Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 3

Os últimos dias de trilha, a mais de 5.000 metros.

Olá companheiros dos fins dos tempos. Como estamos todo aguardando o inevitável colapso da sociedade, sugiro que você distraia-se com a leitura deste post. A essa altura você já viu todas séries possíveis mesmo, não custa nada dar uma chance para meu texto.

Esse é o derradeiro capítulo de nossa aventura Himalaia. No último post contei sobre como cruzamos vales gelados que ficam a mais de 5.000 metros de altura para chegar até Lobuche, a vila maldita. Um lugar sombrio, com clima denso, em que todos estão com cara fechada e apenas tentando sobreviver à aventura. 

Acho que o desanimo bateu em Lobuche porque estávamos pressentindo o que nos esperava, pois após uma noite fria no nosso quarto que mais parecia um cativeiro, que só conseguimos porque nossos amigos brasileiros (Daniel, Baia e Samir) cederam para nós, acordamos agraciados por uma bela tempestade de neve, daquelas que não deixam nem o sol atravessar as nuvens. Caso não tivéssemos conseguido um lugar para dormir estaríamos mais gelado que o Leo DiCaprio no fim de Titanic. Graças a deus pelo quarto/cativeiro. 

A temperatura caiu muito durante a noite, a neve tomou conta do cenário e o dia que se iniciava estava tomado por uma espécie de névoa desoladora. Começamos a trilha sem conseguir enxergar mais do que poucos palmos a nossa frente e o gelo que agora estava presente no solo causava os mais bizarros acidentes. Ver gente parando no meio da trilha para colocar grampos na bota não é uma visão muito acalentadora quando sua melhor e única ferramenta de caminhada é seu corpo meio surrado e acima do peso. De novo o clima “opressor” de Lobuche tomou conta de nossos corações, mas eis que após uma hora de caminhada a luz venceu, o dia se abriu e o sol tomou conta do céu. Nunca fui desses hippies que dão bom dia pro sol, inclusive julgo a turma que faz isso (se você faz, desculpe, já te julguei), mas nesse dia eu quis abraçar o astro rei com todas minhas forças, mesmo que isso fosse causar uma ou outra queimadura em meu corpinho. 

O caminho com a névoa – aí já estava até que bom

O cenário que até então era depressivo transformou-se em uma das paisagens mais lindas que já vi. Estávamos em uma parte plana do vale do Khumbu (situação rara), indo em direção a uma pequena cadeia de colinas rochosas que precisaríamos cruzar para chegar em Gorak Shep, a última vila antes do nosso objetivo final, o campo base do Everest. A nossa frente as já mencionadas colinas, ao lado direito o glaciar do Khumbu e montanhas como Lola, a esquerda mais montanhas que não sei o nome. Tudo branco, imaculado. Parte de uma outra dimensão. Não gosto de neve, mas deve admitir que o inferno branco deixou a paisagem muito mais linda – foi um passeio em um planeta desconhecido. Era complicado decidir entre andar ou apreciar o visual.

Foi um dos momentos em que tive certeza que aquela loucura e todas outras loucuras da viagem eram parte de decisão muito acertada em nossas vidas. Um daqueles raros momentos de epifania em que você se sente em paz com um caminho traçado e ou uma decisão tomada. Dessa vez a natureza empurrou essa epifania pela minha goela abaixo. Qualquer perrengue valeria a pena para viver aquilo e nem no Everest nós tínhamos chegado ainda. 

Rafael e Marina, exploradores interdimensionais presos em uma realidade feita de sal ou algo assim. Esse era o tipo de viagem que estava passando pela minha cabeça durante a ebriedade causada pelo momento de alegria, mas logo o frio, a fome e a sede fizeram questão de destruir o momento. Nada como a vida real martelando as durezas da realidade em nossos sonhos. Continuamos andando, era o que dava pra fazer. 

Marina olhando pelo vale que tínhamos atravessado

Atravessamos os amontoados de rocha que se colocaram de forma muito inconveniente no meio de nossa amada planície de neve e logo estávamos em Gorak Shep (5.164 metros) um triste amontoado de casas e resistência humana em um lugar horrível para se existir. Ainda desgosto mais de Lobuche, mas Gorak Shep foi um péssimo local para dormir. Lá é frio. É mais que frio, é muito frio. É gelado, glacial, muito além do sub-zero. Isso em uma época que não deveria ser tão fria, mas tivemos a “sorte” de pegar uma primavera atípica na região. Para melhorar ficamos em um lodge em que o quarto oferecia exatamente nenhuma proteção contra o frio. Para vocês terem ideia o telhado era vazado e praticamente nevava em nossas camas. A sala comum do lugar também não era tão quente quanto às outras que passamos, e todo mundo lá só tinha cara de triste e sofredor. Resumindo, não sei se deu para perceber mas não gostamos muito de dormir em Gorak Shep.

Desconhecido que entrou na minha foto.

Porém estou me adiantando na história, pois quando chegamos lá ainda estávamos animados, era dia, e só faltavam algumas horas para chegarmos ao basecamp. O itinerário era ir de uma vila para outra e até o campo base e voltar no mesmo dia. 

Almoçamos no lodge, esperamos nossos amigos brasileiros, chegarem a vila  e saímos todos juntos em direção ao tão esperado destino. Aliás eu só mencionei eles de forma superficial até agora, mas conhecemos esse grupo de brasileiros no nosso primeiro dia de trilha e apesar de não andarmos juntos, nos encontramos bastante pelo percurso. Pessoal bem do gente boa. 

O começo da caminhada até o acampamento base.

Já era de tarde e o dia tinha perdido seu brilho, e como acontecia na maioria das tardes naquela região, ficou cinza e nublado. O caminho até o acampamento base foi tranquilo e cheio de risadas. Para chegar lá de Gorak Shep foi necessário atravessar uma série de morros irregulares cheios de mini precipícios, com a companhia do glaciar ao nosso lado direito. Mais ou menos o que tínhamos enfrentado entre Lobuche e Gorak Shep. 

