Turquia ou Limite vertical praiano

Pôrzão do sol lá pelas bandas de Ölüdeniz

Olá, amigos e amigas

Enquanto a pérfida luta contra a prisão da existência não termina, tentarei mais uma vez quebrar os grilhões da rotina e mostrar para vocês que o que está ruim pode sempre piorar. Já que a moda agora é queimar alguma coisa, bora lascar fogo no bom senso e na (minha) dignidade.

Depois de terminar nosso intenso quente e lotado mergulho ao passado, como relatado no post anterior, continuamos cruzando as planícies turcas em direção ao sol poente, buscando o laranja do céu e as praias do Mediterrâneo. 

Nossa primeira parada nessa empreitada litorânea foi na badalada cidade de Bodrum. Um lugar que não estava nos nossos planos, mas que incluímos para encontrar uma amiga da Marina. 

Bodrum é um lugar bonito, charmoso e cheio. Fantasmas de pele clara, bochechas rosadas e roupas que indicam pouca ou nenhuma familiaridade com uma divertida cidade de praia vagam aos montes por lá. Ou seja, Bodrum é lotada de turistas britânicos. Sim, é um lugar bem turístico, o que quer dizer que tem mais restaurantes, barzinhos, hotéis e loteamentos do que natureza. Não era o tipo de coisa que estávamos procurando, mas nos divertimos no período em que estivemos lá. Tomamos cerveja, comemos bem, observamos um belo pôr do sol e curtimos um dia interessante em uma das praias da cidade. Uma praia simpática, mas de pedra. Você deve estar se perguntando qual o problema, querido(a) leitor(a). Vou falar: praia de pedra é um negócio difícil de engolir. Os frágeis tecidos da realidade estão sempre instáveis em uma praia de pedra, como se o universo estivesse com sinal fraco e um chiado cinza dominasse nossas mentes. Percebemos que algo está errado. E isso acontece em qualquer praia de pedra, por mais bonita que ela seja. É como um andróide que não passa no teste Voight-Kampftt, no fim, por mais bem construído que seja, não é um ser humano. Não estou dizendo que a melhor praia de pedra do mundo é pior que a mais horripilante praia de areia que existe por aí, só estou dizendo que é complicado gostar desse negócio. E antes que alguém venha me dizer que pedra é bom porque não gruda e nem é invasivo como areia eu só tenho a dizer: você não sabe curtir uma praia, você não merece uma praia e você nem deveria pisar numa praia. Areia é o melhor denominador comum da sociedade, irrita e cola no corpo sem qualquer tipo de distinção, é o elemento que veio para nos mostrar que no fim somos todos iguais. Quem se dispõe a “enfrentar” a areia sabe que ela sempre vence, não importa quem você seja. E se não for para sair parecendo um frango à milanesa eu nem vou à praia. Enfim, desculpe o tom autoritário, mas esse é meu blog e o único ambiente no mundo em que eu posso exercer minha ilusão de poder, então me dê licença. 

Bodrum e suas via marítimas entupidas

Bodrum foi um ponto estranho no roteiro, mas divertido. Encontramos amigos e pudemos observar uma gama de personagens exóticos que rondam pela cidade, desde senhoras ricas e caricatas que andam com cachorrinhos birrentos a tiracolo e parecem saídas do desenho do Tintim a velhos bêbados que ficam aprisionados em seus pequenos barcos enquanto suas almas vagam livres por aí, esses saídos direto de uma obra Hemmingwayniana. O mais emblemático deles parou em uma mesa ao lado da nossa em um barzinho, sentou-se com os jovens que a ocupavam e começou a tocar a pior melodia que já saiu de qualquer violino do mundo. Tudo isso sem qualquer coisa parecida com um convite. No fim contou umas histórias, ganhou um sanduíche e minha admiração. Bodrum é um lugar estranho. 

Depois nos dirigimos para onde queríamos estar desde o começo, na região de Fethiye e Ölüdeniz. Para chegar lá foram cerca de 4 horas por estradinhas seguindo a costa turca, uma jornada extremamente agradável. Passamos por cidades minúsculas e belas, pequenas joias escondidas no Mediterrâneo. Foi uma pena termos um prazo de saída da Turquia (pois iríamos encontrar a mãe da Marina na Grécia), porque tenho certeza que dá para ir parando e explorando cada vilazinha à beira do mar. Enfim chegamos no nosso objetivo, um hotelzinho com clima caseiro que ficava na parte mais interiorana de Ölüdeniz. Fethye é uma cidade praiana de tamanho razoável, porém calma e gostosa. Ao seguir pela estrada principal e cortar as montanhas por cerca de 10 minutos é possível encontrar a vila de Ölüdeniz e caso continue na mesma estrada por mais uns 5 minutos chegará na praia de Ölüdeniz, um lugar popular nas férias de quem quer desfrutar o Mediterrâneo turco. Como estávamos de carro ficamos na vila que fica no meio do caminho, e apesar de ser uma região cheia de europeus descansando de suas rotinas, fica também perto de muitas prainhas mais reservadas e escondidas entre os vales que rasgam as montanhas que guardam o litoral daquela parte do mundo. Fomos lá para ficar 3 dias e acabamos ficando 7. Foram tempos relaxantes, daqueles momentos que praticamente fazem um carinho na alma. Todo dia exploramos praias diferentes, nossa hospedagem era ótima e barata, a comida nas redondezas era boa e o melhor, tínhamos café da manhã incluído na diária. E não, isso não é bobagem. Essa viagem me fez valorizar os cafés da manhã inclusos na diária como nunca antes, e o desjejum do nosso simpático hotel era fora de série. Queijos, diferentes tipos de azeitonas, pães, ovo, vários tipos de geleias, bolo e o melhor mel da história. Confesso que comia por duas ou três pessoas ali, o que é a melhor tática a se seguir para pular (e economizar) refeições ao longo do dia. Um homem com um bom café da manhã não quer guerra com ninguém. 

O Butterfly Valley e a praia lá embaixo – bela queda

Nesse período conhecemos praias incríveis, até porque a região era maravilhosa e facilitou nosso trabalho. Mais um lugar na Turquia em que eu ficaria mais de meses, tranquilamente. Uma mistura de montanhas, vales e praias perdidas entre pinheiros. Nunca achei que pinheiro combinasse com praia, mas ali eu entendi que areia branca e coqueiro não é o único combo possível para degustar de uma diversão marítima. Claro, existem lugares lotados e tomados pelas hordas estrangeiras, como a própria praia de Ölüdeniz, mas ali perto fomos em locais como Kabak e o Butterfly Valley, locais lindos e tranquilos. Kabak era o ponto mais afastado de onde estávamos e para chegar lá nos enfiamos no meio de estradas estreitas em um desfiladeiro e quase estacionamos no telhado de um pequeno barraco. Depois descobrimos que para descer até a praia do alto das montanhas (por lá é tudo desfiladeiro até o mar) é preciso pegar um ônibus especial ou andar por um tempo. Como estava quente e estávamos com aquela preguiça gostosa causada pelo excesso de sol e sal, optamos pelo ônibus/van apertado, uma opção sempre interessante para quem quer aliar o clima de praia com uma sauna. Kabak tinha um clima alternativo e místico, com muitos jovens turcos acampando por lá, daquele tipo de lugar em que as pessoas fazem yoga na praia e alguém se oferece para ler seus chakras. É um local lindo, na boca de um valezinho simpático e cercado por montanhas. Um defeito? Mais uma praia de pedra. Mas confesso que senti uma calmaria quase espiritual nas águas de Kabak. Ali pensei, “por que me estressar?” – Tudo estava tranquilo, nossos problemas eram pequenos perto da imensidão daquela natureza e eu estava viajando o mundo com a mulher que eu amo. Claro que esse estado mental zen não persistiu muito e logo na próxima baliza que precisei fazer já estava xingando até minha mãe. Ser iluminado não me cai bem, mas foi bom enquanto durou. 

