Grécia ou Desbravando a terra do minotauro

Uma cena típica de Creta

Olá, 

Eis aqui mais um enxame de bobagens para vocês gastarem o finito tempo de suas vidas. Nada de abraçar os filhos, beijar a pessoa amada e estar com os entes queridos, o negócio mesmo é deixar os minutos deslizarem por baixo do alçapão celeste lendo as desventuras de um estranho em terras mais estranhas ainda. Mas isso ainda é melhor do que ficar vendo os instastories da sua prima na academia, então vamos lá.

Depois de visitar a cidade que já foi um farol de conhecimento para o mundo ocidental (e hoje é no máximo um farolete), nos dirigimos para o que realmente interessa na Grécia: praia, sol, bebida e sossego. 

Fizemos a famosa dança das cadeiras de quem viaja e nos apertamos em alguns transportes durante horários nada confortáveis até chegarmos em Creta, a maior das ilhas gregas. E também um dos lugares com mais história desse cantinho abençoado por contos e causos no mediterrâneo. Os minoicos são uma civilização tão antiga quanto os mais anciões assentamentos gregos, inclusive já dominaram Atenas e boa parte da região, no fim acabaram como poeira intergalática por uma série de fatores, mas a turma lá da ilha já foi bambambã. É justamente dessa época que surgiu um dos mitos gregos mais famosos, o do Minotauro, a besta comedora de pessoas que nasceu (em algumas versões do causo) do desejo lascivo de uma rainha (causado por um Poseidon sacana) e o poder sexual de um belo touro. Uma história de amor como outra qualquer lá pelas bandas do interior profundo, nem sei porque os gregos fizeram tanto barulho por causa disso. Enfim, é um mito interessantíssimo, com personagens interessantíssimos, como Ariadne e o metido a herói do Teseu, mas isso aqui não é aula de mitologia, por isso não vou comentar mais sobre. Basta dizer que ninguém nunca pensou em desafiar o Minotauro para uma partida de sinuca (ou até mesmo truco), o verdadeiro jeito civilizado de resolver problemas. Parece que os gregos não eram tão avançados assim. 

Em Creta conquistamos os labirintos de areia e sal e assassinamos as bestas em nossos caminhos (apenas as metafóricas). Foram, de novo, tempos gostosos demais. 

Um gostinho de Creta – do alto de um antigo forte veneziano

Mas calma lá, vou detalhar um pouco mais essas aventuras. Para começar, Creta é, como já disse, uma ilha grande. Bem grande. Por isso alugamos um carro para nos locomover. Logo no aeroporto já achamos o encarregado da empresa de aluguel que me levou para o pátio, um lugar que mais lembrava um ferro-velho. Eu tinha escolhido a opção mais barata de aluguel e ao ver os carros oferecidos pela nossa empresa esparramadas pelo pátio comecei a ficar um pouco receoso pelo o que poderia vir pela frente, mas eu ainda tinha uma centelha de esperança que o Universo nos presentearia com uma carruagem digna de Apolo. 

Nunca conte com o Universo. 

Conseguimos pegar um carro pior que a pior opção da empresa, uma lata-velha do tempo do rei Leônidas. Sério, eu não sei nem como eles ofereceram aquele carro para um cliente. Com certeza se meu tio Teixeira visse o veículo ele mandaria a infame piadinha “tem que tomar vacina anti-tétano pra entrar nisso”. Eu sei porque eu mandei essa piadinha. Enfim, tenha em mente que era um carro ruim, ele não andava, mas se arrastava pela estrada gritando súplicas mecânicas para qualquer que seja o deus do Olimpo que cuide das máquinas. Ele só pedia por um fim rápido para sua dolorosa vida baseada em combustível fóssil. Durante toda viagem quase sempre tivemos sorte com coisas alugadas, ganhamos alguns upgrades milagrosos vindo do nada, mas dessa vez o destino quis brincar com a gente. Mal sabia essa força misteriosa que eu domaria a tristeza metálica e ganharia uma estranha afeição pelo nosso bólido. 

Balos é uma prainha bacana

Creta é um lugar maravilhoso. Cheio de história e praias lindas. E também cheia de espaço. Existem concentrações de turistas, é claro, mas tem tanta praia e vilazinha pela ilha que dá para ir parando em lugares incríveis e quase vazios. Creta tem vida. Moradores locais vivem de forma simples em suas casas mediterrâneas sempre integradas no horizonte azul e laranja. Me pareceu um lugar mais autêntico e variado do que Santorini, a outra ilha que visitamos. Creta tem praias lindas, cidades charmosas, vilas de pescadores, montanhas, trilhas, cavernas e o escambau. Não é à toa que Zeus foi criado lá. 

A paisagem é bem parecida ao longo da ilha toda. Cadeias de montanhas dominam a parte central do terreno e dividem o horizonte com o mar azul daquele marinho grego “tradicional”. O lugar é seco, árido, alaranjado e pedregoso, lembra muito do que já tínhamos visto na costa da Turquia. Alguns pinheiros ali, outras oliveiras acolá e uns arbustos no chão formam a maior parte da vegetação que vi. Mesmo assim, tudo se mescla em um balé visual de tirar o fôlego, principalmente nas praias, onde a paleta de cores ganha a força do turquesa das águas mais rasas. Dá para ver que eu gostei de Creta e achei o lugar lindo. 

Dividimos nossa estadia na ilha em duas partes, uma mais perto de Chania e outra mais perto de Heraklion, ambas em casinhas alugadas extremamente confortáveis. Cozinhar, ir ao mercado, ter vizinhos e um espaço nosso deu mais vontade ainda de viver a vida grega. Depois de tanta cama dura e banheiros desgrenhados finalmente estávamos em um combo de boas acomodações (e muitos gastos).

Uma prainha perdida (ou achada por turistas)

Com nosso fiel carrinho da tristeza desbravamos locais lindos como Elafonissi, Falassarna e Seitan Limania. Ainda fizemos a versão europeia de um tour da CVC para as incríveis Grambússa e Balos, talvez os locais mais lindos de toda a Grécia. E isso foi só ali ao lado de Chania, porque quando nos mudamos para Heraklion resolvemos nos aquietar em uma prainha desconhecida bem perto da nossa casa. O lugar também era bonito. O mar grego tem mesmo um charme e um poder único, passa a mesma sensação que senti na Turquia, aquele cenário que parece que não combina com praia, mas tem praia ali. E não é feia não. Longe disso. É bonita pra caramba. Montanhas, morros, pinheiros e aridez ao redor. Uma paisagem imponente. Eu praticamente conseguia sentir Zeus me olhando do alto do monte Ida e aprovando minha sunga. Valeu, Zeus. 