E quando as tendas amarelas das expedições que sobem o Everest já estavam bem próximas e visíveis começou uma bela de uma nevasca. Pisamos no acampamento base sendo castigados por um odioso amontoado de neve. Tudo ficou mais frio, mais cinza e mais escorregadio. Um momento que deveria ser de emoção e orgulho virou algo nas linhas de “vamos tirar uma foto ali com a plaquinha que prova que chegamos até aqui e ir embora deste inferno logo”. 

O acampamento base – a tempestade tinha acabado de começar. A montanha atrás NÃO é o Everest.

A neve deixou a volta muito mais emocionante e fomos nos equilibrando entre pequenos desfiladeiros e pedras soltas. Estava bem frio, estávamos molhados e cansados, mas mesmo assim foi nesse momento que a nossa ficha caiu, que percebemos o que tínhamos acabado de fazer. Chegamos no basecamp e ainda estávamos enfrentando uma nevasca, coisa que não é para qualquer um. Me senti como um antigo viking cruzando uma planície gelada com meus companheiros de exploração. Não tenho a menor ideia porque pensei nisso, afinal o que tem a ver um viking com os Himalaias? Mas eu sou a pessoa que às vezes pensa que montar em um avestruz é o mais próximo que podemos chegar de montar em um T-Rex, então perdoem a falta de coerência da minha mente. 

Foi sensacional, foi marcante e foi foda. Mas voltar para Gorak Shep foi horrível. Como eu já disse, nossas roupas estavam encharcadas e a vila é o inferno gelado na terra. Demoramos muito para nos aquecermos de novo e tivemos que ficar boa parte da noite em frente ao fogão/caldeira do lodge tentando secar as únicas roupas de frio que tínhamos. E aí na hora de dormir ainda tivemos que enfrentar um quarto com uma temperatura negativa. Eu tava quase colocando fogo no meu saco de dormir para me aquecer um pouco. Iria morrer? Sim. Provavelmente causaria uma tragédia? Sim. Mas com certeza eu iria desta para melhor bem quentinho e feliz. 

No acampamento base – não parece mas a tempestade estava bem forte.

Foi uma noite tenebrosa. Talvez mais pela minha ansiedade do que pelas dificuldades do clima. Não consegui pregar o olho. Talvez pelo de que teria que acordar às 5 da manhã para subir um pico próximo da vila chamado Kala Patthar. A Marina estava tranquila, já tinha pulado fora dessa. O Kala Patthar é o pico mais alto que alguém pode subir sem conhecimento técnico, basicamente uma ladeira gigante que te leva até quase 5.600 metros de altura. A ideia é subir bem cedo pois assim é possível ver o sol nascendo atrás do Everest e ainda dá tempo de voltar e fazer o dia render, afinal o plano era começar nossa descida de volta para Lukla no mesmo dia. Sei que minha insônia foi tanta que acordei nosso guia/porter umas da 4 da manhã e partimos mais cedo para a empreitada. 

Logo que saímos percebi que o céu estava muito claro, com as estrelas brilhando intensamente no firmamento. De longe dava para ver as lanternas dos trekkers que já tinham começado a subida ao cume. Não demorou e comecei a me arrepender da minha decisão. Talvez tenha sido efeito das roupas ainda semi molhadas ou só o clima que estava mais inclemente ainda, mas comecei a sentir um frio avassalador nos pés. Começamos a subida e eu dei um belo de um gás deixando muita gente pra trás. Também quase cuspi meu pulmão no processo e quando descobri que minha arrancada não serviu de nada, pois ainda tínhamos umas 2 horas de subida, quis chorar. O caminho estava tomado pela neve, algo incomum para essa época do ano, o que deixou a trilha mais cansativa e traiçoeira. Para melhorar tudo escorreguei, como faço sempre, pois acho que tenho algum gene que me faz escorregar mais do que o normal, e enfiei a mão sem luva na neve, o que foi um ótimo remédio para curar o frio que sentia no pé, porque aí eu percebi que dava pra ser muito pior. Lembrando que ainda era de madrugada e o sol não tinha aparecido ainda. Embora a vista do vale do Khumbu iluminado pelas estrelas tenha sido quase onírica, minha mão estava virando uma garra atrofiada de tanto frio. Eu só queria que o maldito sol surgisse logo por trás do Everest. 

Subida do Kala Patthar – o sol estava quase aparecendo.

A subida até o pico foi muito difícil, talvez o único momento na trilha toda em que eu me senti verdadeiramente cansado e sem ar. Não sei se fui em um ritmo muito apressado ou se sou mole mesmo, mas sei que quando cheguei lá só queria sentar e descansar. Só depois de alguns minutos que consegui tirar algumas fotos e apreciar a vista, uma visão realmente incrível de um vale gelado cercado pelas maiores montanhas do mundo. Uma demonstração de pura potência da natureza. Fantástico e surreal. Mas eu estava com muito frio e só queria sair dali, por isso logo comecei a descer. Encontrei dois amigos brasileiros chegando, até mais acabados do que eu, e ainda avistei um rapaz vomitando ao longo da trilha. Pelo menos não tinha sido difícil só pra mim. Na descida eu só queria me jogar na neve e ir rolando até lá embaixo, um jeito mais rápido, fácil e perigoso de cumprir o objetivo. Mas não, o nosso frágil corpo humano impede esses momentos de diversão, por isso tive que ir escorregando pela trilha, igual um bocó. Mas finalmente cheguei na base e voltei pro lodge, com uma carinha tão sadia quanto a de alguém que acabou de sobreviver a uma explosão atômica. Mal conseguia falar. Foi sensacional ter atingido o cume do Kala Patthar, poder dizer que já escalei algo nos Himalaias e cheguei a 5.600 metros de altitude, mas a melhor parte da experiência toda foi voltar. 