Parte do rolêzinho para descer até a praia

O Butterfly Valley é um lugar que nem tenho capacidade léxica para descrever. Meu segundo lugar favorito na Turquia toda, com certeza (Capadócia ainda é rainha). Como diz o nome, é um vale, mas não é um vale como muitos outros que existem na região. Ele é estreito, íngreme, quase claustrofóbico. Como se fosse um corte fino nas montanhas feito pela espada de um deus durante a Titanomaquia. E ali embaixo, onde as montanhas finalmente terminam, fica uma prainha linda banhada por águas verdes transparentes. Dá para conhecer o vale pelo alto, a estrada dá a volta por ele e continua pelas montanhas, e a vista é embasbacante. Mas também dá para descer até o mar por uma trilha que beira os penhascos alaranjados. E que trilha. É um caminho quase vertical e que pode ser considerado complicado tecnicamente. Não é longo nem demanda muito esforço, mas deixa tenso. Em alguns momentos é necessário o uso de cordas para descer e subir as pedras. Sim, cordas. Coisa de quem é versado na aventura. Foi nossa versão particular do filme “Limite Vertical” e nós já podemos dizer que flertamos com os perigos da gravidade. Sim, logo eu que já ganhei o prêmio “mais tropeços que a média da população adulta de Itu 2017” consegui completar o nervoso percurso sem nenhum acidente, embora em dado momento eu tive que pular de um penhasco até outro no melhor estilo Missão Impossível. Não acredita? Azar o seu. Não preciso nem dizer que eu adorei descer e subir os precipícios, ainda mais porque fizemos tudo em um lindo dia agraciado pelo sol e eu pude limpar os baldes de suor que saíam de mim em um mar estonteante. Eu já falei da praia do Butterfly Valley, mas vale reforçar, que lugar incrível. Isolada, tem areia (e pedras), mar calmo, cor hipnotizante e um clima tranquilo, quase hippie. A paz de lá só é quebrada nos períodos em que as multidões pulam como pulgas dos navios de passeio que chegam nas ancoragens próximas, mas o caos dessa torre de babel convertida em tripulação só dura algumas horas – as infames “horas de visita”. Nos outros momentos a praia é dos malucos que acampam lá embaixo, de alguns locais e dos imbecis (como nós) que sobem e descem a trilha do desfiladeiro. Lá consegui dar mais um mergulho estilo “zen”. As águas da Turquia fizeram bem pra mim. Só as águas também, porque a trilha foi linda, mas nos deixou incapacitados no dia seguinte. A Marina parecia o cadeirudo (da novela A Indomada, lembra?) andando. O único ponto negativo foi não termos conseguido pegar a temporada de flores e das borboletas que lotam o vale, mas mesmo assim foi um dia de visões inesquecíveis.

Saudades das praias turcas (menos as de pedra)

Não vou detalhar aqui nossas peripécias em todas praias que visitamos, pois até que fomos bem ativos nesses dias baseados em Ölüdeniz, mas apesar das andanças pra lá e pra cá conseguimos relaxar e entrar em sintonia com a sensação de descobrir, algo importante nesse tipo de viagem. Alugar carro não é a opção mais barata e com certeza diminui as chances de encontros inusitados (graças a Deus*), mas em contrapartida aumenta a liberdade para explorar, mesmo que o carro seja um péssimo Peugeot 301 com um motor que mais parece um secador de cabelo. 

Foram alguns dias e logo já precisávamos voltar para Capadócia, devolver nosso carro, pegar um ônibus para Istambul e aí partir para a Bulgária, nosso próximo destino. Mas os detalhes dessa jornada são tema para a próxima newsletter.

Beijos quentes

*Ao contrário de 99% dos viajantes de longa duração, eu não sou grande fã de contato com os outros nem gosto de puxar assunto com qualquer um. Sei que é algo vital para várias coisas, inclusive para o conhecimento de mundo, e reconheço sua importância, assim como reconheço a importância da ingestão de beterraba mesmo odiando beterraba.

Turquia ou Capadócia e a maculação da minha alma

Capadócia é um região bem da bacana

Olá, participantes dessa maratona de sofrimentos chamada vida. Aguente firme, chegou mais um episódio das lastimáveis aventuras e patéticas reclamações do menor casal que já viajou o mundo.

No último post contei sobre o nosso rápido e tórrido caso de amor com Istambul. Foi triste e difícil sair de lá, afinal estávamos com tanta preguiça que até comprar um sorvete na esquina configurava-se como “trabalhoso” para nós, mas a vida segue e nossa viagem também seguiu, por isso fomos nos enfiar em mais um ônibus por cerca de 12 horas.

Estávamos indo em direção a Göreme, uma vila quase no centro do que é chamado de Capadócia, que é uma região e não uma cidade, estado ou coisa do tipo. A viagem foi tranquila e sem nenhum grande perrengue, o que de certa forma é uma novidade neste blog. Achei curioso que no ônibus o rapaz que atua como cobrador e ajudante de motorista também se arrisca como comissário de bordo durante a viagem. Sim, em dado momento ele tirou um carrinho dobrável e umas comidinhas de um compartimento secreto e passou servindo chá, água, suco e snacks. Chique. 

Foi um ônibus noturno, por isso no outro dia de manhã chegamos no nosso destino. Ou quase. Como Göreme estava com acomodações muito caras acabamos reservando um lugar em Ürgüp, uma vila próxima (10 quilômetros de distância) e também parte da região da Capadócia. Por isso lá fomos nós caçar uma van local quase que de madrugada para nos levar até nosso objetivo. Locomover-se a baixo custo é cansativo demais, mesmo quando é fácil. 

Família do Mehmet sem o Mehmet – acordamos todo mundo

Depois de algum tempo finalmente chegamos na casa do Mehmet, nosso anfitrião. Em Ürgüp ficamos numa casa de família, mas não foi por Couchsurfing. Na verdade esse lugar estava listado no Airbnb com um preço muito bom, por isso pegamos a oferta. Foi como se tivéssemos alugado um quarto na casa dele. No fim foi uma experiência incrível, mas foi estranho chegar logo cedo na casa de outra pessoa, principalmente porque o Mehmet entendeu errado nossa mensagem e achou que nós chegaríamos à noite, o que nos levou a: 1) acordar ele 2) acordar a família dele toda que estava passando o Ramadã lá (a celebração estava em seus últimos dias) 3) tomar um café da manhã com a família toda, que nós acordamos, sem o Mehmet, porque ele precisou sair correndo para trabalhar. 

Foi uma daquelas cenas surreais que surgem as vezes em obras de realismo fantástico, como se estivéssemos em um filme co-dirigido por Fellini e Roberto Benigni – o casal atordoado, a família confusa, uma criança elétrica e eles sem falarem um pingo de inglês e nós com entendimento zero de turco. Claro que nos entendemos, no fim todo mundo se entende, e um café da manhã com todos tipos de azeitonas possíveis ajudou muito. Aliás eu adorei a concepção de café da manhã dos turcos – alguns tipos de queijo (de cabra principalmente), tomates frescos, pepino, pães diversos, milhares de azeitonas, pistache e nozes, manteiga, frutas e geleias. É farto, gostoso e leve. Quer dizer, se você comer a mesma quantidade que eu comi não é leve não, mas ok. 

Rimos, comemos e (não) nos entendemos, foi interessante. Depois saímos para conhecer Ürgüp enquanto eles arrumavam nosso quarto, pois não nos esperavam aquela hora. 