Mas não foram apenas dias de calmaria, alto nível estético e felicidade. Eu quase morri. Isso mesmo, eu quase morri certa noite em Chania. Vai parecer brincadeira, mas na hora eu senti a vida escapando de mim. Vou explicar melhor. Fomos jantar na parte velha da cidade, um lugar bem charmoso, cheio de turistas e restaurantes bons. Acontece que eu não comia nada mais que uma maçã há 3 dias, pois estava mais uma vez com o intestino inquieto. Esse jantar foi a reinauguração da avenida “intestino grosso”, mas a obra de recapeamento não foi bem feita e o caminhão de comida que tentou passar acabou atolado. Comi e bebi igual um boi (ou um minotauro) e depois gemi igual um porco. O exagero foi meu pecado e no fim da noite minha barriga ficou dura, petrificada, e eu tinha certeza que iria literalmente explodir. O primeiro brasileiro a morrer no exterior por comer demais. A vergonha de Itu e de minha família. Eu nem conseguia dirigir de tão debilitado que estava. E a Marina o que fez? Só ria. Ria com o riso fácil dos saudáveis, dos que gozam da vida e não sabem o que é sofrer. Ria o riso da criança inocente enquanto seu marido estrebuchava  por ter o olho maior que a barriga. 

As bonitas rindo durante a noite que eu quase morri em Chania

Mas deu tudo certo e eu superei mais um obstáculo em minha jornada. Estou fazendo piada aqui, mas é estranho pensar que depois de tudo que vimos e aprendemos na viagem eu tenha passado mal de tanto comer em um ilha grega. Alguns diriam que é um fim indigno para um mochilão raiz, eu diria que bem de vez em quando é bom se perder em excessos. O meu foi um excesso patético, só isso. 

Depois de Creta fomos de balsa para Santorini, uma das ilhas mais badaladas do contingente grego. Creta estava longe de ser um paraíso perdido sem turistas, mas o que vimos em Santorini foi um outro nível de turismo. Parecia uma colônia de férias para gringos e não a casa de gregos. Era mais fácil encontrar alguém falando português do que grego. Mais ou menos o que aconteceu em alguns lugares da Tailândia, mas com um nível de peruagem muito superior. Foi um lugar caro, cheio, quente e bonito. Sim, não dá para negar, as vilazinhas tradicionais gregas, aquelas bem brancas e azuis, são lindas. As praias de lá parecem legais, mas nada perto do que já tínhamos visto. Fomos ali principalmente ajudar a Vera a realizar o sonho de estar naquele cenário de filme, e só por isso já valeu a pena. Longe de mim falar que foi ruim, mas eu não volto lá não. Até porque para voltar eu preciso vender um braço meu e a Marina inteira no mercado negro. E olha que a Marina vai dar problema e vão querer devolver, então não vai dar certo mesmo. 

Cada um curte Santorini como lhe convém

E essa foi nossa estadia na Grécia, um lugar de dias tranquilos e gostosos, com um ritmo muito diferente do que vínhamos fazendo porque recebemos uma pessoa querida. Olha, receber a sogra para uma viagem foi muito melhor do que eu esperava, foi bom demais.

Com a partida da Vera para o Brasil era nossa hora de continuar a viagem. Depois de visitar amigos na Europa, iríamos dar um pulinho em casa por um tempo. Isso mesmo, voltaríamos para o Brasil. Mas isso eu explico melhor depois.

Beijos Quentes.

Bulgária, o país verde e esquecido – Parte 1

Sófia pode ser estranha.

Olá, seguidores do caminho torto e apaixonados pela escuridão. Enfrentamos mais um dia em nossa etapa sem muito sentido aqui nesta bolha azul que insistimos em deixar cinza. Já que propósito é algo tão abstrato quanto nossa própria existência, por que não gastar um pouco de nossas finitas respiradas com a leitura de um post desnecessariamente longo? 

Depois de passarmos pela já costumeiramente trabalhosa troca de país, nós nos vimos em uma praça ensolarada na cidade de Burgas, Bulgária. Bulgária? Bulgária. Sim, esse país renegado aos cantos mais escuros da nossa mente, daqueles que até o professor de geografia esquece que existe. A Bulgária não é inexplorada ou longe o suficiente para ser exótica, a Bulgária não foi palco de guerras tão sanguinárias como seus vizinhos (ainda bem), a Bulgária não é um iminente destino de verão Europeu (mesmo com as praias do mar negro), a Bulgária não é lembrada como um berço histórico do planeta (apesar de ter sido parte de grandes impérios antigos), a Bulgária não tem uma cultura tão diferente assim do ocidente (não estou dizendo que não seja uma cultura única)… Enfim, a Bulgária, por uma série de fatores, é sempre relegada ao elenco coadjuvante da novela territorial na mente dos viajantes, sejam eles de longo prazo ou não. É um país que lembramos que existe só quando ganha ouro no halterofilismo nas Olimpíadas ou quando abrimos um mapa da Europa e olhamos COM CUIDADO, principalmente quando estamos na Turquia ou na Grécia e precisamos nos mover por aí. Talvez os mais agraciados com memória lembrem de Bulgária durante uma partida de STOP, mas é isso, ninguém mais lembra da Bulgária, só os búlgaros. E não estou dizendo que o país é menos importante por isso, claro que não, estou apenas descrevendo como funciona a mente humana. Pode chamar isso de preconceito, falta de cultura, o que for, mas não venha me dizer você, leitor, que lembra constantemente da Bulgária e que o lugar é o número 1 na sua lista de países para conhecer. Esse blog não é local para mentirosos. 

Esse post não tem muita foto mesmo.

E quer saber? Melhor assim, eu invejo a Bulgária. É bom ser esquecido e deixado em paz pelo resto do mundo. 

Fomos parar nessa massa de terra destinada ao oblívio porque estávamos na Turquia e iríamos para a Grécia em alguns dias encontrar a mãe da Marina, por isso nada mais natural que parar um tempo em um país tão perto do nosso destino. 

Viemos de Istambul naquela maratona que já descrevi, mas um ponto positivo de vir de ônibus é poder curtir as mudanças de cenário. Incrível como cada metro mais perto da Bulgária significava mais verde no cenário praticamente marrom e amarelo daquela espécie de cerrado turco. A Bulgária é verde, é cheia de vegetação viva, exuberante, não de árvores retorcidas e arbustos. A Bulgária é terra de bosques de respeito. 