O sol quase aparecendo atrás do Everest (o pico do meio)

E o dia não acabou aí. Depois de toda provação nas alturas só tive tempo de tomar café e logo iniciamos nossa descida. Andamos cerca de mais 6 horas e passamos de 5.200 metros para 4.200. Passamos por precipícios escorregadios e lamacentos, ribanceiras trapaceiras e trilhas inundadas. Tudo culpa do amontoado de neve das nevascas recentes que começava a derreter. Claro que eu, que já levo mais tropeções que o ser humano médio e ainda estava em condições físicas horríveis pela subida feita mais cedo, quase me esborrachei no chão várias vezes. Me sentia uma casca de ser humano se arrastando pelo gelo. Até os trekkers mais idosos me ultrapassaram (e ainda deviam me xingar). Eu sei que esse tipo de trilha não é sobre competição com os outros, mas fica difícil se sentir bem quando até a velha surda da Praça é Nossa é mais rápida que você. E olha que sou acostumado a perder para a terceira idade, certa vez tentei acompanhar o ritmo do doutor Drauzio Varella, que encontrei correndo no Ibirapuera, e quase morri. Enfim, foi nesse ritmo modorrento que chegamos em Periche, uma cidade no outro lado do morro que cerca Dingboche. Lá conseguimos finalmente descansar com mais conforto e dormir bem. 

Vou resumir um pouco a volta, pois se não precisarei de umas três posts para contar tudo sobre a experiência. A única parte diferente do caminho de ida foi passar por Periche. Para chegar e sair de lá andamos pela porção baixa do que parecia ser um antigo leito de rio. Na ida tínhamos andado por cima do morro que acompanha esse leito e realmente a visão mudou. Uma mistura de alagado com deserto cinza tomou conta do cenário sempre vigiado ao fundo pelo Ama Dablam. Depois de cruzar uma ponte e andar por uma série de incríveis penhascos voltamos para o “caminho normal”. O retornar foi uma experiência nova, ângulos diferentes transformaram vistas teoricamente familiares em novidade. Voltar também foi cansativo, afinal para descer caminhamos em 3 dias o percurso que subimos em 8. Haja força no joelho para aguentar o tranco. 

O caminho da volta

No fim a vontade de terminar a experiência toma conta do espírito, não tem jeito. Sabe aquela sensação de “ok, já cumpri meu dever agora só quero relaxar”? Então, talvez isso também tenha nos deixados mais preguiçoso e dificultado um pouco o retorno. 

Foi também um alento sair do frio insuportável e chegar apenas no nível do frio meramente tolerável. Alegria maior ainda foi quando voltamos a ver árvores, florestas e bosques. 

E uma hora acabamos chegando em Lukla, de uma forma meio sonolenta e arrastada, mas chegamos. O único pico de emoção na volta foi causado pela notícia da morte de um companheiro de trilha, ele provavelmente escorregou em um dos trechos mais tranquilos do percurso, o que nos fez pensar em todos buracos, ravinas e desfiladeiros lamacentos e escorregadios que enfrentamos. A vida é estranha e quis o destino que dois seres humanos de pouca estatura e uma tendência para cair no chão conseguissem chegar são e salvos após essa aventura. Ainda bem. 

Mas os perigos da jornada ainda não estavam todos superamos. Nós chegamos em Lukla e pelo menos a andança tinha parado, mas no dia seguinte ainda precisaríamos enfrentar o maldito aeroporto daquele lugar. Eu já descrevi bem o nervoso que os aviões e a estrutura de Lukla e Ramechhap me causaram na ida, mas com certeza é pior sair do que chegar em Lukla. A porcaria do aeroporto fica na base de um penhasco e aquele avião bi-motor sem vergonha tem que acelerar com tudo e se jogar da montanha em um ato de fé que eu não estava preparado para cometer. Passei um nervoso ali que nem os desconfortos intestinais na Cidade Proibida tinham me causado. Um rapaz no nosso voo que até chorou. Foi intenso e agora, contando essa história, eu acho que é uma experiência válida e bacana.  Mas que na hora dá um baita medo, a isso dá. 

A desgraça da pista do aeroporto acaba ali mesmo. É um penhasco.

O importante foi que deu tudo certo, pousamos em Ramechhap e após mais uma van da morte de algumas boas horas (meu deus o Nepal poderia ser um pouquinho mais plano), chegamos em Katmandu. Estava terminada uma das experiências mais especiais da viagem. 

Marina e o Lola

Ainda ficamos alguns dias no Nepal e depois fizemos uma travessia insana para a Índia por terra, tópico do próximo post.

Beijos quentes.

Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 1

vista comum durante a trilha

Olá fiéis seguidores desta estranha jornada pelo mundo e por minhas desventuras intestinais. Chegou o dia de vocês apreciarem mais um conto sobre a “viagem”. Quer saber por que eu usei aspas na palavra viagem? Porque na verdade fiquei 12 meses sem sair de um quarto escuro na casa da minha mãe, alternando entre o videogame e chorar em posição fetal. Essa história de volta ao mundo foi apenas uma fachada para vocês gostarem de mim. Brincadeira. Ou não. Ninguém nunca saberá a verdade. 

E agora vamos falar sobre o Nepal e o nosso trekking.

Saímos de Perth com um certo peso nas almas, uma mistura de receio com preguiça, afinal estávamos deixando um cantinho organizado e familiar para nos jogarmos no caos de sons e cores que é a Ásia. Adoramos nossos 7 meses asiáticos, mas eles nos cansaram bastante. Como seria nossa volta?

Após um atraso considerável no voo, umas voltas nervosas de avião por cima do aeroporto de Katmandu e um pouso inesperado em Calcutá, finalmente conseguimos chegar. Estávamos de volta para o rebuliço asiático. 

O Nepal já mostrou sua cara logo no aeroporto, nos deparamos com aquilo tudo que já tínhamos visto de uma maneira ou de outra por onde passamos: aglomerações ao invés de filas, taxistas abusivos, pessoas invadindo seu espaço pessoal para vender tours, multidões, buzinas, cores, poeira e tuktuks. O trânsito foi uma esperada confusão – mistura perigosa de falta de leis (ou fiscalização) com motoristas ousados demais. Katmandu não é grande e logo que saímos do aeroporto nos deparamos com vielas iluminadas por neon poderosos, construções tradicionais, templos e restaurantes em “buracos” na parede. E assim percebemos que estávamos é com saudades daquele caos todo. Foi uma volta da sensação de aventura, da dinâmica, do movimento e de viajar no “modo difícil”. Ter ido para Austrália foi incrível, inegável, mas o sentimento é outro ao chegar em cantos mais caóticos do mundo. 