Um pouco de Ürgüp

A vila é charmosa, arrumada, pequena e da mesma cor de todas as vilas da Capadócia, um bege amarelado que tem o mesmo tom das rochas onde as construções eram escavadas antes. É uma sensação estranha observar uma cidade que tem apenas uma cor, sem um escape de tom, parecia que um gigante tinha jogado um balde de areia em cima de todas construções. De longe os detalhes, que são muitos, parecem se perder em uma massa uniforme, mas ao chegar perto de cada casa ou prédio é sempre possível se surpreender com alguma coisa nova. Aliás a Capadócia e suas vilas são uma visão surreal. Vindo de Göreme para Ürgüp já tínhamos visto uma pitada do que essa região tem para oferecer. Construções escavadas na pedra, cidade fundindo-se com natureza e formações rochosas bizarras. É um lugar incrível.

Pelos vales perdido

Mas melhor do que ficar restrito à vista das cidades ou participar de tours com mais pessoas do que deveriam caber em uma van é se enfiar no meio dos vales esquizofrênicos da região. Sim, dá para andar por conta própria pelas milhares de trilhas que existem ao redor de Urgup, Göreme, Uçhisar e outras vilas da Capadócia. É muito lugar pra desbravar. Nosso dia favorito aconteceu quando nos enfiamos no meio dos caminhos estreitos de alguns vales locais, mais especificamente o Swords Valley, Red Valley e Rose Valley. Foi um dia inteiro andando entre um lugar que parecia o filho renegado da lua com Marte. A diversidade de cenários em espaços tão próximos é fantástica. Em dado momento estávamos no fundo de um mini cânion apertado e cinza, alguns minutos depois subíamos uma colina para nos depararmos com um labirinto de morros rosas que parecia dentes saindo da terra e aí mais adiante nos vimos perdidos entre ferozes formações lunares emergindo como espinhos do chão. Isso tudo apenas nesta pequena região que mencionei. Fora o cenário de cair o queixo ainda nos deparamos com casas e até igrejas escavadas nas pedras, algumas mais antigas que aquele queijo que você deixou no fundo da geladeira jurando que um dia ainda vai comer. É maluco demais pensar em toda história e toda gente que já viveu naquele lugar em condições tão peculiares. Uma das igrejas que encontramos era gigantesca, uma verdadeira catedral dentro de uma rocha.  Ainda bem que eu não nasci em tempos mais antigos, porque o esforço necessário para criar algo desse tipo não condiz com meu nível de comprometimento e energia, se dependesse de mim os moradores da Capadócia não conseguiriam nem enfiar o dedão dentro de um pedregulho. 

Casas nas pedras

Outra coisa que achei incrível é o quão complexo são os cânions e vales que se formam na região. De uma vista panorâmica parece ser uma região árida e simples, incrível, mas simples, com diversos rasgos na terra e umas colinas de formato peculiar se erguendo aqui e ali. Mas ao nos aventurarmos pelas trilhas vimos como cada um desses desfiladeiros escondiam uma vegetação vasta e mais profundidade e beleza do que era possível ver de longe. Nas nossas andanças tivemos que atravessar uma mata espessa lotada de abelhas. Provavelmente era uma trilha fechada que os dois imbecis resolveram seguir e quase terminamos como o menininho do filme “Meu Primeiro Amor”.  Mas o visual que encontramos pelo caminho valeu a pena.

Parecia Marte lá embaixo

Bom, eu me empolguei descrevendo as belezas da Capadócia, mas é porque foi um dos lugares que mais gostei de toda a viagem. É diferente. Impressiona. Caso você passe lá um dia vá além dos passeios de balão e explore o lugar de perto. 

Aliás o dia em que exploramos os vales que mencionei acima foi especial, pois terminamos ele tomando uma cerveja com Mehmet e sua mãe (os únicos moradores fixos da casa onde ficamos) e rindo bastante. A mãe dele é incrível e não fala nada de inglês, mas mesmo assim conseguiu nos mostrar fotos de suas viagens e contar da família. 

Pela Lua

Depois de três dias saímos de Ürgüp e fomos para Göreme, dessa vez ficamos em um hotel mesmo, assim estávamos mais perto das trilhas e vales da região. Göreme também é de onde saem os famosos balões da Capadócia e embora não fôssemos embarcar em um (no caso porque não tínhamos um fígado extra para vender e bancar o voo) queríamos acordar cedo e ver eles subindo aos céus de um mirante nas montanhas do Swords Valley. Para isso teríamos que acordar lá pelas 3 da manhã e andar por 1 hora até a desgraça do mirante. E foi o que fizemos. Infelizmente. Acordamos cedo, enfrentamos um friozinho chato, cruzamos um cemitério turco no meio da escuridão (sem querer), subimos a trilha no escuro, chegamos no topo do morro (onde fica um sofá velho para acomodar os aventureiros) e esperamos. Esperamos. E esperamos. Normalmente os balões começam a subir lá pelas 5 da manhã (nessa época do ano), pois o sol agracia a humanidade com sua presença flamejante umas 5:15. Mas nesse dia nada. Quando deu 5:30 começamos a desconfiar que talvez os voos tivessem sido cancelados. Quando vimos 6:15 no relógio tivemos certeza disso, mas ainda decidimos esperar mais um pouco, nos agarrando a mesma esperança perversa que fazia minha tia Mirtes comprar uma tele-sena toda semana. Em algum momento, perto das 7 da manhã, decidimos voltar para o hotel e para nossas camas, tristes e traumatizados pela falta de balões. O dia até estava bonito, mas eles cancelam os voos lá por qualquer coisinha, acho que tem a ver com alguma bobagem como segurança dos turistas ou algo do tipo. Enfim, ficamos uns sete dias na região e não vimos os balões em nenhum deles, tudo culpa do mau tempo.

Sei lá

Mas, apesar do trauma flutuante, foram tempos gostosos demais na Capadócia. Eu ficaria por lá 1 mês tranquilamente. Fizemos outras trilhas, visitamos o castelo de Uçhisar (que também é escavado nas rochas e fica no ponto mais alto da região), visitamos uma cidade subterrânea, descobrimos cafés escondidos em cantos perdidos dos cânions, tomamos muito chá e ainda relaxamos. Ainda conhecemos um casal de viajantes brasileiros muito gente boa (@livrespelomundo), a conexão foi instantânea e poderosa, apesar de apenas um dia juntos. Foi demais.

Esse morrão de pedra é o castelo de Uçhisar – era usado como um castelo mesmo
Foto seguidinha porque esse lugar era muito legal – mais casas na pedra perdidas por aí

Ou quase, pois foi lá que também aconteceu o maior trauma recente da minha vida adulta. Foi onde perdi a dignidade. Foi onde minha alma foi maculada e todo respeito usurpado do meu coração. Não sou mais o mesmo Rafael desde então, e, apesar de nunca ter sido grande coisa, ouso dizer que agora sou um homem pior do que era. Vou explicar o que aconteceu. Em uma tarde preguiçosa resolvemos tomar um sorvete. A Turquia é cheia de sorveteiros “brincalhões”, que ficam fazendo truques com a casquinha e “enganando” os turistas. Você já deve ter visto um vídeo disso, é praticamente uma atração turística por lá e as crianças adoram. Coisa que não me interessa, credo, longe de mim. Sou tão reprimido em alguns sentidos que ser feito de bobo pelo rapaz do sorvete na frente dos outros ativa uma vergonha poderosa e primitiva no meu âmago. Ou seja, eu nunca escolheria em sã consciência tomar um sorvete num lugar desses. Enfim, estávamos andando por Göreme atrás do nossa delícia gelada e achamos um lugar “normal”, não era desses cheios de truques. Ou pelo menos eu achava que não era. O rapaz do balcão serviu a Marina e, na minha vez, vi que um riso malicioso surgiu no canto da sua boca. Ele pegou o sabor escolhido colocou na casquinha e na hora de me entregar virou a casquinha de ponta cabeça e eu quase enfiei a mão no sorvete. Nessa hora meu cérebro deu uma pane, eu cheguei a pensar “meu deus, será que isso vai acontecer?”, mas já era tarde demais, o sorveteiro maligno, num golpe ágil e cruel, recolheu o braço e estocou com firmeza, enfiando o sorvete no meu nariz. Isso mesmo, eu, um homem adulto, levei uma sorvetada no nariz. Uma sorvetada no nariz do nada, no meio da praça da cidade. Meu mundo acabou naquele momento. Minha dignidade saiu correndo e eu fiquei com cara de bobo enquanto aquele turco dos infernos me observava morrer por dentro. Quando recobrei a consciência resmunguei em português, limpei o rosto cheio de sorvete de melão e sai sem nem olhar para trás. Mas o estrago já tinha sido feito, eu nunca mais seria o mesmo. 

