina quase gerou um ataque cardíaco fulminante nos pais dela (a tensão entre Irã e EUA estava pior do que o de costume naquela semana) e então tivemos que abandonar a ideia. Voltamos a estaca zero. E o tempo passando. E eu ficando mais nervoso. Cogitamos ir para Georgia, Armênia, Turquia e países da Ásia central, mas não chegamos a nenhuma conclusão. E deu o horário do nosso voo. Teríamos que decidir tudo em Delhi mesmo. Descemos correndo para o portão de embarque e chegamos lá faltando 20 minutos para o avião decolar. Ufa. E então eis que os atendentes da cia aérea nos disseram que não poderíamos entrar na Índia sem uma passagem de saída (coisa que já tínhamos feito anteriormente). Foi aí que toda a calma que eu já não tinha escorreu do meu corpo com o suor que saia de mim. Tive que ranger muito o dente para não dar um chilique público lá. E olha que eu odeio chamar atenção. Esse era meu nível de loucura no momento, eu estava quase fazendo uma coisa que abomino por causa de outra coisa que me tira mais ainda do sério. A Marina teve que me deixar no canto de castigo enquanto resolvia a situação e aí conseguimos achar um sinal fraco de internet e comprar uma passagem para a Turquia, o destino mais barato . Entramos no avião no último minuto, eu já estava quase desfalecido no saguão de embarque, mais um pouco e teriam que me empurrar com uma cadeira de rodas pra dentro. Sim, essa é a potência de algumas de minhas neuroses, perder um avião quase me faz ter uma síncope, por isso eu odeio e invejo você, pessoa que ama mudanças de planos. Eu já disse, sou um velho de 74 anos na fila do INSS preso no corpo triste de um homem de 29 anos. 

E foi assim, após uma balsa de 7 horas, um derretimento mental no aeroporto e uma longa espera em Delhi (com direito a atraso) que chegamos na Turquia. 

Nossa porta de entrada foi Bizâncio, ou melhor Constantinopla, quer dizer, Istambul. Lugar que já teve vários nomes ao longo do tempo é chique. Lugar que já fez parte dos grandes impérios do mundo é mais chique ainda. E olha, Istambul não decepcionou. 

A grandeza de Hagia Sophia

Você deve imaginar que após toda a saga dos mil destinos no aeroporto chegamos com aquele humor sorumbático em Istambul, mas a cidade logo nos curou. Perto de quase tudo que enfrentamos na Ásia é um lugar muito organizado, mas vivo, sem o clima antisséptico que paira sobre algumas cidades europeias. Tem história, cultura, belas paisagens, arquitetura memorável, diversão e comida boa. O horizonte é dominado pelas colinas cheias de mesquitas e os canais que cortam Istambul deixam tudo mais especial. Pode parecer que estou floreando essa descrição, mas ela é incrível e eu gostei mesmo da cidade. Para cair no maior clichê possível de quem descreve Istambul, realmente o lugar (a única capital dividida entre Ásia e Europa) carrega o DNA de dois continentes diferentes. Pronto, ta aí o lugar comum do texto. Por mais que a gente acha que vai escapar da mediocridade ela sempre nos alcança. Enfim, o clichê de Istambul é poderoso porque é real. 

Adorei ver as mesquitas, tanto as mais famosas quanto as “comuns”. Eu adorei a arquitetura dos lugares sagrados do islã no geral: a abóboda, as cores, os minaretes. Para mim parece sempre cenário de filme (algo que diz mais sobre minha familiaridade com outra cultura do qualquer coisa). Talvez seja assim que os muçulmanos devam se sentir em relação as catedrais do ocidente quando as visitam. Enfim, foi bom eu ter gostado tanto de mesquitas, porque são mais de 3 mil espalhadas pela cidade. 

Mesquita Azul e a turma passeando

Por lá fizemos o básico do turismo, visitamos os grandes marcos históricos e museus (e foi bacana, mas cheio). Visitamos o lado Asiático da cidade, cruzamos suas pontes a pé e acompanhamos a pescaria de velinhas e velinhos e  conhecemos uma ilhota de veraneio no mar de Mármara. Também perambulamos bastante pelo bairro em que ficamos, Beyoğlu, uma espécie de Pinheiros de Istambul, se pinheiros tivesse construções do século V e cerveja barata. Era uma região gostosa de desbravar, com vielas charmosas, cafés e muitos sorvetes bons. Muitos. Tomamos sorvete além da conta. Sorvete e chá. Uma coisa que nossa estadia na Turquia nos ensinou foi a tomar muito chá. Chá de café da manhã, chá da tarde e um chazinho antes de dormir. Se bobear dava pra encaixar um chá até nos momentos mais íntimos no banheiro. 