A confusão de Katmandu

Katmandu é fascinante e peculiar, mas não dá para falar que é uma boa cidade. Tem muita história, alguns templos sensacionais, um bairro turístico muito interessante, mas é suja (não como a Índia), poeirenta e ainda muito destruída, consequência do terremoto de 2015. Triste ver como o dinheiro de ajudas internacionais e dos milhares de turistas que vão para lá todo ano praticamente não é revertido em benefício da população. 

Thamel, o canto onde ficam os turistas, é uma cidade a parte. Apesar de não refletir a realidade de Katmandu, é interessante. Conta com vários restaurantes bons, bares de origem suspeita, milhares de lojas de equipamento de caminhada e lojas de souvenir e tecidos, todos espremidos em vielas antigas e de arquitetura única. Parece um ponto de convergência de exploradores do mundo todo. 

Ficamos apenas dois dias lá antes de começarmos nossa própria aventura. Foram dois dias sem tempo nem para ir ao banheiro, pois cuidamos de todos preparativos para nossa trilha. Fechamos tudo com a agência e compramos equipamentos e suprimento que faltavam. Inclusive se você estiver precisando de casacos, jaquetas, calças ou qualquer coisa da North Face recomendo dar um pulo em Katmandu. Lá tem tudo o que você imaginar, só que muito mais barato. Claro, você pode acabar adquirindo produtos da Face North ou North Fade sem saber, mas mesmo assim vale a pena. Comprei vários produtos genéricos e todos aguentaram o tranco durante nossas andanças himalaias. 

Aliás, a trilha. Melhor explicar um pouco sobre ela antes de entrar em detalhes sobre os próximos dias. Bom, nosso grande objetivo ao ir para o Nepal era fazer um trekking até o acampamento base do Everest. Esse é um percurso que sai de um ponto com 2.800 metros de altitude e chega até outro com 5.400, ou seja, vai até bem alto, onde tem pouco oxigênio no ar. Falando de distância percorrida, são cerca de 130 quilômetros andados para ir e voltar. É bem frio também. São doze dias (ou mais) passando por pontes sacolejantes, beiradas traiçoeiras de precipícios, rios gelados e iaques com cara de poucos amigos. Mas assim, claro, não foi nada demais, coisa boba que fizemos por diversão sem nem perceber. 

Brincadeira, é uma baita aventura, com certeza. Mas isso não quer dizer que subimos o Everest. De novo, fomos “só” até o acampamento que todas expedições de alpinistas que realmente tentam alcançar o cume usam como base principal. Mas eu não vou ligar se vocês entenderem errado e dizerem por aí que estivemos no topo do mundo. Se não for muito trabalho podem falar também que eu encontrei um Yeti no caminho e obviamente ganhei dele em uma troca de socos amigável. E ele tava com uma faca. 

No dia 10 de abril, uma quarta feira, acordamos duas da manhã, pegamos uma van assassina de bem-estar (mais uma) que nos levou por encostas sinuosas e curvas malditas até Ramechhap, uma cidadezinha que fica a umas 5 horas da capital e tem um dos aeroportos mais tristes que já vi. Bom, nem é um aeroporto na verdade, é uma pista de pouso curta que tem uns casebres em volta onde o pessoal improvisou imigração, balcão de cia aérea e etc… Inclusive estou falando do aeroporto pois era esse nosso destino, foi lá pegamos um avião até Lukla, uma vila nas montanhas onde o trekking realmente começa. Chegar e sair de Lukla de avião é uma das experiências mais aterrorizantes que já tive, e olha que eu já fui chamado para subir no palco em uma daquelas peças interativas. Os aviões que chegam até lá são modelos pouco mais avançados do que o saudoso 14-bis e a pista de pouso de Lukla é mais emocionante que qualquer montanha-russa do Beto Carrero – ela é curta, extremamente curta para que qualquer coisa aconteça com segurança lá. De um lado termina em um morro e do outro em um desfiladeiro. Caso esteja duvidando de mim basta dar um Google em “Lukla Airport” e ver por você mesmo. 

A carroça voadora

Subimos em nossa carroça voadora, demos sorte pois não morremos, chegamos em Lukla, conhecemos o rapaz que iria nos ajudar com as mochilas e já começamos a andar. E sim, nós contratamos um porter, o Gopal (no último dia ele me disse que esse não era o nome dele, mas pedia para a gente chamar ele assim). É estranho e desconfortável olhar uma outra pessoa carregar a maior parte das suas coisas, mas conversamos com muitos viajantes que já tinham feito a trilha antes e todas disseram que em época de alta temporada é bom ter um porter ou guia, pois eles te ajudam a reservar lugar nos lodges (espécie de pousadas)  que ficam pelo caminho. Ir sozinho é correr o risco de chegar em vilas mais elevadas e inóspitas e ficar sem teto para dormir. E isso realmente acontece. Outro ponto – essa é a única profissão deles, muitos como o Gopal só trabalham durante temporada, então não sei o quanto isso é ajudar diretamente a economia local ou não. Talvez eu só esteja me enganando. Mas é perfeitamente possível fazer a trilha sem um guia ou algo do tipo, tudo é bem sinalizado, milhares de pessoas andam pela mesma região e daria sim para completar a caminhada com mais peso nas costas. No fim eu e minha fiel companheira fomos bem econômicos, juntamos todas nossas coisas em um mochila que ficou com 13 quilos (essa o porter levou), eu levei uma mochila com mais algumas coisas aleatórias e uns casacos (ficou com uns 7 quilos) e a Má levou um mini mochila com menos de 1 quilo. Estávamos bem leves. 

Outra coisa que esqueci de dizer e é bom explicar – em nenhum momento é necessário acampar durante o percurso, só se você quiser (para economizar) ou se ficar sem lugar pra dormir. Existem diversas vilas pelo caminho e sempre tínhamos onde parar para comer e para dormir. Ficávamos nos famosos lodges, hospedagens pequenas e simples espalhadas por todo canto nesse ponto do planeta. Certo, agora que tirei isso da frente posso prosseguir.