Chegamos e ficamos apenas algumas horas em Burgas esperando nosso ônibus até Sófia e confesso que gostei de cara da Bulgária. O povo, apesar de parecer fechado, foi simpático e prestativo, mesmo os que não falavam inglês. Escutar as pessoas falando “dã”e ver o alfabeto cirílico em todo canto cutucou com força o monstrinho dormente da nostalgia e lembrei com carinho do começo da nossa viagem, quase um ano atrás, na Rússia. Será que o ciclo estava se fechando? Enfim, Burgas tem uma rodoviária bem capenga e a cidade não parece ruim, mas também não tem nada demais. Os prédios que vimos eram antigos e lembravam bem um lugar que um dia já foi parte da União Soviética, mas segundo nosso motorista de táxi Burgas é o melhor lugar do país, então quem sou eu para discordar.

 

Catedral de Alexandre Nevsky

De lá fomos para a capital, Sófia, que vou ser sincero, não conhecemos tão bem assim. Parece ser uma cidade muito gostosa e boa para relaxar, pois tem cultura, belas construções, parques ocupados da maneira certa (isso é, de pessoas curtindo eles) e ainda assim é acessível e pequena o suficiente para não abrigar grandes multidões e ser abastecida por apenas duas linhas de metrô. Sófia me pareceu uma versão menor e mais calma de cidades como Praga e Budapeste, mas não posso afirmar isso com certeza porque nunca visitei essas outras, por isso cabe a você decidir se vai acreditar nessa minha comparação manca ou não. Tudo isso que descrevi anteriormente vi em apenas dois grandes passeios que demos por lá, porque ficamos a maior parte da nossa estadia de seis dias na cidade enfurnados em um Airbnb que era um portal para uma dimensão de preguiça e conforto. Sério, o apartamento era demais e nossa rotina lá foi bem gostosa, mais ou menos um remember do que fizemos na Austrália. Cozinhamos, nos exercitamos (de leve, ninguém é de ferro) e colocamos a vida em ordem. Até um jogo no videogame eu fechei. Quando não envolve vender a alma em jornadas excruciantes por uns trocados para pagar boletos até que essa tal de rotina não é tão ruim. Sim, vocês sabem e eu já falei aqui antes, é bom voltar a ter alguns padrões na vida, ninguém aguenta ser viajante desenfreado 100% do tempo, nem o Indiana Jones, que vira e mexe voltava para seu emprego de professor. 

Depois do nosso tempo de esbórnia ociosa alugamos um carro para desbravar o país, o que não é difícil porque ele não é muito grande. 

Mas para esse post não ficar excruciante dividi o texto em duas pequenas partes.

Beijos Quentes

Turquia ou Limite vertical praiano

Pôrzão do sol lá pelas bandas de Ölüdeniz

Olá, amigos e amigas

Enquanto a pérfida luta contra a prisão da existência não termina, tentarei mais uma vez quebrar os grilhões da rotina e mostrar para vocês que o que está ruim pode sempre piorar. Já que a moda agora é queimar alguma coisa, bora lascar fogo no bom senso e na (minha) dignidade.

Depois de terminar nosso intenso quente e lotado mergulho ao passado, como relatado no post anterior, continuamos cruzando as planícies turcas em direção ao sol poente, buscando o laranja do céu e as praias do Mediterrâneo. 

Nossa primeira parada nessa empreitada litorânea foi na badalada cidade de Bodrum. Um lugar que não estava nos nossos planos, mas que incluímos para encontrar uma amiga da Marina. 

Bodrum é um lugar bonito, charmoso e cheio. Fantasmas de pele clara, bochechas rosadas e roupas que indicam pouca ou nenhuma familiaridade com uma divertida cidade de praia vagam aos montes por lá. Ou seja, Bodrum é lotada de turistas britânicos. Sim, é um lugar bem turístico, o que quer dizer que tem mais restaurantes, barzinhos, hotéis e loteamentos do que natureza. Não era o tipo de coisa que estávamos procurando, mas nos divertimos no período em que estivemos lá. Tomamos cerveja, comemos bem, observamos um belo pôr do sol e curtimos um dia interessante em uma das praias da cidade. Uma praia simpática, mas de pedra. Você deve estar se perguntando qual o problema, querido(a) leitor(a). Vou falar: praia de pedra é um negócio difícil de engolir. Os frágeis tecidos da realidade estão sempre instáveis em uma praia de pedra, como se o universo estivesse com sinal fraco e um chiado cinza dominasse nossas mentes. Percebemos que algo está errado. E isso acontece em qualquer praia de pedra, por mais bonita que ela seja. É como um andróide que não passa no teste Voight-Kampftt, no fim, por mais bem construído que seja, não é um ser humano. Não estou dizendo que a melhor praia de pedra do mundo é pior que a mais horripilante praia de areia que existe por aí, só estou dizendo que é complicado gostar desse negócio. E antes que alguém venha me dizer que pedra é bom porque não gruda e nem é invasivo como areia eu só tenho a dizer: você não sabe curtir uma praia, você não merece uma praia e você nem deveria pisar numa praia. Areia é o melhor denominador comum da sociedade, irrita e cola no corpo sem qualquer tipo de distinção, é o elemento que veio para nos mostrar que no fim somos todos iguais. Quem se dispõe a “enfrentar” a areia sabe que ela sempre vence, não importa quem você seja. E se não for para sair parecendo um frango à milanesa eu nem vou à praia. Enfim, desculpe o tom autoritário, mas esse é meu blog e o único ambiente no mundo em que eu posso exercer minha ilusão de poder, então me dê licença. 

Bodrum e suas via marítimas entupidas

Bodrum foi um ponto estranho no roteiro, mas divertido. Encontramos amigos e pudemos observar uma gama de personagens exóticos que rondam pela cidade, desde senhoras ricas e caricatas que andam com cachorrinhos birrentos a tiracolo e parecem saídas do desenho do Tintim a velhos bêbados que ficam aprisionados em seus pequenos barcos enquanto suas almas vagam livres por aí, esses saídos direto de uma obra Hemmingwayniana. O mais emblemático deles parou em uma mesa ao lado da nossa em um barzinho, sentou-se com os jovens que a ocupavam e começou a tocar a pior melodia que já saiu de qualquer violino do mundo. Tudo isso sem qualquer coisa parecida com um convite. No fim contou umas histórias, ganhou um sanduíche e minha admiração. Bodrum é um lugar estranho. 

