Japão 1 ou o capítulo da nostalgia

Esse relato cobre eventos de 19/09/2019 a 23/09/2019

Das profundezas do chorume virtual, da boca do lixo da internet e da negritude da minha alma, sim, está começando mais um capítulo desse querido blog.

Eu já dei esse spoiler no texto anterior, mas vou repetir aqui – amei o Japão. O povo é demais, educado e simpático (pelo menos sorriem pra mim, algo raro no mundo). Tudo bem que lá têm um problema profundo de “aparências VERSUS real felicidade/simpatia”, mas com turistas o povo é sensacional. A comida é boa (mas tenho algumas ressalvas sobre isso, mais por vir). As cidades são incríveis e a cultura, bem, não preciso nem falar né. O país que nos presenteou com figuras históricas como NINJAS, SAMURAIS e o TIOZÃO VERMELHO DE TANTO BEBER QUE ESTÁ DANDO TRABALHO NO KARAOKÊ APÓS A REUNIÃO DA EMPRESA é uma lenda por si só. Então estamos acertados? O Japão é incrível, ok?

Totoro perdido em Shibuya

Confesso que foi um alento chegar em Tóquio e ver um lugar que respeita filas, ordem e o espaço do próximo após a tempestade que foi a China. De novo, gostei muito de nossa estadia lá, só gostaria de voltar sabendo o que sei agora. Mas nada como uma Ilha metódica após nosso tempo em um continente sem lei. 

Aliás, chegamos no Japão por Tóquio, ficamos lá uns 3 dias e partimos para outros destinos como Kyoto e Osaka. Depois voltamos para Tóquio e ficamos uns 7 dias até ir embora. Foram 21 dias no país.

Na nossa primeira passagem pela capital ficamos em um bairro (ou cidade né, porque tecnicamente Tóquio é o nome do distrito, certo? Alguém da um Google ai) chamado Itabashi. Um pouco afastado do centro, mas muito calmo e tradicional. Era bom voltar lá após o tsunami de informação que nos atingia durante o dia. Com certeza eu moraria em Itabashi. Apenas prédios pequenos, casas, restaurantes “baratos” e gostosos, vizinhos gente boa. Aliás eu me peguei com esse pensamento “Eu moraria aqui” em praticamente todos os lugares que visitei no Japão. E isso é o bacana de Tóquio, algumas estações de metrô separam aquela loucura que vemos em filmes como Lost in Translation de lugares pacatos e tradicionais.

Tradição

Aliás a cidade é mágica, apenas andar por lá e sentir a energia é bacana, eu não consigo nem racionalizar o que achei de tão legal. Um amigo teorizou que talvez esse fascínio seja semelhante ao que algumas pessoas sentem com a Disney, mas nesse caso estamos falando de uma Disney para jovens criados a base de muito Dragon Ball, Pokémon e Jaspion. Ainda bem que posso praticamente chamar a finada Rede Manchete de segunda mãe.

Aliás, pense em duas coisas que tem em todo lugar em Tóquio: só dá Pokémon e Dragon Ball, graças a deus. E Godzilla. Visitamos um hotel que nem sei o nome, mas que tem um Godzilla gigante “anexado” a ele, como se estivesse atacando o prédio. Se você subir até o restaurante consegue ir na sacada e ficar de frente com a cabeça do Godzilla.

OLHA A CABEÇA DO BICHÃO ALI!!

Rapaz, e não é que me emocionei nesse momento? Era um dia nublado, meio frio, até névoa tinha. Perfeito para um ataque do nosso deus lagarto. E eu lá, olhando aquela engenhoca de plástico e ferro e me senti brevemente tocado. Bizarro né? Gostaria de ter momentos de iluminação em lugares mais, hum, impactantes. Poderia ter sido nos Himalaias ou em cima do Kilimanjaro, mas ali, em frente a atração pega turista do hotel, foi patético. Acho que lembrei dos momentos estranhos da minha infância, quando ia à NIGHT VIDEOS e alugava filmes em preto e branco de um dinossaurão atacando uma cidade. A nostalgia é um sentimento poderoso. Mas também calma lá, não é que chorei ou tive um ataque histérico, foi um momento de emoção light.

Eu e meu amigo

Aliás quem nos levou para conhecer o Godzilla foi nosso guia particular de Tóquio, o Ale, um velho amigo do trabalho que agora mora na cidade. Ele achou que tinha se livrado de brasileiros e de minhas piadas, mas o segui até o outro lado do mundo. Obrigado, Ale, pela paciência e hospitalidade (e por não ter mandado nenhum dos seus amigos da Yakuza atrás de mim).

Ale, nosso mestre nipo brasileiro

Ele também nos levou para visitar o Museu do Estúdio Ghibli e pelo amor de deus, ali eu não tenho medo de dizer que também me emocionei. Os filmes já são incríveis, ai você vê o cuidado e o carinho que eles recebem e é foda. Pura vontade de fazer algo perfeito (artesanalmente). A única coisa que eu me dediquei tanto assim na vida foi a cuidar da Lolla (minha cachorra), e ela ainda me morde de vez em quando. Vale para quem gosta dos filmes do estúdio e de animação. Se você não se encaixa nesse perfil vai, sei lá, naqueles cafés que dá para ficar dormindo de coxinha com uma japonesa desesperada pra ganhar a vida. Seu pervertido(a). 

E como essa primeira passagem por Tóquio foi movida por nostalgia, conhecer lojas de games antigos, como a Super Potato em Akihabara, foi especial. Você pode ter sido uma criança saudável que cresceu longe da magia negra dos eletrônicos, mas eu não fui. Em dado momento na minha vida tudo que me importava eram vídeo games e futebol. Esse momento inclusive continua até hoje (brincadeira, Marina e Lolla entraram nessa equação também). Enfim, ver ali muito do que já me divertiu ao longo de 20 anos foi bacana. A cada andar que subíamos na loja eu ficava mais feliz, redescobrindo antigos companheiros, até que chegamos no último – o andar dos fliperamas, e lá tinha uma turma bem da esquisita debulhando as máquinas. Vou ser sincero, rolou um preconceito e um medo de ser igual aquela galera que claramente não curtia um banho, e aí a magia acabou. Ou quase, antes eu joguei um pouco dos jogos antigos disponíveis, mas com parcimônia.

Esses jogos são melhores que muita gente

Fora isso o que fiz em Tóquio foi andar e gastar dinheiro.

Breve parênteses para falar sobre os preços do Japão. Lá é tudo bem caro. Pode ser que eu tenha exacerbado essa impressão pois temos que lidar com um budget diário meio restrito, mas mesmo assim é bem mais caro em comparação aos países que já visitei (excluindo Austrália). Um dia que andamos muito pra lá e pra cá em Tóquio nos gerou um custo de quase 19 dólares apenas de metrô, umas 5 ou 6 vezes mais que Rússia e China. Dá para comer barato sim, principalmente comprando nas lojinhas de conveniência, MAS AI DE VOCÊ se deixar o seu estômago se empolgar, pois aí terá que desembolsar uma pequena fortuna, mesmo nos locais mais simples. Atrações não são tão caras quanto a China, e dá para fazer bastante coisa de graça. Mas sei lá, tem um vortex que suga o dinheiro da carteira nesse lugar. Certo dia achei que tinha sido furtado, de tanta nota que sumiu. Não é um exagero literário, eu nem tenho imaginação pra isso. É verdade, eu realmente achei que tinham pegado meu dinheiro. Mas aí eu pensei, “quem é furtado no Japão”? Só eu, o maior trouxa da história. Fiz as contas e vi que não tinha acontecido um crime, apenas fui depenado aos poucos por comerciantes sorridentes. Isso que nem temos espaço nas malas para comprar coisas, ou seja, só de respirar lá você gasta dinheiro.