Fica aí o aviso, quando você se leva a sério demais esse tipo de coisa pode acontecer. A minha rigidez interna foi estraçalhada por um sorveteiro e até agora estou recolhendo os cacos. 

E foi essa a única marca negra que a Capadócia me deixou.

eita

Após isso me reneguei, jurei vingança contra todos sorveteiros engraçadinhos, alugamos um carro e saímos para explorar a Turquia. Mas isso é o tema da próximo post.. 

Beijos quentes

Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 3

Os últimos dias de trilha, a mais de 5.000 metros.

Olá companheiros dos fins dos tempos. Como estamos todo aguardando o inevitável colapso da sociedade, sugiro que você distraia-se com a leitura deste post. A essa altura você já viu todas séries possíveis mesmo, não custa nada dar uma chance para meu texto.

Esse é o derradeiro capítulo de nossa aventura Himalaia. No último post contei sobre como cruzamos vales gelados que ficam a mais de 5.000 metros de altura para chegar até Lobuche, a vila maldita. Um lugar sombrio, com clima denso, em que todos estão com cara fechada e apenas tentando sobreviver à aventura. 

Acho que o desanimo bateu em Lobuche porque estávamos pressentindo o que nos esperava, pois após uma noite fria no nosso quarto que mais parecia um cativeiro, que só conseguimos porque nossos amigos brasileiros (Daniel, Baia e Samir) cederam para nós, acordamos agraciados por uma bela tempestade de neve, daquelas que não deixam nem o sol atravessar as nuvens. Caso não tivéssemos conseguido um lugar para dormir estaríamos mais gelado que o Leo DiCaprio no fim de Titanic. Graças a deus pelo quarto/cativeiro. 

A temperatura caiu muito durante a noite, a neve tomou conta do cenário e o dia que se iniciava estava tomado por uma espécie de névoa desoladora. Começamos a trilha sem conseguir enxergar mais do que poucos palmos a nossa frente e o gelo que agora estava presente no solo causava os mais bizarros acidentes. Ver gente parando no meio da trilha para colocar grampos na bota não é uma visão muito acalentadora quando sua melhor e única ferramenta de caminhada é seu corpo meio surrado e acima do peso. De novo o clima “opressor” de Lobuche tomou conta de nossos corações, mas eis que após uma hora de caminhada a luz venceu, o dia se abriu e o sol tomou conta do céu. Nunca fui desses hippies que dão bom dia pro sol, inclusive julgo a turma que faz isso (se você faz, desculpe, já te julguei), mas nesse dia eu quis abraçar o astro rei com todas minhas forças, mesmo que isso fosse causar uma ou outra queimadura em meu corpinho. 

O caminho com a névoa – aí já estava até que bom

O cenário que até então era depressivo transformou-se em uma das paisagens mais lindas que já vi. Estávamos em uma parte plana do vale do Khumbu (situação rara), indo em direção a uma pequena cadeia de colinas rochosas que precisaríamos cruzar para chegar em Gorak Shep, a última vila antes do nosso objetivo final, o campo base do Everest. A nossa frente as já mencionadas colinas, ao lado direito o glaciar do Khumbu e montanhas como Lola, a esquerda mais montanhas que não sei o nome. Tudo branco, imaculado. Parte de uma outra dimensão. Não gosto de neve, mas deve admitir que o inferno branco deixou a paisagem muito mais linda – foi um passeio em um planeta desconhecido. Era complicado decidir entre andar ou apreciar o visual.

Foi um dos momentos em que tive certeza que aquela loucura e todas outras loucuras da viagem eram parte de decisão muito acertada em nossas vidas. Um daqueles raros momentos de epifania em que você se sente em paz com um caminho traçado e ou uma decisão tomada. Dessa vez a natureza empurrou essa epifania pela minha goela abaixo. Qualquer perrengue valeria a pena para viver aquilo e nem no Everest nós tínhamos chegado ainda. 

Rafael e Marina, exploradores interdimensionais presos em uma realidade feita de sal ou algo assim. Esse era o tipo de viagem que estava passando pela minha cabeça durante a ebriedade causada pelo momento de alegria, mas logo o frio, a fome e a sede fizeram questão de destruir o momento. Nada como a vida real martelando as durezas da realidade em nossos sonhos. Continuamos andando, era o que dava pra fazer. 

Marina olhando pelo vale que tínhamos atravessado

Atravessamos os amontoados de rocha que se colocaram de forma muito inconveniente no meio de nossa amada planície de neve e logo estávamos em Gorak Shep (5.164 metros) um triste amontoado de casas e resistência humana em um lugar horrível para se existir. Ainda desgosto mais de Lobuche, mas Gorak Shep foi um péssimo local para dormir. Lá é frio. É mais que frio, é muito frio. É gelado, glacial, muito além do sub-zero. Isso em uma época que não deveria ser tão fria, mas tivemos a “sorte” de pegar uma primavera atípica na região. Para melhorar ficamos em um lodge em que o quarto oferecia exatamente nenhuma proteção contra o frio. Para vocês terem ideia o telhado era vazado e praticamente nevava em nossas camas. A sala comum do lugar também não era tão quente quanto às outras que passamos, e todo mundo lá só tinha cara de triste e sofredor. Resumindo, não sei se deu para perceber mas não gostamos muito de dormir em Gorak Shep.

Desconhecido que entrou na minha foto.

Porém estou me adiantando na história, pois quando chegamos lá ainda estávamos animados, era dia, e só faltavam algumas horas para chegarmos ao basecamp. O itinerário era ir de uma vila para outra e até o campo base e voltar no mesmo dia. 

Almoçamos no lodge, esperamos nossos amigos brasileiros, chegarem a vila  e saímos todos juntos em direção ao tão esperado destino. Aliás eu só mencionei eles de forma superficial até agora, mas conhecemos esse grupo de brasileiros no nosso primeiro dia de trilha e apesar de não andarmos juntos, nos encontramos bastante pelo percurso. Pessoal bem do gente boa. 

O começo da caminhada até o acampamento base.

Já era de tarde e o dia tinha perdido seu brilho, e como acontecia na maioria das tardes naquela região, ficou cinza e nublado. O caminho até o acampamento base foi tranquilo e cheio de risadas. Para chegar lá de Gorak Shep foi necessário atravessar uma série de morros irregulares cheios de mini precipícios, com a companhia do glaciar ao nosso lado direito. Mais ou menos o que tínhamos enfrentado entre Lobuche e Gorak Shep. 

E quando as tendas amarelas das expedições que sobem o Everest já estavam bem próximas e visíveis começou uma bela de uma nevasca. Pisamos no acampamento base sendo castigados por um odioso amontoado de neve. Tudo ficou mais frio, mais cinza e mais escorregadio. Um momento que deveria ser de emoção e orgulho virou algo nas linhas de “vamos tirar uma foto ali com a plaquinha que prova que chegamos até aqui e ir embora deste inferno logo”. 

O acampamento base – a tempestade tinha acabado de começar. A montanha atrás NÃO é o Everest.

