Maldivas ou o paraíso manchado

Vista comum pelas Maldivas

Olá, amigos e amigas da meia-noite. Enquanto estamos a espera da escuridão eterna que vai apagar a realidade como conhecemos, que tal curtir mais um capítulo deste humilde blog?

O capítulo anterior terminou quando estávamos prestes a sair de Rishikesh e da Índia e a caminho das praias paradisíacas das Maldivas.

Mas claro que o país de Shiva não nos deixaria sair dele sem uma última “provação”. Essa foi leve até: nosso ônibus de Rishikesh para Delhi atrasou algumas horas porque estava quebrado no acostamento da estrada. Tivemos que pegar um ônibus alternativo até a tal estrada e aí pegar o ônibus alternativo 2 até Delhi. O problema é que o ônibus alternativo 2 já estava bem cheio, então tiveram que acomodar os novos passageiros em um lugar em que novos passageiros não poderiam ser acomodados. Tudo bem, faz parte passar por esses momentos de extremo contato humano e até que após entrar no veículo com nossas mochilas colossais e esbarrar em vários indianos (sem querer), conseguimos uma “cabine” privada. Os ônibus leitos da Índia tem uma espécie de cabine com duas camas para os passageiros irem deitados e tranquilos, é bem bom, mas como o ônibus alternativo 2 já estava lotado tivemos que colocar nossas malas no compartimento junto com a gente e ficou tudo bem apertado. Aliás esse estilo de ônibus é maravilhoso para quem viaja em dupla, mas ficar com um estranho nessa cabininha do amor deve ser bem incômodo (ou bem gostoso, depende da sua disposição para se divertir).

Antes de continuar com o relato quero fazer um parêntese. Eu odeio minha mochila. Eu sei que uma mochila é tudo para um mochileiro e é quase um sacrilégio isso que estou dizendo, mas nós não temos uma boa relação. Claro, reconheço o quanto ela já me foi útil, quantos momentos gostosos dividimos e quantas barras já passamos juntos, mas a coisa toda ficou insustentável. E não é que a mochila é ruim, longe disso, na verdade o problema sou eu. Eu que imaginei que precisava de tantas coisas antes de começar a viagem e que peguei uma mala grande demais. Eu que não calculei que ficaria parecendo uma tartaruga ninja com ela nas costas. Ela é tão grande que parece que eu estou carregando um corpo pra lá e pra cá. E o tamanho irrita. Não só pela necessidade de despachar a mala quando pegamos avião, mas principalmente porque avião é o meio de transporte que menos usamos, nós “preferimos” vans apertadas, ônibus velhos, trens lotados e por aí vai. E juro, é horrível entrar nesses lugares com praticamente um baú nas costas. Eu me irrito e irrito os outros. Quero agradecer de coração minha cunhada que me emprestou a mochila, mas nosso relacionamento não foi dos melhores.

Terminada a sessão reclamação voltamos pro relato do ônibus apertado.

E foi numa colisão de corpos, bagagem e suor que fomos pra Delhi e finalmente chegamos ao aeroporto. Já era tarde da noite e passamos mais uma madrugada entre os rostos tristes que habitam o local nas horas mais escuras. Mas tudo bem, estávamos acostumados. E olhe só, o voo até saiu no horário. Nesse momento achamos que nosso azar com transportes estava terminando.  

Ledo engano, ledo engano.

Chegamos em Malé, capital das Maldivas, no período da tarde do dia seguinte. A ideia era passar uma noite lá e pegar uma balsa pública logo cedo. Isso porque as Maldivas são formadas por mais de 1000 ilhas e claro que os deuses, brincando com a gente, nos fizeram achar um hotel acessível em uma ilha bem longe da capital. Para chegar em qualquer outro lugar saindo de Malé existem algumas opções de transporte, como a balsa pública, a balsa noturna, speed boat e aviões pequenos. As duas últimas opções são as mais rápidas e mais usadas por turistas endinheirados. Elas funcionam quase todos os dias e chegar até uma ilha resort não vira uma epopeia. Não era nosso caso, usar uma lancha ou um avião acabaria com nosso budget, por isso optamos pela balsa pública que era 10 vezes mais barata. O problema é que essa balsa não serve todas ilhas todos dias, por isso calculamos nossa partida de Malé para segunda-feira de manhã, quando o rapaz do nosso hotel garantiu que sairia um transporte para Maamigili (nosso destino final). Conhecendo nossa sorte para esse tipo de coisa você já deve imaginar que o plano não deu certo. Não tinha balsa pública para Maamigili na segunda, só na quarta-feira, o que significaria que ficaríamos mais duas noites em Malé, onde a hospedagem é cara pra caramba. Já estava me preparando para dar tchau para um rim.

A alegria de ir na balsa noturna – pelo menos deu pra dormir bem

Foi aí que lembramos da balsa noturna, bem mais cara que nossa primeira opção, mas ainda acessível. Andamos a esmo no porto comercial a procura do tal barco e, apesar do cenário não ser convidativo, foi então que descobrimos a hospitalidade e desejo de ajudar dos maldivos. Que povo simpático. Estávamos um pouco com pé atrás em relação a proatividade alheia devido algumas experiências não tão bacanas na Ásia, mas lá a ajuda foi sempre sincera. Foi nossa primeira vez em um país de maioria muçulmana e isso me fez pensar na hospitalidade do Islã, coisa que já tinha ouvido falar. Enfim, achamos a tal balsa noturna e partimos às 23 horas para chegar apenas 6 da manhã em nosso destino. Ou seja, saímos de Rishikesh sábado cedo para chegar terça-feira aonde realmente queríamos estar. Entendeu porque às vezes cansa essa história de ir de um lugar pro outro? E olha que essa jornada foi bem tranquila perto do que já passamos ou de histórias que escutamos. 

Mas agora que mais uma saga dos transportes foi explicada (eu sei, sou repetitivo) chegou a parte interessante, a parte de falar desse “fundo de tela” da vida real que são as Maldivas, mais um lugar surreal que visitamos. 

Para explicar rapidamente, afinal não dei contexto nenhum, nosso hotel não era um resort ou algo do tipo, mas conseguimos um bom preço com refeições inclusas em uma hospedagem bacana em uma ilha local (Maamigili), ou seja, com uma vila funcional e não apenas tomada por um resort monstruoso. Mas, como descrito acima, não foi tão fácil assim chegar lá.

Começamos por Malé, que é uma cidade ajeitada e não tem nada de muito especial, mas fica em uma ilha (óbvio) e mesmo de lá, mesmo do caos urbano, já dá pra perceber que o mar na região é especial, transparente e convidativo. Aliás Male é daqueles lugares em que muitos pontos o que separa a terra do mar é uma simples muretinha. Cada vez que alguém fala em “aquecimento global” a população das Maldivas deve tremer. 

Foto aleatória pra quebrar um pouco o texto – Picnic Island

Depois fomos para Maamigili, a ilha em que ficamos hospedados. Ela fica há umas boas horas de barco da capital, em um atol distante. A praia de turistas (a em que estrangeiros podem nadar com roupas de banho e é limpa) tinha aquela cor de água de filme, um mar azul turquesa que parecia nos chamar para se banhar nele. Da areia conseguíamos ver o horizonte infinito com pequenas ilhas (e resorts) pipocando ao fundo. Tudo isso sob as sombras de coqueiros. Olha, não estava ruim não, mas por Maamigili ser uma ilha habitada por locais (e não só uma ilha resort) ela nos mostrou uma realidade diferente das Maldivas – mais disso a seguir. Além desses dois lugares fizemos passeios pelo atol onde fica Maamigili – para um resort e uma ilha deserta. E aí, meus amigos, aí foi só cenário de filme mesmo. Aquele mar que é ao mesmo tempo transparente e de um azul tão intenso que parece uma piscina translúcida de Gatorade, bancos de areia e coqueiros perdidos em uma imensidão aquática e uma vida marinha ativa que salpica essa tela azul de muitas cores diferentes. Eu sei que posso soar repetitivo, mas é impossível ficar fora da água nesses lugares. É tão bonito que não dá para não entrar. O oceano é uma sereia que atrai pelos olhos e não pelos ouvidos, sempre nos puxando para as profundezas. Para ser mais chucro: é foda. 