Futebol sempre presente pela Turquia.

Istambul é uma maluquice histórica que agrada todo tipo de viajante, sério. Dá para ser chique, conhecer lugares e gastar muito. Dá para ser mais raiz e sobreviver só de doner (o churrasquinho grego deles), que é muito bom. É um lugar que é confortável e misterioso ao mesmo tempo, e que nos agradou tanto que ficamos 1 semana por lá. 

Cineminha estiloso

Inclusive até ficamos sem o que fazer, de tanto que andamos pela cidade. Tão sem o que fazer que fomos duas vezes ao cinema. Era tão barato (comparado a São Paulo) que não podíamos perder a oportunidade. O cinema era antigo, clássico, com aquelas salas que lembram os velhos cinemas do centro de SP que hoje só passam filme pornô e abrigam malucos fissurados na própria genitália. Então vamos recapitular, o cinema que encontramos era barato, estiloso, retrô e não tinha nenhum doido se masturbando com a foto de uma coleção de unhas. Sim, o cinema de Istambul era melhor. 

Sorvete

E por lá foi isso, foram dias maravilhosos para repor as energias e também a melhor porta de entrada possível para um dos países com mais história neste planeta. Depois de Istambul partimos para Capadócia, região que certamente não deveria existir dentro da Terra e sim em Marte, um lugar que está entre um dos meus preferidos da viagem. E também onde eu perdi minha dignidade para sempre. Mas isso é assunto da próxima newsletter.

Beijos quentes

Maldivas ou o paraíso manchado

Vista comum pelas Maldivas

Olá, amigos e amigas da meia-noite. Enquanto estamos a espera da escuridão eterna que vai apagar a realidade como conhecemos, que tal curtir mais um capítulo deste humilde blog?

O capítulo anterior terminou quando estávamos prestes a sair de Rishikesh e da Índia e a caminho das praias paradisíacas das Maldivas.

Mas claro que o país de Shiva não nos deixaria sair dele sem uma última “provação”. Essa foi leve até: nosso ônibus de Rishikesh para Delhi atrasou algumas horas porque estava quebrado no acostamento da estrada. Tivemos que pegar um ônibus alternativo até a tal estrada e aí pegar o ônibus alternativo 2 até Delhi. O problema é que o ônibus alternativo 2 já estava bem cheio, então tiveram que acomodar os novos passageiros em um lugar em que novos passageiros não poderiam ser acomodados. Tudo bem, faz parte passar por esses momentos de extremo contato humano e até que após entrar no veículo com nossas mochilas colossais e esbarrar em vários indianos (sem querer), conseguimos uma “cabine” privada. Os ônibus leitos da Índia tem uma espécie de cabine com duas camas para os passageiros irem deitados e tranquilos, é bem bom, mas como o ônibus alternativo 2 já estava lotado tivemos que colocar nossas malas no compartimento junto com a gente e ficou tudo bem apertado. Aliás esse estilo de ônibus é maravilhoso para quem viaja em dupla, mas ficar com um estranho nessa cabininha do amor deve ser bem incômodo (ou bem gostoso, depende da sua disposição para se divertir).

Antes de continuar com o relato quero fazer um parêntese. Eu odeio minha mochila. Eu sei que uma mochila é tudo para um mochileiro e é quase um sacrilégio isso que estou dizendo, mas nós não temos uma boa relação. Claro, reconheço o quanto ela já me foi útil, quantos momentos gostosos dividimos e quantas barras já passamos juntos, mas a coisa toda ficou insustentável. E não é que a mochila é ruim, longe disso, na verdade o problema sou eu. Eu que imaginei que precisava de tantas coisas antes de começar a viagem e que peguei uma mala grande demais. Eu que não calculei que ficaria parecendo uma tartaruga ninja com ela nas costas. Ela é tão grande que parece que eu estou carregando um corpo pra lá e pra cá. E o tamanho irrita. Não só pela necessidade de despachar a mala quando pegamos avião, mas principalmente porque avião é o meio de transporte que menos usamos, nós “preferimos” vans apertadas, ônibus velhos, trens lotados e por aí vai. E juro, é horrível entrar nesses lugares com praticamente um baú nas costas. Eu me irrito e irrito os outros. Quero agradecer de coração minha cunhada que me emprestou a mochila, mas nosso relacionamento não foi dos melhores.