A neve deixou a volta muito mais emocionante e fomos nos equilibrando entre pequenos desfiladeiros e pedras soltas. Estava bem frio, estávamos molhados e cansados, mas mesmo assim foi nesse momento que a nossa ficha caiu, que percebemos o que tínhamos acabado de fazer. Chegamos no basecamp e ainda estávamos enfrentando uma nevasca, coisa que não é para qualquer um. Me senti como um antigo viking cruzando uma planície gelada com meus companheiros de exploração. Não tenho a menor ideia porque pensei nisso, afinal o que tem a ver um viking com os Himalaias? Mas eu sou a pessoa que às vezes pensa que montar em um avestruz é o mais próximo que podemos chegar de montar em um T-Rex, então perdoem a falta de coerência da minha mente. 

Foi sensacional, foi marcante e foi foda. Mas voltar para Gorak Shep foi horrível. Como eu já disse, nossas roupas estavam encharcadas e a vila é o inferno gelado na terra. Demoramos muito para nos aquecermos de novo e tivemos que ficar boa parte da noite em frente ao fogão/caldeira do lodge tentando secar as únicas roupas de frio que tínhamos. E aí na hora de dormir ainda tivemos que enfrentar um quarto com uma temperatura negativa. Eu tava quase colocando fogo no meu saco de dormir para me aquecer um pouco. Iria morrer? Sim. Provavelmente causaria uma tragédia? Sim. Mas com certeza eu iria desta para melhor bem quentinho e feliz. 

No acampamento base – não parece mas a tempestade estava bem forte.

Foi uma noite tenebrosa. Talvez mais pela minha ansiedade do que pelas dificuldades do clima. Não consegui pregar o olho. Talvez pelo de que teria que acordar às 5 da manhã para subir um pico próximo da vila chamado Kala Patthar. A Marina estava tranquila, já tinha pulado fora dessa. O Kala Patthar é o pico mais alto que alguém pode subir sem conhecimento técnico, basicamente uma ladeira gigante que te leva até quase 5.600 metros de altura. A ideia é subir bem cedo pois assim é possível ver o sol nascendo atrás do Everest e ainda dá tempo de voltar e fazer o dia render, afinal o plano era começar nossa descida de volta para Lukla no mesmo dia. Sei que minha insônia foi tanta que acordei nosso guia/porter umas da 4 da manhã e partimos mais cedo para a empreitada. 

Logo que saímos percebi que o céu estava muito claro, com as estrelas brilhando intensamente no firmamento. De longe dava para ver as lanternas dos trekkers que já tinham começado a subida ao cume. Não demorou e comecei a me arrepender da minha decisão. Talvez tenha sido efeito das roupas ainda semi molhadas ou só o clima que estava mais inclemente ainda, mas comecei a sentir um frio avassalador nos pés. Começamos a subida e eu dei um belo de um gás deixando muita gente pra trás. Também quase cuspi meu pulmão no processo e quando descobri que minha arrancada não serviu de nada, pois ainda tínhamos umas 2 horas de subida, quis chorar. O caminho estava tomado pela neve, algo incomum para essa época do ano, o que deixou a trilha mais cansativa e traiçoeira. Para melhorar tudo escorreguei, como faço sempre, pois acho que tenho algum gene que me faz escorregar mais do que o normal, e enfiei a mão sem luva na neve, o que foi um ótimo remédio para curar o frio que sentia no pé, porque aí eu percebi que dava pra ser muito pior. Lembrando que ainda era de madrugada e o sol não tinha aparecido ainda. Embora a vista do vale do Khumbu iluminado pelas estrelas tenha sido quase onírica, minha mão estava virando uma garra atrofiada de tanto frio. Eu só queria que o maldito sol surgisse logo por trás do Everest. 

Subida do Kala Patthar – o sol estava quase aparecendo.

A subida até o pico foi muito difícil, talvez o único momento na trilha toda em que eu me senti verdadeiramente cansado e sem ar. Não sei se fui em um ritmo muito apressado ou se sou mole mesmo, mas sei que quando cheguei lá só queria sentar e descansar. Só depois de alguns minutos que consegui tirar algumas fotos e apreciar a vista, uma visão realmente incrível de um vale gelado cercado pelas maiores montanhas do mundo. Uma demonstração de pura potência da natureza. Fantástico e surreal. Mas eu estava com muito frio e só queria sair dali, por isso logo comecei a descer. Encontrei dois amigos brasileiros chegando, até mais acabados do que eu, e ainda avistei um rapaz vomitando ao longo da trilha. Pelo menos não tinha sido difícil só pra mim. Na descida eu só queria me jogar na neve e ir rolando até lá embaixo, um jeito mais rápido, fácil e perigoso de cumprir o objetivo. Mas não, o nosso frágil corpo humano impede esses momentos de diversão, por isso tive que ir escorregando pela trilha, igual um bocó. Mas finalmente cheguei na base e voltei pro lodge, com uma carinha tão sadia quanto a de alguém que acabou de sobreviver a uma explosão atômica. Mal conseguia falar. Foi sensacional ter atingido o cume do Kala Patthar, poder dizer que já escalei algo nos Himalaias e cheguei a 5.600 metros de altitude, mas a melhor parte da experiência toda foi voltar. 

O sol quase aparecendo atrás do Everest (o pico do meio)

E o dia não acabou aí. Depois de toda provação nas alturas só tive tempo de tomar café e logo iniciamos nossa descida. Andamos cerca de mais 6 horas e passamos de 5.200 metros para 4.200. Passamos por precipícios escorregadios e lamacentos, ribanceiras trapaceiras e trilhas inundadas. Tudo culpa do amontoado de neve das nevascas recentes que começava a derreter. Claro que eu, que já levo mais tropeções que o ser humano médio e ainda estava em condições físicas horríveis pela subida feita mais cedo, quase me esborrachei no chão várias vezes. Me sentia uma casca de ser humano se arrastando pelo gelo. Até os trekkers mais idosos me ultrapassaram (e ainda deviam me xingar). Eu sei que esse tipo de trilha não é sobre competição com os outros, mas fica difícil se sentir bem quando até a velha surda da Praça é Nossa é mais rápida que você. E olha que sou acostumado a perder para a terceira idade, certa vez tentei acompanhar o ritmo do doutor Drauzio Varella, que encontrei correndo no Ibirapuera, e quase morri. Enfim, foi nesse ritmo modorrento que chegamos em Periche, uma cidade no outro lado do morro que cerca Dingboche. Lá conseguimos finalmente descansar com mais conforto e dormir bem. 

Vou resumir um pouco a volta, pois se não precisarei de umas três posts para contar tudo sobre a experiência. A única parte diferente do caminho de ida foi passar por Periche. Para chegar e sair de lá andamos pela porção baixa do que parecia ser um antigo leito de rio. Na ida tínhamos andado por cima do morro que acompanha esse leito e realmente a visão mudou. Uma mistura de alagado com deserto cinza tomou conta do cenário sempre vigiado ao fundo pelo Ama Dablam. Depois de cruzar uma ponte e andar por uma série de incríveis penhascos voltamos para o “caminho normal”. O retornar foi uma experiência nova, ângulos diferentes transformaram vistas teoricamente familiares em novidade. Voltar também foi cansativo, afinal para descer caminhamos em 3 dias o percurso que subimos em 8. Haja força no joelho para aguentar o tranco. 

O caminho da volta

No fim a vontade de terminar a experiência toma conta do espírito, não tem jeito. Sabe aquela sensação de “ok, já cumpri meu dever agora só quero relaxar”? Então, talvez isso também tenha nos deixados mais preguiçoso e dificultado um pouco o retorno. 

Foi também um alento sair do frio insuportável e chegar apenas no nível do frio meramente tolerável. Alegria maior ainda foi quando voltamos a ver árvores, florestas e bosques. 