O resort típico das Maldivas – não, não ficamos hospedados aí

Agora falando sobre o resort – fizemos um passeio de um dia para um desses mega empreendimentos que tomam uma ilhota inteira e criam um paraíso hedonista para os afortunados. E sim, o lugar que visitamos era incrível e imagino que todos resorts devam ser. É a união de um cenário perfeito com luxo e conforto. Mas também é estranho frequentar algo assim vivendo tanto tempo os perrengues da estrada. Pessoas te levando pra lá e pra cá de carrinho de golfe, pessoas servindo comida e drinks, pessoas tomando conta dos seus filhos, pessoas secando suas costas com a língua (ok, eu exagerei e na verdade nem sei como esse exemplo funcionaria, afinal a língua só deixaria tudo mais molhado não é?). Eu não estou dizendo que esse tipo de coisa é ruim, nem que é boa, não vou mergulhar no abismo filosófico e discutir a moral e ética do tema. Só é tudo muito estranho, principalmente para quem veio, como a gente, da vivência de realidades com diferenças abismais para essa. E é tudo muito caro também, nossa única atividade por lá foi morrer nas belas praias da ilhota e, para não deixar passar em branco, consumir um drink no bar da piscina (que quase nos custou um órgão). Foi um belo dia. Para economizar até levamos marmita do nosso hotel all inclusive. 

Picnic Island

O outro passeio que fizemos foi para um ilhazinha bem perto de Maamigili chamada Picnic Island. Um lugar deserto, mas que provavelmente serve ou já serviu como fazenda de coqueiros. Enquanto explorava a ilha me deparei com diversas estruturas abandonadas. Me senti em Lost descobrindo as ruínas de complexos científicos ou algo do gênero. Não vou mentir – foi a volta daquele sentimento bobo de aventura ao se deparar levemente com o desconhecido ou o misterioso. Nessas andanças encontrei pedras que formavam diversas piscinas naturais e em um delas pude acompanhar uma moreia caçando caranguejos e foi um espetáculo incrível. Ela nadava ameaçadoramente, sempre a espreita, e quando percebia que um dos caranguejos tinha dado bobeira saía feito um míssil com metade do corpo para fora da água expondo seus dentes brancos e mordendo tudo que viesse pela frente. Foi uma cena feroz. Vida e morte no mundo selvagem. Parece que estou dramatizando demais um evento corriqueiro que demorou o total de uns 20 segundos, mas pensa só por um minuto, na escala dos caranguejos era a luta deles contra um infernal dragão aquático, praticamente a versão crustacea de Cadmo contra a serpente. No fim a moreia conseguiu arrastar um infeliz caranguejo para baixo de sua pedra favorita e a vida sobre as rochas voltou ao normal.

Não canso de colocar foto dessa ilha

A Picnic Island era incrível, como a maioria dos lugares nas Maldivas. Tínhamos acabado de vir de um cenário quase alienígena, as ferozes montanhas dos Himalaias e eu estava apaixonado por aquele visual, mas ali perto da água lembrei que para mim nada supera um mar azul, areia branca e uns coqueiros vistosos. O problema do lugar é que lá tinha muito lixo. Sim, lixo, uma tribulação recorrente nas Maldivas.

Já comentei que ficamos em Maamigili e que lá é uma ilha cidade, ou seja, é habitada por pessoas locais. Disse também que lá descobrimos um outro lado chocante da realidade do país, como diz a Marina “um tapa na cara”. Lá descobrimos como o lixo é tão parte do paraíso quanto o mar azul.

A cidade/vila de Maamigili não é suja, é inclusive bem organizada. Não testemunhamos nenhum ato que indique tamanho descaso ambiental para explicar o que vimos (já passamos por lugares que a população tinham pouca ou nenhuma consciência ambiental), mas fato é que ao nos aventurarmos para longe da praia dos turistas descobrimos um verdadeiro lixão a céu aberto nas areias da ilha. Esse lixo está lá por uma série de fatores: vem do mar que é cada vez mais um lugar de despejo das grandes nações (e isso é muito forte no sudeste asiático), falta de espaço e de soluções para o lixo produzido nas ilhas das Maldivas e também um pouco de falta de consciência das pessoas (turistas e locais). Fato é que vimos isso em Maamigili, vimos isso na Picnic Island e pelo o que pesquisamos acontece em várias outras ilhas que não sejam visitadas por celebridades.

Repara só no lixo na areia

Fato é que em uma tarde nublada nós resolvemos tentar melhorar minimamente a situação e ficamos umas boas horas catando tranqueiras da praia. Sabemos que  foi um esforço mínimo perto do que precisa ser feito, mas pareceu melhor do que apenas deitar com a barriga ao sol. Um fato curioso: após enchermos nosso primeiro latão de lixo um senhor que cuidava da praia de turistas veio nos ajudar e, com sua carriola, insistiu em levar o latão para um lugar apropriado. Nós o seguimos e vimos que o tal do lugar apropriado era um lixão improvisado em meio à vegetação bem pertinho do mar. Não serviu de muita coisa nosso suor inicial. Acho que esse foi mais um fato triste do que um fato curioso, mas a vida é assim, mais triste do que interessante. 

Resultado do nossa coleta de lixo

Além de pegar lixo das praias e torrar em cenários extravagantes também curtimos muito nosso quarto. Não, não é isso que você está pensando leitor de mente mais tórrida, é que no pouco tempo que ficamos lá choveu bastante. Mas foi bom, conseguimos relaxar e colocar séries, livros e filmes em dia. Uma hora até nos enchemos o saco e nadamos na chuva mesmo.

Outra coisa interessante que aconteceu foi que estávamos no país bem na época do Ramadã, quiçá a celebração religiosa mais importante do islã. Como o Ramadã exige uma série de sacrifícios e tem regras bem específicas, ele muda completamente a rotina de um país muçulmano, algo interessante de vivenciar em primeira mão. De dia não pode, entre outras coisas, comer ou beber água, então a noite é um período de encontros, confraternização e comida. Parecia uma rave de muitos dias, pois sempre quando íamos dormir escutávamos a vida acontecendo lá fora. 

No fim nossa estadia cumpriu seu papel e ainda nos acordou (finalmente) para mais uma realidade dura desse planeta. Mas havia chegado hora de sair desse paraíso maculado e seguir viagem.

Curtindo um sol

Foram mais algumas boas horas de balsa pública até Malé, onde pegamos um avião com destino para Délhi, mas que sabíamos que não seria nosso ponto final. Isso mesmo, não iríamos ficar na Índia, mas poucas horas antes de nosso voo não tínhamos ideia para onde prosseguir. Aliás o processo todo de decisão foi bem caótico e muito estressante, mas isso eu conto na próximo post.

Beijos Quentes

Índia ou o capítulo do beijo de língua no Ganges

o Ganges cortando a cidade

Como vão os amigos e amigas desse lamaçal odioso chamado existência? Já descobriram se somos mais que um amontoado de carne movido a eletricidade ou não? Eu ainda não. 

E é com essa abertura cheia de alegria e otimismo que eu os saúdo e os convido para aproveitar mais um texto deste humilde espaço virtual.

Depois da minha explosão visceral e de uma visita anti-climática ao Taj Mahal, saímos da boca do inferno que é Agra no verão e fomos para partes mais frescas do país, para a terra dos ashrams e dos gringos iluminados. 