Depois nos dirigimos para onde queríamos estar desde o começo, na região de Fethiye e Ölüdeniz. Para chegar lá foram cerca de 4 horas por estradinhas seguindo a costa turca, uma jornada extremamente agradável. Passamos por cidades minúsculas e belas, pequenas joias escondidas no Mediterrâneo. Foi uma pena termos um prazo de saída da Turquia (pois iríamos encontrar a mãe da Marina na Grécia), porque tenho certeza que dá para ir parando e explorando cada vilazinha à beira do mar. Enfim chegamos no nosso objetivo, um hotelzinho com clima caseiro que ficava na parte mais interiorana de Ölüdeniz. Fethye é uma cidade praiana de tamanho razoável, porém calma e gostosa. Ao seguir pela estrada principal e cortar as montanhas por cerca de 10 minutos é possível encontrar a vila de Ölüdeniz e caso continue na mesma estrada por mais uns 5 minutos chegará na praia de Ölüdeniz, um lugar popular nas férias de quem quer desfrutar o Mediterrâneo turco. Como estávamos de carro ficamos na vila que fica no meio do caminho, e apesar de ser uma região cheia de europeus descansando de suas rotinas, fica também perto de muitas prainhas mais reservadas e escondidas entre os vales que rasgam as montanhas que guardam o litoral daquela parte do mundo. Fomos lá para ficar 3 dias e acabamos ficando 7. Foram tempos relaxantes, daqueles momentos que praticamente fazem um carinho na alma. Todo dia exploramos praias diferentes, nossa hospedagem era ótima e barata, a comida nas redondezas era boa e o melhor, tínhamos café da manhã incluído na diária. E não, isso não é bobagem. Essa viagem me fez valorizar os cafés da manhã inclusos na diária como nunca antes, e o desjejum do nosso simpático hotel era fora de série. Queijos, diferentes tipos de azeitonas, pães, ovo, vários tipos de geleias, bolo e o melhor mel da história. Confesso que comia por duas ou três pessoas ali, o que é a melhor tática a se seguir para pular (e economizar) refeições ao longo do dia. Um homem com um bom café da manhã não quer guerra com ninguém. 

O Butterfly Valley e a praia lá embaixo – bela queda

Nesse período conhecemos praias incríveis, até porque a região era maravilhosa e facilitou nosso trabalho. Mais um lugar na Turquia em que eu ficaria mais de meses, tranquilamente. Uma mistura de montanhas, vales e praias perdidas entre pinheiros. Nunca achei que pinheiro combinasse com praia, mas ali eu entendi que areia branca e coqueiro não é o único combo possível para degustar de uma diversão marítima. Claro, existem lugares lotados e tomados pelas hordas estrangeiras, como a própria praia de Ölüdeniz, mas ali perto fomos em locais como Kabak e o Butterfly Valley, locais lindos e tranquilos. Kabak era o ponto mais afastado de onde estávamos e para chegar lá nos enfiamos no meio de estradas estreitas em um desfiladeiro e quase estacionamos no telhado de um pequeno barraco. Depois descobrimos que para descer até a praia do alto das montanhas (por lá é tudo desfiladeiro até o mar) é preciso pegar um ônibus especial ou andar por um tempo. Como estava quente e estávamos com aquela preguiça gostosa causada pelo excesso de sol e sal, optamos pelo ônibus/van apertado, uma opção sempre interessante para quem quer aliar o clima de praia com uma sauna. Kabak tinha um clima alternativo e místico, com muitos jovens turcos acampando por lá, daquele tipo de lugar em que as pessoas fazem yoga na praia e alguém se oferece para ler seus chakras. É um local lindo, na boca de um valezinho simpático e cercado por montanhas. Um defeito? Mais uma praia de pedra. Mas confesso que senti uma calmaria quase espiritual nas águas de Kabak. Ali pensei, “por que me estressar?” – Tudo estava tranquilo, nossos problemas eram pequenos perto da imensidão daquela natureza e eu estava viajando o mundo com a mulher que eu amo. Claro que esse estado mental zen não persistiu muito e logo na próxima baliza que precisei fazer já estava xingando até minha mãe. Ser iluminado não me cai bem, mas foi bom enquanto durou. 

Parte do rolêzinho para descer até a praia

O Butterfly Valley é um lugar que nem tenho capacidade léxica para descrever. Meu segundo lugar favorito na Turquia toda, com certeza (Capadócia ainda é rainha). Como diz o nome, é um vale, mas não é um vale como muitos outros que existem na região. Ele é estreito, íngreme, quase claustrofóbico. Como se fosse um corte fino nas montanhas feito pela espada de um deus durante a Titanomaquia. E ali embaixo, onde as montanhas finalmente terminam, fica uma prainha linda banhada por águas verdes transparentes. Dá para conhecer o vale pelo alto, a estrada dá a volta por ele e continua pelas montanhas, e a vista é embasbacante. Mas também dá para descer até o mar por uma trilha que beira os penhascos alaranjados. E que trilha. É um caminho quase vertical e que pode ser considerado complicado tecnicamente. Não é longo nem demanda muito esforço, mas deixa tenso. Em alguns momentos é necessário o uso de cordas para descer e subir as pedras. Sim, cordas. Coisa de quem é versado na aventura. Foi nossa versão particular do filme “Limite Vertical” e nós já podemos dizer que flertamos com os perigos da gravidade. Sim, logo eu que já ganhei o prêmio “mais tropeços que a média da população adulta de Itu 2017” consegui completar o nervoso percurso sem nenhum acidente, embora em dado momento eu tive que pular de um penhasco até outro no melhor estilo Missão Impossível. Não acredita? Azar o seu. Não preciso nem dizer que eu adorei descer e subir os precipícios, ainda mais porque fizemos tudo em um lindo dia agraciado pelo sol e eu pude limpar os baldes de suor que saíam de mim em um mar estonteante. Eu já falei da praia do Butterfly Valley, mas vale reforçar, que lugar incrível. Isolada, tem areia (e pedras), mar calmo, cor hipnotizante e um clima tranquilo, quase hippie. A paz de lá só é quebrada nos períodos em que as multidões pulam como pulgas dos navios de passeio que chegam nas ancoragens próximas, mas o caos dessa torre de babel convertida em tripulação só dura algumas horas – as infames “horas de visita”. Nos outros momentos a praia é dos malucos que acampam lá embaixo, de alguns locais e dos imbecis (como nós) que sobem e descem a trilha do desfiladeiro. Lá consegui dar mais um mergulho estilo “zen”. As águas da Turquia fizeram bem pra mim. Só as águas também, porque a trilha foi linda, mas nos deixou incapacitados no dia seguinte. A Marina parecia o cadeirudo (da novela A Indomada, lembra?) andando. O único ponto negativo foi não termos conseguido pegar a temporada de flores e das borboletas que lotam o vale, mas mesmo assim foi um dia de visões inesquecíveis.