Terminada a sessão reclamação voltamos pro relato do ônibus apertado.

E foi numa colisão de corpos, bagagem e suor que fomos pra Delhi e finalmente chegamos ao aeroporto. Já era tarde da noite e passamos mais uma madrugada entre os rostos tristes que habitam o local nas horas mais escuras. Mas tudo bem, estávamos acostumados. E olhe só, o voo até saiu no horário. Nesse momento achamos que nosso azar com transportes estava terminando.  

Ledo engano, ledo engano.

Chegamos em Malé, capital das Maldivas, no período da tarde do dia seguinte. A ideia era passar uma noite lá e pegar uma balsa pública logo cedo. Isso porque as Maldivas são formadas por mais de 1000 ilhas e claro que os deuses, brincando com a gente, nos fizeram achar um hotel acessível em uma ilha bem longe da capital. Para chegar em qualquer outro lugar saindo de Malé existem algumas opções de transporte, como a balsa pública, a balsa noturna, speed boat e aviões pequenos. As duas últimas opções são as mais rápidas e mais usadas por turistas endinheirados. Elas funcionam quase todos os dias e chegar até uma ilha resort não vira uma epopeia. Não era nosso caso, usar uma lancha ou um avião acabaria com nosso budget, por isso optamos pela balsa pública que era 10 vezes mais barata. O problema é que essa balsa não serve todas ilhas todos dias, por isso calculamos nossa partida de Malé para segunda-feira de manhã, quando o rapaz do nosso hotel garantiu que sairia um transporte para Maamigili (nosso destino final). Conhecendo nossa sorte para esse tipo de coisa você já deve imaginar que o plano não deu certo. Não tinha balsa pública para Maamigili na segunda, só na quarta-feira, o que significaria que ficaríamos mais duas noites em Malé, onde a hospedagem é cara pra caramba. Já estava me preparando para dar tchau para um rim.

A alegria de ir na balsa noturna – pelo menos deu pra dormir bem

Foi aí que lembramos da balsa noturna, bem mais cara que nossa primeira opção, mas ainda acessível. Andamos a esmo no porto comercial a procura do tal barco e, apesar do cenário não ser convidativo, foi então que descobrimos a hospitalidade e desejo de ajudar dos maldivos. Que povo simpático. Estávamos um pouco com pé atrás em relação a proatividade alheia devido algumas experiências não tão bacanas na Ásia, mas lá a ajuda foi sempre sincera. Foi nossa primeira vez em um país de maioria muçulmana e isso me fez pensar na hospitalidade do Islã, coisa que já tinha ouvido falar. Enfim, achamos a tal balsa noturna e partimos às 23 horas para chegar apenas 6 da manhã em nosso destino. Ou seja, saímos de Rishikesh sábado cedo para chegar terça-feira aonde realmente queríamos estar. Entendeu porque às vezes cansa essa história de ir de um lugar pro outro? E olha que essa jornada foi bem tranquila perto do que já passamos ou de histórias que escutamos. 

Mas agora que mais uma saga dos transportes foi explicada (eu sei, sou repetitivo) chegou a parte interessante, a parte de falar desse “fundo de tela” da vida real que são as Maldivas, mais um lugar surreal que visitamos. 

Para explicar rapidamente, afinal não dei contexto nenhum, nosso hotel não era um resort ou algo do tipo, mas conseguimos um bom preço com refeições inclusas em uma hospedagem bacana em uma ilha local (Maamigili), ou seja, com uma vila funcional e não apenas tomada por um resort monstruoso. Mas, como descrito acima, não foi tão fácil assim chegar lá.