O aeroporto de Lukla

Começamos em Lukla, quase sem dormir, após rir na cara do perigo ao embarcar no famigerado ”avião” e com fome. Ainda bem que o primeiro dia foi curto e pouco cansativo. Mesmo assim já deu um gostinho do que viria pela frente. Lukla fica 2.800 metros acima do nível do mar, já é um local onde o frio se faz presente, mas ainda não se sente muito a altitude. Até Phakding, a vila onde dormimos, andamos por um verdejante vale dos Himalaias, sempre acompanhando um rio cor de jade num sobe e desce leve. Ao fundo montanhas cobertas de gelo salpicavam no horizonte, mas nenhuma dessas era ainda o Everest. O primeiro e o segundo dia de caminhada, em que a vegetação é mais densa, as vilas maiores e mais fartas e os arrozais visíveis me lembraram um pouco do nosso trekking pelo Vietnã, só que com muito mais stupas budistas pelo caminho. Um visual calmo, tranquilo e quase isolado, não fossem os cerca de 30 mil turistas que passam lá por ano. Uma coisa diferente entre o primeiro e o segundo dia foi o nível de esforço físico necessário para alcançar nossos destinos. Saímos de Phakding, a 2.600 metros e precisaríamos chegar em Namche Bazar, a 3.200. Foi um dia longo, de lindas paisagens e em que cruzamos a ponte mais famosa desse trekking todo, que inclusive aparece no filme Everest de 2015. O problema é que após ela tivemos que enfrentar uma subida contínua de quase 2 horas. A primeira “mega subida” da trilha toda. Isso em um caminho estreito, perigoso e que precisávamos dividir com outros caminhantes e burros de carga. No meio da subida passamos até por um lugar em que supostamente é possível ver o Everest de longe, mas o céu parece sempre estar encoberto perto dele, baita montanha tímida viu, nunca quer aparecer pros outros. 

Passando pelas vilas

O importante é que suados, cansados e talvez até um pouco assados finalmente chegamos em Namche Bazar, pra mim a vila mais impressionante do caminho todo. Foi um momento bem impressionante, pois só dá para ver Namche em sua totalidade ao passar por uma curva  fechada beirando um penhasco e aí depois do que parece ser o limite da cordilheira do nada lá está ela: uma cidade toda na montanha acobertada pela neblina.

Parece tranquilo, mas essa ponte se mexia um bocado

Mas é engraçado que ela não está no topo da montanha, ela parece acompanhar a encosta em forma de ferradura, como se estivesse na beira do precipício. Para mim Namche lembrou uma cidade em uma pequena baía marítima, só que essa baía está uns bons metros acima do mar. E na frente da vila o que tem? Montanhas, claro! Duas, bem grandes, brancas e imponentes, ali paradas, apenas exibindo seu topo tomado pela neve. Eu achei o lugar incrível e com uma vista incrível, realmente marcante. É uma vila mais desenvolvida que as outras, afinal é o último grande ponto antes de o caminho se enveredar por terrenos mais complicados, talvez por isso seja menos “autêntica”, mas ainda assim notável. Lembro de pensar duas coisas quando cheguei lá: se Shangri-la realmente existe fica em algum lugar naqueles vales perdidos dos Himalaias e talvez seja uma cidade parecida com Namche Bazar. 

Namche Bazar

Foram dois dias na vila, pois lá fizemos nossa primeira aclimatação. Mas isso eu vou detalhar mais no próximo post. Escrever sobre tanto esforço físico me cansou. 

Beijos Quentes

Vietnã ou os Hells Angels de Ha Giang

Já vou abrir com uma foto do caminho entre Dong Van e Meo Vac porque esse post tem muita imagem

Olá, amantes do fracasso. Mais uma vez dou as boas-vindas para aqueles que sabem que basta existir para que alguma coisa dê errado. Bom, mais errado que esse blog não há, por isso aproveite estes momentos raros em que você se depara com algo mais decrépito que as decisões que você tomou ao longo dessa vida.  

No último post estávamos em SaPa, no noroeste do Vietnã, onde fizemos uma trilha incrível e eu ingeri mais álcool do que estava planejando. No dia seguinte a um dos natais mais estranhos de todos os tempos continuamos nossa viagem, ainda pelo lado “de cima” do país, até Ha Giang.

Claro que andar pra lá e pra cá em terreno montanhoso nunca é fácil e isso é mais complicado ainda no sudeste asiático. Enfrentamos mais uma jornada de algumas boas horas (quase 5) em uma van apertada e com um motorista que jamais passaria no exame psicotécnico no Brasil. Foi chacoalhão de lá pra cá e de cá pra lá a viagem inteira, tudo em um veículo em que o limite máximo de pessoas foi devidamente desrespeitado. Imagine uma lata de sardinhas. Agora imagine essa lata sendo jogada pra cima e pra baixo e pros lados e pra trás por um criança birrenta que gosta de ouvir música vietnamita. Foi mais ou menos assim nossa viagem. Pelo menos resistimos bravamente e ninguém vomitou. 

Uma das inúmeras “vans da morte” descritas nesse post

O engraçado é que as vans por aqui não são apenas transporte, mas fazem também o papel de correio. Mais de uma vez, enquanto passávamos por algumas vilas, o motorista parava para receber um pacote que ele deixaria em outra vilazinha mais pra frente. E claro que essa de receber e transportar mercadorias diversas só deixou o ambiente agradável da van ainda mais apertado. Imagine uma lata de sardinhas sendo jogada pra lá e pra cá. Agora imagine essa lata sendo aberta, alguém colocando objetos diversos dentro e fechando novamente (sem tirar nenhuma sardinha). Foi gostoso. 