Chegar em Rishikesh, como chegar em qualquer lugar a 30 quilômetros de distância na Índia, foi penoso. Não. Será? Talvez. Em termos práticos foi bem tranquilo na verdade. Pegamos um ônibus noturno/leito até que confortável (mas sacolejante), trocamos de ônibus de manhã, andamos mais um pouco por estradas acidentadas, nos largaram em um cruzamento perdido em uma rodovia poeirenta e lá fomos recebidos por uma massa de motoristas de tuktuk. Quando eles viam que era um turista saindo de um dos ônibus algo maior parecia tomar conta desses empreendedores do trânsito e eles imitavam uma horda zumbi indo em direção à presa. É a vida e o negócio deles, quem não correr perde a vez. Fomos atingidos por um tsunami de ofertas, algumas gentis e outras agressivas, e após terminar com um felizardo sabe-se lá como tivemos a habitual negociação de preço para embarcar em mais um desses belos veículos improvisados que dominam a Ásia. Após alguns minutos montanha acima finalmente chegamos à cidade. Uma curta andada e estávamos no nosso hostel. Eu deixei toda jornada mais dramática do que ela foi, mas isso não quer dizer que não tenha sido cansativa. Viajar de forma barata é garantia de aventuras e muitas vezes uma necessidade, mas como torra a paciência.

É sempre um tal de: pega a mochila, deixa a mochila, procura o ônibus certo, opa não é esse, pega a mochila de novo, chacoalha mais que massa de bolo na batedeira, pega a mochila outra vez, surta, joga a mochila no chão e tira tudo de dentro, sai correndo só de cueca gritando…. Enfim, deu para ver que estávamos em uma fase de pouca tolerância para perrengue. Acho que é normal, até o mochileiro mais raiz da história tem sede por conforto e descanso de vez em quando e se ele disser que “não”, com certeza estará mentindo. É bom demais gastar o tempo com a pança pra cima também. 

O interior de um ônibus leito Indiano.

E foi após essa jornada “simples, mas não tão simples assim” que chegamos em uma cidade que se move em outro ritmo do que tínhamos visto até o momento na Índia. Rishikesh fica perto das montanhas, na base do começo dos Himalaias indiano, é um lugar de tradição espiritual e comunhão com a natureza. Ainda é uma cidade indiana e carrega parte das particularidades do país, mas lá tudo parece ter um nível menor de intensidade. Pôde-se inclusive dizer que Rishikesh é uma cidade tranquila, na medida do possível. 

O rio corta parte de Rishikesh bem ao meio e para atravessar de um lado para o outro só usando as famosas pontes Ram Jhula e Lakshman Jhula, e essa travessia é uma experiência a parte (mais disso a seguir). Como a cidade fica em um vale verdejante as margens do Ganges são encurraladas por encostas inclinadas de ambos os lados, por isso os inúmeros cafés, templos, hotéis, Ashrams e milhares de outras construções que compõem o cenário urbano vão ficando cada vez mais altos em relação ao rio, formando uma escadinha de cimento colorido no meio da vegetação. É uma cidade bonita.

Como é um lugar nas montanhas e de clima mais ameno, pegamos Rishikesh em alta temporada, afinal grande parte do restante do território indiano estava ardendo sob um calor impiedoso. Foi onde mais vimos turistas, tanto estrangeiros quanto indianos. Acho sempre sensacional ver um país sendo visitado pela própria população, parece bobagem, mas após ver como isso é raro no sudeste asiático dá até uma sensação de alívio perceber que os únicos aproveitando/conhecendo o país não são apenas uns branquelos esquisitos.

Uma das famosas pontes da cidade

E por falar em turistas foram eles, especialmente um tipo específico de turista, que me irritaram em Rishikesh. A cidade, com seus inúmeros retiros de yoga e meditação, é um imã poderoso para um tipo de viajante que já vi em vários outros locais, o pseudo-local-transcedental. Aquela pessoa que está há pouco tempo no país e já compra todas supostas roupas tradicionais possíveis (daquelas que vendem nas inúmeras lojinhas espalhadas pelo lugar e que nunca uma pessoa local usa), que começa a andar descalça pelas ruas para indicar intimidade com a energia da região, que exibe pinturas e marcas nativas pelo corpo, que desfila por aí como próprio Buda reencarnado e parece rejeitar qualquer traço de sua verdadeira terra natal. Sim, é aquele tipo “iluminadão” que parece saído de um festival hippie. Por que eles me irritam? Oras, nem eu sei direito. Talvez porque tudo me parece falso, uma maquiagem exagerada para tampar alguma cicatriz calcificada com insegurança. Para mim parece um uniforme usado por um tipo de pessoa que quer se encaixar até demais na cultura que está visitando. 

A outra resposta, a mais complexa e que eu menos gosto é: eu sou amargurado e invejoso. Isso mesmo. Talvez eu tenha algum tipo de inveja de pessoas que conseguem se deixar levar e submergir até esse ponto em uma nova cultura. E o pior é que não estão fazendo mal para ninguém. Não é novidade nenhuma que eu gosto de reclamar dos outros e qualquer coisa pinica minha alma azeda, eu até tenho orgulho de ser tão simpático quanto um velho com dor nos quadris. Provavelmente é isso, minha tendência a ser reclamão sempre precisa achar um alvo para colocar em prática o que eu faço de melhor. Mas o fato de eu saber que o problema é 99% meu e não dessas pessoas não faz eu gostar mais delas. Não me entendam errado, eu simpatizo com yoga, meditação e até com hippies. Eu também sei que todo mundo compra uma calça de elefante quando vai pra essas bandas, uma bata, uma regata diferente ou uma saia toda estilosa, mas usar o conjunto todo, a união de todos esses elementos de uma vez que forma o megazord da petulância, o “iluminadão”, é passar dos limites. E sim, eu sei que estou generalizando e implicando com o estilo alheio, mas você realmente quer argumentar com um cara que escreveu um parágrafo gigante para falar do desgosto dele por pessoas que exageram no nível de “hippeza”?

Só Vishnu para aguentar os iluminadões de Rishikesh

Feito o devido desabafo, vamos a parte mais descritiva do relato. 

Passamos uns dias gostosos e calmos, bem ao ritmo de Rishikesh. Andamos muito a beira do rio (não tem como escapar disso) e nos aventuramos na travessia das pontes que conectam as margens. Atravessar Rham Jhula é especial inclusive para os indianos, pois o local onde ela foi construída faz parte de um mito hindu importante, Mas enfim, para mim, um ocidental perdido, o motivo de ser algo único foi outro. Imagine a rua 25 de março perto do natal, ou a onda de pessoas que vai atrás do trio no carnaval de Salvador, ou qualquer outra multidão que brotar na sua cabeça. Agora coloque essa multidão em um espaço estreito e comprido, talvez com uns dois metros e meio de largura. Coloque ainda, no meio disso tudo, algumas vacas e umas pessoas com motos. E lembre que essa farofa humana acontece naquele espaço apertado que já descrevi e que ainda fica suspenso a uns bons metros de um rio gelado, ou seja, a única direção é pra frente, sem saídas de emergência. Você se sente apertado como uma sardinha, mas ao menos tem uma bela vista. O melhor é quando você acha que não dá para ficar mais cheio e aparece um bovino preguiçoso deitado no meio do caminho, aí todos tem que se afunilar em um espaço menor ainda. Eis que você quer tirar foto da vaca na ponte, mas demora demais e BIBIBI, já tem uma moto buzinando na sua orelha. Sim, você não esperava por isso, mas eles permitem que motos passem por ali, o que parece meio maluco. Aliás a coisa toda é bem maluca. Só a Índia para transformar a experiência de atravessar uma ponte em algo único e intenso.

Foi mais ou menos assim que me senti na primeira vez em Rham Jhula. Depois nós nos acostumamos com as travessias e verdade seja dita, não é sempre que as pontes estão super cheias. Mas a primeira vez foi especial. 

Foi tranquilo atravessar a ponte

Além de andar muito pra lá e pra cá, curtir o visual da cidade e o raro clima de calmaria, também nos aventuramos em algumas cerimônias religiosas. Ao fim da tarde existem celebrações exaltando o rio semelhantes às de Varanasi, a beira do Ganges, mas as de Rishikesh são menores e mais intimistas.