Tóquio sendo Tóquio
Tóquio sendo Tóquio 2

Depois de Tóquio tivemos várias desventuras no Japão, fomos para Kyoto, Nara, Osaka, Hiroshima, Miyajima, Himeji, Takayama e voltamos para Tóquio. Enfrentamos metrô super lotado e um tufão. Também preciso contar das minhas quase vomitadas e do nosso karaokê com locais. É bastante coisa, por isso vou encerrar o primeiro post do Japão por aqui.

Sayonara e beijos quentes

China 2 ou o Capítulo da Montanha da Discórdia

Nesse relato eu exagerei. Basta ver o quanto eu escrevi sobre apenas nossos 3 dias em Xian. Ok, o relato cobre pouco temporalmente, mas muitos fatos aconteceram nesse período, por isso o texto extenso. Enfim, o relato cobre os eventos de 07/09/2018 a 10/09/2018.

Olá seres pensantes que acompanham essa newsletter/blog. Surjo mais uma vez do meu covil no abismo para alegrar a semana de vocês. Espero.

Na verdade não estou nos meus melhores dias para escrever essa “enrolação” que faço antes de cada capítulo, então vai isso mesmo.

E segue o relato.

Partimos de Pequim para o nosso próximo destino, a incrível cidade murada de Xian. Antes de chegar lá tivemos a nossa primeira experiência da vida com trens bala. Vou ser sincero, não sei exatamente se era um trem bala, mas que era um trem bem rápido, a isso era. Foi uma experiência bem positiva, tudo fácil de achar, de embarcar e a viagem foi ótima. Cobrimos cerca de 1000 km em umas 5 horas, com o trem indo entre 250 a 300 km/h.

Olha, os “trens bala” da China estão de parabéns, deu vontade de usar eles pelo resto de toda viagem. Mas aí nós descobrimos que estávamos pagando caro pra caramba e foi esse o fim de nossa história. Adeus transporte de extrema velocidade e conforto.

E assim chegamos em Xian, que é uma baita cidade legal, diga-se de passagem. Carrega uma carga histórica pesadíssima, afinal tem mais de 3 mil anos e foi capital da China por muito tempo. Antiquíssima, ainda preserva parte de sua história até hoje, como os muros de pedra que correm por parte da cidade. Também é uma metrópole, com estrutura, força cultural e algumas peculiaridades. Desculpe, não vou me conter e vou cair no clichê: Xian é um belo exemplo de harmonia entre o passado e o presente. Gostamos bastante de lá, apesar do pouco tempo de estadia.

Uma dessas já mencionadas peculiaridades da cidade é seu bairro muçulmano e o mercado que existe por lá. Isso mesmo, Xian tem um bairro muçulmano que remete a tempos da Rota da Seda, quando a cidade era um dos extremos da famosa linha comercial. Comerciantes muçulmanos, já percebendo o potencial do mercado chinês, chegaram até Xian e ali ficaram, dando início a influência que até hoje perdura em partes da cidade. Achei esse fato muito incrível e inesperado (só descobri que o bairro existia quando cheguei lá), mas eu também sou o tipo de pessoa que fica duas horas observando um cachorro dormir, ou seja, posso achar qualquer coisa incrível.

E digo mais, esse mercado que visitamos era O mercado. A mistura perfeita entre comidas de rua, aromas estranhos, buzinas, gritos e pessoas. Um vórtex de caos, cheiros, sons e suor humano. Talvez eu esteja fazendo parecer como algo ruim, mas apesar de toda bagunça é um lugar incrível. Ele é sim muito cheio, tanto de gente quanto de motos. Ele é sim muito barulhento. Ele com certeza abriga uns cheiros pouco ortodoxos. Mas a comida é, no geral, boa, e a sensação de andar por um lugar tão vivo e pulsante é incrível. Sabe quando em um filme de aventura o personagem principal chega no bazar de alguma cidade distante e exótica? Em que tudo chama a atenção e é capaz de gerar maravilhamento? Então, nossa visita noturna ao bairro muçulmano foi mais ou menos assim.

Marina em um momento de paz no meio do caos do mercado
O bairro muçulmano

Porém tenho que ser justo e dizer que foi lá também que tive uma das maiores decepções da viagem. Avistei de longe um doce que parecia ser muito popular, pois sempre tinha alguém comendo/comprando. Era um disco grosso e amarelado, que pela aparência me lembrou o meu amado quindim. Passei por diversas barraquinhas que serviam o famigerado alimento e sempre falava pra Marina “ei, será que é quindim?”. Certa hora, cansada das minhas indagações vazias, ela disse pra eu deixar de ser covarde e descobrir. Eu fui. Mas o problema é que eu fui com muita certeza que era quindim. Todos clientes saiam tão felizes e completos após a compra do doce que só poderia ser quindim, certo? Ou até mesmo algo melhor! Talvez toda essa troca de cultura gerada pela Rota da Seda tenha trazido o quindim pra China.

Bom, segui com minha jornada, comprei meu pedaço e como um homem prestes a conquistar o mundo dei uma baita mordida no meu pseudo quindim.

Meu deus, quanta decepção.

Senti o equivalente a uma apunhalada nas costas, uma traição gustativa sem precedentes. O doce era extremamente frio, com uma consistência estranha e sem gosto. Acho que eu preferiria um gosto muito ruim do que aquele vazio que estava na minha boca, um vazio que logo se transferiu para minha alma. O meu amado “quindim” era na verdade uma massa sem graça de arroz que se alguém vier me dizer que é bom vai arranjar um inimigo para vida.

Quiçá a maior tristeza da viagem até agora.

O famigerado pseudo quindim. Vendo a foto agora vejo que nem parece um quindim, mas na hora parecia sim.

Xian também é a cidade dos guerreiros de terra cota, o exército construído para acompanhar e proteger a jornada espiritual do imperador Qin, o primeiro da China.

Foi muito interessante conhecer o complexo da tumba do imperador, acompanhar as escavações (existe trabalho arqueológico sendo feito até hoje por lá) e ver de perto os famosos guerreiros. São tantos (milhares) e com tantos detalhes. Existem os generais, os cavaleiros, os arqueiros e os coitados, aqueles em que dá para perceber a falta de esmero dos artesãos. Acho que esse último grupo foi feito quando o prazo já estava chegando ao fim e aí foi melhor entregar uns mais mal acabados do que não entregar nada. Não julgo os artesãos, afinal já estive na faculdade e sei como é essa situação.

A galera 1

Foi um passeio incrível e recomendo muito para quem gosta de história. Ler sobre as escavações, sobre como tudo foi descoberto sem querer por agricultores e entender o baita processo de “remontagem” que os arqueólogos fazem foi bem interessante, afinal a descoberta desses guerreiros é o mais importante fato arqueológico dos últimos 50 anos.