Após essa epopeia motorizada chegamos à Ha Giang (a cidade, que tem o mesmo nome da província). Passamos apenas uma noite lá, pois o crème de la crème da região é fazer algo chamado loop, que consiste em pegar as estradas que sobem as montanhas até quase a fronteira com a China, conhecer as vilas pelo caminho, voltar para Ha Giang e curtir o cenário no caminho. Realmente é um lugar lindo e que me surpreendeu. Achei que SaPa já tinha me deixado acostumado com as belezas dos vales e colinas do Vietnã, mas Ha Giang é diferente. Mais selvagem, verde, menos turística e com montanhas que desrespeitam qualquer tentativa de padronização da natureza – são grandes espinhos saindo da terra em ângulos impossíveis, colossos de rocha escura que nos fazem sentir pequenos e impotentes. A região toda é uma grande cicatriz na pele do planeta. Normalmente quem faz o loop aluga uma moto e fica de 3 a 4 dias explorando as estradas e parando nas vilas que se espalham pelas montanhas. Não foi nosso caso, pegamos uma época de muita chuva e neblina e não rolou a segurança para montar em uma motocicleta e rasgar estradas pelos penhascos (estradas essas de boas condições, mas estreitas e cheias de curvas). No fim subimos até a vila mais ao norte da região, Dong Van, de transporte público. Foi ruim. Foi mais um trajeto em que quase largamos nossas tripas pelo assoalho fedido da van, mas também foi bom ter evitado a aventura sobre duas rodas pois a estrada se mostrou um pouco traiçoeira e infestada de motoristas imprudentes. 

A vista do forte francês de Dong Van

Apesar da náusea causada pelo amigo motorista, o caminho foi lindo e peculiar. Dong Van também  um lugar muito interessante, com praticamente uma rua principal a vila é cheia de hostels e cafés, embora quase não tivesse turistas lá (acho que visitamos muito fora de temporada). Muitos dos visitantes que encontramos eram do próprio Vietnã, e é sempre legal conhecer um local que não é só pra “gringo ver”. A vila fica em um platô no alto do emaranhado de rochas que domina a região, e esse platô é também cercado pelos espinhos geológicos que já descrevi. Um pequeno vale verde e vivo  entre um deserto marrom escuro. No alto de uma das montanhas que vigia a vila ficam as ruínas de um antigo forte francês, um passeio rápido e interessante que fizemos logo no dia em que chegamos. Vale a pena visitar Dong Van, o lugar é demais. 

Hells Angels

Ficamos três dias nas alturas vietnamitas e no segundo dia alugamos scooters por algumas horas para ir até Meo Vac, uma vila próxima, e voltar. Nos disseram que esse era o trajeto mais embasbacante do loop e aproveitamos um dia de sol para conferir. O trecho que rodamos tem pouco mais de 20 km (para ir e depois mais 20 km para voltar), mas apesar da distância quase inexistente demoramos mais de 4 horas para completar a jornada, desconfio que as paradas para tirar fotos do cenário singular foram a causa dessa demora. Claro que quando subíamos nas motos o asfalto gritava, parecíamos dois membros expatriados dos Hells Angels dedicados a tocar o terror em solos asiáticos. Curvas perigosas feitas de forma imprudente, brigas pelo caminho, bebedeira e muita velocidade. Claro que tudo isso só aconteceu na minha cabeça, pois nossas motinhos não passavam de 40 km/h nem com ajuda divina e nós, bem, acho que nós não somos tão radicais quanto eu imagino. 

Saca só como a estrada serpenteia a montanha
O belo rio que nos acompanhou por boa parte do trajeto

Mesmo assim foi um dos dias mais divertidos da nossa viagem, apesar do frio. Subimos montanhas, andamos na beira de precipícios, acompanhamos um rio cor de jade que domina o vale entre as duas vilas, nos enfiamos em plantações e demos tchau para muitos vietnamitas. Deu vontade de voltar alguma outra vez pro Vietnã, comprar uma moto (melhor que uma scooter) e conhecer o país de norte a sul, desta vez levando a sério o estilo de vida motoqueiro.

Os mistérios do vale

No dia seguinte a nossa aventura regada a gasolina fizemos uma trilha (a pé) de uns 14 km rodeando a montanha em que a vila de Dong Van fica. Durante nossa caminhada o tempo fechou e o céu escuro deu ares de que uma tempestade de proporções bíblicas estava por vir. A temperatura, que já não estava lá essas coisas, caiu muito, chegando quase perto de 0 graus (aliás foi um frio totalmente inesperado para nós, que esperávamos pegar um tempo desses apenas no Nepal). Com a chuva veio a neblina e o nosso trekking fico com um clima fantasmagórico. Apesar de atrapalhar a contemplação do cenário (era muito neblina, só enxergávamos apenas uns 3 metros a frente), isso deixou o dia mais divertido e com tons de filme de terror. Eu não me surpreenderia se a qualquer momento um exército de homenzinhos verdes tentassem nos abduzir ou uma horda zumbi aparecesse correndo entre as árvores. Importante notar que eu estaria preparado lidar com qualquer um desses cenários, por isso estava tranquilo.

Marina e o cenário nebuloso

Foi um trajeto sereno, tranquilo, em que o único barulho eram as gotas caindo na vegetação da montanha e meus gritos de desespero toda vez que eu quase escorregava na lama que dominou o chão. Passamos por alguns povoados simples, mas a trilha foi quase toda nossa, muito provavelmente porque ninguém é besta o suficiente para sair com o tempo pouco convidativo que imperava no céu. Em dado momento, no auge da neblina, encontramos uma senhora passeando calmamente entre sua plantação, segurando uma foice com a mesma tranquilidade que meu tio Tobias segura uma Itaipava. Se ela não tivesse uma aparência tão amigável confesso que ficaria com medo. 

Vontade de abraçar… exceto pela foice

Bem no fim do caminho a neblina finalmente se dissipou e fomos presenteados com uma visão incrível do vale de Dong Van, ainda semi-imerso em brumas e cercado pelos mais variados tons de verde, todos acentuados pela chuva que tinha cessado. Foi o auge desse nosso passeio frio e bucólico, que martelou mais uma vez em nossas mentes a importância da simplicidade e de um bom casaco.