E uma hora acabamos chegando em Lukla, de uma forma meio sonolenta e arrastada, mas chegamos. O único pico de emoção na volta foi causado pela notícia da morte de um companheiro de trilha, ele provavelmente escorregou em um dos trechos mais tranquilos do percurso, o que nos fez pensar em todos buracos, ravinas e desfiladeiros lamacentos e escorregadios que enfrentamos. A vida é estranha e quis o destino que dois seres humanos de pouca estatura e uma tendência para cair no chão conseguissem chegar são e salvos após essa aventura. Ainda bem. 

Mas os perigos da jornada ainda não estavam todos superamos. Nós chegamos em Lukla e pelo menos a andança tinha parado, mas no dia seguinte ainda precisaríamos enfrentar o maldito aeroporto daquele lugar. Eu já descrevi bem o nervoso que os aviões e a estrutura de Lukla e Ramechhap me causaram na ida, mas com certeza é pior sair do que chegar em Lukla. A porcaria do aeroporto fica na base de um penhasco e aquele avião bi-motor sem vergonha tem que acelerar com tudo e se jogar da montanha em um ato de fé que eu não estava preparado para cometer. Passei um nervoso ali que nem os desconfortos intestinais na Cidade Proibida tinham me causado. Um rapaz no nosso voo que até chorou. Foi intenso e agora, contando essa história, eu acho que é uma experiência válida e bacana.  Mas que na hora dá um baita medo, a isso dá. 

A desgraça da pista do aeroporto acaba ali mesmo. É um penhasco.

O importante foi que deu tudo certo, pousamos em Ramechhap e após mais uma van da morte de algumas boas horas (meu deus o Nepal poderia ser um pouquinho mais plano), chegamos em Katmandu. Estava terminada uma das experiências mais especiais da viagem. 

Marina e o Lola

Ainda ficamos alguns dias no Nepal e depois fizemos uma travessia insana para a Índia por terra, tópico do próximo post.

Beijos quentes.

Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 2

Subindo o mirante de Namche

Este foi um texto que escrevi após a odiável experiência de ver o final de Game of Thrones, por isso mantive abaixo a abertura original. Aprecie. 

E após quase sufocar no buraco sujo e escuro que foi a última temporada de Game of Thrones consegui recuperar o fôlego e escrever umas pataquadas. Mas sério mesmo hein, que finalzinho apressado o de GoT, não foi? Os roteiristas das duas últimas temporadas estavam com mais pressa para terminar tudo do que meu tio Apolinário para chegar em casa quando foi acometido por um furioso desconforto intestinal durante um show do Biquini Cavadão no Réveillon de 93. Spoiler: ele não achou um banheiro a tempo. Bom, pelo menos as duas histórias terminaram em merda. 

Mas chega de falar de série de fantasia com zumbi, dragão e gente brava, o negócio aqui é sério. Agora é hora de falar de um casal que andou tanto que praticamente cruzou a muralha e foi parar num lugar gelado que mais parecia a terra dos selvagens. Juro que agora acabaram as referências à cultura pop.

No último relato descrevi nosso trekking até Namche Bazar, a fascinante vila/cidade no topo das montanhas. Foi um período gostoso da nossa caminhada, pois ficamos duas noites no mesmo lugar, algo raro quando seu objetivo é andar todo dia. Nossa estadia “longa” se deu pela necessidade de fazermos aclimatação à altitude, ou em outros termos, tentar acostumar nosso corpo o máximo possível às grandes alturas. Um dia não é o ideal, mas também não dá para ficar a vida toda lá, então é melhor do que nada. 

No nosso dia de aclimatação fizemos um trekking rápido até um ponto de observação perto da vila. Subimos de 3.200 metros até 3.880 e depois descemos de novo. Parece pouco, mas vai você pegar uma subidinha bem da inclinada a mais de 3.000 metros do nível do mar. O pulmão fica bem debilitado e tudo é complicado. Me senti uma daquelas tias fumantes dos Simpsons. Claro, depois que você encontra seu ritmo de caminhada fica tudo mais fácil, mas até isso acontecer o ar “some” o tempo todo. 

O dia estava bonito e o céu azul e bem limpo, por isso conseguimos ver pela primeira vez o Everest no horizonte. Foi bem emocionante perceber que a partir daquele momento já poderia dizer “vi o Everest quase de perto”. A visão do mirante era incrível, dava para acompanhar os caminhantes seguindo a trilha uns 500 metros abaixo, fazendo zigue-zague nas encostas do vale com algumas grandes montanhas ao fundo, como Ama Dablam, Lhotse e o próprio Everest. Aliás dava pra ver só uma pontinha meio sem graça da maior montanha do mundo, que é tímida e bem inferior esteticamente comparada às outras companheiras, mas é o topo de tudo e com certeza tem uma mística inegável. Everest é aquela famosa pessoa “feia” com charme. 

A pontinha do Everest

E foi esse nosso dia de aclimatação em Namche. 

Após isso seguimos viagem, agora éramos nós percorrendo a sinuosa trilha entre os morros e que acompanha o vale que vimos lá do mirante. Esse foi um dia puxado, pois andamos bastante e logo após o almoço enfrentamos uma subida de duas horas com vento frio e um começo de chuva. Foi um dos piores dias da trilha para mim, pois não me agasalhei bem então toda vez que eu parava para descansar o vento gelado parecia cortar até meu osso em pequenos pedaços, poucas vezes um sofá e um cobertor me pareceram tão sedutores. Culpa, principalmente, da minha irritante mania de suar em demasia. Pense em algo que atrapalha a vida, pois não posso me mover para pegar algo como o controle remoto que já começo a transpirar. Comer algo no calor? Transpiro também. Andar até o carro após fazer compras no mercado? Com certeza estarei suando. Assistir um vídeo de um filhote de cachorro sendo resgatado de um rio com corredeiras bravas? Pode ter certeza que eu transpirei (de nervoso). Essa minha maravilhosa característica é principalmente ruim no frio, pois qualquer roupa pesada me faz transpirar, caminhar com roupa pesada então só piora tudo. E aí eu fico molhado, as roupas ficam molhadas e qualquer brisa fria é intensificada em 1000%. É chato e foi especialmente chato nesse dia.

O caminho até Tengboche com o Ama Dablam ao fundo

Depois de vencer esse desconforto imenso chegamos em Tengboche, uma vila ao topo da nossa subida de duas horas a 3.800 metros de altura, onde fica o mais importante monastério da região. Belo lugar para se construir um monastério, no alto de uma montanha e com outros picos ferozes e brancos de neve ao redor. Aliás o cenário todo era incrível. Com certeza é mais fácil encontrar algum tipo de iluminação ali do que em um apartamento apertado em São Paulo. Fica a dica para os leitores que procuram epifania espiritual. Enfim, nem dormimos em Tengboche pois a vila estava cheia, por isso seguimos viagem até Deboche, alguns quilômetros à frente. 

A vista do monastério mais alto do mundo para a vila de Tengboche

De Deboche fomos até Dingboche no dia seguinte, seguindo um bonito e pedregoso caminho em que finalmente superamos a marca de 4.000 metros. Aliás Dingboche fica a 4.410 metros de altura. Ali muita gente começa a sentir bastante os possíveis efeitos da altitude: dor de cabeça, enjoo, dificuldade de respirar, possíveis delírios  e vontade de assistir Caldeirão do Huck. Inclusive nesse trecho a mudança de vegetação e do cenário em geral é bem nítida, tudo fica rochoso, cinza, marrom e branco. As poucas plantas que ainda insistem em aparecer são rasteiras e parecem sofrer. Também foi nesse trecho do percurso em que presenciamos nossa primeira nevasca. Foi um momento muito especial, ainda mais porque não somos íntimos com neve (graças a Deus), mas mal sabíamos que daqui alguns dias estaríamos amaldiçoando essa porcaria branca.