A galera 2

E pensar que eu perdi a excursão da escola quando os guerreiros foram expostos em São Paulo (acho que fiquei jogando vídeo game ou algo do tipo), então chupa vida. Agora tive a oportunidade de vê-los no seu próprio cantinho especial.

E no nosso último dia em Xian resolvemos ir para um local um pouco afastado da cidade para percorrer as trilhas do Monte Huashan, uma das cinco montanhas sagradas da China. Deveria ser uma das montanhas malditas da China, isso sim, pois esse morro glamourizado quase acabou com a minha vida e meu casamento (posso estar exagerando um pouco aqui).

Antes de continuarmos um aviso: lembra que eu disse que já na China, mesmo cansados estávamos em um ritmo acelerado ao visitar coisas e lugares, levando nossos corpos e mentes ao limite? Então, essa informação é importante pois foi exatamente no topo da montanha que transbordamos esse limite e a coisa ficou feia.

O monte Huashan tem diversos picos, cinco para ser exato, e a maioria das trilhas ficam já no “topo” da montanha. Ele também já foi conhecido como um dos locais mais perigosos de se fazer trekking no mundo, mas hoje isso mudou e caminhos pavimentados e escadas se espalham em quase todas direções. Ainda existe uma parte da trilha que você faz pela lateral da montanha, andando apenas em umas tábuas de madeira e é aterrorizante (clique no link para entender).

Parte da trilha do terror. Repare nas pessoas no canto inferior esquerdo.

Nós ficamos na fila para percorrer esse caminho, mas (felizmente) estava muito cheio e não daria tempo de descer a montanha se esperássemos mais tempo. Mas só para resumir, Huashan já foi um lugar muito perigoso, hoje ainda é um pouco, pois alguns dos caminhos são bem íngremes, e é um local com escadas que te desafiam fisicamente. É um local com escadas que desfiam a lógica e a física. É um local com muitas escadas. É tanto degrau que dá vontade de se jogar lá de cima.

Não parece, mas era bem íngreme. As correntes de apoio não estavam lá de brincadeira

Estou só criando um contexto para falar que: conhecer todos os picos sem ajuda de algum facilitador, como teleférico ou bondinho, é bem desgastante.

Nosso plano inicial era fazer a montanha toda sem ajuda desses “facilitadores”, afinal somos aventureiros. E essas engenhocas são caras de usar. Na verdade o real motivo foi o valor mesmo, eu queria economizar uma grana. Para que pagar alguns dólares se você pode subir mais de 4 mil degraus sozinho? Bobagem. Mas como encontramos outro grupo de gringos na fila do ticket de entrada (talvez os únicos que vimos por lá) e eles disseram que andaríamos muito no topo da montanha e que seria melhor subir com alguma ajuda, mudamos de ideia. Eu fui meio cético, mas a Marina se convenceu, essa santa em forma de mulher, ainda bem por isso, pois senão nós não estaríamos mais nesse planeta.

Subir até o “quase cume” foi uma jornada magnífica. O caminho do teleférico é bem bonito e até aí o dia estava indo bem. Chegar lá em cima foi incrível também. O lugar é lindo e é fácil entender porque é considerada uma montanha sagrada. Nós chegamos em praticamente três dos cinco cumes possíveis, e a vista era sempre espetacular. Além da vista, toda a aura da montanha é algo de outro planeta, principalmente nas rotas e picos menos cheios. Ali a gente andava, andava, andava. Subíamos e descíamos escadas e do nada nos deparávamos com algum monastério mais antigo que aquele vinho que a sua avó guarda para “ocasiões especiais”. Como o monastério foi parar ali não sei.

Cenas do Huashan
Cenas do Huashan
Esse lugar era bem bonito

Bom, como eu disse, em alguns momentos a trilha assumia uma aura quase espiritual, um ar de mistério e encantamento se aliavam a uma paisagem tomada por rochas de aspecto violento e um horizonte infinito. Já em outros momentos tinham mais de cem pessoas atoladas no pequeno espaço de uma das trilhas, enfiando braços e cotovelos nos nossos olhos e nosso único desejo era jogar alguém dali de cima. Coisas de China.

E falando em jogar outras pessoas da montanha…

Eu já mencionei que nosso cansaço estava chegando no limite e que as trilhas do Huashan eram desgastantes, uma combinação explosiva. Ambos atingimos um patamar de irritação nunca visto antes (e nem depois) nos anais de nossa viagem. Foi uma lavagem de roupa suja de duração extrema, quase o ”Iron Man” das DRs, tanto pela duração quanto pelo desgaste físico que estávamos tendo ao falar e andar. Quando tudo parecia resolvido um mero espirro causava uma nova discussão. Senti no olhar a vontade furiosa da Marina de me empurrar de lá de cima algumas vezes. Certa hora ela até me ofereceu para uma família chinesa, que educadamente me recusou como um novo membro. Foi esbravejo pra lá e esbravejo pra cá, até que enfim, quase com as luzes crepusculares indo embora, nosso real entendimento apareceu. E aí tudo estava bem de novo. Ou quase.

Lembra que eu disse que eram mais de 4 mil degraus para subir? Bom, nosso plano era descer tudo a pé, pois pelo o que lembro nem dinheiro para o teleférico tínhamos. Isso depois de perambular o dia inteiro por trilhas recheadas de escadas e caminhos íngremes. Nossa cota de degraus havia sido atingida faz tempo, mas mesmo assim não tinha o que fazer, precisaríamos enfrentar mais uns milhares deles para chegar à base. Então lá fomos nós.

Mais escada para vocês lembrarem que a gente enfrentou um monte delas

Pegamos um caminho praticamente sem ninguém e as poucas pessoas que cruzavam com a gente estava subindo a trilha, o que me fez questionar até onde a rota nos levaria, mais um ponto de estresse para minha mente “noiada”. Também era um caminho com escadas em ângulo de quase 90 graus. Era mais fácil pular e se esborrachar no chão do que descer algumas delas.

Outro ponto importante, já era fim do dia e ainda tínhamos que andar alguns bons quilômetros, alguns deles na vertical, para chegar a tempo de pegar o último ônibus para Xian, que partia às 19 horas. Ou seja, era uma corrida contra o tempo.

Pelo menos o caminho era bonito

Após muitos tropeções, surtos de desespero (meus) e as nossas pernas quase desistirem de funcionar, conseguimos! Chegamos ao fim da trilha acabados, destruídos, verdadeiros farrapos humanos se arrastando. Mas claro que o martírio ainda não tinha acabado, afinal era necessário achar da onde o ônibus partiria, pois saímos por um portão diferente do que entramos. Após algumas perguntas desesperadas para pedestres que nos olhavam com estranheza, um guarda resolveu nos ajudar e apontou o caminho. Foi aí que o avistamos, de longe, ele, a nossa salvação em forma de aço, borracha e combustível fóssil. O medo que o ônibus partisse tomou conta de nossos corações e, ao olharmos um para o outro sabíamos, seria necessário correr. Disparamos pela ruazinha da cidade e na minha cabeça estava tocando o tema de “Carruagens de Fogo” ao fundo, uma cena bonita em que desafiamos nossos limites e chegamos até o destino. A realidade deve ter sido bem menos glamurosa e talvez mais visceral, algo mais ou menos como dois porquinhos da índia pernetas correndo pela rua. Praticamente dois zumbis brasileiros aterrorizando uma pequena cidadezinha chinesa.