Fomos em uma que ficava bem na curva do rio, em uma escadaria limpa e organizada. A cerimônia aconteceu durante o pôr do sol e como estávamos na margem leste a bela estrela de fogo desceu até a terra bem à nossa frente, dando tons alaranjados para uma estátua gigante de Vishnu que vigiava o ritual. Em dado momento fomos até essa estátua que ficava contra a escadaria e ver toda celebração por outro ângulo foi incrível, estavam todos juntos, apinhados na escadaria, uma hemorragia de cores escorrendo até o rio ao som de palavras sagradas. Foi uma bela visão.

Achamos esse um evento mais “confortável” e agradável de acompanhar do que todos os outros que vimos em Varanasi. Acho que acolhedor é o melhor termo para descrever essa diferença.

A Má, já em outro dia, participou de mais uma dessas celebrações, no templo de Shiva, um dos maiores e mais importantes da cidade. Ela foi ativa no ritual todo e aprendeu alguns conceitos hindus, mas eu não posso transmitir aqui como foi essa experiência, pois como ela foi com mais outras 4 brasileiras que conhecemos por lá e eu me retirei para o hostel e joguei um pouco de video game. Eu sei, eu sei. Sou um fracasso. 

E o tão alardeado Ganges? Oras, ele não é limpo na região? Sim, claro, você está certo fiel leitor. E nós interagimos com ele, fique tranquilo. 

A primeira parte dessa interação foi um simples banho em uma das inúmeras praias que tem pelas suas margens. Existem lugares lindos e quase desertos para nadar no Ganges, mas nós escolhemos um bem populoso e sem nenhum capricho estético. Como o cenário não ajudou nossa primeira entrada no rio foi pífia, uma simples molhada de canela. Porém já tinha sido mais do que fizemos em Varanasi (ou que eu tive coragem de fazer em Varanasi). Mas, claro, teve a segunda parte da nossa interação com o Ganges e essa foi mais intensa, afinal fizemos um rafting nele.

Um templo e o Ganges

Rafting sempre foi um daqueles (muitos) negócios que eu sempre quis fazer e nunca tinha movido uma palha para concretizar. Quando surgiu a chance de realizar a atividade em um rio tão sagrado e famoso nos animamos muito. Fala aí, legal demais puxar um papo falando “já fez rafting? Então, certa feita eu estava na Índia e acabei fazendo no Ganges e menina você não vai acreditar…” Bom, é um jeito bem pedante também de começar um assunto, mas tem sua mágica. E lá fomos nós para o tal rafting. 

Foi rápido, mas foi gostoso. Pegamos algumas corredeiras mais fortes, pulamos na água gelada do rio e apreciamos um visual incrível entre montanhas indianas. Em nenhum momento o rolê ficou radical ou desafiador demais, acho que nós já estávamos acostumados com sacolejadas. Mas foi bom sim, recomendo muito para quem um dia estiver por lá e quiser fazer mais que yoga. Agora posso dizer que minha relação com o Ganges ficou bem mais íntima. Eu já nadei nele, eu já rezei nele e eu já engoli água dele (que seria equivalente a um beijo talvez?). Então tá aí, eu já beijei o Ganges de língua. 

E fora tudo que já foi descrito a única atividade que fizemos por lá ainda não mencionada aqui foi yoga em um Ashram, aqueles retiros famosos, sabe? Bom eu não fiz nada disso, mas a Marina e nossas amigas brasileiras acharam um que aceitava pessoas de fora para uma classe e se aventuraram. Eu fiquei pelo hostel me sentindo deslocado perto da galera jovem e cool que frequentava a sala comum. Não é fácil ser uma alma velha presa em um corpo não mais tão jovem e capenga. 

E assim foi Rishikesh, um lugar de muitas andanças, mas também de muita calmaria e refeições lentas. Um lugar que nos ajudou a relaxar em um país tão intenso como a Índia. O lugar onde fizemos novas amizades e renovamos votos com as antigas, como o Ganges. O lugar que me fez pensar nas diferenças entre cidades que permeiam o mesmo rio e o mesmo país, cada uma com sua magia. E o lugar que foi um belo jeito de fechar nossa estadia na Índia.

Uma cerimônia na beira do rio

Sim, isso mesmo. Apesar de termos ficado apenas em 3 cidades (em 17 dias), encurtamos nosso tempo indiano. Decidimos comprar uma das poucas passagens baratas para Maldivas e curtir um pouco de praia e sol. Nada pessoal com a Índia, um lugar incrível, mas já chegamos feridos em seu solo e lá, com sua intensidade, mais algumas cicatrizes se abriram, precisávamos de tempo para descansar e curar. Bom, fica a vontade e necessidade de voltar.

E foi assim que direto de Rishikesh partimos para o aeroporto de Delhi e depois para as Maldivas. Mas isso é assunto da próxima newsletter.

Beijos Quentes

Índia ou a parada (forçada) em Agra

Chegando em Agra e vendo o bichão

Amigos e amigas, eis aqui mais um episódio da sua perda de tempo periódica. Eu não tenho mais nada de interessante ou engraçado para escrever nas introduções. Imagine aqui o seu non-sense de agrado e fique feliz, por favor. 

Os leitores amaldiçoados com uma memória mais potente vão se lembrar que o último relato parou quando estávamos prestes a sair de trem da deliciosamente maluca Varanasi.

Não quis o destino que nós deixássemos um solo tão sagrado de maneira fácil. Chegamos na estação cerca de 8:30 da manhã, correndo igual loucos pois achávamos que perderíamos o nosso transporte. Para nossa alegria não perdemos nada, pois não havia nenhum transporte. Vimos o horário errado e o único trem que sairia para o nosso próximo destino, Agra, só deixaria a estação às 18:30. Como estávamos meio longe da parte mais interessante da cidade e estava um calor de belzebu, resolvemos ficar pela estação mesmo, afinal gastar tempo em hubs de transporte é nossa maior habilidade. Uma coisa curiosa e ainda não bem resolvida (para mim) aconteceu nesse dia. Descobrimos uma área designada apenas para turistas, um lugar amplo e confortável, com vários sofás e ar-condicionado. Bom, não? Sim, mas ao mesmo tempo uma multidão de indianos tinha que esperar pelos seus trens do lado de fora, com o conforto sufocante do chão duro e do clima escaldante. E o pior, o espaço de turistas estava vazio, ficamos apenas eu e a Marina a maior parte do tempo lá. Não, o pior não foi isso, o pior foi que estou aqui criticando essa divisão, mas me aproveitei dela, a hipocrisia nunca foi tão sedutora quanto um sofá aconchegante e um clima refrigerado. Não sei o que eu poderia ter feito para mudar aquilo, mas a verdade é que me acomodei ali no canto e nem pensei muito sobre. Com certeza o espaço era amplo o suficiente para abrigar vários locais. Um canadense que passou brevemente pela sala comentou comigo sobre a estranheza da situação, mas se resignou ao dizer “life is not fair” como um mantra da desigualdade. Talvez ele seja mais verdadeiro consigo mesmo do que eu, que não concordo com o mote triste, quer dizer, a vida não é justa mesmo, mas não acho deveríamos nos acostumar com isso, então concordo com a frase mas não como foi usada. Eu, mesmo incomodado, aproveitei até mais dos peculiares benefícios dessa maldita sala que ele e o máximo que eu fiz por essa situação foi desabafar aqui neste espaço tão visitado quanto a biblioteca municipal de Itu. A viagem serviu também para abrir as cicatrizes de nossas contradições e nos assolar com momentos que parecem pequenos, mas que vira e mexe assombram a consciência. O que resta é fazer algo com esse sentimento.