Saudades das praias turcas (menos as de pedra)

Não vou detalhar aqui nossas peripécias em todas praias que visitamos, pois até que fomos bem ativos nesses dias baseados em Ölüdeniz, mas apesar das andanças pra lá e pra cá conseguimos relaxar e entrar em sintonia com a sensação de descobrir, algo importante nesse tipo de viagem. Alugar carro não é a opção mais barata e com certeza diminui as chances de encontros inusitados (graças a Deus*), mas em contrapartida aumenta a liberdade para explorar, mesmo que o carro seja um péssimo Peugeot 301 com um motor que mais parece um secador de cabelo. 

Foram alguns dias e logo já precisávamos voltar para Capadócia, devolver nosso carro, pegar um ônibus para Istambul e aí partir para a Bulgária, nosso próximo destino. Mas os detalhes dessa jornada são tema para a próxima newsletter.

Beijos quentes

*Ao contrário de 99% dos viajantes de longa duração, eu não sou grande fã de contato com os outros nem gosto de puxar assunto com qualquer um. Sei que é algo vital para várias coisas, inclusive para o conhecimento de mundo, e reconheço sua importância, assim como reconheço a importância da ingestão de beterraba mesmo odiando beterraba.

Turquia ou Capadócia e a maculação da minha alma

Capadócia é um região bem da bacana

Olá, participantes dessa maratona de sofrimentos chamada vida. Aguente firme, chegou mais um episódio das lastimáveis aventuras e patéticas reclamações do menor casal que já viajou o mundo.

No último post contei sobre o nosso rápido e tórrido caso de amor com Istambul. Foi triste e difícil sair de lá, afinal estávamos com tanta preguiça que até comprar um sorvete na esquina configurava-se como “trabalhoso” para nós, mas a vida segue e nossa viagem também seguiu, por isso fomos nos enfiar em mais um ônibus por cerca de 12 horas.

Estávamos indo em direção a Göreme, uma vila quase no centro do que é chamado de Capadócia, que é uma região e não uma cidade, estado ou coisa do tipo. A viagem foi tranquila e sem nenhum grande perrengue, o que de certa forma é uma novidade neste blog. Achei curioso que no ônibus o rapaz que atua como cobrador e ajudante de motorista também se arrisca como comissário de bordo durante a viagem. Sim, em dado momento ele tirou um carrinho dobrável e umas comidinhas de um compartimento secreto e passou servindo chá, água, suco e snacks. Chique. 

Foi um ônibus noturno, por isso no outro dia de manhã chegamos no nosso destino. Ou quase. Como Göreme estava com acomodações muito caras acabamos reservando um lugar em Ürgüp, uma vila próxima (10 quilômetros de distância) e também parte da região da Capadócia. Por isso lá fomos nós caçar uma van local quase que de madrugada para nos levar até nosso objetivo. Locomover-se a baixo custo é cansativo demais, mesmo quando é fácil. 

Família do Mehmet sem o Mehmet – acordamos todo mundo

Depois de algum tempo finalmente chegamos na casa do Mehmet, nosso anfitrião. Em Ürgüp ficamos numa casa de família, mas não foi por Couchsurfing. Na verdade esse lugar estava listado no Airbnb com um preço muito bom, por isso pegamos a oferta. Foi como se tivéssemos alugado um quarto na casa dele. No fim foi uma experiência incrível, mas foi estranho chegar logo cedo na casa de outra pessoa, principalmente porque o Mehmet entendeu errado nossa mensagem e achou que nós chegaríamos à noite, o que nos levou a: 1) acordar ele 2) acordar a família dele toda que estava passando o Ramadã lá (a celebração estava em seus últimos dias) 3) tomar um café da manhã com a família toda, que nós acordamos, sem o Mehmet, porque ele precisou sair correndo para trabalhar. 

Foi uma daquelas cenas surreais que surgem as vezes em obras de realismo fantástico, como se estivéssemos em um filme co-dirigido por Fellini e Roberto Benigni – o casal atordoado, a família confusa, uma criança elétrica e eles sem falarem um pingo de inglês e nós com entendimento zero de turco. Claro que nos entendemos, no fim todo mundo se entende, e um café da manhã com todos tipos de azeitonas possíveis ajudou muito. Aliás eu adorei a concepção de café da manhã dos turcos – alguns tipos de queijo (de cabra principalmente), tomates frescos, pepino, pães diversos, milhares de azeitonas, pistache e nozes, manteiga, frutas e geleias. É farto, gostoso e leve. Quer dizer, se você comer a mesma quantidade que eu comi não é leve não, mas ok. 

Rimos, comemos e (não) nos entendemos, foi interessante. Depois saímos para conhecer Ürgüp enquanto eles arrumavam nosso quarto, pois não nos esperavam aquela hora. 

Um pouco de Ürgüp

A vila é charmosa, arrumada, pequena e da mesma cor de todas as vilas da Capadócia, um bege amarelado que tem o mesmo tom das rochas onde as construções eram escavadas antes. É uma sensação estranha observar uma cidade que tem apenas uma cor, sem um escape de tom, parecia que um gigante tinha jogado um balde de areia em cima de todas construções. De longe os detalhes, que são muitos, parecem se perder em uma massa uniforme, mas ao chegar perto de cada casa ou prédio é sempre possível se surpreender com alguma coisa nova. Aliás a Capadócia e suas vilas são uma visão surreal. Vindo de Göreme para Ürgüp já tínhamos visto uma pitada do que essa região tem para oferecer. Construções escavadas na pedra, cidade fundindo-se com natureza e formações rochosas bizarras. É um lugar incrível.

Pelos vales perdido

Mas melhor do que ficar restrito à vista das cidades ou participar de tours com mais pessoas do que deveriam caber em uma van é se enfiar no meio dos vales esquizofrênicos da região. Sim, dá para andar por conta própria pelas milhares de trilhas que existem ao redor de Urgup, Göreme, Uçhisar e outras vilas da Capadócia. É muito lugar pra desbravar. Nosso dia favorito aconteceu quando nos enfiamos no meio dos caminhos estreitos de alguns vales locais, mais especificamente o Swords Valley, Red Valley e Rose Valley. Foi um dia inteiro andando entre um lugar que parecia o filho renegado da lua com Marte. A diversidade de cenários em espaços tão próximos é fantástica. Em dado momento estávamos no fundo de um mini cânion apertado e cinza, alguns minutos depois subíamos uma colina para nos depararmos com um labirinto de morros rosas que parecia dentes saindo da terra e aí mais adiante nos vimos perdidos entre ferozes formações lunares emergindo como espinhos do chão. Isso tudo apenas nesta pequena região que mencionei. Fora o cenário de cair o queixo ainda nos deparamos com casas e até igrejas escavadas nas pedras, algumas mais antigas que aquele queijo que você deixou no fundo da geladeira jurando que um dia ainda vai comer. É maluco demais pensar em toda história e toda gente que já viveu naquele lugar em condições tão peculiares. Uma das igrejas que encontramos era gigantesca, uma verdadeira catedral dentro de uma rocha.  Ainda bem que eu não nasci em tempos mais antigos, porque o esforço necessário para criar algo desse tipo não condiz com meu nível de comprometimento e energia, se dependesse de mim os moradores da Capadócia não conseguiriam nem enfiar o dedão dentro de um pedregulho. 