O verde após a chuva
Dando tchau para a neblina

Nesse dia ainda caímos, sem querer, em uma festa de aniversário local com direito a cantoria e mais vinho de arroz. Estavámos lá bem tranquilos no nosso restaurante favorito da cidade, que é propriedade do dono de alguns hostels da vila, quando percebemos uma movimentação estranha na mesa ao lado. O dono e sua família estavam comemorando o aniversário de sua esposa com vários convidados, uma comitiva animada que logo ficou ainda mais animada devido ao álcool. No fim nos chamaram (e também outros turistas) para festa, que tinha karaokê de YouTube e bebida liberada. Tivemos que cantar “Ai se eu te pego” levemente embriagados enquanto a aniversariante, já devidamente enebriada, se derretia de amores pela nossa performance. Coisa de quem gosta de representar bem o Brasil no exterior. Isso porque no nosso tempo em Dong Van também pegamos a celebração adiantada de ano novo deles (isso foi uma outra noite), uma apresentação de diversos cantores amadores na praça central da cidade. Foi uma noite fria, animada e de pouco talento. Quem disser que não existe agitação nas montanhas do Vietnã não sabe do que está falando.

Mais um pequeno passeio em uma van da morte (com a estrada toda tomada pela neblina) e estávamos novamente em Ha Giang. Foi assim que acabou nossa estadia na região norte do país e para voltar para Hanói enfrentamos uma maratona de vans apertadas, ônibus intermunicipais imprudentes e uma série de enjoos e náuseas. Ufa. 

Um encontro inusitado durante a trilha

Retornamos para a capital quase no ano novo, pois durante as festividades iríamos conhecer as belas (e lotadas) águas de Ha Long Bay. Mas esse é o assunto do próximo post. 

Beijos Quentes

Vietnã ou o capítulo do Excesso de Vinho de Arroz

Esse relato cobre eventos de 19/12/2018 a 25/12/2018

Isso aí é normal no Vietnã

Olá, moradores do grande limbo cósmico chamado planeta terra. Estamos no fim de mais um movimento de rotação do nosso planeta (ou começo, sei lá quando você vai ler esse post) e nada melhor para acalmar a alma do que ler sobre as desventuras e percalços de pessoas que foram se aventurar por essa grande esfera maluca. Sim, eu disse esfera. Ou melhor, geoide. Aqui é uma blog livre de terraplanistas, se você acredita que nosso planeta é achatado por favor feche seu computador e vá ser feliz dentro da sua imaginação perversa. Ou não, eu gosto de ter leitores. Fica aí, meu chapa. 

No último relato descrevi nosso preguiçoso tempo por Luang Prabang, a famosa CIDADE GOSTOSA. Um lugar lindo, calmo e bom para comer, a base da felicidade para qualquer casal adepto da inércia como nós. 

Como vocês podem imaginar foi difícil dar tchau para Luang Prabang, principalmente porque para ir embora de lá pegamos um avião que parecia saído do Caçadores da Arca Perdida e confesso que, pela primeira vez na vida, fiquei com medo de voar. Pelo menos a tarde estava linda, um pôr do sol estarrecedor acompanhou nossa decolagem e deixou todas montanhas em torno da cidade douradas, o último presente de Luang Prabang para nós. Um bom dia para presenciar uma pane nas hélices do avião, cair no coração da selva e ter que comer os passageiros mortos para sobreviver. Se fosse para acontecer uma desgraça, melhor que acontecesse em um cenário bonito. 

Felizmente isso não ocorreu e após o paradoxo tempo de 60 minutos chegamos em Hanoi, Vietnã. Para nossa surpresa o tempo estava mais “fresco” do que considero confortável, um prelúdio para o que estava por vir na nossa jornada. 

Hanoi é um caos apaixonante. Uma mistura louca de scooters, buzinas, carros, cafés e pessoas do mundo todo. Sempre em movimento e sempre com algo para ver. Acho que senti aqui o que esperava ter sentido em Bangkok, aquele clima “sujeira underground interessante”. Para começar nada diz melhor “bem vindo à Hanoi” do que quase ser atropelado por uma moto. O trânsito é intenso e maluco, as calçadas existem apenas para estacionar scooters e semáforos são meramente decorativos. Atravessar a rua aqui é o maior ato de fé que praticamos na viagem – você pisa no asfalto e de repente se vê cercado de vietnamitas motorizados por todos os lados, me senti como Simba fugindo dos antílopes, búfalos ou o que quer que fossem aquelas animais que participaram de maneira robótica no assassinato de Mufasa (RIP). Claro, depois de um tempo a loucura acostuma e aí não é preciso nem olhar pros lados para atravessar uma rua, porque você sabe que a turma vai desviar, o movimento do trânsito lá é quase como um fluxo orgânico que sabe sempre encontrar seu caminho. Apesar de ser mais seguro do que aparenta ainda classificaria “ser pedestre em Hanói” como esporte radical. O Vietnamita tem uma habilidade com a scooter que é digna de nota, praticamente são os mongóis do séculos 21, só que invés de fazerem tudo em cima de cavalos usam motores de até 110 cilindradas. Sei que em diversas partes da Ásia a motinho é o principal meio de locomoção, inclusive na Tailândia e Laos por onde já tínhamos passado, mas mesmo assim elejo o Vietnã como a terra suprema da imprudência e habilidade sobre duas rodas. Talvez apenas os indianos consigam competir com os vietnamitas.

Hanói é uma cidade grande, com muito cinza e um bairro turístico chamado Old Quarter que é um chamariz para almas noturnas a procura de diversão. Bares, boa comida, uma explosão de luzes neon e aquela sensação de que alguma coisa inusitada está sempre a espera dentro das portinhas apertadas dos inúmeros estabelecimentos duvidosos de entretenimento. Vimos algumas poucas heranças da guerra: o museu, a prisão e restos de equipamentos americano pelas ruas, como tanques e caças, mas não visitamos esses lugares (sem falar que o quebra-pau nem chegou tão ao norte assim).

A beleza peculiar de Hanói

Achei uma cidade interessante de se visitar a pé, inclusive achamos um lugar (sem querer) que depois descobrimos ser bem turístico, são os trilhos de uma linha de trem que corta o meio da cidade. Existem diversos bares e cafés ao longo deles, bem coisa de hipster. Também existem milhares de casas amontoadas uma em cima das outras, um acúmulo vertical de concreto que acompanha a linha. Passamos nosso fim de tarde por lá e a Marina deixou uma marca permanente no local, pois pisou em toda uma passagem recém cimentada por um velhinho que quase surtou quando viu ela sapateando em cima do trabalho dele recém terminado. Claro que isso foi sem querer, mas o senhor não quis nem saber e começou a gritar para nós dois que por puro instinto nos mandamos de lá. A Marina estreou o que ainda irá se tornar a famosa calçada da fama de Hanói.