E depois dessa descida nos recantos mais escuros da minha mente, volto ao relato. Esperamos o dia inteiro na salinha dos turistas e no momento correto fomos para o esperado trem. Como compramos de última hora só tinha lugar no vagão leito sem ar-condicionado, que é no geral piorzinho que sua versão mais cara. Foi uma viagem tranquila, mas longa, mais de 12 horas (o trem atrasou) para percorrer cerca de 600 quilômetros e o nosso vagão não era o lugar mais limpo do planeta. Chegamos sem sono, mas não descansados em Agra. 

Agra Fort ao fundo

Uma breve visão do Taj Mahal, ainda do trem, já nos mostrou a grandeza do mausoléu, o negócio é bonito mesmo, mas mal sabíamos que nossa visita até ele que parecia tão próxima se adiaria por uns bons dias. Era manhã quando o trem nos largou na estação de Agra Fort e só iríamos no Taj na madrugada do próximo dia, tática para evitar o calor e as multidões. Aliás o calor foi o primeiro a nos cumprimentar na cidade, ali era mais abafado e mais insuportável que em Varanasi. No tuktuk a caminho do hotel fuleira de número 3442 da viagem já conseguimos notar como a influência muçulmana criou uma cidade com uma arquitetura bem diferente do que vimos em Varanasi, uma diversificação muito interessante. Deu para reforçar também a (acertada) impressão de que o clima de Agra estava semelhante ao de Mercúrio, o cabisbaixo planeta que fica perto demais do sol. Pense em um lugar quente. 

Agra foi uma cidade de uma grata surpresa, pois lá conhecemos o Caio (@caindopelomundo), outro viajante gente boa demais com quem fizemos amizade. Mas foi só isso mesmo, porque de resto foi só desgraça.

No mesmo dia em que chegamos saímos para desbravar alguns pontos turísticos locais e almoçamos em um lugar chamado Sheroes, um café com um propósito incrível. Ele é organizado e operado por mulheres que sofreram ataques com ácido, algo ainda muito comum na Índia. As mulheres contam suas histórias para os visitantes e percebemos que os ataques têm os mais diversos (e idiotas) motivos, claro que todos pautados em um machismo muito inerte a sociedade local. Sabe uma das maiores lutas dessas mulheres? Que esse ácido não seja vendido de forma tão livre como é. Isso mesmo, no país uma substância que é notoriamente usada com propósitos violentos ainda pode ser comprada por qualquer maluco com ódio no olhar. Enfim, o lugar é muito interessante de ser conhecido e você ainda paga o que quiser, ou seja, você come e faz uma doação para a causa. Nós estávamos meio quebrados e não pagamos nada. BRINCADEIRA, claro que deixamos lá uma quantia que achamos justa e que era condizente com nossa realidade. 

O resto do dia em Agra foi pautado pelo calor (sim, vou falar dele de novo), por nossa tentativa de ver o Taj Mahal de um ângulo diferente ao pôr do sol e pelos milhares de golpes que tentaram nos aplicar. Acho que por ser uma cidade muito turística, Agra é um antro de golpes e pedintes. Entendo que a realidade da população média indiana é bem diferente da nossa e ao verem um turista eles vêm uma forma de sobreviver, mas enche o saco ser enganado toda hora. Agra acabou com nossa paciência para isso. Chegou ao cúmulo de pessoas pedirem para tirar foto com a gente e depois cobrarem. Claro que não caímos na maioria dos golpes, mas toda saída na rua era uma batalha contra contatos não solicitados e maliciosos. Só para reforçar, isso foi muito específico em Agra. Varanasi e Rishikesh foram locais mais tranquilos em relação ao tema. 

O dia foi desgastante, mas pelo menos a noite terminou com risadas e um vinho indiano que o Caio compartilhou conosco. Depois era só dormir embalado pelo álcool, conhecer o Taj na madrugada e ir para o próximo destino. Ou era isso o que a gente planejava. A vida tem uma maneira engraçada de dizer “você não está no controle”. Dessa vez a maneira escolhida foi uma violenta intoxicação alimentar que me acometeu. 

Acordei no meio da noite suando, com muito frio (lembra de quantas vezes falei como estava quente?) e com aquela vontade visceral de sentar no trono. Sim, foi feio, até 40 graus de febre eu tive. Sabe quando você passa mal e sabe exatamente o que causou? Então, eu sei o que foi nesse caso. Foi o que comi no Sheroes, um prato local e gostoso, mas que não conversou legal com meu sistema. Até o momento eu estava comendo apenas comida local sem nenhum problema, mas acho que a sobrecarga de temperos acontece uma hora ou outra. Talvez tenha sido alguma vingança ”carmática” das mulheres do café pelas vezes que já fui escroto na vida. 

O negócio é que eu fiquei em uma condição bem precária, quase a ponto de fazer uma participação em The Walking Dead. Não foi negócio de um ou dois dias, por isso tivemos que ficar mais umas 5 noites em Agra e mudar de hospedagem, nosso primeiro hotel era mais indicado para quem quisesse pegar tétano do que se curar de uma intoxicação alimentar. Inclusive fomos para um lugar muito melhor quase pelo mesmo preço. Foi bom ser “bem tratado” por alguns dias. 

Aliás esses foram dias de repouso e de nada muito emocionante. A não ser que você considere emocionante a queimação interna que tomou conta das minhas entranhas.

Uma das mesquitas que flanqueam o Taj Mahal

A boa notícia é que no fim eu me recuperei. É pelo menos uma boa notícia para mim, espero que para você também. E, depois de recuperado, finalmente fomos ver o maldito Taj Mahal (a essa altura eu já estava com raiva da cidade e tudo que tem nela). Realmente é lindo, uma obra magnífica, um empreendimento humano sensacional feito (provavelmente) às custas de um monte de gente sofredora (como toda grande obra de uns bons anos atrás). Posso ficar aqui falando sobre a simetria, a grandiosidade ou as cores do lugar todo, mas vocês já devem ter lido esse texto umas mil vezes. Basta dizer que é bonito, mas não fiquei emocionado ou embasbacado pelo lugar como muitos ficam. Acho que ver coisas como as montanhas do Vale do Khumbu (Everest), as serras do Vietnã, o mar das Filipinas ou o deserto australiano te deixam mais calejados no quesito “emocionado com visões bonitas”. 

Finalmente tínhamos cumprido nosso objetivo em Agra e era hora de ir embora, mesmo que ainda segurando as tripas no corpo de forma capenga. 

O bichão – visita pós escabrosidades intestinais

Pegamos um ônibus leito “a lá Índia” (veja os stories do @sejogaai para entender) e claro que algumas boas horas, uns atrasos e umas sacolejadas depois estávamos em Rishikesh. 

Mas esse será o assunto do próximo post.

Beijos Quentes

Índia – Varanasi ou capítulo da viagem com o bode gigante

O rio e os ghats

Olá, amigos e amigas. Espero que a sua jornada nessa balsa melancólica chamada vida esteja, no mínimo, tolerável. Caso as coisas estejam ruins, não tema, eis aqui mais um texto para alimentar o escapismo que sua alma deseja. Não é nenhum Machado, Borges ou Roth, mas pelo menos você poderá ler sobre as loucuras de Varanasi e nosso papo com um bode gigante que ficava no meio da rua. Coisa fina. 

Os mais abundantes de ômega 3 devem se lembrar o desafio que foi chegar até Varanasi. Uma jornada que envolveu os mais variados tipos de transporte e muita troca não voluntária de fluído corporal. Foi cansativo, conseguimos deitar em uma cama muito após o marco da meia-noite, mas deu certo. 