Não sei como cheguei, mas cheguei. Acabado, mas cheguei. E assim conseguimos voltar pra Xian.

Ainda bem que tudo deu certo, pois tínhamos que pegar um trem no dia seguinte cedo para Xangai, onde enfrentamos as consequências dos nossos atos no monte Huashan. Basicamente ficamos sem andar por alguns dias e eu passei bem mal.

Mas para saber mais sobre isso só lendo o próximo relato.

No fim a bela montanha da discórdia foi muito importante para um ajuste no nosso “relacionamento de viagem”. Ali, após muito suor e brigas, acertamos verdadeiramente nosso compasso como casal e nada do mesmo tipo se repetiu. Obrigado, montanha maldita.

Pensa num dia foda

E uma última informação para os curiosos, nesse dia nós andamos mais de 30 km e subimos e descemos mais de 6 mil degraus. É isso.

Beijos quentes

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China 1 – ou Pequim e a luta da Cidade Proibida

Esse relato cobre os eventos de 2/9/2018 a 7/9/2018

Olá. Como vai? Bem? Será? Será que você não está procurando esse entretenimento rápido para tapar algum buraco emocional nessa alma perturbada? Não? Ok. Desculpe o pessimismo, é que chega a hora de falar da China e minhas emoções já ficam a flor da pele. Bom, vamos lá.

A China foi uma montanha russa de emoções. Um dos maiores mistérios dessa terra milenar é como ela consegue encantar na mesma proporção que irrita. No fim eu, Rafael, gostei. Gostei bastante. Gostei porque aprendi muita coisa, inclusive “como viajar melhor”. Mas que em certos momentos esse foi um aprendizado árduo, a isso foi. No fim dos capítulos da China farei um resumão sobre o tópico.

Já começamos nossa passagem pelo país bem cansados. Quer dizer, chegamos esgotados em Pequim, afinal estávamos vindo de uma maratona de perrengues (perrengues incríveis, mas perrengues) ali na Mongólia. Não deu nem tempo de descansar, foi só voltar do tour, dormir algumas horas e pegar um avião de madrugada. A nossa energia já estava bem baixa.

Mas claro que eu ignorei todos os avisos do meu corpo e da Marina, e dei uma forçada de barra para conhecer ao máximo a cidade. Ainda era começo de viagem e eu estava no meu modo “turismo férias”. Sim, eu posso ser aquela pessoa chata que quer fazer tudo que o local tem pra oferecer, principalmente se for um lugar cheio de história, como Pequim. Na verdade até sofri com isso, pois mesmo batendo muita perna por lá ainda sentia que estava deixando de fazer bastante coisa. Uma bobagem de pensar que não estava “consumindo a cidade de forma correta”. Ainda bem que hoje sou uma pessoa quase curada dessa síndrome e me contento em ficar jogado em algum canto, assistindo Netflix, com o mínimo de roupa possível e relaxando. Sim, esse tipo de viagem que estamos fazendo precisa de momentos assim. Não dá pra fazer tudo e, principalmente, não dá pra fazer tudo rápido. Não foi em Pequim que eu aprendi isso, mas foi na China (relatos que ainda estão por vir).

Aquela fotinho pra quebrar o excesso de texto – um rapaz pescando

Enfim, estávamos cansados, eu ignorei isso e comecei a me irritar e irritar a Marina com essa mania de “conhecer tudo”.

Mas em minha defesa recebi um choque de energia ao chegar no centro da cidade. Poxa, era nossa primeira vez no leste da Ásia, naquela Ásia que conheci pelos milhares de filmes de kung-fu que assistia/assisto. Sim, eu sei que o continente é muito mais que China e Japão e artes marciais e samurais, mas oras, essa era minha maior referência sobre o lugar e algo que eu estava ansioso para ver. Só de observar a rua lotada de letreiros em ideogramas, a mudança drástica de arquitetura e a confusão local me senti animado. Claro, já tínhamos chegado na Ásia faz tempo, mas o leste da Rússia e Mongólia não representaram quebras de realidade tão grandes assim. Quer dizer, a Mongólia obviamente sim, mas de uma forma diferente, lá foi muito mais sobre o povo e o modo de vida, ali em Pequim eu estava me sentindo em um set de cinema. E essa é minha defesa para parte do comportamento maníaco apresentado nesse período da viagem.

Ficamos em uma região turística, próximos do mausoléu do Mao, da praça da paz celestial e de mais um bocado de prédios históricos e bacanas que parecem saídos de algum cenário do Mortal Kombat. O nosso próprio hotel tinha uma aura toda “China Imperial”, com arquitetura tradicional e um hall cheio de lanternas. E não era só decoração não, ele era um hotelzinho frequentado por locais mesmo. Tão local que era cheio de senhoras chinesas jogando baralho e sem ninguém que falasse inglês. Aliás, que lugar difícil de achar alguém que fale inglês. Comunicação foi um problema crônico na China, não só em Pequim. Nem o tradutor resolvia a parada, aliás, só piorava, eles nunca entendiam o que queríamos dizer. Eu acho que devia acontecer tipo aquelas cenas de filme ruim de comédia, em que um personagem tenta falar algo em outra língua e acaba falando uma frase totalmente absurda, mas ainda construída de forma coerente. Por exemplo, perguntávamos (usando o app) “onde é o banheiro?” e os chineses deviam ler algo como “o senhor quer se juntar a nós para invocar das profundezas Azatoh, o maligno?”. Devia ser uma coisa dessas mesmo, pois normalmente depois dessa tentativa frustrada de comunicação os chineses fugiam de nós.

Entrada do nosso hotel

Bom, voltando ao nosso hotel e suas redondezas, o bairro ali foi o que mais gostei da cidade. Cheio de vielas misteriosas (hutongs), restaurantes secretos e um pouco de vida local escondida entre os lugares mais turísticos. Também tinha um McDonalds perto, outro ponto vital, pois no fim a Má descobriu que não gosta muito da comida chinesa de verdade (e eu não nego um McDonalds). Quem diria que o China in Box não é uma reprodução fiel da culinária dos filhos de Confúcio.

Fora perambular ali por perto de onde ficamos, também fizemos o pacote turismo básico. Visitamos a Cidade Proibida, fizemos uma viagem até a Muralha, andamos por um mega shopping de bugigangas, conhecemos alguns parques e palácios/templos antigos e comemos o famoso pato de Pequim. Que é bem gostoso, mas não é nenhum filé à parmegiana.

Aliás o pato quase causou um incidente internacional grave.

Já aviso, agora vem aí mais uma história escatológica. Desculpe, não é minha intenção sempre retomar esse tema, mas preciso ser fiel aos fatos da viagem. Juro que esse é o penúltimo episódio em que trato desse assunto com tanto destaque.

Voltando ao pato. Tinha comido ele na noite anterior e, além de comer de forma demasiada, meu sistema digestivo ainda estava se acostumando com as particularidades de começo de viagem. No dia seguinte fomos conhecer a Cidade Proibida, que é incrível. Lugar maravilhoso, difícil imaginar que partes do complexo ali são mais “antigas” que o Brasil. Detalhes e imponência em uma mistura foda. Ali só faltou alguém me chamar para a briga para termos a parte 3 de “O Tigre e o Dragão”.