A linha do trem 1
A linha do trem 2

Depois de uma curta estadia na cidade partimos para Sapa, uma cidade bem ao norte do Vietnã, na região montanhosa do país. Para chegar lá pegamos um busão “leito” que nunca tinha visto na vida, nele o assento já é uma espécie de cama, algo estranho, mas confortável (se você não for muito alto). Pegar ônibus, van ou qualquer outro transporte terrestre pelo país é uma aventura, principalmente na região das montanhas, que é dominada por estradinhas estreitas e sinuosas. Digo isso pois os vietnamitas preferem usar a buzina ao freio.Impossível manter a conta do tanto de barbaridade motorizada que vi por lá.

Depois de uma boa dose de desconforto, dor, uma dose de bílis na garganta e paisagens exuberantes chegamos em Sapa, uma espécie de Campos do Jordão vietnamita. Isso se Campos estivesse em eterno estado de construção e fosse dominada por chineses. Não me levem a mal, a cidade fica em um lugar muito bonito, uma região cheia de vales e desfiladeiros, e ela própria é charmosa. E também bem turística. Até que gostei de Sapa, embora o frio estivesse apertando, mas nosso objetivo lá era fazer um trekking pelos vales e montanhas nos arredores da cidade, coisa que começamos no dia seguinte.

Os caminhos de Sapa

Nosso passeio foi um trekking de 3 dias e 2 noites e fomos com uma guia local, moradora das inúmeras vilas que ficam espalhadas pela região. Estávamos no extremo noroeste do país, um lugar que abriga 5 tribos nativas diferentes (com costumes, roupas e idiomas diferentes) e passamos por vilas de várias delas pelo caminho, foi muito bacana. Pegamos um tour privado, mais caro, mas que seguia uma rota bem menos utilizada por agências turísticas e valeu a pena, senti que passamos por locais bem autênticos e como eu adoro andar, fazer trilha é uma das atividades que revive o velho “espírito de aventura” de que tanto gosto de sentir. Não sei explicar, mas parece que vagando por aí tenho a impressão de estar interagindo com a natureza e os ambientes que visitamos. Aliás, que cenários incríveis. Atravessamos terraços lamacentos de arroz, trilhas que rodeavam montanhas e desfiladeiras, florestas de bambus e vales que dormem à sombra do monte Fan Si Pan, a montanha mais alta da Indochina. Em um desses vales, no nosso segundo dia de caminhada, senti uma alegria e paz que há muito tempo não sentia, foi uma avalanche bucólica que me deixou leve e calmo. Foi um momento de quase parar no tempo, a realidade consistia apenas de  nós três e o sons da natureza deslizando por um corte em meio às montanhas do Vietnã. Desculpe o lapso poético aqui, prometo que nunca mais irá acontecer.

Esse vale era demais

Outra ponto que gostei muito do passeio foi que dormíamos em casas de locais e fazíamos refeições com eles. Os lugares eram simples, porém acolhedores, e a primeira noite foi memorável, pois o anfitrião da casa (que não falava uma palavra de inglês) me encheu de vinho de arroz, ou como eles chamam aqui, happy water. Foi divertido e um pouco tenso ter que virar muitos shots daquele negócio com um gosto bem mais ou menos, mas seria falta de educação recusar, ainda mais porque os anfitriões estavam recebendo um amigo. Mas deixa eu elucidar aqui, não é que foram 2 ou 3 shots. Nem 4 ou 5. Nem 6 ou 7. Foram mais de 10 shots (não lembro quantos exatamente) de um destilado potente. Olha, o pessoal teve sorte que eu não vomitei todo frango e rolinhos primavera que tinha comido, porque as chances eram altas. Consegui me segurar, não passei vergonha e apenas fiquei vermelho como meus companheiros de bebedeira. Passei no teste e agora já posso integrar qualquer exército revolucionário do norte do Vietnã. Enquanto isso a Marina conversou muito com nossa guia e a nossa anfitriã, as únicas que falavam inglês no local e ambas de tribos diferentes. Ela pode entender em primeira mão como os povos das montanhas se viram de tudo quanto é jeito para sobreviver e mandar os filhos para as escolas, mesmo quando não é temporada de colheita de arroz. Foi uma experiência profunda culturalmente e enquanto isso eu só estava me afogando em álcool e decisões ruins.

Rapaz….

Interessante que depois do jantar todo mundo senta perto do fogo usado para cozinhar, que faz vezes de lareira, e conversa um pouco. Nessa noite apenas eu e a Ma estávamos no homestay, por isso interagimos bastante com a família da casa, todos da tribo Red Dzao. Nossa guia (a querida Mu), por exemplo, é Hmong e mora apenas alguns quilômetros de distância de onde dormimos. 

E essa foi a tônica do trekking todo. Cenários incríveis, situações inusitadas (até por um velório passamos), contato local (aparentemente) autêntico e aquela mistura gostosa de frio e suor que deixa qualquer um que não está com as doses de Energil C em dia resfriado. Demos uma baita sorte pois fizemos a trilha antes do tempo virar um amontoado de nuvens cinzas, temperaturas perto de 0 e tristeza. 

Boa companhia

Voltamos pra Sapa no dia 23 e decidimos ficar duas noites na cidade pra relaxar um pouco e comemorar o natal. Não conseguimos, pois na véspera da festa do bom velinho ficamos conversando com a família por ZAP e quando saímos para comer tudo já estava fechado na cidade, menos uns poucos bares, por isso tomamos uma cerveja com valor exorbitante e jogamos truco. Um brinde às tradições natalinas.

Depois de Sapa decidimos continuar pelo norte do país, mas dessa vez fomos para uma região um pouco mais central e bem perto da fronteira com a China, a província de Ha Giang. Nossa viagem até lá foi conturbada, como são todas viagens em vans apertadas na Ásia, mas isso é assunto para o próximo post. Não perca nossa aventura de moto por penhascos vietnamitas.

Beijos quentes