Depois de uma necessária e pesada noite de sono nos demos conta que estávamos em Varanasi, um dos lugares mais antigos e caóticos do planeta. A sensação que nos tomou foi um misto de excitação com preguiça, aquela eterna dualidade das pessoas que não sabem se gostam ou não de sair do sofá. Eu explico. Pode parecer uma heresia estar em um lugar incrível como Varanasi e mesmo assim deixar o estado de torpor tomar conta do corpo, mas isso é mais comum do que vocês imaginam. Acontece em Varanasi, em praias paradisíacas das Filipinas ou em escandalosos desertos australianos. A preguiça não escolhe CEP e como já expliquei muitas vezes nesse cansado blog, viajar a longo prazo não é férias, as vezes a pessoa só quer comer mal e ficar o dia inteiro na horizontal. Ainda mais quando sabe que o mundo exterior é uma explosão de sentidos. Era essa nossa sensação após acordar em Varanasi.

Enfim conseguimos vencer o diabrete da letargia e sair. Sem plano mesmo, apenas queríamos olhar a cidade. Estávamos na parte antiga, no meio do emaranhado de corredores apertados entre prédios velhos perto dos ghats, as escadarias que dão para o Ganges. E foi ao passear por essas inesquecíveis escadarias que começamos a entender a cidade. 

A vida acontece no rio. 

Na verdade antes de conseguir andar pela parte interessante de lá tivemos que enfrentar uma pequena gincana para conseguir chips de celular indianos. Não vou comentar o ocorrido porque envolveu muitos passos perdidos, uma pequena dose de irritação e aquela boa e velha pitada de sorte.

Depois de garantir nossa conexão com a rede mundial de computadores conseguimos apreciar o Ganges.

A vida no Ganges

Chegamos lá no fim de tarde e no pouco tempo em que ocupamos as cadeiras cativas do chão empoeirado e pedregoso vimos de tudo: pessoas se banhando no rio, crianças brincando, inúmeros jogos de críquete, uma profusão de animais, grupos de meditação, grupos de oração e, claro, as cremações. Cada ghat tem um propósito específico, ou seja, é como se a margem do rio fosse dividida em setores. Alguns ghats são para cerimônias religiosas que acontecem ao fim de todo dia, outros para banho e yoga e dois específicos são crematórios. Sentar naqueles degraus e apenas observar foi melhor do que qualquer programação da TV de domingo.

Quero só estressar aqui um dos pontos que mencionei acima. As pessoas se banham no Ganges como se não houvesse amanhã, o que para nossa percepção ocidental é basicamente o mesmo que brincar todo dia de roleta-russa. Ao ler um pouco sobre Varanasi é fácil se deparar com a informação de que o Ganges, naquela altura, é bem poluído. Tem de tudo ali, inclusive pedaços humanos que podem passar boiando por você durante uma nadada matinal. Mas isso não impede os moradores, que tem uma relação profunda com o rio e provavelmente um sistema imunológico avantajado, de aproveitarem o Ganges. Eles nadam por diversão, tomam banho, lavam roupas e até bebem a água. A indicação é para que não locais não façam o mesmo e eu vou dizer que não fiquei tentado a fazer. Vi um ou outro ocidental brincando dentro das águas, por isso não sei o quanto esse “medo” do rio é verdade. Mas eu não estava em um bom momento da minha vida para enfrentar uma super-bactéria, por isso não arrisquei.

Os banhos no rio

Observar foi basicamente o que fizemos em Varanasi. Fomos em cerimônias que acontecem ao entardecer, vimos o sol nascer da margem leste do Ganges em um inesquecível passeio de barco e passamos muitas horas com as nádegas no concreto em meio a bagunça da cidade. Também andamos muito pelas vielas estreitas que beiram o rio. Ora elas estavam bloqueadas por motos, ora por bovinos e às vezes pelos dois ao mesmo tempo. Sem falar no lixo que toma conta do chão, um obstáculo a mais na gincana diária da locomoção. Macacos também rondam pelos tetos das antigas construções apenas a procura de almas inocentes para atazanar. Um grupo de símios juvenis atacou de forma impiedosa a Marina, que de alguma forma desafiou eles. Acho que foi o porte físico ameaçador dela que causou a confusão.

As vielas perto do rio

Uma das experiências mais surreais de Varanasi vem do fogo e da carne. São as visitas aos crematórios. Queimar corpos à beira do Ganges (e depois jogar as cinzas nele), um rio sagrado no hinduísmo, é prática comum em Varanasi, uma cidade também sagrada. Por isso a existência dos crematórios ao ar livre. Cada um fica em uma ponta distinta do “circuito dos ghats” e um deles é bem pequeno se comparado ao outro. O crematório principal é uma visão quase lisérgica, uma mistura de fogo, animais, madeira, cinzas, água e fezes. Não é só que pessoas estão sendo queimadas em piras ali na sua frente, bem perto do rio, mas todo o resto do cenário é estranhamente bonito, como se pequenas partes erradas conseguissem formar um todo magnífico. As ruínas que fazem parte do ghat dão um tom certeiro de decadência histórica (e digo isso no melhor sentido possível). Elas são habitadas pelas pessoas que vão para Varanasi para morrer e estão “esperando sua hora”. Parte da tradição é que Varanasi é especialmente auspiciosa para morrer, segundo a crença falecer lá é uma forma de quebrar o ciclo de reencarnações. Por isso as moradias decrépitas cheias de anciãos a espera da facada temporal. 

O crematório

É uma visão única, algo que merece ser vivenciado. Nós ficamos ali por um bom tempo só observando o espetáculo de vida e morte. Ou só morte né, porque ninguém queimado ali quer reencarnar. Também acho que é errado chamar de espetáculo. Certo, vou reformular – “nós ficamos ali por um bom tempo só observando aquilo” – acho que agora está mais certeira a frase.

Mas acompanhar a cremação de humanos em meio a animais e cachoeiras de fezes não foi a experiência mais sensorial que tivemos na cidade.

Esse bode era grande demais, juro.

Varanasi é também conhecida por ter uma relação antiga e ritualística com substâncias que alteram o estado mental e seria pouco imersivo ir até um local desses e não se jogar no processo. Tomamos um lassi (iogurte local) levemente adulterado e saímos para experimentar toda glória da cidade com a percepção mais ajustada para a loucura local. Foi uma das noites mais memoráveis da viagem. Apenas eu, a Marina e nossas tagarelices de pouco sentido. É de uma superficialidade notória de viajantes desgraçar uma experiência religiosa dessa maneira, mas este é um sacrilégio que não me arrependo de ter cometido. Afinal foi nessa noite em que fomos acometidos por um ataque de culpa ao visitar um templo longe das nossas melhores condições, em que fizemos uma importante análise sociopolítica da Índia quase caindo dos degraus de um dos ghats e o mais importante, foi quando conhecemos nosso amigo bode. Como já disse a cidade é também tomada por animais, principalmente vacas, mas durante uma caminhada pelos ghats vimos esse bode que era quase do tamanho de um cavalo. Um exemplar mastodôntico do género Capra. O estado mental do momento nos impeliu a admirá-lo e tentar até puxar um papo, mas ele era era tímido e não respondeu. Ainda bem que as raízes do bom-senso me impediram de tentar montar no admirável ser, mas que eu quis, eu quis.

“olha lá os dois turistas bocozão”

Varanasi é um lugar intenso, mas no fim das contas gostamos tanto da experiência que estendemos nossa estadia, mesmo com o calor infernal que fazia durante o dia. É também um lugar que cansa, assusta e te afeta de algumas maneiras inesperadas, mas que merece muito ser visitado.

Depois de lá começamos mais um round de transportes capengas pela Índia e acho que foi aí que nossa energia começou a vacilar novamente, mas esse é assunto de um próximo relato.

Beijos Quentes

Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 3

Os últimos dias de trilha, a mais de 5.000 metros.

Olá companheiros dos fins dos tempos. Como estamos todo aguardando o inevitável colapso da sociedade, sugiro que você distraia-se com a leitura deste post. A essa altura você já viu todas séries possíveis mesmo, não custa nada dar uma chance para meu texto.