Casas nas pedras

Outra coisa que achei incrível é o quão complexo são os cânions e vales que se formam na região. De uma vista panorâmica parece ser uma região árida e simples, incrível, mas simples, com diversos rasgos na terra e umas colinas de formato peculiar se erguendo aqui e ali. Mas ao nos aventurarmos pelas trilhas vimos como cada um desses desfiladeiros escondiam uma vegetação vasta e mais profundidade e beleza do que era possível ver de longe. Nas nossas andanças tivemos que atravessar uma mata espessa lotada de abelhas. Provavelmente era uma trilha fechada que os dois imbecis resolveram seguir e quase terminamos como o menininho do filme “Meu Primeiro Amor”.  Mas o visual que encontramos pelo caminho valeu a pena.

Parecia Marte lá embaixo

Bom, eu me empolguei descrevendo as belezas da Capadócia, mas é porque foi um dos lugares que mais gostei de toda a viagem. É diferente. Impressiona. Caso você passe lá um dia vá além dos passeios de balão e explore o lugar de perto. 

Aliás o dia em que exploramos os vales que mencionei acima foi especial, pois terminamos ele tomando uma cerveja com Mehmet e sua mãe (os únicos moradores fixos da casa onde ficamos) e rindo bastante. A mãe dele é incrível e não fala nada de inglês, mas mesmo assim conseguiu nos mostrar fotos de suas viagens e contar da família. 

Pela Lua

Depois de três dias saímos de Ürgüp e fomos para Göreme, dessa vez ficamos em um hotel mesmo, assim estávamos mais perto das trilhas e vales da região. Göreme também é de onde saem os famosos balões da Capadócia e embora não fôssemos embarcar em um (no caso porque não tínhamos um fígado extra para vender e bancar o voo) queríamos acordar cedo e ver eles subindo aos céus de um mirante nas montanhas do Swords Valley. Para isso teríamos que acordar lá pelas 3 da manhã e andar por 1 hora até a desgraça do mirante. E foi o que fizemos. Infelizmente. Acordamos cedo, enfrentamos um friozinho chato, cruzamos um cemitério turco no meio da escuridão (sem querer), subimos a trilha no escuro, chegamos no topo do morro (onde fica um sofá velho para acomodar os aventureiros) e esperamos. Esperamos. E esperamos. Normalmente os balões começam a subir lá pelas 5 da manhã (nessa época do ano), pois o sol agracia a humanidade com sua presença flamejante umas 5:15. Mas nesse dia nada. Quando deu 5:30 começamos a desconfiar que talvez os voos tivessem sido cancelados. Quando vimos 6:15 no relógio tivemos certeza disso, mas ainda decidimos esperar mais um pouco, nos agarrando a mesma esperança perversa que fazia minha tia Mirtes comprar uma tele-sena toda semana. Em algum momento, perto das 7 da manhã, decidimos voltar para o hotel e para nossas camas, tristes e traumatizados pela falta de balões. O dia até estava bonito, mas eles cancelam os voos lá por qualquer coisinha, acho que tem a ver com alguma bobagem como segurança dos turistas ou algo do tipo. Enfim, ficamos uns sete dias na região e não vimos os balões em nenhum deles, tudo culpa do mau tempo.

Sei lá

Mas, apesar do trauma flutuante, foram tempos gostosos demais na Capadócia. Eu ficaria por lá 1 mês tranquilamente. Fizemos outras trilhas, visitamos o castelo de Uçhisar (que também é escavado nas rochas e fica no ponto mais alto da região), visitamos uma cidade subterrânea, descobrimos cafés escondidos em cantos perdidos dos cânions, tomamos muito chá e ainda relaxamos. Ainda conhecemos um casal de viajantes brasileiros muito gente boa (@livrespelomundo), a conexão foi instantânea e poderosa, apesar de apenas um dia juntos. Foi demais.

Esse morrão de pedra é o castelo de Uçhisar – era usado como um castelo mesmo
Foto seguidinha porque esse lugar era muito legal – mais casas na pedra perdidas por aí

Ou quase, pois foi lá que também aconteceu o maior trauma recente da minha vida adulta. Foi onde perdi a dignidade. Foi onde minha alma foi maculada e todo respeito usurpado do meu coração. Não sou mais o mesmo Rafael desde então, e, apesar de nunca ter sido grande coisa, ouso dizer que agora sou um homem pior do que era. Vou explicar o que aconteceu. Em uma tarde preguiçosa resolvemos tomar um sorvete. A Turquia é cheia de sorveteiros “brincalhões”, que ficam fazendo truques com a casquinha e “enganando” os turistas. Você já deve ter visto um vídeo disso, é praticamente uma atração turística por lá e as crianças adoram. Coisa que não me interessa, credo, longe de mim. Sou tão reprimido em alguns sentidos que ser feito de bobo pelo rapaz do sorvete na frente dos outros ativa uma vergonha poderosa e primitiva no meu âmago. Ou seja, eu nunca escolheria em sã consciência tomar um sorvete num lugar desses. Enfim, estávamos andando por Göreme atrás do nossa delícia gelada e achamos um lugar “normal”, não era desses cheios de truques. Ou pelo menos eu achava que não era. O rapaz do balcão serviu a Marina e, na minha vez, vi que um riso malicioso surgiu no canto da sua boca. Ele pegou o sabor escolhido colocou na casquinha e na hora de me entregar virou a casquinha de ponta cabeça e eu quase enfiei a mão no sorvete. Nessa hora meu cérebro deu uma pane, eu cheguei a pensar “meu deus, será que isso vai acontecer?”, mas já era tarde demais, o sorveteiro maligno, num golpe ágil e cruel, recolheu o braço e estocou com firmeza, enfiando o sorvete no meu nariz. Isso mesmo, eu, um homem adulto, levei uma sorvetada no nariz. Uma sorvetada no nariz do nada, no meio da praça da cidade. Meu mundo acabou naquele momento. Minha dignidade saiu correndo e eu fiquei com cara de bobo enquanto aquele turco dos infernos me observava morrer por dentro. Quando recobrei a consciência resmunguei em português, limpei o rosto cheio de sorvete de melão e sai sem nem olhar para trás. Mas o estrago já tinha sido feito, eu nunca mais seria o mesmo. 