Começamos por Malé, que é uma cidade ajeitada e não tem nada de muito especial, mas fica em uma ilha (óbvio) e mesmo de lá, mesmo do caos urbano, já dá pra perceber que o mar na região é especial, transparente e convidativo. Aliás Male é daqueles lugares em que muitos pontos o que separa a terra do mar é uma simples muretinha. Cada vez que alguém fala em “aquecimento global” a população das Maldivas deve tremer. 

Foto aleatória pra quebrar um pouco o texto – Picnic Island

Depois fomos para Maamigili, a ilha em que ficamos hospedados. Ela fica há umas boas horas de barco da capital, em um atol distante. A praia de turistas (a em que estrangeiros podem nadar com roupas de banho e é limpa) tinha aquela cor de água de filme, um mar azul turquesa que parecia nos chamar para se banhar nele. Da areia conseguíamos ver o horizonte infinito com pequenas ilhas (e resorts) pipocando ao fundo. Tudo isso sob as sombras de coqueiros. Olha, não estava ruim não, mas por Maamigili ser uma ilha habitada por locais (e não só uma ilha resort) ela nos mostrou uma realidade diferente das Maldivas – mais disso a seguir. Além desses dois lugares fizemos passeios pelo atol onde fica Maamigili – para um resort e uma ilha deserta. E aí, meus amigos, aí foi só cenário de filme mesmo. Aquele mar que é ao mesmo tempo transparente e de um azul tão intenso que parece uma piscina translúcida de Gatorade, bancos de areia e coqueiros perdidos em uma imensidão aquática e uma vida marinha ativa que salpica essa tela azul de muitas cores diferentes. Eu sei que posso soar repetitivo, mas é impossível ficar fora da água nesses lugares. É tão bonito que não dá para não entrar. O oceano é uma sereia que atrai pelos olhos e não pelos ouvidos, sempre nos puxando para as profundezas. Para ser mais chucro: é foda. 

O resort típico das Maldivas – não, não ficamos hospedados aí

Agora falando sobre o resort – fizemos um passeio de um dia para um desses mega empreendimentos que tomam uma ilhota inteira e criam um paraíso hedonista para os afortunados. E sim, o lugar que visitamos era incrível e imagino que todos resorts devam ser. É a união de um cenário perfeito com luxo e conforto. Mas também é estranho frequentar algo assim vivendo tanto tempo os perrengues da estrada. Pessoas te levando pra lá e pra cá de carrinho de golfe, pessoas servindo comida e drinks, pessoas tomando conta dos seus filhos, pessoas secando suas costas com a língua (ok, eu exagerei e na verdade nem sei como esse exemplo funcionaria, afinal a língua só deixaria tudo mais molhado não é?). Eu não estou dizendo que esse tipo de coisa é ruim, nem que é boa, não vou mergulhar no abismo filosófico e discutir a moral e ética do tema. Só é tudo muito estranho, principalmente para quem veio, como a gente, da vivência de realidades com diferenças abismais para essa. E é tudo muito caro também, nossa única atividade por lá foi morrer nas belas praias da ilhota e, para não deixar passar em branco, consumir um drink no bar da piscina (que quase nos custou um órgão). Foi um belo dia. Para economizar até levamos marmita do nosso hotel all inclusive. 

Picnic Island

O outro passeio que fizemos foi para um ilhazinha bem perto de Maamigili chamada Picnic Island. Um lugar deserto, mas que provavelmente serve ou já serviu como fazenda de coqueiros. Enquanto explorava a ilha me deparei com diversas estruturas abandonadas. Me senti em Lost descobrindo as ruínas de complexos científicos ou algo do gênero. Não vou mentir – foi a volta daquele sentimento bobo de aventura ao se deparar levemente com o desconhecido ou o misterioso. Nessas andanças encontrei pedras que formavam diversas piscinas naturais e em um delas pude acompanhar uma moreia caçando caranguejos e foi um espetáculo incrível. Ela nadava ameaçadoramente, sempre a espreita, e quando percebia que um dos caranguejos tinha dado bobeira saía feito um míssil com metade do corpo para fora da água expondo seus dentes brancos e mordendo tudo que viesse pela frente. Foi uma cena feroz. Vida e morte no mundo selvagem. Parece que estou dramatizando demais um evento corriqueiro que demorou o total de uns 20 segundos, mas pensa só por um minuto, na escala dos caranguejos era a luta deles contra um infernal dragão aquático, praticamente a versão crustacea de Cadmo contra a serpente. No fim a moreia conseguiu arrastar um infeliz caranguejo para baixo de sua pedra favorita e a vida sobre as rochas voltou ao normal.