Cidade Proibida – proibida pra mim, no way

Enfim, o lugar é lindo, mas o dia estava quente demais, baita sol pairando sobre a cidade e nossas cabeças. Isso já começou a nos desgatar, fora que estava muito cheio, a muvuca tornou o calor pior e acabou ainda mais com nossos ânimos. Mas gostaria eu que esse tivesse sido o último problema do dia, preferia mil vezes uma leve insolação do que o que estava por vir. Sim, ela veio sorrateira e quase me dominou ali no Hall da Harmonia Suprema. Era ela mesmo, a famigerada dor de barriga. Começou devagar e eu achei que daria para controlar, mas vocês sabem como esse tipo de coisa se desenrola e do nada eu estava tendo calafrios em um calor de mais de 30 graus. Tentei ir em um banheiro, mas ele estava lotado e a galera não saía de lá por nada. Desisti. A fúria intestinal deu uma acalmada e pensei que conseguiria ir embora até um ambiente seguro, mas eis que aí o destino me pregou uma peça. Alguma delegação internacional também estava visitando o local e as saídas ficaram fechadas por um tempo para que as pessoas importantes pudessem se retirar em segurança enquanto o cidadão comum quase morria de desarranjo das tripas lá dentro.

Por um momento achei que iria acontecer, achei que eu seria “O” cara que iria fazer aquilo ali na Cidade Proibida. Cheguei até a imaginar os futuros guias explanando “aqui é o Palácio da Pureza Celestial onde o imperador Jiajing escutava seus poetas e logo ao lado, ali no canto, é onde Rafael, um brasileiro adulto de 28 anos não conseguiu controlar seu sistema digestivo”.

A famigerada delegação internacional que quase me causou complicações

Ufa. Ainda bem que não aconteceu. Achei um banheiro mais vazio e, graças ao treinamento na Mongólia, encarei o desafio com maestria. Uma vitória em minha vida.

Do restante de nossas visitas vale destacar a Muralha, óbvio. É uma coisa espantosa, uma construção que segue a encosta dos morros e colinas ali do norte em direção ao oeste, sempre beirando a Mongólia Interior. É um negócio longo, maluco e hipnotizante. Bonito demais. Sensacional como um empreendimento daquele tamanho foi feito há tanto tempo. Quer dizer, sensacional nada, pois morreu gente pra caramba construindo a coisa toda. Mas o resultado final ficou bonito, pelo menos.

Bonito

Fomos em uma parte bem vazia da Muralha. Claro que tinha a turistada de sempre ali, mas bem menos do que eu esperava. Vale a pena conhecer, principalmente se você gosta de subir e descer escadas e suar muito mesmo sem estar em uma aula de zumba.

Repare que a Marina está prestes a enfrentar uma escada

Outra coisa que fiz e gostei muito foi explorar os hutongs. Um teletransporte para outros tempos e uma ótima maneira de achar comida boa. Na nossa última noite sai explorando essas ruazinhas estreitas no escuro e sozinho, já que a Má estava cansada, e foi bem legal. Um clima diferente, cheio de neons e lanternas chinesas. Uma estética meio cyberpunk tomou conta da cidade e isso pra mim foi demais. Sem falar que desbravar algo desconhecido assim, sem mais ninguém, é muito bom. Amo viajar em casal e provavelmente não sairia nem para a feira que tinha em frente ao nosso prédio em SP se não fosse a Marina, mas a sensação de conhecer algo sozinho é incrível. Se tiver a oportunidade faça isso pelo menos uma vez na vida.

O clima dos hutongs 1
O clima dos hutongs 2

Mais um ponto interessante são as motinhos elétricas que dominam a cidade. São muitas. Não tantas quanto as scooters de Hanoi, mas ainda assim são muitas. E o legal é que a buzina é algo cultural, por isso a sinfonia de Pequim é das mais belíssimas. Lembrei muito de São Paulo. Interessante também que, como são elétricas, essas motos quase não produzem som de motor, o que é especialmente bacana quando você está andando de forma despreocupada em um hutong apertado e do nada BEEEEM, vem aquela buzina repentina de uma moto sorrateira que estava atrás de você o tempo todo. É de fazer cair dura a pessoa com o coração mais debilitado.

E por fim não tem como não falar deles, os chineses, que tornaram nossa experiência em Pequim e no resto da China muito, é… muito especial. Na nossa primeira cidade esse encontro ainda foi “superficial”, mas já tivemos um primeiro contato com as ombradas e empurrões tão comuns no transporte público, a incapacidade de entender o conceito de fila (ou a falta de paciência para essa ideia) e as constantes cusparadas e flatulências desenvergonhadas na rua.

No começo tudo isso choca, mas você acaba se acostumando e entendendo que “faz parte do jogo”. É a cultura. Não é nada pessoal você receber uma ombrada, é normal. A partir do momento que você entende e começa a distribuir suas próprias pancadas aceitas no contrato social, tudo fica bem (ao menos que você soque um idoso, aí acho que não vai pegar tão bem). Mas claro que isso tudo é um processo e até assimilarmos essas ideias as irritações vem à tona. Como eu disse, Pequim foi o começo, e ainda não estávamos nem no nosso pico de irritação e nem na nossa fase de compreensão. Aliás a China, com suas dificuldades, te irrita aos poucos. É o cartão de débito que não funciona, o povo te empurrando, o clima, a comida, o cansaço, etc.. pequenas coisas, que são, bem, pequenas, mas que para nós, no começo da viagem, eram desesperadoras e causavam muito estresse. Ainda não vou falar sobre isso, mas uma hora todas as mini irritações se juntam e formam um megazord de raiva e rancor, e aí as coisas realmente ficam complicadas.

Tem bastante coisa bonita pela cidade

E acho que essa foi Pequim para nós, a grandiosa, e a sua maneira caótica, porta de entrada para um país, bem, grandioso e caótico. Mas que fique claro, caótico para nós, forasteiros e iniciantes de viagem, pois a turma vivem bem por lá.

Beijos Quentes

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Mongólia 1 ou o capítulo do coito interrompido da aventura

Esse post cobre os eventos de 27/08/2018 a 01/09/2018

Olá sofredores da nação. Como vejo que vocês têm uma pitada de masoquista, vou colocar aqui mais um texto para quem quiser flagelar a alma.

Apesar de ter sido uma passagem rápida, a Mongólia foi um dos países que mais marcou nossa viagem até o momento. É também uma de nossas respostas padrão quando vem a inevitável pergunta “qual o país favorito de vocês?”. Sim, amigos, é isso mesmo. A Mongólia é especial. Um país bagunçado, selvagem e com um povo e uma história incrível. Vale a pena ir até lá, mesmo que não seja fácil chegar.

Chegamos em Ulan Bator de trem, a última parte da nossa já mencionada jornada Transiberiana. Era um dia frio e cinza, apesar de ainda ser fim de verão. Não sei se foi o clima, o trânsito ou nosso cansaço, mas não tivemos uma boa impressão da cidade. Meio espalhada e desorganizada, me lembrou uma São Paulo bem menos coesa.