Fica aí o aviso, quando você se leva a sério demais esse tipo de coisa pode acontecer. A minha rigidez interna foi estraçalhada por um sorveteiro e até agora estou recolhendo os cacos. 

E foi essa a única marca negra que a Capadócia me deixou.

eita

Após isso me reneguei, jurei vingança contra todos sorveteiros engraçadinhos, alugamos um carro e saímos para explorar a Turquia. Mas isso é o tema da próximo post.. 

Beijos quentes

Do Nepal para Índia com umas paradas no caminho

Dos nosso dias de calmaria em Katmandu

Olá desbravadores de palavras alheias, bem vindos a mais um capítulo do seu nonsense favorito (espero).

Você deve se lembrar que no último post tínhamos acabado de vencer um dos maiores desafios da viagem, tiramos onda no topo do mundo e voltamos para contar história. Bom, acontece que após as aventuras Himalaias ainda ficamos mais um tempo no país das maiores montanhas do planeta. 

O resto dos nosso dias no Nepal foram de pura preguiça e recuperação física. Comemos muito, encontramos amigos antigos e fizemos amigos novos. Até ao cinema fomos. Não ficamos apenas em Katmandu, fomos também para Pokhara, uma cidade muito gostosa que rodeia um grande lago. Lá descobri que é possível passar o dia inteiro comendo no mesmo local e não se sentir mal por isso (sempre com a companhia de Daniel e Babi). O ápice de nossa visita à Pokhara foi numa noite em que recebemos o convite especial para beber com alguns locais, amigos de amigos. Nos embriagamos com um aguardente que mais lembrava água sanitária, enchemos a barriga com uns petiscos de qualidade duvidosa e ainda fomos sacaneados no fim da noite pelos nossos supostos companheiros nepaleses. Mesmo assim é inegável que existe algo de memorável em beber com pessoas de moral questionável em um beco escuro e misterioso. Foi uma noite interessante.

Após a estadia da preguiça em Pokhara seguimos viagem, ainda no Nepal, pois era hora de nos movimentarmos de novo, quebrar a aura de torpor e gula que tinha tomado conta de nós, e, para a tristeza dos restaurantes da região, saímos de lá em direção à Lumbini. 

Pokharam, a cidade do lago em que ficamos 1 semana comendo

Foi mais uma daquelas viagens de poucos quilômetros e muitas horas. Mais um ônibus sacolejante e quente no Nepal, daqueles que sugam as energias de qualquer viajante. Depois de um tempo considerável, uma paisagem linda e uns bons litros de suor derramados chegamos ao nosso destino.

Lumbini fica bem ao sul do Nepal, já em terreno plano, seco, quente e fora da influência vertical dos Himalaias. Sim, existe uma parte do Nepal tomada por selva e clima quase tropical, não são só montanhas geladas que formam o país. Lumbini também fica perto de um dos pontos mais populares de passagem terrestre para a Índia e não estávamos lá por coincidência, afinal depois de visitar a cidade o plano era cruzar para o país onde as vacas são sagradas. 

Paramos em Lumbini porque lá é o local de nascimento de Siddhartha Gautama, o Buda. Achamos que pela história envolvida seria um local interessante de conhecer, mas vou dizer, Buda poderia ter nascido em Cesário Lange que seria melhor viu. Baita experiência infernal que passamos na cidade. Claro, existe um complexo budista interessante na cidade em que é possível visitar templos budistas de diversos países do mundo e todos são muito lindos. Nesse mesmo complexo fica a casa (hoje um museu) onde Buda nasceu. Intrigante e importante. Mas é “só” isso. Lumbini não oferece muito mais que essa atração que pode ser visitada em algumas horas, só uma horda de motoristas de tuktuk que ficam com os olhos brilhando ao avistar algum turista. Oras, mas até aí a cidade não ter grandes atrações não é problema nenhum, afinal fomos ver algo específico e procurar um teto antes da nossa troca de países. O problema é que estava calor demais em Lumbini. Um calor seco e infernal que nunca senti antes. Pior até que a baforada úmida de lugares como Bangkok e Manaus. Mas não era só isso, antes fosse. Ficamos em um quarto simples em um hotel simples (do jeito que a gente gosta) que foi planejado especificamente para ser quente. Acho que durante a construção o empreiteiro do lugar pensou  “qual seria o equivalente imobiliário a um forno gigante?” E aí foi e criou nosso quarto. Ele ficava na esquina do prédio que tinha formato em L, recebia sol o dia todo e tinha uma ventilação pífia. Para melhorar tempestades castigaram a região quando estávamos lá, por isso a luz vacilou mais do que já vacila normalmente no Nepal, ou seja, nosso ventilador, nosso único amigo, apenas tinha pequenos soluços de vida. Mas calma, você acha que acabou? Claro que não, eu não brinco em serviço na hora de reclamar de alguma coisa. Pense em todo cenário que já descrevi até agora: calor extremo, atmosfera sufocante e desconforto. Sabe o que pode melhorar tudo? Mosquitos. Sim, além de tudo o nosso quartinho dos infernos ainda era um portal para uma dimensão habitada apenas por mosquitos. Vocês podem estar pensando que estamos frescos, que o lugar deveria ser tranquilo e nós que não aguentamos o tranco, mas digo o seguinte: já dormimos em diversos “buracos” nessa viagem, já cansei de descrever quartos como “cativeiro” e mesmo assim esse foi pior, sendo que ele era até bonitinho (aparência não é tudo). Foram duas noites complicadas e sem descanso.

Um dos templos do complexo

O complexo de templos e o museu, como eu disse, são interessantes e apesar de não ser um lugar grande, também não é possível fazer tudo a pé. Lembra que falei que estava um calor infernal? Sabe como exploramos tudo? De bicicleta. Isso mesmo. As vezes eu e a Marina temos umas ideias tão boas quanto quem achou que Fanta Uva era algo digno de existir. Apesar de quase termos derretido sob sol do meio dia até foi um passeio bacana. Na casa do Buda está demarcado o ponto exato onde ele nasceu, o que achei interessante, pois uma coisa é saber o local de nascimento (como a cidade), outra é o ponto exato de onde o jovem saiu do ventre. E pior que um monte de gente faz preces e oferendas ali, mas vai que o rapaz que fez a demarcação errou por alguns metros e todo mundo está adorando o local onde, sei lá, dormia o cachorro do Buda. 

Quintal do Buda

Brincadeiras a parte, foi impactante conhecer um lugar com tamanho peso histórico e importância espiritual (para esse lado do mundo principalmente). Aliás, achei a mistura de hinduísmo com budismo do Nepal incrível. Alguns nativos nos disseram que tem como religião, como guia espiritual, o hinduísmo, mas que seguem o budismo como modelo de pensamento. “Good thinking” foram as palavras deles, achei interessante. 