Não canso de colocar foto dessa ilha

A Picnic Island era incrível, como a maioria dos lugares nas Maldivas. Tínhamos acabado de vir de um cenário quase alienígena, as ferozes montanhas dos Himalaias e eu estava apaixonado por aquele visual, mas ali perto da água lembrei que para mim nada supera um mar azul, areia branca e uns coqueiros vistosos. O problema do lugar é que lá tinha muito lixo. Sim, lixo, uma tribulação recorrente nas Maldivas.

Já comentei que ficamos em Maamigili e que lá é uma ilha cidade, ou seja, é habitada por pessoas locais. Disse também que lá descobrimos um outro lado chocante da realidade do país, como diz a Marina “um tapa na cara”. Lá descobrimos como o lixo é tão parte do paraíso quanto o mar azul.

A cidade/vila de Maamigili não é suja, é inclusive bem organizada. Não testemunhamos nenhum ato que indique tamanho descaso ambiental para explicar o que vimos (já passamos por lugares que a população tinham pouca ou nenhuma consciência ambiental), mas fato é que ao nos aventurarmos para longe da praia dos turistas descobrimos um verdadeiro lixão a céu aberto nas areias da ilha. Esse lixo está lá por uma série de fatores: vem do mar que é cada vez mais um lugar de despejo das grandes nações (e isso é muito forte no sudeste asiático), falta de espaço e de soluções para o lixo produzido nas ilhas das Maldivas e também um pouco de falta de consciência das pessoas (turistas e locais). Fato é que vimos isso em Maamigili, vimos isso na Picnic Island e pelo o que pesquisamos acontece em várias outras ilhas que não sejam visitadas por celebridades.

Repara só no lixo na areia

Fato é que em uma tarde nublada nós resolvemos tentar melhorar minimamente a situação e ficamos umas boas horas catando tranqueiras da praia. Sabemos que  foi um esforço mínimo perto do que precisa ser feito, mas pareceu melhor do que apenas deitar com a barriga ao sol. Um fato curioso: após enchermos nosso primeiro latão de lixo um senhor que cuidava da praia de turistas veio nos ajudar e, com sua carriola, insistiu em levar o latão para um lugar apropriado. Nós o seguimos e vimos que o tal do lugar apropriado era um lixão improvisado em meio à vegetação bem pertinho do mar. Não serviu de muita coisa nosso suor inicial. Acho que esse foi mais um fato triste do que um fato curioso, mas a vida é assim, mais triste do que interessante. 

Resultado do nossa coleta de lixo

Além de pegar lixo das praias e torrar em cenários extravagantes também curtimos muito nosso quarto. Não, não é isso que você está pensando leitor de mente mais tórrida, é que no pouco tempo que ficamos lá choveu bastante. Mas foi bom, conseguimos relaxar e colocar séries, livros e filmes em dia. Uma hora até nos enchemos o saco e nadamos na chuva mesmo.

Outra coisa interessante que aconteceu foi que estávamos no país bem na época do Ramadã, quiçá a celebração religiosa mais importante do islã. Como o Ramadã exige uma série de sacrifícios e tem regras bem específicas, ele muda completamente a rotina de um país muçulmano, algo interessante de vivenciar em primeira mão. De dia não pode, entre outras coisas, comer ou beber água, então a noite é um período de encontros, confraternização e comida. Parecia uma rave de muitos dias, pois sempre quando íamos dormir escutávamos a vida acontecendo lá fora. 

No fim nossa estadia cumpriu seu papel e ainda nos acordou (finalmente) para mais uma realidade dura desse planeta. Mas havia chegado hora de sair desse paraíso maculado e seguir viagem.

Curtindo um sol

Foram mais algumas boas horas de balsa pública até Malé, onde pegamos um avião com destino para Délhi, mas que sabíamos que não seria nosso ponto final. Isso mesmo, não iríamos ficar na Índia, mas poucas horas antes de nosso voo não tínhamos ideia para onde prosseguir. Aliás o processo todo de decisão foi bem caótico e muito estressante, mas isso eu conto na próximo post.

Beijos Quentes