Enfim, foram poucas horas ali. Tivemos apenas tempo de comprar alguns suprimentos, tomar um sonhado banho e nos organizar para o dia seguinte, quando nosso tour começaria.

Antes de falar sobre o tour apenas um comentário rápido sobre o hostel em que ficamos: é um lugar que recebe pessoas do mundo todo em busca de aventura. A cada hora chegavam e saíam grupos para passeios e o clima ali era muito legal, como se fosse uma fraternidade de desbravadores, um hub de exploradores. Claro que ninguém ali era um Marco Polo moderno, na verdade estávamos mais para versões pioradas do adulto de meia idade e acima do peso que faz cosplay de Indiana Jones, mas todo o clima do lugar ajudava a criar essa aura de aventura. E isso é importante, pois é coisa que a Mongólia faz constantemente, cria esse clima apenas para te mostrar, momentos depois, que você é apenas mais um turista perdido naquela imensidão selvagem.

E foi logo cedo, na madrugada do dia seguinte, que partimos para nossa jornada mongol.

Fechamos o pacote para explorar o Gobi com um itinerário de 5 dias que cruzava o país do centro-norte até locais perto de sua fronteira sul, onde começa a parte arenosa e mais quente do deserto. Passamos por estepes, montanhas, desfiladeiros e planícies amareladas até chegar nas grandes dunas que ficam na parte meridional da Mongólia, verdadeiros paredões guardando parte da fronteira com a China.

Aliás, para detalhar melhor, nossos pontos de parada foram:

White Stupa: antigas formações de calcário no meio de uma planície gigantesca. Uma primeira impressão interessante dos mistérios do país, pois foi onde encontramos nosso primeiro santuário xamã e onde vi (sem querer) uma senhora francesa urinando ao pé das colinas.

Se você olhar bem dá pra ver uma Marina ali

Yolun Am: um vale incrível que fica entre montanhas imponentes. Verde, frio e muito bonito. O acesso ao local já é meio precário e as chuvas ainda fizeram o favor de piorar tudo, tivemos que andar uma boa parte do caminho até o parque nacional, pois nosso motorista não quis arriscar o carro na estrada traiçoeira. Aqui foi um dos momentos em que fui da alegria extrema até a tristeza da realidade, pois fizemos um rápido passeio a cavalo pelo vale, momento em que me senti a reencarnação do Gengis Khan. Porém o cavalo insistia em me desobedecer e a cela fez uma ferida no meu cóccix (deixou em carne viva), incidentes que me lembraram que eu estou mais para um pobre camponês que perdeu a sua ovelha favorita do que para um conquistador mongol.

Os cavalos do vale do cofrinho ferido

Khongorun Els: a parte em que chegamos até as incríveis areias do Gobi. Um complexo que se estende por mais 180 kms e tem dunas de até 400 metros de altura. Inclusive a nossa principal atividade foi subir na maior duna da bagaça toda. Pulmão e panturrilha quase pediram arrego, mas depois de uma hora atingimos o topo do colosso de areia. Ficamos lá até o pôr do sol e foi uma das coisas mais especiais da viagem. Também tomamos uma vodka local enquanto lá em cima, como nosso motorista aconselhou, e depois descemos correndo desde lá o topo, emoção pura e embriagada. Pra melhorar jantamos ao pé do paredão arenoso, sob a luz da lua e com a companhia de ratos e cobras, o que deu um certo medo (não em mim, pois sou aventureiro). A parte negativa de nossa estadia nessa parte da Mongólia foi nosso passeio de camelo, que não foi nada demais, só machucou mais meu cóccix, me lembrou das minhas fraquezas e o nosso condutor ainda ficou encantado pela Marina. Confesso que fiquei um pouco inseguro ali, afinal naquele momento era um mongol selvagem e bronzeado contra um brasileiro com uma ferida no cofrinho. Mas tudo deu certo e nosso casamento continua de pé.

Baita trabalho chegar ali

Bayanzag ou Red Flaming Cliff: uma formação rochosa que surge perto de um desfiladeiro em uma planície desértica, um cenário que lembra Marte e um pouco do cerrado brasileiro. Assistimos outro pôr do sol incrível, que deixou o lugar ainda mais vermelho. Outro ponto interessante é que lá foram descobertos diversos fósseis, inclusive ovos (fossilizados, claro) de dinossauro. O lugar perfeito para o Indiana Jones moderno começar uma aventura, mas invés de dinossauros encontrei hordas de adolescentes coreanos.

Rapaz é bonito esse lugar
Moradores originais

Baga Gazriin Chuluu: mais uma série de penhascos, vales e formações rochosas que desafiam o comum, em uma parte bem mais fria e verde do país, pois já estávamos voltando para o norte. Ali foi incrível ter conhecido restos de antigos templos budistas que ficavam nessas colinas perdidas. Também vimos as cavernas apertadas que os monges usaram para se esconder dos oficiais comunistas algumas décadas atrás.

Mais desfiladeiros

Esse é o roteiro explicado de forma “rápida”. Foram muitas horas dentro de um carro, pois a distância coberta não foi pouca, mas acompanhar a mudança de clima e cenário foi incrível.

E agora vocês podem estar se perguntando “Mas nossa, precisava fechar tour? Não sai mais barato alugar um carro por lá?”

E eu respondo:

Não, camaradas. Não dá para conhecer a Mongólia sem algum guia ou tour. Quer dizer, até dá, mas uma parte muito limitada do país, talvez a capital e algo perto dela. O resto não. Digo isso pois as estradas são bem precárias, isso quando existem. Perdi a conta do número de vezes que nosso motorista jogou a van pra fora do asfalto e seguiu não sei quantos kms na terra, grama ou areia, sem seguir nenhum tipo de placa ou trilha. Sério, os motoristas de lá devem ser guiados por algum espírito ancião ou algo do tipo, pois eu tinha certeza que na maior parte do tempo o nosso piloto estava escolhendo direções aleatórias para tocar o carro. Mas o pior é que chegávamos no nosso destino. Como, eu já não sei. Só sei que meros mortais como nós não conseguiríamos fazer igual.

Exemplo de um caminho BOM de seguir na Mongólia

Outro ponto importante de fechar um tour é garantir acomodação com as famílias nômades que estão em cada região, pois não dá pra chegar nos pontos e procurar um hotelzinho ou hostel.

Mas a descrição de nossos locais de estadia, a decrepitude dos banheiros que encontramos, a falta de banho, nosso motorista e nosso guia e o contato humano incrível que tivemos são tópicos para o próximo post da Mongólia.

Só queria colocar uma foto que emanasse “mistério”

Por enquanto eu apenas queria descrever nosso trajeto e parte dessa terra linda em que a natureza parece mais selvagem do que em outros lugares. Um lugar de mistérios, que te faz sentir sempre como um explorador, mas ao mesmo tempo te lembra da sua incapacidade, seja com uma ferida na região das nádegas, um cavalo rebelde, animais silvestres que insistem em te fazer companhia e turistas que quebram a sua fantasia particular e jogam a realidade na sua cara. Não, Rafael, você não é diferente da senhora chinesa de 87 anos.

Esse, amigos, é o coito interrompido da aventura.

Conheçam a Mongólia.