Profundo, impactante, importante… Posso usar o termo que quiser, mas a verdade é que não gostamos da maior parte do nosso tempo em Lumbini e finalmente tinha chegado a hora de ir embora. Não só ir embora da cidade, mas também do Nepal. Mal sabíamos que estávamos prestes a começar uma das maiores epopeias da viagem.  

O dia começou cedo, antes das 6 da manhã. Precisávamos pegar um ônibus até um cidade vizinha e depois outros ônibus até a fronteira. A ideia era pegar o primeiro transporte disponível do dia, mas assim que arrumamos tudo uma tempestade tomou conta dos céus e tivemos que esperar. Lá pelas 8 da manhã conseguimos sair e entramos em um ônibus que tinha cara de “vou quebrar”. E ele quebrou. Esperamos por outro no meio de uma estradinha triste e enlameada. Demoramos quase duas horas para andar 20 quilômetros, mas enfim chegamos na cidade vizinha. Mais um transporte público de 15 minutos e estávamos em Sunauli, a movimentada fronteira. Eram milhares de caminhões e ônibus de um lado e do outro. Nós atravessamos a pé, passamos na sinistra imigração do Nepal e depois, quando chegamos na imigração indiana, tivemos que esperar sentados por uma hora pois o aparelho de scanner deles estava quebrado. Era um daqueles dias. Nesse meio tempo conhecemos outros viajantes e decidimos dividir um táxi com eles, afinal nossa jornada estava longe de terminar. Não era só passar para a Índia e pronto. Tínhamos que ir até Gorakhpur e de lá pegar um trem até Varanasi, nosso destino final. Mas da fronteira para Gorakhpur o ônibus leva umas 3 horas e o trem até Varanasi mais umas 6 horas. Era muito chão para andar ainda.

O ônibus para sair de Lumbini. Aquele que ia quebrar e quebrou.

Para ganhar tempo invés de ir de ônibus rachamos o táxi com outros turistas, como já disse, até Gorakhpur. Chegamos de tarde, mas ainda em tempo de pegar o último trem do dia. A estação estava abarrotada, parecia um mar de pessoas estiradas, era difícil ver o chão. Finalmente estávamos na Índia. Compramos o bilhete de trem mais barato que já vi na vida e logo depois descobri porque ele era tão barato assim. Quer dizer, logo depois nada, pois caiu um aguaceiro sem precedentes e o trem atrasou mais de uma hora. O que foi juntando de gente na nossa plataforma semi alagada não foi brincadeira, comecei a ficar nervoso, pois não sou o maior fã de multidões e fluídos corporais alheios. Quando o bendito trem resolveu dar as caras no horizonte a multidão pulsava. Estavam todos cientes do que iria acontecer e sabiam o que era necessário fazer, menos eu e a Marina, duas baratas tontas no meio de um formigueiro. O trem foi se aproximando e mesmo sem parar as pessoas já corriam para subir nos vagões ainda em movimento. Quase fomos atropelados umas três vezes. Corremos junto com a boiada, mas em ritmo muito mais lento, por isso em todo vagão em que entramos todo espaço físico possível já estava tomado. Éramos como dois touros numa loja de porcelana, com as mochilas gigantes nas costas batendo em todo mundo. Depois de alguns infernais minutos de luta em que eu xinguei muito o universo e transpirei em quantidades olímpicas achamos um vagão menos lotado, em que dava pra guardar as malas e ficar em pé pelo menos. Logo dois indianos muito simpáticos abriram espaço pra gente sentar, então não foi tão ruim. Foram seis horas cansativas, ora com o trem cheio, ora com o trem vazio, pois paramos em várias cidadezinhas pelo caminho. Um bom aquecimento para a claustrofobia indiana.

Nosso companheiros de viagem por algumas horas

Chegamos em Varanasi quase às 23 horas, dois vestígios do que um dia tinham sido seres humanos. Depois de muito negociar um tuktuk e acordar um preço que eu tenha certeza que foi caro demais ele nos deixou em frente a uma rua fechada e disse que dali em diante não poderia seguir, teríamos que andar o último quilômetro restante do trajeto.

Foi aí que realmente caiu a ficha que de onde estávamos. Para os que ainda não foram apresentados a esse maravilhoso lugar, Varanasi é uma das cidades mais antigas da Índia (quiçá a mais antiga) e um local sagrado para os Hindus, um lugar especial para morrer. A relação da cidade com o Ganges é íntima, afinal é o rio mais importante para o hinduísmo e ela fica situada na sua margem oeste. E ainda, Varanasi é intensa, como que um microcosmo intensificado de vários características da Índia – muita gente, muita cor, muita sujeira, muita espiritualidade, muita vaca na rua e muita coisa diferente. Diversos viajantes acham que é o lugar mais maluco de um país já maluco para nós ocidentais, e eu não posso negar. 

Imagens de um trem indiano

Quando o tuktuk nos largou no meio da rua  ficamos meios desnorteados, a cidade ainda pulsava apesar de ser quase meia noite. Mas era uma pulsação decadente, daquele estilo fim de noite. Pessoas pareciam voltar para suas casas e os que ainda perambulavam de um lado pro outro pareciam procurar alguma coisa. Passamos por fogueiras no meio da rua, desviamos de lixo e restos animais e quase fomos atropelados por uma vaca desgovernada (era só o que me faltava). O clima era estranho, mas em nenhum momento me senti inseguro. Seguimos o mapa e chegamos até os ghats (escadarias) que dão para o rio. Fui à cometido pelo clima de grandeza e antiguidade do lugar, mas não deu para absorver quase nada, pois já era quase meia noite e a prioridade era conseguir se limpar e ficar um pouco na horizontal. Andamos pelo rio e nada. Não achava a guest house. Resolvi subir por um beco escuro e cai em um labirinto de vielas estreitas, o que eu acho que deva ser a cidade antiga que beira o rio. Perambulei por uns 20 minutos a esmo e no fim só achei nosso hotelzinho porque Vishnu quis. Resgatei a Marina, que tinha ficado me esperando no Ganges e ufa, finalmente chegamos. Pensa num dia longo. Agora pensa num dia longo em que várias coisas dão errado. O nosso foi mais ou menos assim, mas o importante é que atingimos nosso objetivo. 

Chegar na Índia não foi fácil, mas rendeu uma boa história (acho). 

Mas chega, que fiquei cansado só de lembrar desse dia. Depois conto mais sobre Varanasi.

Beijos Quentes