Vista do mirante de Dingboche – vale até o Island Peak e a vila embaixo

Dingboche foi mais uma vila em que fizemos aclimatação e melhor ainda, foi mais um lugar interessante e bonito que encontramos pelo caminho. Pequena, simples (não existe nada no trajeto todo como Namche), e praticamente guardada pelo Ama Dablam, uma das montanhas mais bonitas dos Himalaias. Lá tem um café bem do gostoso e lotado de turistas, lugar que aproveitamos com nossas amizades da trilha (falarei delas mais abaixo) e onde encontramos outros brasileiros. O mirante em que fomos no nosso dia de “descanso” tinha uma vista surreal em duas direções: uma para o vale que segue em direção ao Island Peak, um lugar cinza e branco tomado por montanhas de aparência implacável e outra para o caminho que os trekkers seguem para o acampamento base, guardado por picos como o Cholatse e Taboche. Foi ali em cima, observando esses horizontes tão distantes da minha realidade que senti pela primeira vez que estava entrando em um mundo alienígena.

Ama Dablam, a montanha mais bonita do pedaço

Foi também onde, em meio a um momento de extrema emoção, avistei uma turista que se escondeu atrás de algumas pedras para fazer xixi. Ela se escondeu do grupo dela, mas esqueceu de que outras pessoas estavam subindo a trilha.

Após a aclimatação, já no dia seguinte, seguimos pelo percurso que eu chamo de “começo do vale do Khumbu”, mas sei que esse termo não é correto tecnicamente, já que o vale do Khumbu é uma região muito maior do que essa, mas o blog é meu e sinceramente eu não tenho um nome melhor para essa região que quero descrever. 

Andando pelo vale do Khumbu

O caminho começou fácil, fomos por cima de um morro cinza amarronzado acompanhando o que parecia um antigo leito de rio ou o efeito de derretimento de antigos glaciares. Abaixo de nós víamos pessoas caminhando nesse “leito”, na direção contrária. Eram trekkers voltando de suas empreitadas na região e indo para Periche, uma vila que fica ao pé do morro em que estávamos andando. Foi um dia que começou tranquilo mas logo se mostrou difícil, como a vida nos ensina, as coisas sempre podem piorar. Após o almoço (sempre algo “ruim” acontecia depois da nossa refeição) enfrentamos mais uma subida homérica, de novo de umas 2 ou 3 horas. Ao chegar ao topo nos deparamos com um solene e rústico memorial para honrar os mortos nas montanhas. A vista de lá também era incrível, uma visão panorâmica de quase tudo que tínhamos andado até o momento. Enquanto estávamos lá o tempo começou a dar uma virada, com ventos fortes e um princípio de chuva. Bem apropriado para o visual belo, mas opressivo, do memorial.

Acompanhando o glaciar

Seguimos o resto final da andada diária acompanhando o glaciar do Khumbu, que parece um imenso rio gelado cortando a rocha negra. Passamos pelo nada convidativo basecamp do Lobuche Peak (a montanha estava encoberta por nuvens) e finalmente chegamos em Lobuche, onde passamos um breve nervoso por não termos lugar para dormir (a trilha é realmente cheia de turistas nessa época do ano e as vilas ficam cada vez menores). Com ajuda dos nossos amigos brasileiros arranjamos um quarto que mais parecia um cativeiro, mas que pelo menos era um teto nas nossas cabeças. Lobuche é cinza, fria (lá o frio começa a ficar insuportável, afinal são 4.900 metros acima do nível do mar) e eu não consigo racionalizar a razão, mas odiei aquele lugar. A vila tem um clima denso, claustrofóbico, parece que nos faz lembrar dos riscos e obstáculos desse tipo de empreitada. Mas essa foi minha impressão, obviamente. Caso queira tirar isso a limpo pode pegar um avião para Lukla, andar por cerca de 7 dias e se hospedar num dos raros lodges do lugar. 

Marina e Ama Dablam, de novo.

Lobuche é a penúltima vila antes de chegar ao Base Camp, mas para que a leitura desse post não dure mais que nosso tempo de caminhada vou encerrar ele por aqui. No próximo texto contarei sobre como quase perdi a mão e explodi meus pulmões a 5.500 metros de altura. 

Beijos Quentes

Nepal ou o capítulo das andanças pelos Himalaias 1

vista comum durante a trilha

Olá fiéis seguidores desta estranha jornada pelo mundo e por minhas desventuras intestinais. Chegou o dia de vocês apreciarem mais um conto sobre a “viagem”. Quer saber por que eu usei aspas na palavra viagem? Porque na verdade fiquei 12 meses sem sair de um quarto escuro na casa da minha mãe, alternando entre o videogame e chorar em posição fetal. Essa história de volta ao mundo foi apenas uma fachada para vocês gostarem de mim. Brincadeira. Ou não. Ninguém nunca saberá a verdade. 

E agora vamos falar sobre o Nepal e o nosso trekking.

Saímos de Perth com um certo peso nas almas, uma mistura de receio com preguiça, afinal estávamos deixando um cantinho organizado e familiar para nos jogarmos no caos de sons e cores que é a Ásia. Adoramos nossos 7 meses asiáticos, mas eles nos cansaram bastante. Como seria nossa volta?

Após um atraso considerável no voo, umas voltas nervosas de avião por cima do aeroporto de Katmandu e um pouso inesperado em Calcutá, finalmente conseguimos chegar. Estávamos de volta para o rebuliço asiático. 

O Nepal já mostrou sua cara logo no aeroporto, nos deparamos com aquilo tudo que já tínhamos visto de uma maneira ou de outra por onde passamos: aglomerações ao invés de filas, taxistas abusivos, pessoas invadindo seu espaço pessoal para vender tours, multidões, buzinas, cores, poeira e tuktuks. O trânsito foi uma esperada confusão – mistura perigosa de falta de leis (ou fiscalização) com motoristas ousados demais. Katmandu não é grande e logo que saímos do aeroporto nos deparamos com vielas iluminadas por neon poderosos, construções tradicionais, templos e restaurantes em “buracos” na parede. E assim percebemos que estávamos é com saudades daquele caos todo. Foi uma volta da sensação de aventura, da dinâmica, do movimento e de viajar no “modo difícil”. Ter ido para Austrália foi incrível, inegável, mas o sentimento é outro ao chegar em cantos mais caóticos do mundo. 

A confusão de Katmandu

Katmandu é fascinante e peculiar, mas não dá para falar que é uma boa cidade. Tem muita história, alguns templos sensacionais, um bairro turístico muito interessante, mas é suja (não como a Índia), poeirenta e ainda muito destruída, consequência do terremoto de 2015. Triste ver como o dinheiro de ajudas internacionais e dos milhares de turistas que vão para lá todo ano praticamente não é revertido em benefício da população. 

Thamel, o canto onde ficam os turistas, é uma cidade a parte. Apesar de não refletir a realidade de Katmandu, é interessante. Conta com vários restaurantes bons, bares de origem suspeita, milhares de lojas de equipamento de caminhada e lojas de souvenir e tecidos, todos espremidos em vielas antigas e de arquitetura única. Parece um ponto de convergência de exploradores do mundo todo. 

Ficamos apenas dois dias lá antes de começarmos nossa própria aventura. Foram dois dias sem tempo nem para ir ao banheiro, pois cuidamos de todos preparativos para nossa trilha. Fechamos tudo com a agência e compramos equipamentos e suprimento que faltavam. Inclusive se você estiver precisando de casacos, jaquetas, calças ou qualquer coisa da North Face recomendo dar um pulo em Katmandu. Lá tem tudo o que você imaginar, só que muito mais barato. Claro, você pode acabar adquirindo produtos da Face North ou North Fade sem saber, mas mesmo assim vale a pena. Comprei vários produtos genéricos e todos aguentaram o tranco durante nossas andanças himalaias. 