Esse é o derradeiro capítulo de nossa aventura Himalaia. No último post contei sobre como cruzamos vales gelados que ficam a mais de 5.000 metros de altura para chegar até Lobuche, a vila maldita. Um lugar sombrio, com clima denso, em que todos estão com cara fechada e apenas tentando sobreviver à aventura. 

Acho que o desanimo bateu em Lobuche porque estávamos pressentindo o que nos esperava, pois após uma noite fria no nosso quarto que mais parecia um cativeiro, que só conseguimos porque nossos amigos brasileiros (Daniel, Baia e Samir) cederam para nós, acordamos agraciados por uma bela tempestade de neve, daquelas que não deixam nem o sol atravessar as nuvens. Caso não tivéssemos conseguido um lugar para dormir estaríamos mais gelado que o Leo DiCaprio no fim de Titanic. Graças a deus pelo quarto/cativeiro. 

A temperatura caiu muito durante a noite, a neve tomou conta do cenário e o dia que se iniciava estava tomado por uma espécie de névoa desoladora. Começamos a trilha sem conseguir enxergar mais do que poucos palmos a nossa frente e o gelo que agora estava presente no solo causava os mais bizarros acidentes. Ver gente parando no meio da trilha para colocar grampos na bota não é uma visão muito acalentadora quando sua melhor e única ferramenta de caminhada é seu corpo meio surrado e acima do peso. De novo o clima “opressor” de Lobuche tomou conta de nossos corações, mas eis que após uma hora de caminhada a luz venceu, o dia se abriu e o sol tomou conta do céu. Nunca fui desses hippies que dão bom dia pro sol, inclusive julgo a turma que faz isso (se você faz, desculpe, já te julguei), mas nesse dia eu quis abraçar o astro rei com todas minhas forças, mesmo que isso fosse causar uma ou outra queimadura em meu corpinho. 

O caminho com a névoa – aí já estava até que bom

O cenário que até então era depressivo transformou-se em uma das paisagens mais lindas que já vi. Estávamos em uma parte plana do vale do Khumbu (situação rara), indo em direção a uma pequena cadeia de colinas rochosas que precisaríamos cruzar para chegar em Gorak Shep, a última vila antes do nosso objetivo final, o campo base do Everest. A nossa frente as já mencionadas colinas, ao lado direito o glaciar do Khumbu e montanhas como Lola, a esquerda mais montanhas que não sei o nome. Tudo branco, imaculado. Parte de uma outra dimensão. Não gosto de neve, mas deve admitir que o inferno branco deixou a paisagem muito mais linda – foi um passeio em um planeta desconhecido. Era complicado decidir entre andar ou apreciar o visual.

Foi um dos momentos em que tive certeza que aquela loucura e todas outras loucuras da viagem eram parte de decisão muito acertada em nossas vidas. Um daqueles raros momentos de epifania em que você se sente em paz com um caminho traçado e ou uma decisão tomada. Dessa vez a natureza empurrou essa epifania pela minha goela abaixo. Qualquer perrengue valeria a pena para viver aquilo e nem no Everest nós tínhamos chegado ainda. 

Rafael e Marina, exploradores interdimensionais presos em uma realidade feita de sal ou algo assim. Esse era o tipo de viagem que estava passando pela minha cabeça durante a ebriedade causada pelo momento de alegria, mas logo o frio, a fome e a sede fizeram questão de destruir o momento. Nada como a vida real martelando as durezas da realidade em nossos sonhos. Continuamos andando, era o que dava pra fazer. 

Marina olhando pelo vale que tínhamos atravessado

Atravessamos os amontoados de rocha que se colocaram de forma muito inconveniente no meio de nossa amada planície de neve e logo estávamos em Gorak Shep (5.164 metros) um triste amontoado de casas e resistência humana em um lugar horrível para se existir. Ainda desgosto mais de Lobuche, mas Gorak Shep foi um péssimo local para dormir. Lá é frio. É mais que frio, é muito frio. É gelado, glacial, muito além do sub-zero. Isso em uma época que não deveria ser tão fria, mas tivemos a “sorte” de pegar uma primavera atípica na região. Para melhorar ficamos em um lodge em que o quarto oferecia exatamente nenhuma proteção contra o frio. Para vocês terem ideia o telhado era vazado e praticamente nevava em nossas camas. A sala comum do lugar também não era tão quente quanto às outras que passamos, e todo mundo lá só tinha cara de triste e sofredor. Resumindo, não sei se deu para perceber mas não gostamos muito de dormir em Gorak Shep.

Desconhecido que entrou na minha foto.

Porém estou me adiantando na história, pois quando chegamos lá ainda estávamos animados, era dia, e só faltavam algumas horas para chegarmos ao basecamp. O itinerário era ir de uma vila para outra e até o campo base e voltar no mesmo dia. 

Almoçamos no lodge, esperamos nossos amigos brasileiros, chegarem a vila  e saímos todos juntos em direção ao tão esperado destino. Aliás eu só mencionei eles de forma superficial até agora, mas conhecemos esse grupo de brasileiros no nosso primeiro dia de trilha e apesar de não andarmos juntos, nos encontramos bastante pelo percurso. Pessoal bem do gente boa. 

O começo da caminhada até o acampamento base.

Já era de tarde e o dia tinha perdido seu brilho, e como acontecia na maioria das tardes naquela região, ficou cinza e nublado. O caminho até o acampamento base foi tranquilo e cheio de risadas. Para chegar lá de Gorak Shep foi necessário atravessar uma série de morros irregulares cheios de mini precipícios, com a companhia do glaciar ao nosso lado direito. Mais ou menos o que tínhamos enfrentado entre Lobuche e Gorak Shep. 

E quando as tendas amarelas das expedições que sobem o Everest já estavam bem próximas e visíveis começou uma bela de uma nevasca. Pisamos no acampamento base sendo castigados por um odioso amontoado de neve. Tudo ficou mais frio, mais cinza e mais escorregadio. Um momento que deveria ser de emoção e orgulho virou algo nas linhas de “vamos tirar uma foto ali com a plaquinha que prova que chegamos até aqui e ir embora deste inferno logo”. 

O acampamento base – a tempestade tinha acabado de começar. A montanha atrás NÃO é o Everest.

A neve deixou a volta muito mais emocionante e fomos nos equilibrando entre pequenos desfiladeiros e pedras soltas. Estava bem frio, estávamos molhados e cansados, mas mesmo assim foi nesse momento que a nossa ficha caiu, que percebemos o que tínhamos acabado de fazer. Chegamos no basecamp e ainda estávamos enfrentando uma nevasca, coisa que não é para qualquer um. Me senti como um antigo viking cruzando uma planície gelada com meus companheiros de exploração. Não tenho a menor ideia porque pensei nisso, afinal o que tem a ver um viking com os Himalaias? Mas eu sou a pessoa que às vezes pensa que montar em um avestruz é o mais próximo que podemos chegar de montar em um T-Rex, então perdoem a falta de coerência da minha mente. 

Foi sensacional, foi marcante e foi foda. Mas voltar para Gorak Shep foi horrível. Como eu já disse, nossas roupas estavam encharcadas e a vila é o inferno gelado na terra. Demoramos muito para nos aquecermos de novo e tivemos que ficar boa parte da noite em frente ao fogão/caldeira do lodge tentando secar as únicas roupas de frio que tínhamos. E aí na hora de dormir ainda tivemos que enfrentar um quarto com uma temperatura negativa. Eu tava quase colocando fogo no meu saco de dormir para me aquecer um pouco. Iria morrer? Sim. Provavelmente causaria uma tragédia? Sim. Mas com certeza eu iria desta para melhor bem quentinho e feliz. 

No acampamento base – não parece mas a tempestade estava bem forte.