Beijos Quentes

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Ferrovia Transiberiana ou o capítulo do lencinho umedecido

Esse post cobre os eventos de 17/08/2018 a 27/08/2018 (acho)

O leitor mais fiel ou mais atento deve se lembrar de como comentei o quanto trens seriam importantes para nossa estadia na Rússia. Ora, isso porque o grande plano nesse país gigante era justamente cruzá-lo de trem, como intrépidos desbravadores indo em direção ao misterioso oriente em cavalos feitos de fogo e aço. Aventureiros a bordo do peculiar. Caçadores de emoção se jogando no desconhecido. Ou melhor (e mais verdadeiro), dois desanuviados viajando tranquilamente com milhares de famílias russas.

E já que estou em um raro momento de sinceridade, tecnicamente o nosso plano (e o que acabamos fazendo) era usar a rota trans-mongoliana e não a Transiberiana de cabo a rabo, afinal não fomos até Vladivostok (do outro lado do país) e sim desviamos o trajeto para Ulan Bator, na Mongólia.

Foi sensacional de qualquer jeito.

Nossa jornada começou logo após a corrida contra o tempo em São Petesburgo, em que pegamos nosso trem faltando 5 minutos para ele partir (e lá eles são pontuais). Após achar nosso vagão embarcamos cansados, suados e duas ótimas representações do que são seres humanos sem condicionamento físico. Cambaleamos até nossos lugares e quase morremos para colocar nossas mochilas no local adequado, acima de nossas camas, que eram ambas a parte de cima do beliche.

Para os que não lembram da confusa descrição que dei dos trens da terceira classe no post anterior, nesses vagões não existem cabines fechadas, apenas dois beliches em uma espécie de “cabine aberta” e um outro beliche enfiado num canto triste do corredor. Ou seja, todo mundo vê todo mundo a todo o momento (mesmo nos mais íntimos). Refeições acontecem em uma mesinha comunitária que fica entre os dois beliches. Para quem fica no corredor a cama debaixo “vira” uma dessas mesinhas. Vou colocar uma foto e tudo ficará mais claro (espero).

“Cabine” da terceira classe
Beliches do corredor

Claro que quem está nas camas inferiores tem mais controle sobre o terreno da alimentação, afinal a mesa está ali a poucos centímetros de alcance, por isso, e pela comodidade de não ficar escalando toda hora, os locais inferiores esgotam mais rápido nos trens. Mas é aí que entra a etiqueta da locomotiva, que fomos aprendendo aos poucos, em que é aceitável que as pessoas do beliche de cima fiquem sentados, como em sofás, nas camas inferiores, pois elas precisam usar a mesa em algum momento e, por mais que essa seja uma afirmação contra intuitiva, se enchem o saco de ficarem deitadas o tempo todo (mal da pra sentar nos lugares de cima).

Agora você já sabe, se algum dia estiver em um trem russo e acordar com alguém te chutando muito provavelmente essa pessoa quer usar a mesa que você está bloqueando com seu corpinho. Na verdade não é tão diferente assim da dinâmica de qualquer trem leito compartilhado, mas para nós era novidade.

Marina curtindo a disputada mesinha

Estávamos indo para Kazan, que fica a 22 horas de São Petesburgo. Lá faríamos uma de nossas paradas pelo trajeto.

Ficaríamos dois dias em Kazan e depois partiríamos para Irkutsk (sendo esse o maior trajeto da nossa jornada) e de Irkutsk pegaríamos mais um trem até a Mongólia, mais precisamente Ulan Bator. Fizemos tudo isso mesmo e no fim contabilizamos 5 dias (não seguidos) dentro do trem. Haja livro e Netflix.

Fato importante que ainda não mencionei, você compra os tickets “por perna” e não uma passagem só para Transiberiana toda. Quer dizer, você pode ir direto de Moscou a Vladivostok, mas se prepare para ficar muitos dias seguidos no trem. Caso queira parar pelo trajeto é preciso comprar varias passagens diferentes. Para Kazan já tínhamos comprado o bilhete em Moscou, quando a senhora eficiente mas nem-tão-simpática-assim nos ajudou.

Voltando ao relato – Isso tudo quer dizer que tínhamos longas horas de trem a serem enfrentadas com corpos suados e desgraçados fisicamente. Felizmente nossos companheiros de “cabine” nos ajudaram a ajeitar nossas coisas e depois conseguimos nos limpar com o maior amigo desse tipo de viagem, o lencinho umedecido. Claro que nesses trens não tem chuveiro, muito menos na terceira classe onde o banheiro parece uma armadilha prestes a te jogar nos trilhos, por isso a higiene a base da umidade desses produtos para bumbum de neném é essencial.

“Limpos” e mais tranquilos finalmente conseguimos interagir com nosso colegas, pai e filho vindos do Tajiquistão e que tinham ido visitar parentes na Rússia. O pai não falava inglês e o filho, adolescente, tinha um sotaque bem carregado, como se alguém do Casseta e Planeta estivesse interpretando alguém do Tajiquistão falando inglês. Mesmo assim conseguimos conversar, dar algumas gargalhadas e ainda sobrou tempo pra ficar com inveja deles, pois no momento de comer só tínhamos miojo (os vagões tem água quente de graça. Por isso muita gente leva miojo e chá para essas viagens e deixa de pagar uma fortuna na comida suspeita do vagão restaurante) e a dupla fez surgir, do nada, um tupperware gigante com as mais variadas comidas do seu país natal. Cordeiro, frango, batatas e pães caseiros, tinha muita coisa. Eles eram verdadeiros invocadores de comida e aparentemente fizeram um banquete apenas para ter o que comer no trem e ainda levaram tudo no melhor estilo “marmita”. E a gente ali, com algumas Oreos e um miojo sem vergonha. Tristeza.

Entre mordidas e risadas no estilo “estou rindo pois não entendi nada do que você disse” descobrimos que a dupla não gostava muito dos Russos e que aparentemente o Tajiquistão é tranquilo de conhecer. Realmente parece um país incrível, mas depois descobrimos que pouco antes uns viajantes tinham sido mortos num aparente ataque terrorista por lá, então não sei o quão tranquilo o lugar realmente é (lembrando que sou completamente ignorante sobre o Tajiquistão e isso pode ter sido um incidente isolado).

Fora essa interação o que fizemos no trem foi: dormir, ler, escutar música e admirar a paisagem até chegar ao nosso destino.

Para ser sincero essa foi a tônica de todas nossas outras viagens de trem pela Rússia. No começo todos se olham como suspeitos, mas logo uma cumplicidade (que não é necessariamente amizade), se forma. Foi assim com uma senhora e seu neto até Irkutsk e com um coreano figura até a Mongólia.

Visões da Sibéria 1

Sabe aquela história, que comentei lá em São Petesburgo, sobre o trem ser uma explosão de odores? É muito verdadeiro. Os russos viajavam em família, e as famílias levam seus próprios “banquetes” para a jornada. Tem sopa, tem cozido, tem pão, tem coisa estranha pra passar no pão e tem umas coisas mais peculiares, como uma turma que comprou um peixe cru em uma das paradas e começou a corta-lo e comê-lo ali na hora mesmo, tipo um sushi depressivo. Fora as comidas vale lembrar que são vagões apinhados de gente, gente com necessidades fisiologicas e que não tomam um banho decente há a algum tempo. Nossa viagem de Kazan a Irkutsk, por exemplo, foi bizarramente longa, ficamos mais de 48 horas seguidas enfiados no trem, e aí que volta nosso herói lencinho umedecido, salvando os últimos vestígios de higiene que temos nesses lugares. Acontece que nem todo mundo é adepto desse tecido mágico, e aí o bicho começa a pegar. Enfim, os vagões da terceira classe são uma definição clássica de “farofada”, mas é uma farofada boa, bem mais acessível do que esperávamos e o melhor de tudo, é uma farofada pontual.