Aliás, a trilha. Melhor explicar um pouco sobre ela antes de entrar em detalhes sobre os próximos dias. Bom, nosso grande objetivo ao ir para o Nepal era fazer um trekking até o acampamento base do Everest. Esse é um percurso que sai de um ponto com 2.800 metros de altitude e chega até outro com 5.400, ou seja, vai até bem alto, onde tem pouco oxigênio no ar. Falando de distância percorrida, são cerca de 130 quilômetros andados para ir e voltar. É bem frio também. São doze dias (ou mais) passando por pontes sacolejantes, beiradas traiçoeiras de precipícios, rios gelados e iaques com cara de poucos amigos. Mas assim, claro, não foi nada demais, coisa boba que fizemos por diversão sem nem perceber. 

Brincadeira, é uma baita aventura, com certeza. Mas isso não quer dizer que subimos o Everest. De novo, fomos “só” até o acampamento que todas expedições de alpinistas que realmente tentam alcançar o cume usam como base principal. Mas eu não vou ligar se vocês entenderem errado e dizerem por aí que estivemos no topo do mundo. Se não for muito trabalho podem falar também que eu encontrei um Yeti no caminho e obviamente ganhei dele em uma troca de socos amigável. E ele tava com uma faca. 

No dia 10 de abril, uma quarta feira, acordamos duas da manhã, pegamos uma van assassina de bem-estar (mais uma) que nos levou por encostas sinuosas e curvas malditas até Ramechhap, uma cidadezinha que fica a umas 5 horas da capital e tem um dos aeroportos mais tristes que já vi. Bom, nem é um aeroporto na verdade, é uma pista de pouso curta que tem uns casebres em volta onde o pessoal improvisou imigração, balcão de cia aérea e etc… Inclusive estou falando do aeroporto pois era esse nosso destino, foi lá pegamos um avião até Lukla, uma vila nas montanhas onde o trekking realmente começa. Chegar e sair de Lukla de avião é uma das experiências mais aterrorizantes que já tive, e olha que eu já fui chamado para subir no palco em uma daquelas peças interativas. Os aviões que chegam até lá são modelos pouco mais avançados do que o saudoso 14-bis e a pista de pouso de Lukla é mais emocionante que qualquer montanha-russa do Beto Carrero – ela é curta, extremamente curta para que qualquer coisa aconteça com segurança lá. De um lado termina em um morro e do outro em um desfiladeiro. Caso esteja duvidando de mim basta dar um Google em “Lukla Airport” e ver por você mesmo. 

A carroça voadora

Subimos em nossa carroça voadora, demos sorte pois não morremos, chegamos em Lukla, conhecemos o rapaz que iria nos ajudar com as mochilas e já começamos a andar. E sim, nós contratamos um porter, o Gopal (no último dia ele me disse que esse não era o nome dele, mas pedia para a gente chamar ele assim). É estranho e desconfortável olhar uma outra pessoa carregar a maior parte das suas coisas, mas conversamos com muitos viajantes que já tinham feito a trilha antes e todas disseram que em época de alta temporada é bom ter um porter ou guia, pois eles te ajudam a reservar lugar nos lodges (espécie de pousadas)  que ficam pelo caminho. Ir sozinho é correr o risco de chegar em vilas mais elevadas e inóspitas e ficar sem teto para dormir. E isso realmente acontece. Outro ponto – essa é a única profissão deles, muitos como o Gopal só trabalham durante temporada, então não sei o quanto isso é ajudar diretamente a economia local ou não. Talvez eu só esteja me enganando. Mas é perfeitamente possível fazer a trilha sem um guia ou algo do tipo, tudo é bem sinalizado, milhares de pessoas andam pela mesma região e daria sim para completar a caminhada com mais peso nas costas. No fim eu e minha fiel companheira fomos bem econômicos, juntamos todas nossas coisas em um mochila que ficou com 13 quilos (essa o porter levou), eu levei uma mochila com mais algumas coisas aleatórias e uns casacos (ficou com uns 7 quilos) e a Má levou um mini mochila com menos de 1 quilo. Estávamos bem leves. 

Outra coisa que esqueci de dizer e é bom explicar – em nenhum momento é necessário acampar durante o percurso, só se você quiser (para economizar) ou se ficar sem lugar pra dormir. Existem diversas vilas pelo caminho e sempre tínhamos onde parar para comer e para dormir. Ficávamos nos famosos lodges, hospedagens pequenas e simples espalhadas por todo canto nesse ponto do planeta. Certo, agora que tirei isso da frente posso prosseguir.

O aeroporto de Lukla

Começamos em Lukla, quase sem dormir, após rir na cara do perigo ao embarcar no famigerado ”avião” e com fome. Ainda bem que o primeiro dia foi curto e pouco cansativo. Mesmo assim já deu um gostinho do que viria pela frente. Lukla fica 2.800 metros acima do nível do mar, já é um local onde o frio se faz presente, mas ainda não se sente muito a altitude. Até Phakding, a vila onde dormimos, andamos por um verdejante vale dos Himalaias, sempre acompanhando um rio cor de jade num sobe e desce leve. Ao fundo montanhas cobertas de gelo salpicavam no horizonte, mas nenhuma dessas era ainda o Everest. O primeiro e o segundo dia de caminhada, em que a vegetação é mais densa, as vilas maiores e mais fartas e os arrozais visíveis me lembraram um pouco do nosso trekking pelo Vietnã, só que com muito mais stupas budistas pelo caminho. Um visual calmo, tranquilo e quase isolado, não fossem os cerca de 30 mil turistas que passam lá por ano. Uma coisa diferente entre o primeiro e o segundo dia foi o nível de esforço físico necessário para alcançar nossos destinos. Saímos de Phakding, a 2.600 metros e precisaríamos chegar em Namche Bazar, a 3.200. Foi um dia longo, de lindas paisagens e em que cruzamos a ponte mais famosa desse trekking todo, que inclusive aparece no filme Everest de 2015. O problema é que após ela tivemos que enfrentar uma subida contínua de quase 2 horas. A primeira “mega subida” da trilha toda. Isso em um caminho estreito, perigoso e que precisávamos dividir com outros caminhantes e burros de carga. No meio da subida passamos até por um lugar em que supostamente é possível ver o Everest de longe, mas o céu parece sempre estar encoberto perto dele, baita montanha tímida viu, nunca quer aparecer pros outros. 

Passando pelas vilas

O importante é que suados, cansados e talvez até um pouco assados finalmente chegamos em Namche Bazar, pra mim a vila mais impressionante do caminho todo. Foi um momento bem impressionante, pois só dá para ver Namche em sua totalidade ao passar por uma curva  fechada beirando um penhasco e aí depois do que parece ser o limite da cordilheira do nada lá está ela: uma cidade toda na montanha acobertada pela neblina.

Parece tranquilo, mas essa ponte se mexia um bocado

Mas é engraçado que ela não está no topo da montanha, ela parece acompanhar a encosta em forma de ferradura, como se estivesse na beira do precipício. Para mim Namche lembrou uma cidade em uma pequena baía marítima, só que essa baía está uns bons metros acima do mar. E na frente da vila o que tem? Montanhas, claro! Duas, bem grandes, brancas e imponentes, ali paradas, apenas exibindo seu topo tomado pela neve. Eu achei o lugar incrível e com uma vista incrível, realmente marcante. É uma vila mais desenvolvida que as outras, afinal é o último grande ponto antes de o caminho se enveredar por terrenos mais complicados, talvez por isso seja menos “autêntica”, mas ainda assim notável. Lembro de pensar duas coisas quando cheguei lá: se Shangri-la realmente existe fica em algum lugar naqueles vales perdidos dos Himalaias e talvez seja uma cidade parecida com Namche Bazar. 

Namche Bazar

Foram dois dias na vila, pois lá fizemos nossa primeira aclimatação. Mas isso eu vou detalhar mais no próximo post. Escrever sobre tanto esforço físico me cansou. 

Beijos Quentes