Foi uma noite tenebrosa. Talvez mais pela minha ansiedade do que pelas dificuldades do clima. Não consegui pregar o olho. Talvez pelo de que teria que acordar às 5 da manhã para subir um pico próximo da vila chamado Kala Patthar. A Marina estava tranquila, já tinha pulado fora dessa. O Kala Patthar é o pico mais alto que alguém pode subir sem conhecimento técnico, basicamente uma ladeira gigante que te leva até quase 5.600 metros de altura. A ideia é subir bem cedo pois assim é possível ver o sol nascendo atrás do Everest e ainda dá tempo de voltar e fazer o dia render, afinal o plano era começar nossa descida de volta para Lukla no mesmo dia. Sei que minha insônia foi tanta que acordei nosso guia/porter umas da 4 da manhã e partimos mais cedo para a empreitada. 

Logo que saímos percebi que o céu estava muito claro, com as estrelas brilhando intensamente no firmamento. De longe dava para ver as lanternas dos trekkers que já tinham começado a subida ao cume. Não demorou e comecei a me arrepender da minha decisão. Talvez tenha sido efeito das roupas ainda semi molhadas ou só o clima que estava mais inclemente ainda, mas comecei a sentir um frio avassalador nos pés. Começamos a subida e eu dei um belo de um gás deixando muita gente pra trás. Também quase cuspi meu pulmão no processo e quando descobri que minha arrancada não serviu de nada, pois ainda tínhamos umas 2 horas de subida, quis chorar. O caminho estava tomado pela neve, algo incomum para essa época do ano, o que deixou a trilha mais cansativa e traiçoeira. Para melhorar tudo escorreguei, como faço sempre, pois acho que tenho algum gene que me faz escorregar mais do que o normal, e enfiei a mão sem luva na neve, o que foi um ótimo remédio para curar o frio que sentia no pé, porque aí eu percebi que dava pra ser muito pior. Lembrando que ainda era de madrugada e o sol não tinha aparecido ainda. Embora a vista do vale do Khumbu iluminado pelas estrelas tenha sido quase onírica, minha mão estava virando uma garra atrofiada de tanto frio. Eu só queria que o maldito sol surgisse logo por trás do Everest. 

Subida do Kala Patthar – o sol estava quase aparecendo.

A subida até o pico foi muito difícil, talvez o único momento na trilha toda em que eu me senti verdadeiramente cansado e sem ar. Não sei se fui em um ritmo muito apressado ou se sou mole mesmo, mas sei que quando cheguei lá só queria sentar e descansar. Só depois de alguns minutos que consegui tirar algumas fotos e apreciar a vista, uma visão realmente incrível de um vale gelado cercado pelas maiores montanhas do mundo. Uma demonstração de pura potência da natureza. Fantástico e surreal. Mas eu estava com muito frio e só queria sair dali, por isso logo comecei a descer. Encontrei dois amigos brasileiros chegando, até mais acabados do que eu, e ainda avistei um rapaz vomitando ao longo da trilha. Pelo menos não tinha sido difícil só pra mim. Na descida eu só queria me jogar na neve e ir rolando até lá embaixo, um jeito mais rápido, fácil e perigoso de cumprir o objetivo. Mas não, o nosso frágil corpo humano impede esses momentos de diversão, por isso tive que ir escorregando pela trilha, igual um bocó. Mas finalmente cheguei na base e voltei pro lodge, com uma carinha tão sadia quanto a de alguém que acabou de sobreviver a uma explosão atômica. Mal conseguia falar. Foi sensacional ter atingido o cume do Kala Patthar, poder dizer que já escalei algo nos Himalaias e cheguei a 5.600 metros de altitude, mas a melhor parte da experiência toda foi voltar. 

O sol quase aparecendo atrás do Everest (o pico do meio)

E o dia não acabou aí. Depois de toda provação nas alturas só tive tempo de tomar café e logo iniciamos nossa descida. Andamos cerca de mais 6 horas e passamos de 5.200 metros para 4.200. Passamos por precipícios escorregadios e lamacentos, ribanceiras trapaceiras e trilhas inundadas. Tudo culpa do amontoado de neve das nevascas recentes que começava a derreter. Claro que eu, que já levo mais tropeções que o ser humano médio e ainda estava em condições físicas horríveis pela subida feita mais cedo, quase me esborrachei no chão várias vezes. Me sentia uma casca de ser humano se arrastando pelo gelo. Até os trekkers mais idosos me ultrapassaram (e ainda deviam me xingar). Eu sei que esse tipo de trilha não é sobre competição com os outros, mas fica difícil se sentir bem quando até a velha surda da Praça é Nossa é mais rápida que você. E olha que sou acostumado a perder para a terceira idade, certa vez tentei acompanhar o ritmo do doutor Drauzio Varella, que encontrei correndo no Ibirapuera, e quase morri. Enfim, foi nesse ritmo modorrento que chegamos em Periche, uma cidade no outro lado do morro que cerca Dingboche. Lá conseguimos finalmente descansar com mais conforto e dormir bem. 

Vou resumir um pouco a volta, pois se não precisarei de umas três posts para contar tudo sobre a experiência. A única parte diferente do caminho de ida foi passar por Periche. Para chegar e sair de lá andamos pela porção baixa do que parecia ser um antigo leito de rio. Na ida tínhamos andado por cima do morro que acompanha esse leito e realmente a visão mudou. Uma mistura de alagado com deserto cinza tomou conta do cenário sempre vigiado ao fundo pelo Ama Dablam. Depois de cruzar uma ponte e andar por uma série de incríveis penhascos voltamos para o “caminho normal”. O retornar foi uma experiência nova, ângulos diferentes transformaram vistas teoricamente familiares em novidade. Voltar também foi cansativo, afinal para descer caminhamos em 3 dias o percurso que subimos em 8. Haja força no joelho para aguentar o tranco. 

O caminho da volta

No fim a vontade de terminar a experiência toma conta do espírito, não tem jeito. Sabe aquela sensação de “ok, já cumpri meu dever agora só quero relaxar”? Então, talvez isso também tenha nos deixados mais preguiçoso e dificultado um pouco o retorno. 

Foi também um alento sair do frio insuportável e chegar apenas no nível do frio meramente tolerável. Alegria maior ainda foi quando voltamos a ver árvores, florestas e bosques. 

E uma hora acabamos chegando em Lukla, de uma forma meio sonolenta e arrastada, mas chegamos. O único pico de emoção na volta foi causado pela notícia da morte de um companheiro de trilha, ele provavelmente escorregou em um dos trechos mais tranquilos do percurso, o que nos fez pensar em todos buracos, ravinas e desfiladeiros lamacentos e escorregadios que enfrentamos. A vida é estranha e quis o destino que dois seres humanos de pouca estatura e uma tendência para cair no chão conseguissem chegar são e salvos após essa aventura. Ainda bem. 

Mas os perigos da jornada ainda não estavam todos superamos. Nós chegamos em Lukla e pelo menos a andança tinha parado, mas no dia seguinte ainda precisaríamos enfrentar o maldito aeroporto daquele lugar. Eu já descrevi bem o nervoso que os aviões e a estrutura de Lukla e Ramechhap me causaram na ida, mas com certeza é pior sair do que chegar em Lukla. A porcaria do aeroporto fica na base de um penhasco e aquele avião bi-motor sem vergonha tem que acelerar com tudo e se jogar da montanha em um ato de fé que eu não estava preparado para cometer. Passei um nervoso ali que nem os desconfortos intestinais na Cidade Proibida tinham me causado. Um rapaz no nosso voo que até chorou. Foi intenso e agora, contando essa história, eu acho que é uma experiência válida e bacana.  Mas que na hora dá um baita medo, a isso dá. 

A desgraça da pista do aeroporto acaba ali mesmo. É um penhasco.

O importante foi que deu tudo certo, pousamos em Ramechhap e após mais uma van da morte de algumas boas horas (meu deus o Nepal poderia ser um pouquinho mais plano), chegamos em Katmandu. Estava terminada uma das experiências mais especiais da viagem. 

Marina e o Lola

Ainda ficamos alguns dias no Nepal e depois fizemos uma travessia insana para a Índia por terra, tópico do próximo post.

Beijos quentes.