O famigerado “peixão cru”

Foi uma experiência incrível, pois foi nosso primeiro contato “hard” com os locais de um país. Era fim de verão e vimos as famílias russas voltando para suas casas após as férias. Encontramos estrangeiros apenas na única vez em que visitamos o vagão restaurante, e era uma turma bem de nariz em pé, então fiquei feliz de ter ficado só com os russos de cueca lá da terceira classe.

Uma coisa que perdemos completamente nesses trens, além da privacidade, é a noção de tempo, principalmente durante as pernas mais longas. Dias viram noites e noites viram dias e tudo parece apenas um sonho febril. O nosso querido Einstein devia estar em um trem desses quando disse que o tempo era relativo, pois eu tive a impressão de ter passados algumas vidas ali dentro, e ao mesmo tempo foi tudo apenas um instante. Essa sensação só piora se como nós, você pegar um trem velho e quente. Pra ser sincero demos sorte a maior parte do trajeto, pegando trens “novos” e bons, mas justo no momento em que mais ficamos tempo seguido sobre trilhos o nosso vagão parecia um forno com tecnologia da era dos czares. Quase morri sufocado ali dentro, nunca achei que fosse suar tanto durante uma noite na Sibéria.

Esse foi o famoso “forno nos trilhos”

Aliás pegamos um resto de verão bem potente durante quase todo percurso, foi estranho acompanhar as paisagens “com vida” que passavam pela janela. Eu esperava ver aquela Sibéria melancólica, desbotada e reflexiva, quase como os cenários de um filme do Tarkovsky. Ao contrário, pegamos bastante sol e muito verde, mas ainda era a Sibéria. Casas de madeira naquele estilo único que não sei descrever (veja foto, é mais fácil), construções industriais abandonadas, muitos pinheiros e toda aquela vegetação da tundra (que se intensifica muito a partir de Ekaterimburgo) foram presenças certas no show que rolava fora do vagão.

Incrível ir acompanhando a paisagem. Lá perto do Baikal o clima começou a corresponder às expectativas e tudo ficou mais frio e cinza, então dá para falar que tivemos uma experiência completa na região.

Visões da Sibéria 2

Outra coisa digna de nota, eu falei pra caramba da terceira classe, mas para chegar até a Mongólia só existem trens que tem da segunda classe pra cima, por isso uma das nossas jornadas foi no estilo “mais patrão”. Que não é ruim, mas não é nem de perto tão interessante quanto o que vivenciamos.

Como tínhamos um tempo curto de Rússia, pois ainda precisávamos fazer um tour na Mongólia e depois entrar na China e já tínhamos passagem comprada (uma baita burrada) não conseguimos parar em muitas cidades pelo caminho. Aliás paramos mesmo em apenas duas.

Kazan foi a primeira. Nem tão longe assim de Moscou e ainda do lado ocidental da Rússia, é uma cidade interessante. Não diria notável, mas interessante. Existem influências asiáticas em geral, mas principalmente turcas e muçulmanas, afinal um dos marcos da cidade é uma mesquita (bonita demais, por sinal). Acho que dois dias por lá foram mais do que suficiente. Kazan ainda foi uma cidade de catarse, afinal a memória da copa do mundo ainda estava fresca e foi lá que o Brasil foi desclassificado. Minha intenção era arranjar briga com algum belga nas ruas, mas não encontrei nenhum. Lá também foi onde comi o pior algodão doce da minha vida. E, para não esquecer, foi onde tomamos vodka russa e fomos realmente destratados por um local (única vez), a senhora da estação de trem fingiu varias vezes que não existíamos, por isso aprendemos a comprar as passagens pela máquina de auto-serviço. Gostei de lá, mas provavelmente não voltaria.

A mesquita famosona
Pouca gente sabe, mas Ivan o Terrível era chegado numa bola

Outra cidade que visitamos pelo caminho foi a já mencionada Irkutsk, lá no coração da Sibéria e bem próxima do Baikal, o lago mais antigo do mundo. Eu esperava algo mais “largado”, sabe, estilo a Sibéria isolada que eu sempre ouvi falar, mas achei Irkutsk charmosa e até mesmo jovial. Cheia de casinhas de madeira que são um símbolo da região, mas também com prédios novos, restaurantes da moda e muitos jovens. Lá já da para ver em peso à população asiática que vive na Rússia, principalmente os mongóis, mas essa influência não necessariamente transborda para coisas como a arquitetura local. Enquanto estávamos lá ainda pegamos um ônibus e fomos visitar o lago, que infelizmente não é feito da incrível vodka barata Baikal, salvadora dos porres adolescentes e sem dinheiro.

Irkutsk

Foi um dos poucos dias frios e chuvosos de toda nossa estadia, e uma neblina espessa cobriu o lago. Não foi necessariamente bonito de ver, mas foi interessante. Toda vila em torno daquele mundo de água parecia um cover de Silent Hill e eu tinha certeza que enquanto visitávamos o lugar os moradores estavam em algum porão secreto cultuando alguma coisa antiga e odiosa adormecida nas profundezas. Pra melhorar tudo eu e Marina fizemos uma trilha que parecia rápida, mas demorou um bocado. Ela deveria nos levar a um viewpoint, mas passamos por portões e grades fechadas no vilarejo e demos em algo que eu acho que era uma estação metereológica, em que o cachorro do guarda quase nos matou de susto. Tive certeza que esse era o momento de nossa viagem que os aldeões iriam nos sequestrar e nos oferecer ao deus ancião do fundo do lago. Ainda bem que eles viram que eu não tinha muito valor e nos deixaram ir.

Baikal

Como vocês podem ver eu viajei (na minha cabeça) bastante durante esse passeio, então foi um bom dia. Mas o momento mais incrível dele foi quando, na volta, uma senhora pediu para parar o ônibus (deixando claro que não era uma parada do trajeto), desceu e começou a fazer xixi ali na beira da estrada, com todos os outros passageiros observando. Depois ela voltou como se nada tivesse acontecido e mandou tocar o busão. Paguei um pau para a senhora.

Depois dessa só nos restou partir, também de trem, para a Mongólia, assunto do próximo post.

E termina aqui um relato atabalhoado e um pouco desconexo sobre essa experiência incrível que tivemos bem no começo da viagem e que até agora não sei se assimilei direito. Nossa jornada trans-mongoliana foi assim mesmo, confusa e estranha. E valeu a pena demais.

Caso tenha a oportunidade de fazer algo parecido só vá com mais tempo do que uns 11 dias. Existem varias outras cidades bacanas pelo caminho e quem sabe, vai que você descobre alguma seita milenar russa que tenta controlar as criaturas misteriosas da Sibéria. Boa sorte.

Beijos Quentes

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